<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146</id><updated>2011-07-30T18:51:12.682-07:00</updated><category term='Ficção Científica - Entrevista'/><category term='Ficção Científica - Resenha'/><title type='text'>PONTO DE CONVERGÊNCIA</title><subtitle type='html'>Este blog faz parte de um projeto que pretende traçar um panorama da ficção científica nacional através de resenhas de livros lançados ao longo da última década e de entrevistas com seus autores</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>33</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-5083779936034527730</id><published>2010-01-05T07:10:00.000-08:00</published><updated>2010-01-05T14:17:09.011-08:00</updated><title type='text'>Em perigos e guerras esforçados</title><content type='html'>Com o lançamento de &lt;a href="http://editoradraco.com/2009/10/xochiquetzal-uma-princesa-asteca-entre-os-incas/"&gt;Xochiquetzal – Uma princesa asteca entre os incas&lt;/a&gt; a ficção científica brasileira ao mesmo tempo que ganhou um romancista perdeu uma contista. Explico o paradoxo aparente: o preâmbulo do livro, publicado pela novata e promissora editora &lt;a href="http://editoradraco.com/"&gt;Draco&lt;/a&gt;, saiu antes na forma de conto no Brasil e no exterior. “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” surgiu nas páginas das coletâneas &lt;i&gt;Pecar a Sete&lt;/i&gt; (em Portugal, em 1999), &lt;i&gt;Phantástica Brasiliana&lt;/i&gt; (no Brasil, em 2000) e na revista &lt;i&gt;Altair&lt;/i&gt; (na Austrália, no mesmo ano). A diferença que mais chama a atenção entre uma versão e outra é que a narrativa curta foi assinada por Carla Cristina Pereira, uma historiadora e escritora que havia estreado em 1998 com o conto "Se Cortez houvesse vencido a peleja de Cozumel", no livro &lt;i&gt;Outras Copas, Outros Mundos&lt;/i&gt;; já o nome que surge na capa deste romance, logo abaixo de uma bela ilustração da princesa asteca, é o de Gerson Lodi-Ribeiro. A solução do mistério é simples – apesar de ter durado mais de uma década – a contista que agora deixa de existir foi um pseudônimo empregado por este novo romancista brasileiro que finalmente assume a paternidade de sua criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gerson Lodi-Ribeiro é um estreante neste formato do romance, mas na verdade pode ser considerado um dos mais veteranos e experientes escritores de nossa literatura fantástica. Começou a publicar ainda em um mundo pré-internet, nos fanzines impressos, muitas vezes xerocados, dos anos 80. No início da década seguinte, ele se profissionalizou ao vender por duas vezes – único brasileiro a alcançar tal feito – contos para a versão nacional da &lt;i&gt;Isaac Asimov Magazine&lt;/i&gt;, publicada pela Record: primeiramente “Alienígenas mitológicos”, em 1991, e dois anos mais tarde “A ética da traição”. No final daquela mesma década, montou com sócios sua própria editora, a Ano-Luz, por onde saíram, entre outras obras, os livros com os primeiros textos de Carla Cristina Pereira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na virada da década, século, milênio, outra conquista, pois ele se tornou o mais raro dos profissionais, ao passar a ser remunerado para escrever ficção científica no Brasil. Foi contratado como consultor da Hoplon Infotainment, sendo um dos responsáveis pelo desenvolvimento do universo ficcional do game &lt;a href="http://www.taikodom.com.br/"&gt;Taikodom&lt;/a&gt;, que já rendeu assunto por aqui em &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/a-pratica-dos-jogos"&gt;uma&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/entrevista-j-m-beraldo"&gt;duas&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/as-mortes-serao-breves"&gt;três&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/entrevista-roctavio-de-castro"&gt;quatro&lt;/a&gt; ocasiões. Em 2009, além do romance &lt;i&gt;Xochiquetzal&lt;/i&gt;, que nada tem a ver com o jogo, ele publicou um livro de contos e noveletas que se passam naquele cenário espacial, pela editora Devir. Além dessas duas obras, ainda publicou um conto na série de antologias inéditas &lt;i&gt;Imaginários&lt;/i&gt;, da já citada editora Draco, tornando-se o maior beneficiado do mais produtivo ano da história da ficção fantástica brasileira, no qual dezenas de livros de FC, fantasia e horror chegaram ao mercado. Se não acredita em mim, dê uma olhada&lt;a href="http://comunafc.wordpress.com/2009/12/26/adeus-ano-velho-feliz-ano-novo/"&gt; no levantamento&lt;/a&gt; feito por Ana Cristina Rodrigues – esta Cristina também é escritora e historiadora, mas é real; foi confundida diversas vezes com o alter ego femino de Lodi-Ribeiro e, por ironia, é quem escreve o texto de apresentação do romance de estreia dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este veterano dos contos, noveletas e novelas não decepcionou na prova de fôlego representada pelas mais de 140 páginas de seu primeiro romance. Com experiência testada em mais de um gênero – destacando-se a parte hard da FC, aquela onde se busca seguir mais fielmente as ciências exatas – o autor escolheu uma vertente na qual é reconhecido por seus pares no Brasil tanto por ser um pioneiro quanto um mestre, na teoria e na prática. &lt;i&gt;Xochiquetzal – Uma princesa asteca entre os incas&lt;/i&gt; é um livro de História Alternativa (ou HA), algo que Ana Cristina reconhece ser tratado por alguns como gênero independente e por outros como sendo parte da FC. O próprio escritor pertence ao primeiro time, advogando a independência da HA, o que deve gerar assunto para a entrevista que pretendo fazer com ele após a publicação desta resenha. Para efeito do presente texto, devo dizer que sou da corrente contrária, para a qual toda narrativa ficcional que especula usando conceitos científicos é uma ficção científica; e este é o caso da HA ao empregar extrapolações em torno da disciplina criada por Heródoto. Vale lembrar que já escrevi sobre História Alternativa ao resenhar a novela &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/catecismo-cientifico"&gt;“O que o olho vê”&lt;/a&gt;, de Carlos Orsi, outro destaque de 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As especulações dos historiadores alternativos costumam começar com um simples “o que aconteceria se”. Para explicar a empregada neste livro, podemos recorrer a uma antiga coluna de Gerson Lodi-Ribeiro para o fanzine Megalon, na qual ele se dedicava a divulgar aos brasileiros o que se produzia neste subgênero no mundo. &lt;a href="http://members.tripod.com/%7Egerson_lodi/pb.htm"&gt;Neste texto&lt;/a&gt;, uma preciosidade para os apreciadores da ironia e da metalinguagem, o colunista analisa a obra de sua identidade secreta. No trecho a seguir, faz uso de algum jargão do conhecimento dos leitores de HA, como ponto de divergência, a alteração na história que gerou o cenário fictício; e NLT, ou nossa linha temporal, a realidade como conhecemos e estudamos na escola:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;O ponto de divergência escolhido por Carla situa-se em 1488 num ponto fulcral da história luso-brasileira. Os dois navios de Bartolomeu Dias naufragam ao tentar dobrar o Cabo das Tormentas e Portugal não descobre o Caminho Marítimo para as Índias através da circunavegação da África. Por essa mesma época, Colombo está em Lisboa, sendo cozinhado em banho-maria pelo rei Dom João II. Sem notícias de Dias há muitos meses e à falta de melhor opção, o monarca português acaba decidindo aceitar a proposta ingênua do navegador genovês. E Colombo descobre a América sob bandeira portuguesa, ainda no reinado de Dom João II. Os portugueses iniciam a colonização de Cuba e Lusitânia (Hispaniola em NLT), exploram os litorais da Nova Inglaterra e aportam nas praias do Golfo do México. Década e meia mais tarde, Affonso de Albuquerque, o Grande, avassala (mas não destrói) o riquíssimo Império Asteca, tornando os náuatles prepostos e representantes da Coroa Portuguesa no México. O próprio imperador Montezuma II se "converte" ao Cristianismo.&lt;br /&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;A personagem título, e narradora da obra na forma de crônicas escritas no calor da hora, é uma das muitas filhas de Montezuma II, a quem prefere chamar Motecuhzoma Xocoyotl. Para os lusitanos, ela é Dona Xochiquetzal da Gama, educada à força como fidalga em Lisboa e esposa de um dos maiores heróis e navegadores portugueses de todos os tempos, Dom Vasco da Gama. Sua narração, repleta de termos quinhentistas e de expressões na língua asteca, começa em 1523, quando a bordo de uma das naus comandadas por seu marido ela testemunha o bombardeio e a chacina de Calicute, na costa de Malabar. Este é apenas o início dos perigos e guerras das quais toma parte. Logo a seguir, o almirante e sua esquadra são convocados para repelir uma tentativa de invasão espanhola ao Novo Mundo daquela realidade, continente batizado não mais em homenagem a Américo Vespúcio, como ocorreu por aqui, mas em honra de outro navegador nosso conhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, o auge da trama se desenrola ao sul daquelas terras, entre os anos de 1525 e 1526, no único outro império local que poderia rivalizar com a potência asteca. Como seu próprio subtítulo já entrega, no clímax da obra vemos a princesa Xochiquetzal, o marido e os marinheiros comandados por ele intervindo em uma guerra civil que ameaçava destruir os incas. Em nosso mundo, o conflito fratricida entre os candidatos à sucessão do imperador Huayna Capac – os príncipes imperiais Atahualpa e Huáscar – foi o evento que levou ao enfraquecimento daquela sociedade e facilitou sua conquista e derrocada final pelo espanhol Francisco Pizarro, à semelhança do que ocorreu uma década antes com os astecas nas mãos de Hernán Cortés. Em seu mundo ficcional, graças a um sólido conhecimento das artimanhas náuticas, dos acontecimentos históricos e das práticas ficcionais, Lodi-Ribeiro constrói uma nova realidade tão plausível e rica em detalhes quanto àquela que convencionamos chamar de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que torna o mundo proposto pelo autor tão crível é o cuidado com os detalhes. Não basta apenas delinear os grandes acontecimentos, as passagens épicas, as conquistas retumbantes. Para se fazer uma história alternativa consistente é preciso também saber trabalhar em escalas bem menores. Um bom exemplo dessa carpintaria surge nos motivos apresentados para o nome da protagonista do romance, que une de modo imaginativo características culturais de dois povos para dar origem a algo novo. Na página 71, Xochiquetzal comenta que seu batismo se deveu a uma observação feita por seu pai, um monarca interessado em religião, de que talvez o sucesso dos novos aliados portugueses nas artes da guerra tivesse origem na tradição de dar aos filhos nomes de santos católicos. Para confirmar a hipótese, a nobreza passou a evocar a proteção divina homenageando seu panteão no momento de escolher como chamar as novas gerações de seus herdeiros. Assim, a oitava filha de Motecuhzoma Xocoyotl, nascida em 1504 da Era Cristã, ou no ano matlactlomome tecpatl, 12-sílex, pela cronologia seguida em Anáhuac, tem o mesmo nome da deusa do amor, da juventude e das flores cultuada por seu povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Xochiquetzal ganhou de seu criador bem mais que uma boa justificativa para seu nome; a narradora nos oferece um ponto de vista diferenciado sobre os eventos que descreve. É um feito notável pensarmos que a princesa asteca é uma criação duplamente feminina de um homem; pois, além da personagem, sua suposta criadora também era uma mulher. Para marcar bem essa diferença, proponho aos futuros leitores do romance um exercício: tentem imaginar os feitos do livro descritos sob a ótica de um outro escritor, também apaixonado por histórias de guerra e por História com H maiúsculo, o americano Robert E. Howard. Sem dúvida teríamos no lugar da prosa comedida e sensível da narradora asteca o cataclisma de testosterona característico do criador de Conan. Para usarmos uma linguagem cinematográfica, o que o texano mostraria em big close é exibido pelo carioca numa panorâmica em plongée. O que não significa que Gerson Lodi-Ribeiro tenha omitido características violentas em sua trama. Vasco da Gama surge de modo bem menos idealizado que na peça mais famosa que o toma por personagem – &lt;i&gt;Os lusíadas&lt;/i&gt;, de Luís de Camões – e há citações no livro a mais controversa das tradições astecas: o sacrifício humano, para ficarmos em apenas dois exemplos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito ajuda no mergulho nessa HA, fundamental para se entrar no clima de uma realidade que guarda ao mesmo tempo tantas semelhanças e tantas diferenças com a nossa, o tratamento editorial que o livro recebeu. A começar pela capa, em tons marrons, com a já citada ilustração da princesa na frente e das naus lusas, de autoria de Roko. Ou das páginas com os principais marcos da história real e do período ficcional criado para aquele cenário. O mergulho seria ainda mais completo se o livro contasse com um acréscimo: mapas detalhando as diferenças entre nosso mundo e o de Xochiquetzal, com as nomenclaturas alternativas, como o caso da já citada Lusitânia no lugar de Hispaniola (Em tempo: o jornalista, crítico e escritor Antonio Luiz M. C. da Costa elaborou &lt;a href="http://lh6.ggpht.com/_8S3Txrsb-GI/S0Nmwif4dTI/AAAAAAAAALU/RvHhkLNXNCw/s800/Xochiquetzal.GIF"&gt;um mapa do munto alternativo&lt;/a&gt; em que se passa este romance. O traço em vermelho é a rota da Esquadra da Vingança, liderada por Vasco da Gama). Algum cuidado com a repetição de expressões também poderia ter sido tomado, assim se evitaria que pecadilhos perdoáveis, caso os textos fizessem parte de contos publicados ao longo de um tempo, chamassem tanta atenção quando reunidos em forma de romance. A descrição do modo de guerrear luso – com uma espada longa na mão direita e uma lâmina curta na esquerda – é um exemplo de algo que não precisaria ser citado tantas e tantas vezes, praticamente a cada capítulo do livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também seria de se esperar um tratamento mais próprio do romance à personagem que empresta seu nome à obra. Ao longo dos meses em que se passa a trama, surgem fatos novos, teoricamente capazes de alterar a visão de mundo de Xochiquetzal em relação aos lusitanos. Apesar disso, ela permanece em essência a mesma, sem grandes transformações. Através de alguns recursos metalinguísticos – como uma introdução ao texto feita por um editor fictício no ano de 2007 – podemos perceber que o autor dotou sua criação com mais relevo e camadas além daquelas demonstradas neste livro. O ideal seria podermos ver mais dessas camadas em outras obras passadas neste mesmo universo, um dos mais instigantes já engendrados para a HA produzida no Brasil. Que venham mais livros, sejam assinados por Gerson Lodi-Ribeiro, seja num retorno de Carla Cristina Pereira, para vermos do que a princesa asteca é capaz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-5083779936034527730?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/5083779936034527730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=5083779936034527730' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5083779936034527730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5083779936034527730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2010/01/em-perigos-e-guerras-esforcados.html' title='Em perigos e guerras esforçados'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-5635651997281276300</id><published>2009-11-17T07:50:00.000-08:00</published><updated>2009-11-17T07:50:15.488-08:00</updated><title type='text'>O cybervitorianismo</title><content type='html'>O que aconteceria se as tecnologias baseadas no vapor do século XIX tivessem sido ainda mais poderosas que em nossa realidade? E se, a exemplo do que podemos ver nos livros de Verne e Wells, os vitorianos tivessem conquistado o espaço, viajado no tempo? Essa pergunta está por trás de um subgênero da ficção científica chamado steampunk que já foi tema de &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/engrenagens-aparentes"&gt;um artigo aqui no Overmundo&lt;/a&gt;. No Brasil, a cultura steamer ganha cada vez mais força a ponto de, ainda este mês, acontecer em São Paulo um encontro que deve reunir fãs das diversas vertentes possíveis desse estilo em forma literária, cinematográfica, teatral, ligada a moda e acessórios, jogos e o que mais a imaginação permitir. O evento vai acontecer ao longo da madrugada de 27 de novembro, na Biblioteca Pública Viriato Corrêa, durante a&lt;a href="http://steamcon.com.br/steampunk-fantastica-jornada-noite-adentro-iii/"&gt; III Fantástica Jornada Madrugada Adentro&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças aos esforços de um grupo de entusiastas, os steampunkers brasileiros contam com uma invejável estrutura virtual para trocar ideias, se manterem informados e organizar reuniões presenciais como essa. O Conselho Steampunk é uma organização de fãs sem fins lucrativos que se divide em iniciativas regionais – denominadas de Lojas – e que põe à disposição dos interessados uma variedade de projetos e ferramentas da web. O grau de profissionalismo é tão grande que chamou a atenção, entre outros, de &lt;a href="http://www.wired.com/beyond_the_beyond/2009/11/those-irrepressible-brazilian-steampunks/"&gt;Bruce Sterling&lt;/a&gt;, o escritor americano que, ao lado de William Gibson, criou as bases tanto do cyberpunk quanto do steampunk. Um empresário da área de informática morador do Rio de Janeiro está por trás de todo esse movimento nacional de &lt;em&gt;cybervitorianismo&lt;/em&gt;: Bruno Accioly, um dos fundadores do Conselho Steampunk, que nos concedeu a entrevista a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De onde veio seu interesse pessoal na cultura steamer? Que obras steampunk, seja no cinema, na literatura, nos quadrinhos, nos games o atraíram para esse subgênero?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa curiosa acerca do SteamPunk é que ele ganhou nome muito tarde. Muita gente já era fascinada, como eu, pelos livros e versões cinematográficas das obras de HG Wells e, particularmente, de Julio Verne. Posso dizer que foram estes dois autores que mais me chamaram a atenção - como referência de extrapolação e exagero da tecnologia e da sociedade da Era Vitoriana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia contudo uma pletora de outras obras, como filmes antigos de Sherlock Holmes - e mesmo &lt;em&gt;O Enigma da Pirâmide&lt;/em&gt; - a série  &lt;em&gt;As Aventuras de James West&lt;/em&gt; e a animação &lt;em&gt;Viagem ao Centro da Terra&lt;/em&gt;, por exemplo, que estavam carregadas de elementos SteamPunk.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que a primeira vez que tomei conhecimento do termo foi em fins da década de 1980, quando me chegou às mãos o Gurps SteamPunk e o Gurps Steam-Tech. Imediatamente me senti à vontade com o termo e... "entendi a piada".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrever obras no estilo de Verne, no Século XX e XXI é obviamente anacrônico, mas exerce um fascínio inegável sobre muita gente. É bom lembrar que apesar de &lt;em&gt;A Máquina Diferencial &lt;/em&gt;[de Bruce Sterling e William Gibson] ser o primeiro romance consagrado do gênero, foi com K.W.Jeter, tentando descrever sua obra e as de Blaylock e Powers que surgiu pela primeira vez o termo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como exatamente surgiu a ideia para o Conselho Steampunk? De que forma aconteceram os primeiros contatos e a formatação dos diversos grupos abrigados nele?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meados de 2007 eu comecei a desenvolver um blog para falar de SteamPunk e, como queria fazer algo um pouco mais profissional para homenagear o gênero - que era muito menos conhecido no país - acabei adquirindo o domínio&lt;!-- BBCode auto-link start --&gt; &lt;a href="http://www.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;www.steampunk.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando descobri o blog do Raul Cândido sobre o assunto, entrei em contato com ele assim que pude. O Conselho SteamPunk nasceu por telefone, quando percebemos que tanto o meu interesse quanto o dele eram grandes o suficiente para fazer algo pelo gênero e para começar a engendrar um movimento entorno dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quantidade de pessoas e os grupos que se formaram ao redor do Conselho SteamPunk é uma função do conceito por trás da organização. Sabíamos que não seria possível tentar centralizar tudo e, portanto, resolvemos criar uma estrutura colaborativa, na qual qualquer pessoa, em qualquer estado, poderia criar sua Loja do Conselho SteamPunk e, com isso, poderia fazer uso da infraestrutura de Internet que elaboramos sem custo algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando uma Loja é formada ela é responsável pela promoção do gênero e pelo arrebanhar de mais entusiastas. No caso de um outro grupo na mesma região aparecer este passa a ser mais um núcleo daquela mesma Loja, o que aconteceu, por exemplo, com o núcleo SteamPunk de Bragança Paulista, que agregou-se a &lt;a href="http://sp.steampunk.com.br/"&gt;Loja São Paulo&lt;/a&gt;, e que é cheia de gente talentosa e interessada no futuro do movimento no país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As representações regionais do Conselho são chamadas de Lojas a exemplo do que é feito na mais famosa das sociedades secretas. Essa terminologia chamou a atenção e arrancou elogios de ninguém menos que Bruce Sterling, um dos principais criadores da vertente literária Steampunk. Como surgiram os conceitos que batizam as várias iniciativas do Conselho? Foram ideias suas ou propostas do grupo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi nada difícil, na verdade. Acontece que tanto eu quanto o Raul, o Karl e tantos outros entusiastas que fazem parte do Conselho SteamPunk estamos imersos em vários aspectos da cultura Vitoriana e do gênero SteamPunk, e sempre que precisamos trabalhar algum conceito para uma nova iniciativa, acaba que alguém tem uma ideia interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espírito por trás da ideia do Conselho é de colaboração e generosidade e, portanto, não há muito espaço para líderes ou algo assim. Todos nutrimos profunda admiração uns pelos outros e pelos talentos e conhecimentos de cada um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditamos que a capacidade de cada Loja seja uma consequência direta do talento de cada um dos envolvidos no Conselho e estamos sempre buscando pessoas disponíveis, diligentes e interessadas em fazer mais pelo gênero e pelo movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Atualmente quantas pessoas estão ligadas direta ou indiretamente ao Conselho Nacional e às lojas regionais? Entre membros que participam ativamente e pessoas que acompanham os diversos sites, blogs e dos eventos já organizados qual é o público estimado hoje do Conselho Steampunk?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Está aí algo difícil de dizer. O que se pode dizer é que existem quase 400 pessoas na comunidade do Orkut do Conselho, cerca de 250 pessoas na comunidade da Loja São Paulo e mais umas 100 pessoas nas comunidades das demais Lojas. Há ainda, claro, quase 800 pessoas na comunidade SteamPunk do Fábio Ori, que surgiu antes mesmo do Conselho SteamPunk existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos entusiastas presentes nestas comunidades se repetem, logicamente, mas considerando-se as 200 pessoas cadastradas no Registro SteamPunk (precursor do SteamBook) - e as mais de 100 pessoas que entraram no SteamBook, a Rede Social SteamPunk, nas primeiras 3 semanas, nos parece possível que haja cerca de 1000 entusiastas declarados e muitos outros simpatizantes por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você poderia enumerar quais iniciativas existem atualmente com a chancela do Conselho, deixar os endereços e comentar brevemente cada uma?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são poucas... Como sou empresário e minha firma trabalha com Comunicação Digital e Mídias Sociais, acaba que boa parte destas iniciativas tem uma manifestação bem clara na Internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SteamPunk.com.br&lt;br /&gt;Este é o site do Conselho SteamPunk, que costuma falar do gênero e do movimento em nível nacional.&lt;br /&gt;Cada Loja tem seu próprio site:&lt;br /&gt;- &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://rj.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;http://rj.steampunk.com.br/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;- &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://rs.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;http://rs.steampunk.com.br/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;- &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://sp.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;http://sp.steampunk.com.br/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;- &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://mg.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;http://mg.steampunk.com.br/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;E 3 outros estão para ser colocados no ar - quando da conclusão das Lojas:&lt;br /&gt;- &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://pa.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;http://pa.steampunk.com.br/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;- &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://pr.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;http://pr.steampunk.com.br/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;- &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://df.steampunk.com.br/" target="_blank"&gt;http://df.steampunk.com.br/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SteamCon - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.steamcon.com.br/" target="_blank"&gt;www.steamcon.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Site dedicado a avisar os entusiastas dos eventos SteamPunk no país. O site é alimentado por cada uma das lojas e é também o lar da Virtual SteamCon, um evento de nível nacional que acontece via Internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SteamGirls - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.steamgirls.com.br/" target="_blank"&gt;www.steamgirls.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Site que dá lugar a sessões de fotos femininas de praticantes de SteamPlay e que divulga o trabalho de quem faz acessórios e trajes SteamPunk/Vitorianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SteamPedia - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.steampedia.com.br/" target="_blank"&gt;www.steampedia.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;A proposta da SteamPedia é ser como a WikiPedia, um enciclopédia alimentada por quem se interessa pelo assunto. Trata-se de uma iniciativa nova e poucos já se inscreveram de fato, mas qualquer um pode participar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SteamBook - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.steambook.com.br/" target="_blank"&gt;www.steambook.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Rede Social SteamPunk, a melhor forma de participar do movimento e fazer diferença nele sem fazer parte efetivamente do Conselho SteamPunk. É possível construir ali seu blog a respeito do gênero e do movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RetroFuturista - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.retrofuturista.com.br/" target="_blank"&gt;www.retrofuturista.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Este site é uma proposta experimental de produção não-linear de ficção SteamPunk. A idéia é produzir um universo SteamPunk com licença Creative Commons que possa ser usado por outros autores como base para suas narrativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos ainda perfis nas seguintes mídias sociais:&lt;br /&gt;Facebook - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.facebook.com/group.php?gid=38039372045" target="_blank"&gt;http://www.facebook.com/group.php?gid=38039372045&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Orkut - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?rl=fpp&amp;amp;uid=2382475252867688827" target="_blank"&gt;http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?rl=fpp&amp;amp;uid=2382475252867688827&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Comunidade no Orkut - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=72139589" target="_blank"&gt;http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=72139589&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Twitter - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://twitter.com/consteampunk" target="_blank"&gt;http://twitter.com/consteampunk&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;SteamFeed - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://feeds.feedburner.com/steamfeed" target="_blank"&gt;http://feeds.feedburner.com/steamfeed&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;Sobre o SteamFeed - &lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.steampunk.com.br/o-que-e-o-steamfeed/" target="_blank"&gt;http://www.steampunk.com.br/o-que-e-o-steamfeed/&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E para o futuro próximo, quais são as expectativas de novos projetos e de criação de novas Lojas ligadas a seu grupo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grupo não é exatamente meu. Digo... ele foi fundado de forma a, se algo acontecer com qualquer um de nós, ele continue existindo. Na verdade, uma vez que a infraestrutura de hospedagem, messenger, e-mails e sites é montada pela minha empresa eu tomei o cuidado de deixar tudo esquematizado e pago por alguns anos, deixando o Conselho SteamPunk sadio mesmo no advento de batermos em um iceberg.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O futuro nos reserva algumas coisas interessantes, dentre elas a Liga de Artífices SteamPunk - que vai se manifestar no SteamCon.com.br como uma galeria de artistas e produtos; um PodCast convencional sobre o tema; um VidCast bem diferente do que já se viu; um RPG que lançará as bases para um trabalho de LARP (Live Action Role Playing) no Brasil; alguns SteamCamps - reuniões de pauta para colher os interesses dos entusiastas em cada estado; e uma SteamCon presencial, que deve acontecer em São Paulo, pelo que estamos vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na estreia da edição on line da &lt;a href="http://www.rpgonline.com.br/noticias.asp?id=1723"&gt;RPG Magazine&lt;/a&gt; havia um conto seu chamado “Rota de fuga”. Foi seu primeiro conto steampunk? Vamos ver mais produção literária sua e de outros membros do Conselho?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi meu primeiro conto SteamPunk. O primeiro foi sobre uma sociedade marciana baseada em vapor, que se passa antes do nascimento da raça humana e o segundo foi uma experiência literária pessoal na qual o vapor e a eletricidade eram entidades escravizadas pela raça humana no século XIX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou trabalhando há alguns anos em duas histórias com temática SteamPunk e me preparando para lançar mais alguns contos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e alguns outros membros do Conselho estamos preparando algumas surpresas para os entusiastas, no sentido de produção literária SteamPunk e, creio, todos vão gostar muito do resultado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fui um apaixonado pela ficção científica de um modo geral, independente do SteamPunk, e sou um fã incondicional de Arthur C.Clarke, ávido leitor de Isaac Asimov e admirador do trabalho de Carl Sagan, o que me levou a escrever muitos outros contos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho conhecido muita gente interessante e importante no meio, o que me fez perceber que o Conselho SteamPunk pode retribuir o carinho da comunidade de produção literária de Ficção Científica através das ferramentas que vem desenvolvendo para promoção do sub-gênero que tanto estimamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova iniciativa do Conselho SteamPunk, como resultado, não será endereçada a entusiastas de nicho, mas a toda comunidade de escritores e leitores de literatura fantástica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ninguém ouviu até agora é o nome desta iniciativa, que foi batizada por nós de: aoLimiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o leitor tiver alguma dúvida, interesse em estreitar relações com o Conselho SteamPunk ou colaborar de alguma forma, basta enviar um e-mail para&lt;!-- BBcode auto-mailto start --&gt; &lt;a href="mailto:conselho@steampunk.com.br"&gt;conselho@steampunk.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-mailto end --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-5635651997281276300?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/5635651997281276300/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=5635651997281276300' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5635651997281276300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5635651997281276300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/11/o-cybervitorianismo.html' title='O cybervitorianismo'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-3427860384160525458</id><published>2009-11-09T14:06:00.000-08:00</published><updated>2009-11-09T14:06:23.788-08:00</updated><title type='text'>Empreitada transregional</title><content type='html'>Ele é natural de Brasília, trabalha em uma empresa de Florianópolis, lançou uma minissérie em quadrinhos em parceria com um desenhista de São Paulo que se passa em um universo ficcional cujo principal autor mora no Rio de Janeiro. Esse é um resumo simplificado da empreitada transregional vivida pelo roteirista de &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/as-mortes-serao-breves"&gt;Eterno Retorno&lt;/a&gt;, a estreia do game espacial Taikodom no mundo das HQs. Nesta entrevista, o quadrinista também estreante fala da experiência de trocar o jornalismo pela ficção, detalha o processo de criação de um projeto que se espalhou pelo território nacional e dá uma ideia de como é viver entre o presente e um mundo paralelo do futuro. Com vocês, Rodrigo Octavio Nogueira de Castro Santos que, felizmente, simplificou seu nome artístico para Roctavio de Castro. &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Você é jornalista e nasceu em Brasília. Como veio parar em Santa Catarina e a se interessar por ficção?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vim para Santa Catarina fazer universidade em 1997, convivia com uma turma que sempre se interessou mais por jornalismo literário, pelas grandes entrevistas e grandes reportagens do que pelo que víamos na grande imprensa. Os caras que eu gostava de ler eram tão bons repórteres quanto excelentes escritores. Comecei a faculdade lendo Fausto Wolf, Fernando Morais, José Hamilton Ribeiro. Depois vieram os caras do &lt;em&gt;new journalism&lt;/em&gt;: Truman Capote, Tom Wolfe, Gay Talese e, do lado mais porra-louca, o Hunter Thompson. Buenas, como nunca tive paciência para a grande imprensa, e nem a coragem e o desprendimento para me jogar no mundo atrás de grandes histórias, acabei caindo na ficção. :-) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E qual sua produção nessa área e como foi sua aproximação da Hoplon, a empresa que desenvolve o game Taikodom?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, exceto por trabalhos acadêmicos, a HQ &lt;em&gt;Taikodom: Eterno Retorno&lt;/em&gt; é a minha primeira publicação de ficção em si. Antes, trabalhei com roteiro audiovisual, cobertura de eventos esportivos, fui editor e repórter de alguns jornais comunitários e redator web. Quando entrei na Hoplon, tinha uma empresa de comunicação. Depois de um namoro inicial em outros projetos, fui contratado para escrever o conteúdo das primeiras versões do site do Taikodom. Tive que ser uma espécie de beta-reader, junto com o Tarqüínio [Teles, fundador e presidente da Hoplon] e o Cristovão [Buzzarello, um dos fundadores da empresa], das obras de universo ficcional (UF) do Gerson Lodi-Ribeiro. De lá pra cá, já são mais de cinco anos, período em que ajudei a documentar especificações da história taikodônica, ajudei a criar personagens, cenários e algumas tramas que fizeram parte das primeiras versões do game. Quando fui contratado oficialmente para trabalhar com o Universo Taikodom, tive que começar a estudar teoria literária por conta própria. Sempre gostei de fazer entrevistas, do diálogo possível, de contar histórias. Depois que estudei um pouco sobre o diálogos, enredos e criação de personagens, percebi que dava para misturar algumas coisas que aprendi no tipo de jornalismo que gostava com a criação e a edição literária. Desenvolver um personagem é como entrevistá-lo. Existem diversas técnicas narrativas, mas sua história tem que ser bem ambientada e bem contada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como foi o processo de escrita do roteiro dessa minissérie? E a parceria com o desenhista Eduardo Ferrara? Você pode descrever como foram os bastidores da criação daquelas páginas? Você mandava o texto de Santa Catarina, ele recebia em São Paulo, enviava o esboço de volta, o material era aprovado... Como foi isso na prática?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentre todas as outras atividades pelas quais fui responsável, os cinco episódios da série foram escritos nuns quatro anos. Em algumas épocas pude trabalhar nos roteiros e acompanhamento dos processos de arte com dedicação total. Mas tivemos também grandes intervalos nas entregas. Existem vários processos de se desenvolver quadrinhos do roteiro, passando pelos rascunhos, arte-final, colorização, até a editoração eletrônica dos textos e balões. Uma premissa do Universo Taikodom é que a Hoplon deve ter o controle criativo sobre todas as obras que são publicadas. Na maioria das vezes as obras são "encomendadas" para os autores, que as desenvolvem de acordo com a estratégia da empresa. Então optamos pelo tipo de roteiro que contém a descrição de planos de fundo, câmeras, expressões dos personagens, legendas e diálogos quadro a quadro. Esse roteiro é enviado ao Ferrara e sua equipe que, muitas vezes cria em cima, modifica, dá mais ritmo, cores e mais movimento na proposta original. Aprovamos todos os estágios, com uma alteração aqui e outra ali. Nos primeiros episódios teve que ser assim, um trabalho hercúleo mesmo, inclusive com todo aquele trabalho de desenvolvimento de cenários, figurinos, naves e tecnologias do século 23. Com o passar dos tempos foi ficando mais fácil. Nesse último episódio, por exemplo, em algumas páginas eu fiz mais uma marcação de cenas e descrição de quadros tipo storyboard, com o tom dramático e o que os personagens iam dizer. Agora no final reescrevi muito do texto original dos balões até para tentar dar o mesmo tom para os cinco episódios da série, que foi escrita durante todo esse tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Qual foi a participação de outros criadores do universo ficcional do Taikodom no texto final, como Tarqüínio Teles, que é o idealizador original do conceito, por exemplo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros criadores do universo ficcional acompanharam de perto os primeiros episódios, a aprovação de personagen estrutura geral da trama, com início, meio e fim. Ultimamente temos aprovado nossas obras em colóquios onde eu, Tarqüinio, João Marcelo Beraldo, Gerson Lodi-Ribeiro, Paulo de Tarso (PDT) e outros envolvidos indiretamente nos trancamos numa sala por dois dias. Depois, cada autor sai com o dever de casa de desenvolver sua obra dentro do que foi conversado. Atualmente eu assino como editor responsável no final e boa parte do meu tempo é dedicado a primeira leitura e edição das obras. Mas na prática funcionamos como um conselho editorial. O Tarqüinio dá a última palavra.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Como foi a decisão de usar na revista um visual cartunesco diferenciado do estilo dos gráficos realistas do jogo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa decisão foi mais em função da escolha do Ferrara e da avaliação dos seus trabalhos e currículo na época. Seu estilo característico veio junto. Poucos ilustradores no Brasil tratariam de cada estágio da arte desenvolvida para nossos quadrinhos com tanto carinho e dedicação. Isso é complicado ao longo de trabalhos desenvolvidos em períodos longos se levarmos em conta a agenda corrida desse tipo de profissional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O desenhista Eduardo Ferrara lista mangás e quadrinhos do braço italiano da Disney entre as influências dele nos quadrinhos. E quais são as suas, entre roteiristas e escritores, dentro e fora da ficção científica?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roteiristas:  Os &lt;em&gt;hors concours&lt;/em&gt;: Will Eisner, Alan Moore e Neil Gaiman. Depois vem Alexandro Jodorowsky. Abaixo deles no mesmo patamar: Mark Millar, Warren Ellis, Garth Ennis, Grant Morrison. Escritores: Gerson Lodi-Ribeiro. :-) São muitos e muitos: Mas vou listar mais os fora (ou na fronteira) da ficção científica: Italo Calvino, Julio Cortázar, Edgar Allan Poe, Will Self, Chuck Palahniuk, Pedro Juan Gutierrez, Fausto Wolf, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Na Sci-fi mais "atual" posso citar três caras que me inspiraram muito no&lt;em&gt; Eterno Retorno&lt;/em&gt;: Charles Stross, Vernor Vinge e Richard K. Morgan. Roteiristas/diretores de cinema: Oliver Stone, David Cronenberg, Martin Scorsese, James Cameron, Stanley Kubrick, e Chan-wook Park.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vai haver novos lançamentos de quadrinhos explorando o universo Taikodom? Já existe algo planejado ou pelo menos a ideia de como vão ser os novos projetos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada ainda no nosso cronograma de lançamentos, aliás temos muitas obras literárias prontas na fila. Mas, se eu pudesse escolher, pensaria em novos projetos num tom mais realista e sombrio, talvez em preto e branco ou em mangás tradicionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você é o editor de conteúdo do universo ficcional de Taikodom. Como é o seu dia-a-dia na empresa e o relacionamento com os demais criadores da casa, como Gerson Lodi-Ribeiro, que mora no Rio de Janeiro, e J. M. Beraldo, seu colega de trabalho em Florianópolis? Há reuniões virtuais constantes para ajustar a sintonia fina do processo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinzenalmente promovemos mini-colóquios de algumas horas via Skype. Semestralmente, ou quando surge uma necessidade urgente, nos reunimos num colóquio de dois dias aqui em Florianópolis. Temos uma lista de email interna onde trocamos referências, perguntas e respostas quase que diariamente. Também passo na sala onde o Beraldo trabalha junto com o PDT, ou intercepto eles no cafezinho ou corredor (o Beraldo está sempre de um lado pro outro devido a suas atribuições de líder de conteúdo do game e interações com outros departamentos) quase todos os dias também. E o Tarquinio, sempre que pode ou que está aqui, passa nas nossas salas para bater um papo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Está fazendo um ano exatamente que o jogo foi aberto aos interessados e a Hoplon acaba de fechar uma parceria para levá-lo a mais de 30 países. Como estão as expectativas relacionadas aos produtos derivados, como a HQ e os livros? Eles também devem ser lançados em outros mercados?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos a intenção e já estamos iniciando algumas conversas. Nos mercados onde a Devir alcança vamos sair com eles e/ou parceiros. O apoio da Devir na pessoa do Douglas Quinta Reis tem sido fundamental para concretizarmos nossas publicações e já temos muitos planos para o futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E quais são os seus projetos futuros? Vai fazer mais roteiros de HQs? Há algum texto literário em vista? Pretende escrever algo além das criações internas do Taikodom?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho outros projetos pessoais de quadrinhos e até livros dentro e fora do UF Taikodom já pensados para a frente. Mas como já vivo 24 horas por dia num mundo paralelo do futuro, nunca consegui tempo para desenvolvê-los no presente. Um dia consigo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-3427860384160525458?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/3427860384160525458/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=3427860384160525458' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/3427860384160525458'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/3427860384160525458'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/11/empreitada-transregional.html' title='Empreitada transregional'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8208898415592543901</id><published>2009-10-28T06:47:00.000-07:00</published><updated>2009-10-29T11:50:06.293-07:00</updated><title type='text'>As mortes serão breves</title><content type='html'>Durante 170 anos Gao Jung esteve morto. Para desespero dele, tal período de hibernação involuntária, entre 2070 e 2240, deve ser sua experiência mais próxima daquilo que hoje em dia ainda chamamos de descanso eterno, pois, na nova realidade em que passou a viver, o rapaz está condenado a ser imortal. No máximo, ao ser abatido, Jung vai conseguir breves pausas nas missões que seus novos patrões lhe impuserem para, logo em seguida, ser despertado mais uma vez, com as memórias reimplantadas em um novo corpo, clonado e adaptado para melhor servir a interesses que não são os dele. “Se a morte é temporária, qual é o sentido da vida?” A pergunta é o mote por trás da minissérie &lt;i&gt;Eterno Retorno&lt;/i&gt;, a primeira inclusão do universo ficcional do videogame on line &lt;a href="http://www.taikodom.com.br/"&gt;Taikodom&lt;/a&gt; na área dos quadrinhos. História dividida em cinco capítulos e em dois volumes – o primeiro, lançado este mês nas livrarias, reúne os dois episódios iniciais; para novembro está programado o lançamento dos outros três no segundo e último álbum da série – a aventura assinada pelo roteirista Roctavio de Castro e pelo desenhista Eduardo Ferrara marca o primeiro aniversário da abertura do jogo ao público, fato que se deu no dia 27 de outubro de 2008. Além disso, é mais uma fronteira desbravada pelo projeto que conta com dois livros lançados, um romance e uma coletânea de contos, o primeiro deles já resenhado &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/a-pratica-dos-jogos"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Game, romance, contos e quadrinhos são diversas entradas para o mesmo universo, um futuro altamente tecnológico no qual a humanidade dominou o espaço – significado do termo Taikodom – mas perdeu o contato com o planeta Terra. A base do projeto é a capital catarinense, onde está localizada a Hoplon Infotainment, que desenvolve o jogo com uma equipe de aproximadamente 100 profissionais e logo deve exportá-lo, graças a uma parceria com uma &lt;a href="http://www.blogger.com/%20http://www.gamersfirst.com/corporate/?q=NewsDetail&amp;amp;newsId=49"&gt;empresa californiana&lt;/a&gt;, para mais de 30 países. Quanto ao universo ficcional expandido para além da tela dos computadores, ele é criado em conjunto com escritores e artistas de diversos estados – Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro – em outra parceria, com a editora Devir, que distribui os livros e revistas para todo o Brasil e logo deve fazer o mesmo em outros territórios. &lt;i&gt;Eterno Retorno&lt;/i&gt; é um exemplo dessa interação à distância, uma vez que Roctavio de Castro mora há 12 anos em Florianópolis, de onde escreveu o texto da série, e Eduardo Ferrara mantém seu estúdio em São Paulo, e de lá desenhou e arte-finalizou a HQ, repassando as cores para os cuidados de sua equipe do Imaginos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O roteiro se divide para acompanhar o protagonista em dois momentos, suas memórias de um passado terrestre no século XXI e o impacto da ressurreição dele no espaço em pleno século XXIII. O trabalho se vale da alteração dos focos narrativos e fartas elipses. Nos flashes de 2070, Gao Jung trabalha com uma parceira, bem íntima, para reaver objetos cobiçados por um grupo criminoso. Aos poucos, com vislumbres pingados ao longo das páginas, podemos perceber que as coisas se complicaram para a dupla e que o policial é acusado da morte da companheira, julgado, condenado e posto em hibernação. Depois do salto cronológico, ele é considerado útil para os interesses da casta que manda no Taikodom, os &lt;i&gt;Spacers&lt;/i&gt;. Ao ser descongelado, ganha uma companhia indesejada. Sua mente passa a compartilhar pensamentos com uma inteligência artificial geniosa que orienta o terráqueo naquele novo mundo e faz o arquivamento de suas memórias para possibilitar o reimplante, caso o corpo do hospedeiro seja destruído. Vale comentar que essa consciência inorgânica, chamada OTTOBA7, ganha vida no Twitter com &lt;a href="http://twitter.com/OTTOBA7"&gt;um perfil&lt;/a&gt; alimentado por seu criador no qual faz postagens sobre temas como o pós-humanismo e a singularidade tecnológica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já os dinâmicos desenhos da minissérie seguem uma proposta estética bem diferente dos gráficos do jogo, apesar de a identidade visual das várias naves espaciais estar bem preservada e os cenários hi tech apresentados serem muito convincentes. O visual dos personagens da HQ não foi trabalhado nos formatos tridimensionais de um game, mas como algo bem mais voltado para o estilo cartunesco, quase um meio termo entre o que se poderia esperar de uma obra para leitores adultos, como anunciado na capa, e gibis feitos para crianças. Com isso, mesmo em momentos de dramaticidade, o traço às vezes lembra bastante material mais voltado ao humor. A explicação pode estar nas influências reconhecidas pelo desenhista, que lista como tal os mangás e a produção italiana de quadrinhos Disney. De fato, a arte me lembrou bastante a da revista &lt;i&gt;Donald Super&lt;/i&gt;, versão nacional que a editora Abril lançou por aqui em 2003 da &lt;i&gt;PK &lt;/i&gt;italiana: uma publicação que mostrava o famoso pato vivendo aventuras de ação e FC. Mesmo bem sucedida no país europeu, a proposta não fez muito sucesso no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado desse esforço interestadual dos autores é a resposta para aquela pergunta filosófica que começa a ser esboçada no primeiro álbum. “Se a morte é temporária, qual é o sentido da vida?” Não apenas pelos rumos da história, mas por várias citações, algumas bem explícitas, outras menos, essa ideia e a da reiteração do conceito por trás do título da série estão espalhadas por toda a parte. Seja no trecho de um dos livros mais conhecidos de Friedrich Nietezsche escolhido para abrir o primeiro episódio; seja no título do segundo, “Sísifo”, remetendo ao mortal condenado pelos deuses gregos a repetir uma tarefa sem sentido eternamente; ou ainda no logotipo da revista que entrelaça as últimas letras das palavras eterno retorno para obter o símbolo matemático do infinito. No próximo mês, deveremos ver mais respostas para a pergunta que tanto atormenta Gao Jung.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8208898415592543901?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8208898415592543901/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8208898415592543901' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8208898415592543901'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8208898415592543901'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/10/as-mortes-serao-breves.html' title='As mortes serão breves'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-6701635318463597861</id><published>2009-10-19T08:46:00.001-07:00</published><updated>2009-10-19T08:46:59.889-07:00</updated><title type='text'>Uma fábula sobre o medo</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;em&gt;O ambiente é marcado por um clima instável, com enchentes, pequenas nevadas, ciclones e grandes variações na temperatura. No campo político, um novo governo pratica uma espécie de ditadura não assumida, mantendo a ordem através de altos impostos e de uma força policial fortemente armada que atua de maneira brutal. Nesse contexto, um grupo de jovens – escondendo seu rosto atrás de máscaras e atuando sob o mesmo nome – descontentes com a situação do ambiente à sua volta, planeja pequenos atos de desobediência civil. Ainda que atuando de forma pacífica, em um destes atos algo acontece de forma imprevista, causando a explosão de uma bomba. Enquanto tentam provar sua inocência e justificar suas ações, o fim parece estar cada vez mais próximo.&lt;/em&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A descrição acima foi feita pelo próprio autor e se refere à sua cidade natal, Florianópolis, em um futuro próximo, no qual se passa seu projeto de história em quadrinhos. &lt;em&gt;Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo&lt;/em&gt; é o nome deste projeto, de autoria de Pedro Franz, 26 anos. Programada como uma série em 12 capítulos, com tamanho variando entre 12 e 16 páginas cada um, a HQ havia sido publicamente anunciada no dia 12 de abril deste ano, quando o quadrinista inaugurou o blog &lt;a href="http://sobreofim.wordpress.com/"&gt;Notas sobre o fim&lt;/a&gt; por onde ele pretende publicar o material na íntegra, deixando-o disponível para download gratuito em arquivos em .pdf. O &lt;a href="http://sobreofim.wordpress.com/2009/07/02/31-capitulo-1/"&gt;primeiro &lt;/a&gt;deles, surgiu no início de julho e o &lt;a href="http://sobreofim.wordpress.com/2009/09/29/47-capitulo-2/"&gt;segundo&lt;/a&gt; no final de setembro. Além disso, ele abriu um fórum para discutir a obra e suas influências com sua audiência: “O objetivo deste espaço é aprofundar uma investigação que relacione teoria e prática e funcionar como ferramenta de relação entre autor e público” escreveu no blog. “Além de utilizá-lo para apresentar o projeto – ou seja, a história em quadrinhos – pretendo postar textos sobre a produção da obra, imagens, esboços, novidades, autores que me influenciaram.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A série atual não é a primeira experiência de Franz com os quadrinhos. Entre 2002 e 2003 ele produziu duas edições de um zine chamado &lt;em&gt;Café com Leite&lt;/em&gt;, mas como me disse em uma conversa num bar da cidade onde se passa sua história atual, não era algo sério ou pretensioso. Naquela mesma época, também foi convidado a participar de uma mostra de quadrinhos ligada ao Salão de Humor de Piracicaba, mas com proposta diferente daquela ligada ao título do famoso evento do interior de São Paulo: os trabalhos expostos não eram humorísticos. Então veio uma pausa nessa breve relação com o meio. Em um intervalo de meia década, ele morou por dois anos na capital da Argentina; recobrou o interesse pelas &lt;em&gt;historietas&lt;/em&gt;; descobriu publicações daquele país, como a &lt;em&gt;Fierro&lt;/em&gt;; e quando retornou ao Brasil e a seu curso acadêmico, na UFSC, apresentou como trabalho de conclusão do curso de design uma monografia ligada ao tema. “A quarta dimensão do trabalho de Breccia” acabou sendo agraciado, agora em 2009, com o troféu HQ Mix – mais importante prêmio dedicado ao quadrinho nacional. Nesse TCC, Franz procurou fazer a ponte entre HQs, design e arte ao analisar a obra do uruguaio Alberto Breccia (1919-93), o artista que mais admira neste meio. Outros autores que ele cita como possíveis influências são o argentino José Muñoz e o japonês Taiyo Matsumoto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esse retorno, Franz começou a processar as ideias que dariam origem à &lt;em&gt;Promessas&lt;/em&gt;... vamos abreviar aqui o título quilométrico. Aliás, o gosto por longos títulos parece ser uma característica do autor, que também cursou Artes Plásticas, pois um outro projeto de HQ, paralelo, leva o nome de &lt;em&gt;Uma casa construída com cascas de ovos&lt;/em&gt;. Apesar de ter mais páginas concluídas que o atual, o próprio quadrinista reconhece que esse ainda vai demorar mais a aparecer. “Mas é um trabalho bonito, eu acho.” Retornemos às promessas e ao fim do mundo. Vamos falar das páginas, as originais, que o autor trouxe para mostrar naquele bar, na rua que leva o nome do pintor Victor Meirelles (1832-1903), antes do anúncio do prêmio HQ Mix deste ano. A primeira surpresa possível, em se tratando de alguém que escolheu o meio digital para divulgar sua obra, é o método de trabalho do autor. Franz optou por utilizar a forma mais tradicional para produzir sua HQ: nanquim, pincel e papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As folhas A2 que ele exibe sobre a mesa na noite mais gelada do ano em Florianópolis foram ilustradas exatamente como fariam os quadrinistas que o inspiraram, em um mundo anterior ao das webcomics. Franz esboça a lápis e depois cobre os desenhos com a tinta negra, criando contrastes, dando a ilusão de volume, áreas de luz e sombras. Ele prevê na arte os espaços para os balões, com a fala dos personagens, e mesmo o letreiramento é feito à mão, e inserido mais tarde quando entram em ação os softwares. O InDesign ajuda no momento da diagramação. Já o Photoshop corrige a perda de contraste que às vezes ocorre com o escaneamento das imagens e é usado para aplicar o cinza, tomando o lugar das antigas retículas, material que não é tão fácil para ser encontrado pelos quadrinistas do século XXI quanto era pelos profissionais do século anterior. O processo é lento, como não poderia deixar de ser. Já houve momentos em que ele, que procura trabalhar na série todos os dias, passou duas horas dedicado a um único quadrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo é feito do modo mais tradicional possível até porque &lt;em&gt;Promessas&lt;/em&gt;... foi pensada, planejada e está sendo executada como uma obra a ser impressa, publicada de modo clássico. “A Internet surge por necessidade”, ele comenta, apesar de que, com o tempo, essa mídia tenha revelado novas possibilidades a serem exploradas. Até por sugestão de um editor com quem conversou, o catarinense concordou que o melhor modo de tornar seu trabalho conhecido era a divulgação pela rede. Se existe algum lugar em que um autor iniciante pode contar com uma edição impressa de seu primeiro trabalho de fôlego, com aproximadamente 200 páginas, este não é o Brasil. Então, o catarinense escolheu esta forma para divulgar e distribuir por partes sua série, tendo a consciência de que vivemos uma nova realidade, com licença livre, ou seja, adotando o esquema &lt;em&gt;copyleft&lt;/em&gt;. Já há um site que, no lugar de fazer um link ao blog de Franz, criou novo arquivo e deixou disponível o primeiro capítulo em seu próprio domínio, uma espécie de pirataria consentida. “Tu perde o controle daquilo”, reconhece. “Quero que pirateiem muito mais, que imprimam, xeroquem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele calcula que nas primeiras semanas de exposição do primeiro capítulo, uma média de 20 pessoas baixou o arquivo diariamente. Esta acabou se revelando uma possibilidade de democratizar o acesso à obra, ainda que a leitura no computador não seja a ideal. Afinal, ao contrário de outras mídias, como a música, em que, em última análise, não há perda na transposição para um meio digital, os quadrinhos clássicos ainda contam como um bastião do paradigma de Walter Benjamim: as páginas ainda conservam uma certa “aura” e assim vai ser, até o momento em que se encontre o modo de garantir a reprodutilibilidade técnica perfeita na tela de um leitor eletrônico portátil. Até lá, o papel e as HQs ainda vão manter seu casamento secular. Para facilitar essa materialização futura, &lt;em&gt;Promessas&lt;/em&gt;... foi composta em preto e branco e sua dúzia de capítulos podem ser agrupados em três álbuns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma amostra do que os leitores podem esperar já está disponível na rede. Pedro Franz diz que pensou em um conceito-chave para elaborar esta sua obra: o “medo”. Isso está presente desde o primeiro post naquele seu blog, quando ele esboçou o que viria a ser a série:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;em&gt;Autotomia é o nome dado à capacidade que alguns animais possuem de se auto-mutilar em situações de perigo como estratégia de sobrevivência. Deixar algo morrer para preservar a vida. Diante da necessidade de enfrentar um perigo, lutar ou fugir, funciona como um mecanismo de defesa para se sobreviver. Partindo destes conceitos, Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo é uma fábula sobre o “medo” funcionando como crítica à moral burguesa e à intolerância contada em formato de Peter Pan pós-moderno.&lt;/em&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como a Internet surgiu para facilitar e difundir – e está servindo para promover um rico debate sobre os quadrinhos contemporâneos na seção de comentários do blog – a ambientação futurista veio para dar mais liberdade ao autor. A característica típica de ficção científica é para permitir ao artista falar do presente usando o subterfúgio de se referir ao futuro. Ele mesmo escreveu que, em um primeiro momento, pensou em criar cenários mais elaborados, com pontes destruídas, a Ilha isolada, novas formas de governo e de autoritarismo naquele ambiente ficcional. Mas preferiu apenas potencializar o que já vê nos dias de hoje de modo a analisar as ações e reações provocadas por aquele sentimento – o medo – como ele é capaz de mover as pessoas e o que pode gerar em resposta. Um modo, com algum afastamento brechtiano, de estudar temas como terrorismo, pirataria, repressão política e policial em um cenário ao mesmo tempo conhecido e estranho, particular e universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda é cedo para falar sobre &lt;em&gt;Promessas&lt;/em&gt;... como uma obra integral e se ela vai ser capaz de amarrar todos os instigantes pontos que se propõe a abordar. Os primeiros capítulos, que estão disponíveis para todos lerem e julgarem, abrem com uma abordagem bem intimista, como um painel das impressões coletivas dos diversos personagens, vários pontos de vista compondo um plano geral. A arte me lembrou, de fato, o trabalho de um dos quadrinistas relacionados pelo autor, Taiyo Matsumoto: o mangá underground &lt;em&gt;Preto e Branco&lt;/em&gt;, publicado no Brasil pela Conrad. Mas me lembrou bem mais, na construção dos personagens, o brasileiro Lourenço Mutarelli que, pelo menos conscientemente, não faz parte daquela lista já citada por Franz. Quanto aos conceitos, em um primeiro momento me fez pensar mais em material anglo-saxão que em obras latino-americanas: como &lt;em&gt;DMZ&lt;/em&gt; – também conhecida como &lt;em&gt;ZDM&lt;/em&gt;, de zona desmilitarizada, no Brasil – do americano Brian Wood, e &lt;em&gt;Invisíveis&lt;/em&gt;, a série mais autoral do britânico Grant Morrison. Vou aguardar os próximos 10 capítulos da obra deste já premiado autor para ver como se desenvolve este futuro alternativo e distópico de Florianópolis.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-6701635318463597861?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/6701635318463597861/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=6701635318463597861' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6701635318463597861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6701635318463597861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/10/uma-fabula-sobre-o-medo.html' title='Uma fábula sobre o medo'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8600517577448746857</id><published>2009-08-17T06:33:00.000-07:00</published><updated>2009-08-17T06:35:05.086-07:00</updated><title type='text'>Engrenagens aparentes</title><content type='html'>Uma espécie de nova Revolução Industrial chega ao Brasil e atrai interesse internacional. Chamada ao gosto do freguês de modismo, tendência, &lt;em&gt;hype&lt;/em&gt;, cultura, manifesto, tribo urbana, estilo entre outras classificações a verdade é que o &lt;em&gt;steampunk&lt;/em&gt; conquista adeptos, ganha forças na Internet, em eventos públicos e até na literatura e nos quadrinhos, como uma vertente da ficção científica. Pelo nome e pelo parentesco com a FC mesmo quem nunca ouviu falar – ou que não tenha ligado o termo à realidade prática – deve imaginar que exista semelhança estética ou filosófica com o cyberpunk, tão popular que praticamente é sinônimo do gênero como um todo para muita gente que consumiu livros, filmes, HQs e jogos de RPG nos últimos vinte anos. De fato, a semelhança é real, se o foco de uma é especular sobre a cibernética em um futuro próximo, a da outra é imaginar tecnologias possíveis, geralmente movidas a vapor (&lt;em&gt;steam&lt;/em&gt;, em inglês), com direito a molas, engrenagens e alavancas, no século retrasado, uma espécie de retrofuturismo. Mas vamos por partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para começar, um bom ponto para conhecer este mundo é o site do &lt;a href="http://www.steampunk.com.br/"&gt;Conselho Steampunk&lt;/a&gt;, endereço que tem o objetivo manifesto de divulgar, explicar, inspirar, homenagear e produzir cultura dentro deste gênero na forma que for: nas artes, nas vestimentas, em joias, na tecnologia. “Para tanto os idealizadores lançaram mão de conceitos sofisticados que garantissem a possibilidade de qualquer um, em qualquer lugar, independente do poder aquisitivo, idade ou qualquer outro entrave costumeiro, se visse impossibilitado de fruir a cultura Steampunk do seu jeito e sem a necessidade de aderir a qualquer organização burocrática ou centralizadora”, garante o texto de apresentação do projeto criado pelo empresário Bruno Accioly. O conceito que tem apenas dois anos já se difundiu por três estados que também criaram suas representações regionais – &lt;a href="http://sp.steampunk.com.br/"&gt;São Paulo&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://rj.steampunk.com.br/"&gt;Rio de Janeiro&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://rs.steampunk.com.br/"&gt;Rio Grande do Sul&lt;/a&gt; – denominadas no jargão do Conselho de Lojas, em uma citação explícita a certa Sociedade Secreta, algo que chamou a atenção de um visitante ilustre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lojas. Como lojas maçônicas? Rapaz, isto é terrivelmente século XIX.” Quem fez o comentário foi um escritor fundamental para se entender tanto o punk cibernético quanto o a vapor: Bruce Sterling, autor do romance &lt;em&gt;Piratas de dados&lt;/em&gt; e organizador da coletânea &lt;em&gt;Mirrorshades&lt;/em&gt;, o homem que ao lado de Willian Gibson – de &lt;em&gt;Neuromancer&lt;/em&gt; – criou os paradigmas do cyberpunk em meados dos anos 80. &lt;a href="http://www.wired.com/beyond_the_beyond/2009/07/brazilian-steampunk-has-lodges/"&gt;O comentário saiu no dia 20 de julho&lt;/a&gt;, no blog que o autor americano mantém no site da &lt;em&gt;Wired&lt;/em&gt;, a revista mais respeitada em termos de cultura tecnológica. Foi, na verdade, o segundo post em que ele falou sobre a iniciativa brasileira.&lt;a href="http://www.wired.com/beyond_the_beyond/2009/07/steamy-steamy-summer-of-brazilian-steampunk/"&gt; Dois dias antes&lt;/a&gt; ele havia descoberto a página do Conselho Steampunk e brincara com a ideia, batizando o conceito de “bossa steampunk”. Na outra oportunidade, Sterling divulgou uma mensagem enviada por Bruno Accioly, dando conta das atividades do grupo no Brasil, que não se restringem a discussões virtuais, pois a Loja São Paulo, por exemplo, já organizou dois encontros em que os participantes, vestidos como nossos antepassados do século retrasado, passearam em trens a vapor naquele estado. Esta postagem, o blogueiro encerrou com a frase: “O mundo é um lugar vasto e maravilhoso, damas e cavalheiros.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é um apoio qualquer que as damas e os cavalheiros do Conselho Steampunk atraíram. Como já disse, Bruce Sterling é um dos criadores da parte literária do movimento cyberpunk, mas ele e seu parceiro Willian Gibson também têm muito a ver com o steampunk como subgênero da FC. Ambos, a quatro mãos, escreveram em 1990 a obra mais representativa do início desta nova vertente. É bem verdade que já existiam livros anteriores apontando para algumas das características que seriam aprofundadas mais tarde, escritos por autores como Tim Powers e K. W. Jeter – que, aliás, foi quem cunhou o termo, três anos antes, em uma troca de cartas – mas é praticamente um consenso por parte da crítica que &lt;em&gt;The Difference Engine&lt;/em&gt; foi o marco inicial do estilo &lt;em&gt;steamer&lt;/em&gt;. No romance, a hipótese de partida é que o cientista e matemático inglês Charles Babbage (1791-1871) teria construído uma máquina (que chegou mesmo a projetar): o primeiro computador do mundo, baseado apenas em peças mecânicas. A invenção dá um impulso muito maior ao Império Britânico, que vivia o auge do período Vitoriano, ou seja, o tempo em que a Rainha Vitória esteve no poder, de 1837 a 1901.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas das convenções do gênero estavam ali, reunidas. O período histórico definido, a tecnologia capaz de mudar tudo o que conhecemos, e até mesmo a utilização de figuras reais e apropriações de criações literárias estão presentes naquele livro. Este último item é uma tentação e tanto a todos os que se aventuram a seguir os passos de Sterling e Gibson, pois as obras escritas naqueles tempos, como os romances e os personagens mais famosos dos pais da Ficção Científica, Jules Verne, H. G. Wells, por exemplo, estão em domínio público, disponíveis para quem desejar reinterpretá-los. O uso mais radical desta característica steampunk foi feito não na literatura, mas nos quadrinhos, com a série de álbuns de &lt;em&gt;A Liga Extraordinária&lt;/em&gt; (iniciada em 1999), do inglês Alan Moore, uma combinação de praticamente tudo o que o século XIX tem a oferecer em termos de ficção fantástica ou aventureira. Boa parte do fascínio que o gênero evoca atualmente tem como origem tais HQs escritas por Moore e ilustradas por Kevin O’Neill, que podem ter dado origem a um filme desastroso, mas continuam sendo fonte inesgotável de ideias a cada novo lançamento no papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, quando eu escrevi que o assunto tomou a Internet não me referia apenas ao diálogo entre o Conselho Steampunk e o blog de Bruce Sterling. O tema também ganhou outros espaços na rede recentemente. Um bom exemplo é o post que a escritora e historiadora Ana Cristina Rodrigues publicou em um de seus blogs no dia 16 de julho. &lt;a href="http://comunafc.wordpress.com/2009/07/16/ficcao-a-vapor/"&gt;“Ficção a vapor”&lt;/a&gt; é o que chamei de verdadeira aula sobre steampunk. Com muito mais propriedade que eu neste espaço e com uma riqueza de detalhes bem maior, ela analisou todo o contexto sobre o qual acabo de escrever e teceu algumas considerações sobre o cenário nacional nesta área. Cito trechos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;Agora, é de se admirar que um país que nos deu o Barão de Mauá, Augusto Zaluar, D. Pedro II, Santos Dummont… não tenha produzido obras a vapor suficientemente interessantes. Poxa, nosso imperador provavelmente foi o governante mais steampunk de sua época. Seu interesse por &lt;em&gt;gadgets&lt;/em&gt;, ciências e novidades era/é notório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até esse ano, aconteceram algumas tateadas. Gerson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho e Octavio Aragão tangenciaram o gênero – os dois primeiros em contos, o último em seu romance, A mão que cria. Mas talvez a primeira obra consciente e declaradamente steampunk do Brasil sejam os quadrinhos de &lt;em&gt;Expresso!&lt;/em&gt; de Alexandre Lancaster. O piloto da série foi publicado em um projeto online de curta duração, mas a saga continua, já que novas HQ’s estão previstas e um conto sobre o protagonista vai entrar na primeira coletânea nacional do gênero.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro escritor e crítico de Ficção Científica também tratou desta pauta foi Antonio Luiz M. C. Costa. Ele publicou um longo artigo na coluna que mantém no site da revista em que trabalha a &lt;em&gt;CartaCapital&lt;/em&gt;. Datada do dia 11 de agosto, &lt;a href="http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&amp;amp;a2=5&amp;amp;i=4788"&gt;“Steampunk, saudade ou rebeldia?”&lt;/a&gt; é outra contribuição para o debate, que igualmente detalhou o histórico do gênero e ponderou sobre a situação em nosso país. Citando novamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;É sempre bom fugir um pouco do famoso slogan de Margaret Thatcher e Francis Fukuyama, o TINA, &lt;em&gt;There Is No Alternative&lt;/em&gt; – “Não há alternativa (ao status quo neoliberal dos anos 80 e 90)” e considerar como as coisas poderiam ser diferentes. O curioso é que, neste caso, trata-se geralmente de uma alternativa, em muitos aspectos, bem semelhante à realidade atual, com o Império Britânico e os financistas da City no papel dos EUA e de Wall Street.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode reforçar a ideia de que as roupas e maneiras podem mudar, mas a essência da sociedade foi e sempre será a mesma. Como também pode funcionar como alegoria ou caricatura de problemas atuais e mostrar o que têm de histórico e contingente, como dependem de desenvolvimentos específicos e podem vir a ser superados. É um campo no qual concepções opostas podem se expressar em um ambiente fantástico e de sabor nostálgico, mas ainda assim com uma relação bem clara com a realidade social, política e ambiental do século XXI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pleno desenvolvimento dessas possibilidades no Brasil depende, porém, de que o Steampunk não seja apenas consumido como moda ou como decoração de animês e aventuras hollywoodianas. Para ser criativo, precisa ser produzido e discutido como um subgênero literário e associado ao ponto de vista brasileiro ou à história (real e imaginada) de nosso país. Por enquanto, conta-se apenas com a recém-lançada antologia de contos &lt;em&gt;Steampunk&lt;/em&gt;, da Tarja (R$ 39, 184 páginas), que inclui uma colaboração do autor desta coluna. Uma segunda antologia, a ser intitulada &lt;em&gt;Vaporpunk&lt;/em&gt;, está sendo organizada pelo escritor Gerson Lodi-Ribeiro e é esperada para breve. Teremos então uma boa ideia de como se imagina, em terras tropicais, essa história paralela.&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois fizeram referência ao mesmo livro ao final de seus textos, uma coletânea que também foi destaque na seção de cultura da já citada revista &lt;em&gt;CartaCapital&lt;/em&gt;, desta semana, chamada &lt;a href="http://www.tarjalivros.com.br/detalheprod.asp?produto=39"&gt;Steampunk – Histórias de um passado extraordinário&lt;/a&gt;. O livro foi lançado em São Paulo no último final de semana de julho e também participo dele com um dos nove textos. Curiosamente, apesar de não ter sido um pedido expresso da editora, a maioria dos contos longos publicados no livro tratam, sim, de aspectos históricos do Brasil e usam personagens locais entre os principais destaques de suas tramas, alguns deles citados por Ana Cristina. &lt;a href="http://universofantastico.wordpress.com/2009/08/08/steampunk-%E2%80%93-historias-de-um-passado-extraordinario-duas-visoes-de-um-mesmo-livro/"&gt;Neste blog, em um mesmo post&lt;/a&gt; podemos ler duas resenhas da obra que também ganhou destaque em &lt;a href="http://jvernept.blogspot.com/2009/07/conto-steampunk-baseado-em-j-verne.html"&gt;um respeitado blog português&lt;/a&gt; dedicado ao autor Jules Verne, entre outros endereços da rede que repercutiram o lançamento. &lt;a href="http://cidadephantastica.blogspot.com/2009/07/torre-de-vigia.html"&gt;Alguns desses endereços foram reunidos por mim&lt;/a&gt; em um blog que criei para me ajudar a planejar a noveleta escrita para a coletânea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de fato ainda há mais por vir. Uma coletânea binacional, com escritores brasileiros e portugueses, &lt;a href="http://cidadephantastica.blogspot.com/2009/07/coletanea-luso-brasileira-vaporpunk.html"&gt;está sendo organizada neste momento&lt;/a&gt;, com uma visão bem menos purista do gênero mas que pretende ser ainda mais focada na história destes dois países. Um romance também pode ser lançado em breve, chamado de &lt;a href="http://baronatodeshoah.blogspot.com/"&gt;Baronato de Shoah&lt;/a&gt;, de autoria de José Roberto Vieira. Fora do terreno da literatura, os quadrinhos também devem apresentar novidades com influência steampunk. O trabalho de Alexandre Lancaster com &lt;em&gt;Expresso!&lt;/em&gt;, sua série inspirada nos mangás, pode ser acompanhado na página que o autor mantém no&lt;a href="http://lordlancaster.deviantart.com/?offset=1150"&gt; site DeviantART&lt;/a&gt;. Também inspirados nos quadrinhos japoneses, Douglas MCT e Ulisses Perez lançarão pela editora NewPop uma série com o nome &lt;a href="http://hanselgretelmanga.blogspot.com/"&gt;Hansel&amp;amp;Gretel&lt;/a&gt;. Por último, mas não menos importante, no site dedicado a webcomics da DC, o Zuda Comics, é um brasileiro, Igor Noronha, quem desenha a HQ &lt;a href="http://www.zudacomics.com/node/1305"&gt;Sidewise&lt;/a&gt; que mostra as aventuras de um adolescente deslocado no tempo para um período vitoriano alternativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se vê, a agitação em torno da cultura steampunk no Brasil é grande, a ponto de chamar a atenção em outros países e dar ao leitor várias opções para participar ou ao menos experimentar esta nova versão da Revolução Industrial. O carvão queima e as engrenagens se movimentam. Boa viagem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8600517577448746857?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8600517577448746857/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8600517577448746857' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8600517577448746857'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8600517577448746857'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/08/engrenagens-aparentes.html' title='Engrenagens aparentes'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-1214039991904011621</id><published>2009-07-22T09:01:00.000-07:00</published><updated>2009-07-22T09:02:24.033-07:00</updated><title type='text'>Catecismos científicos</title><content type='html'>Quando chegou à minha caixa de correspondência o mais recente livro de Carlos Orsi não pude deixar de pensar nos &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/entre-biblias-e-catecismos"&gt;catecismos pornográficos&lt;/a&gt; que Alcides Caminha assinava com o pseudônimo Carlos Zéfiro durante a década de 60 no Rio de Janeiro. O saudosismo foi despertado pela forma como foi produzida a novela &lt;em&gt;O que o olho vê&lt;/em&gt;, pela Scarium, editora mantida pelo carioca Marco Bourguingnon. Responsável pela mais longeva publicação em papel dedicada à ficção fantástica no país – um zine com o mesmo nome da editora por onde já publicaram os melhores escritores de ficção científica, horror e fantasia brasileiros que já está indo para a edição de número 26, com chamada para submissão de contos de FC – a empresa mantém sua &lt;a href="http://www.scarium.com.br/loja/index.php"&gt;loja virtual&lt;/a&gt; desde 2002. Mesmo com esse pé na tecnologia, não perde o status artesanal de seus impressos, como os livros de sua coleção Scarium Fantástica, da qual a nova obra do jundiaiense que já foi assunto do Overmundo por três vezes – &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/estranhos-em-terras-estranhas"&gt;primeira&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/entrevista-carlos-orsi"&gt;segunda&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/sobrevivencia-nas-selvas"&gt;terceira&lt;/a&gt; – é o terceiro volume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Editada em um formato de bolso, com 13 cm por 18,5 cm, 48 páginas, encadernação grampeada e a capa, monocromática roxa, colada por cima, a novela tem o charme das primeiras publicações do gênero, na época pioneira das &lt;em&gt;pulp magazine&lt;/em&gt;. Só faltou o papel já vir amarelado para dar ainda mais o clima de folhetim, que já começa com a citação escolhida pelo autor, de Iam Fleming, no original, na língua de James Bond: “Nunca mande um homem quando puder mandar uma bala”. Uma citação muito adequada, já que a trama é também de espionagem e de intriga internacional. Mas se fosse apenas isso que fizesse parte da receita, &lt;em&gt;O que o olho vê&lt;/em&gt; não seria uma representante da literatura fantástica. O que a insere nesta vertente é que a novela também é uma ótima história alternativa, subgênero dos mais respeitados da ficção científica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história alternativa, ou HA, é um meio furtivo de levar a ficção científica a quem tem reservas com o meio. Mesmo editoras que são declaradamente restritivas à FC já publicaram este gênero que faz especulações com a História e, portanto, é, sim, conceitualmente, ficção científica. Caso da Cia. das Letras que durante muito tempo informou em sua página na Internet que não aceitava receber originais deste ramo da literatura. Felizmente, tal decisão editorial não a impediu de publicar os excelentes livros &lt;em&gt;Associação Judaica de Polícia&lt;/em&gt; – no qual o consagrado Michael Chabon especula um mundo em que Israel foi varrido do mapa e os EUA cedem o Alasca provisoriamente como lar para os judeus do mundo –, ou &lt;em&gt;Complô contra a América&lt;/em&gt; – do ainda mais consagrado Philip Roth, que com falsas memórias de sua infância imagina um pró-nazista Charles Lindbergh chegando à presidência dos Estados Unidos nos beligerantes anos 40.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Editoras voltadas ao gênero também lançaram sua cota de HA, como a Aleph que republicou no Brasil a obra de outro Philp, o K. Dick, autor de um dos primeiros e mais famosos romances do gênero, &lt;em&gt;O homem do Castelo Alto&lt;/em&gt;, no qual, sempre consultando o oráculo do I Ching, escreveu sobre um mundo no qual os países do Eixo venceram a II Guerra Mundial, o que levou alemães e japoneses a dividirem o território americano entre si. Mesmo assim, o maior astro do gênero, Harry Turtledove, ainda não é muito conhecido no Brasil, mas conta com tradução para nossa língua ao menos em Portugal, onde foi lançado recentemente, pela editora Saída de Emergência, &lt;em&gt;O dilema de Shakespeare&lt;/em&gt;, livro robusto no qual o dramaturgo é convocado a escrever uma peça que sirva de inspiração à resistência dos ingleses que tiveram seu país dominado pela Espanha católica e inquisitorial do rei Filipe e sua Armada Invencível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil não é apenas consumidor, mas também produz história alternativa. O maior incentivador e um dos pioneiros no gênero em nosso país é o carioca Gerson Lodi-Ribeiro. Apesar de o veterano J. J. Veiga ter escrito antes uma história em que Antonio Conselheiro sobrevivera ao cerco de Canudos, é uma noveleta de Lodi-Ribeiro a mais citada como precursora das HAs em nosso país. “A ética da traição”, publicada na &lt;em&gt;Isac Asimov Magazine&lt;/em&gt; brasileira, falava de um Brasil que havia perdido a Guerra do Paraguai, mas, em compensação, se tornara um país mais desenvolvido. Este texto e outros de uma segunda linha de especulação do autor, na qual os holandeses não foram expulsos, mas se aliaram aos quilombolas e se mantiveram em Recife, foram compilados em forma de livro: &lt;em&gt;Outros Brasis&lt;/em&gt;, da Mercuryo, em 2006. Antes disso, quando se comemoravam os 500 anos da descoberta do Brasil, ele já havia organizado uma coletânea inteira do gênero, chamada&lt;em&gt; Phantastica Brasiliana&lt;/em&gt;, pela editora Ano-Luz, da qual participou Carlos Orsi, como coeditor e um dos autores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o intervalo explicativo, vamos voltar a &lt;em&gt;O que o olho vê&lt;/em&gt;. Esta novela de Carlos Orsi já estava escrita há tempos, foi concluída logo após sua participação em &lt;em&gt;Phantastica Brasiliana&lt;/em&gt;, portanto, antes dos atentados de 11 de Setembro e muito antes desta pandemia de gripe suína que preocupa o mundo. Tudo isso torna ainda mais saborosa a sinopse com que o editor Marco Bourguingnon descreve o livro: “Um estudante brasileiro de Cosmologia vivendo nos Estados Unidos da América, ou melhor, nos Estados Cristãos da América, acaba se envolvendo em uma emaranhada trama de espionagem internacional. Ele parte para uma missão importante, recuperar os códigos do vírus da gripe suína escondido artificialmente dentro de um olho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é um bom resumo da trama, narrada em primeira pessoa pelo brasileiro que nunca tem seu verdadeiro nome revelado. O que torna o livro uma história alternativa é uma diferença básica entre aquela linha do tempo e a nossa, algo que no jargão do meio é chamado de ponto de divergência. No universo elaborado por Orsi, os Estados Unidos foram atingidos por uma epidemia de gripe tão forte em 1915 que o país se viu impedido de entrar no que seria a Primeira Guerra Mundial para auxiliar a Inglaterra. Sem essa participação, o Império Britânico caiu, o mundo islâmico de alguma forma se tornou o maior produtor de tecnologia e quanto aos EUA... Como escreveu Bourguingnon eles se tornaram uma república fundamentalista e substituíram o &lt;em&gt;United&lt;/em&gt; por &lt;em&gt;Christian&lt;/em&gt;, em apenas um exemplo das diferenças entre este mundo e o nosso. Parte da brincadeira é ver o novo significado de siglas como MIT ou da expressão que substitui a nossa conhecida Cortina de Ferro. Fora as apropriações bíblicas e do Alcorão para explicar termos científicos da cosmologia, como a explicação para a radiação de fundo ou o novo nome do Big Bem, os melhores achados do livro, verdadeiros exemplos de catecismos científicos propriamente ditos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É curioso que o autor tenha se contido para evitar falar mais, detalhar, exemplificar mostrar mais exemplos dessas novas sociedades imaginadas por ele. Como ficou, O que o lho vê é uma ótima novela, evocando conceitos de inteligência artificial, nanotecnologia, fisiologia humana, física de partículas entre outros temas que o autor, jornalista especializado em divulgação científica, sabe lidar como ninguém no Brasil. Mas dá o que pensar no que poderia ser um romance sobre este mundo em que a guerra fria se mistura à guerra santa dando origem a um mundo ao mesmo tempo novo e tão reconhecível. Resta torcer para que Carlos Orsi volte ao tema e aprofunde os detalhes dos quais só nos deixou espiar a superfície. A impressão é de que é possível trazer muito mais à tona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nesses tempos de crise e de vários lançamentos imperdíveis para quem acompanha a FC nacional (dê uma olhada na lista compilada por Fernando Trevisan em seu &lt;a href="http://fernandostrevisan.com.br/leituras/2009/07/lancamentos-muitos-lancamentos-e-alguns.cfm"&gt;blog&lt;/a&gt;) uma ótima notícia é o preço deste lançamento. Na loja virtual da Scarium, a novela &lt;a href="http://www.scarium.com.br/loja/product_info.php?cPath=24&amp;amp;products_id=69"&gt;pode ser adquirida&lt;/a&gt; de qualquer parte do país por apenas oito reais. Não se pense que pelo preço ou pela produção artesanal vai se estar levando um produto mal-acabado. Apesar de a proposta de capa não ter me agradado e muito pouco ter a ver com o conteúdo da obra – há algo vagamente citado bem ao final do livro – esta novela está muito bem produzida e com um índice de erros de revisão aceitável mesmo se comparado ao de editoras maiores. Além de alguma confusão com o uso de itálico para diferenciar a fala do narrador da de uma inteligência artificial presente na história, percebi apenas cinco deslizes. Na página 18, aparece “tranaformá-la” no lugar de “transformá-la”; na 26, “quer” no lugar de “que” e “quatro” no de “quarto”; na 33, “batias” no lugar de “batia”; e a repetição da palavra “dentro”, na 36. Ou seja, o catecismo científico da Scarium é tão bom e barato e satisfaz tanto quanto os do Carlos Zéfiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-1214039991904011621?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/1214039991904011621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=1214039991904011621' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/1214039991904011621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/1214039991904011621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/07/catecismos-cientificos.html' title='Catecismos científicos'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-3004823364965493968</id><published>2009-05-02T13:13:00.000-07:00</published><updated>2009-05-02T13:14:03.952-07:00</updated><title type='text'>Sobrevivência nas selvas</title><content type='html'>Quando anunciei em meu &lt;a href="http://www.terrorcon.blogspot.com/"&gt;blog&lt;/a&gt; a publicação de um novo romance de Carlos Orsi disse que aquela seria uma ótima e uma má notícia para quem lê ficção científica no Brasil. Eu estava especulando ainda, pois havia acabado de receber o email do autor avisando que ele utilizara o &lt;a href="http://www.scribd.com/share/upload/11347640/1r66s48qi6tbo23cqldz"&gt;Scribd&lt;/a&gt; para divulgar o e-book &lt;em&gt;Nômade – Uma narrativa da grande viagem&lt;/em&gt;. Mas era uma especulação com base sólida, pois esse jornalista paulista, de Jundiaí, é o escritor de ficção fantástica nacional do qual mais li textos com a particularidade de que gostei de todos. Já havia &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/estranhos-em-terras-estranhas"&gt;resenhado um livro&lt;/a&gt; dele e o &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/entrevista-carlos-orsi"&gt;entrevistado&lt;/a&gt;, aqui mesmo, para o Overmundo e publiquei três contos de sua autoria naquele meu já citado blog entre os 60 textos disponíveis lá de várias vertentes da literatura de gênero: ficção científica, fantasia, horror, policial, detetive, história alternativa, ficção alternativa, contos filosóficos. Era grande a probabilidade de eu gostar deste novo romance, portanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu não me enganei. Li o e-book de 106 páginas no mesmo dia, naquela véspera de feriado. Já sabia que era uma história focada num tema clássico da FC: a idéia de uma nave geracional, ou seja, uma espaçonave preparada para atravessar uma distância tão longa que o percurso consumiria o espaço de gerações de seus tripulantes. Segundo os pesquisadores do gênero, o primeiro a pensar no assunto não foi um ficcionista, mas o ensaísta russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1926. Nos mais de 80 anos que se passaram, muitos escritores aproveitaram o conceito, destaco &lt;em&gt;Tau Zero&lt;/em&gt; do americano Poul Anderson, publicado na forma de livro em 1970, com a trágica história dos tripulantes de Leonora Christine. No caso do ebook nacional, a nave leva o mesmo nome da obra, Nômade, e a grande viagem leva pouco mais de 200 anos para percorrer a distância que vai levar sua tripulação da Terra a seu novo lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra diferença das duas obras, é que o livro americano é uma referência no estilo hard, o tipo de FC que segue mais minuciosamente ciência e tecnologia plausíveis, extrapolando dentro de limites mais, neste contexto, realistas. Apesar de Carlos Orsi ser reconhecidamente um dos três brasileiros de maior destaque neste mesmo estilo, para seu romance ele enfatizou uma outra abordagem, &lt;em&gt;Nômade&lt;/em&gt; é uma legítima obra voltada para o público juvenil. E isso é ótimo, a FC às vezes sofre tanto com o estigma de ser uma literatura inferior que muitos autores tentam dar tamanha densidade a seus textos, evocar tal sorte de experimentalismos formais que o prazer da leitura, o arrebatamento do sense of wonder acaba sendo sacrificado. Para uma profunda discussão sobre a vocação juvenil do gênero, recomendo este &lt;a href="http://coloquios.wordpress.com/"&gt;blog feito a quatro mãos&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o ebook nacional consegue o feito de sustentar o senso de maravilhamento sem deixar de lado a apuração técnica típica do autor, jornalista especializado em divulgação científica. Provando que escrever para adolescentes não é e nunca foi sinônimo de textos mal pesquisados e implausíveis, muito menos de tratados didáticos sem sabor, o jundiaiense encontrou um equilíbrio excelente para sua narrativa. Nem os detalhes relacionados a sobrevivência na selva, ambientes de gravidade zero ou sobre efeitos de ótica, nem o ritmo de aventura, ganchos narrativos entre os capítulos e a construção de personagens foram desprezados. O autor deu tanta atenção ao lado científico quanto ao juvenil de sua ficção e se saiu muito bem em ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar das poucas páginas, nós, leitores, passamos por uma impressionante variedade de ambientações neste breve romance. Tudo começa com uma selva aparentemente normal, onde se encontram os principais personagens do livro, um grupo de adolescentes com idade aproximada de 15 anos. Logo percebemos que aquele é um cenário artificial, construído no interior da tal nave com o objetivo de treinar a ala jovem da tripulação, em uma espécie de acampamento, para enfrentar qualquer eventualidade no novo planeta para onde são transportados. Não demora para uma série de incidentes, gradativamente mais perigosos, deixar claro que algo de errado acontece no mundo tecnológico que envolve aquele pequeno oásis artificial. O casal de protagonistas, Peleu e Helena, são escalados para tentar descobrir o que está havendo, o porquê de eles não conseguirem mais se comunicar com os adultos ou mesmo com Nestor, a inteligência artificial que comanda a nave Nômade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A trama de Orsi segue esse caminho clássico, com os dois jovens enfrentando várias dificuldades; demonstrando que o conhecimento de um, completa o do outro; e o consequente amadurecimento que essa jornada provoca em ambos. Assim como a própria temática da nave geracional, o escritor trabalha com elementos bastante conhecidos ao longo das páginas, mas mesmo assim consegue tirar o melhor da história que está contando. Talvez ele pudesse ter elaborado um tanto mais o clímax do livro, que tem uma resolução simples e não tão satisfatória ou plausível quanto todo o restante do desenvolvimento da aventura, mesmo assim, é um belo livro. Faz pensar nas possibilidades que teria se chegasse a um grande público que começa a descobrir o gosto pela leitura e outras formas de adaptar seu roteiro para mídias como quadrinhos, jogos ou animações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, dito tudo isso, se o livro é tão bom ou ainda melhor que o esperado, por que haveria um lado mau na notícia de sua publicação, ainda mais da forma que se deu, de graça, à disposição de todos os interessados? Parte da resposta está na pergunta. Mas a resposta inteira está no posfácio que o próprio autor escreveu “Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui”. No pósfácio-nota-desabafo, Carlos Orsi faz uma narrativa tão cheia de desventuras quanto a outra, a da parte fictícia do livro. Mesmo sem citar nomes das pessoas e empresas envolvidas (e eu opto aqui por não especular, até para evitar a fulanização de um debate que deve mesmo ser mais abrangente), ele demonstra que a sobrevivência na selva ou no espaço pode ser mais simples que no mercado editorial brasileiro. Reproduzo o texto abaixo, na íntegra, desejando que algum dia esta realidade pouco hospitaleira mude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Nômade tem uma história engraçada: o livro nasceu de uma encomenda estilo “contrato de risco” de uma importante editora do ramo de livros juvenis. Basicamente, perguntaram-me se eu topava escrever um romance para jovens sem compromisso, submeter a eles e, se gostassem, o livro saía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resumindo: escrevi. Submeti. Gostaram mais ou menos. Reescrevi. Gostaram pra valer. Não saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quê? Não faço a menor idéia. O que sei é que passei a maior parte da presente década esperando que alguém na tal editora batesse o martelo, me apresentasse um contrato, fizesse alguma coisa. Depois de tanto tempo, até uma rejeição, tipo, “desculpe, mas o funcionário que deu aprovação inicial a seu livro foi diagnosticado com esquizofrenia, jamais publicaríamos um lixo desses”, teria sido bem-vinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, bolas, para quê tratar escritores com cortesia e consideração, não é mesmo? Eles se vendem por aí, como diz o provérbio americano, por dez centavos a dúzia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, o que pretendo ao lançar Nômade como um livro eletrônico grátis? Eu poderia responder dizendo que faço isso para exorcizar o fetiche do papel, que este livro representa meu grito de liberdade em relação às velhas mídias ultrapassadas que dependem de tinta e árvores mortas para subsistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estaria mentindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu objetivo secreto, com este livro, é fazer tanto sucesso, mas tanto sucesso, que seja lá quem for o gênio que bloqueou a publicação lá naquela editora termine seus dias em desonra, opróbio e ostracismo, passando frio e fome e vendendo DVDs piratas na Praça da Sé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como conseguir o objetivo secreto é um pouco difícil, reconheço, meu objetivo expresso é, simplesmente, completar o parto iniciado tantos anos atrás. Cada escritor tem seu jeito, suponho, mas eu sou um maníaco da publicação: saber que tenho um texto acabado na gaveta é algo que me dói quase tanto quanto ter uma batata quente nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes quase 18 anos como escritor profissional (recebi meu primeiro cheque por uma obra de ficção em 1992) uma coisa que aprendi é que sou um péssimo vendedor: não adianta eu bancar uma tiragem e pôr a banquinha na rua, o livro vai encalhar, independentemente de seus méritos. A incapacidade psicológica de pedir dinheiro aos outros é um dos fantasmas que assombram minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, por que não simplesmente soltar o livro no mundo? Prece ser a solução lógica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra coisa que aprendi nestes 18 anos é que os textos têm um jeito de achar seus próprios caminhos. Dia desses, dando uma busca por meus próprios títulos no Google (narcisista! narcisista!) achei o blog de uma menina que cita minha primeira coletânea de contos, Medo, Mistério e Morte, como um de seus livros favoritos. Essa moça provavelmente nem tinha nascido quando os primeiros contos daquele livro foram escritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, aqui está Nômade. Talvez um dia ele venha a ser o livro favorito de alguém que não nasceu ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é um castelo na França, uma vaga na Academia ou um fim de semana na Ilha de Caras, mas acho que dá para o gasto.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-3004823364965493968?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/3004823364965493968/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=3004823364965493968' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/3004823364965493968'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/3004823364965493968'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/05/sobrevivencia-nas-selvas.html' title='Sobrevivência nas selvas'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8995656636322837150</id><published>2009-01-15T05:36:00.000-08:00</published><updated>2009-01-15T05:40:59.290-08:00</updated><title type='text'>Criação coletiva</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Com o romance escrito por ele, um projeto multimídia deu oficialmente a largada em uma invasão que ocorrerá na vida de quem consome games, quadrinhos e livros com temáticas ligadas à ficção científica. Taikodom: Despertar é o segundo livro deste game designer carioca, com formação de historiador, e deve apresentar a leitores brasileiros e portugueses uma inciativa nacional que já consumiu investimentos da ordem de R$ 15 milhões. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a responsabilidade que teve em mãos, no processo de criação verdadeiramente coletiva que game e romance compartilharam e sobre o que o futuro reserva ao Taikodom, ou Domínio do Espaço, o primeiro Massive Social Game do mundo. Com vocês, o especialista em space opera deste quadrante do espaço, João Marcelo Beraldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes do lançamento de Taikodom: Despertar e de ser contratado como game designer pela empresa responsável pelo projeto, a Hoplon, você já tinha experiência tanto literária quanto com jogos, certo? Poderia falar um pouco sobre seus livros, impresso e on-line, anteriores e sobre outros games com que trabalhou?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, meu primeiro livro impresso foi Véu da verdade, uma ficção Space Opera em um universo próprio. A proposta dele era criar um universo ficcional com estilo próprio, com um jeitinho brasileiro, e com espaço o suficiente para vários tipos de história não necessariamente interligadas. O Véu foi a primeira, mas longe de ser a única. Quando o livro foi publicado no final de 2005, já tinha terminado de escrever a primeira versão de Jogos de Guerra, que se passa na mesma época, mas com personagens diferentes. Em seguida tive vários contos publicados online e um na revista Scarium. De lá para cá também lancei dois ebooks sobre algumas das raças alienígenas desse UF para o mercado de RPG internacional e um RPG com sistema próprio para o mercado nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes do Taikodom, fui um dos fundadores de um grupo chamado SomniumStudio, que pretendia lançar jogos de computador no Brasil. Chegamos a ser convidados a palestrar sobre o assunto em algumas universidades do Rio de Janeiro. Nessa época chegamos a trabalhar em alguns projetos como a Nave-Escola do Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, quando desenvolvemos um simulador espacial com física realista, além de projetos em multimídia. Nessa mesma época estávamos trabalhando no desenvolvimento de um space sim chamado Border Wars, com um Universo Ficcional desenvolvido por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, talvez a origem dessa relação escrita+jogos tenha sido um período de quatro anos em que desenvolvi e mestrei através da internet um RPG de sistema próprio baseado na série de jogos Wing Commander. Chegamos a ter 30 jogadores de todo o mundo. Foi apenas a falta de tempo que nos privou de continuar esse projeto. Sei que aprendi muito dessa época o que aplico hoje no desenvolvimento de Taikodom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;Sobre o processo de criação deste romance, qual a diferença entre trabalhar com um universo criado por outra pessoa e a liberdade de criar seu próprio mundo como fez em Véu da verdade? É comparável com o que você já havia feito em termos de fanfics, por exemplo, ou é uma experiência diferente?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca é igual. Mesmo de um UF compartilhado para outro, de um fanfic para outro, existe muita diferença. Alguns UFs são extremamente detalhados, deixando pouco espaço para desenvolvimento, enquanto outros são propositalmente abertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Véu da verdade foi um exercício e um desafio que resolvi impor a mim. No Reveillon de 2004, enquanto discutia com o pessoal da SomniumStudio sobre algumas questões do UF do Border Wars (que, mal ou bem tinha limitações técnicas e de foco, assim como o Taikodom), resolvi jogar todas as idéias mais loucas que tivesse na gênese de um novo UF. Algo totalmente sem barreiras, puxando crítica social, comédia no estilo Mochileiro das galáxias e um pacotão de ação e intriga. Um ano depois, publicava o primeiro romance da série. Foi muito divertido e extremamente gratificante. Afinal, foi meu portfólio para entrar na Hoplon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso do Taikodom, por ser um universo em desenvolvimento (especialmente em 2006, quando me tornei parte do projeto), apesar de existirem certos elementos já definidos, havia muito a se criar. Parte do meu trabalho ao ser contratado pela Hoplon foi encontrar buracos e preenchê-los com detalhes que dessem pano pra manga. Foi parte do motivo pelo qual acabei trabalhando bastante no período em que o jogo se passa hoje, um período o qual ainda não havia sido trabalhado pelo Gerson [Lodi-Ribeiro] e o Roctávio [de Castro]. Enquanto no início você tem que se acostumar com certas nuances do UF, logo certas coisas se tornam naturais. Essa é a vantagem de um UF desenvolvido meticulosamente por um grupo de pessoas dedicadas ao projeto. A cada encontro (virtual ou físico), surge pelo menos uma nova idéia de como explorar esse universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;Qual foi a responsabilidade de abrir as portas deste universo ficcional antes mesmo do criador dele, já que seu romance foi lançado primeiramente que a coletânea de contos de Gerson Lodi-Ribeiro, que assina a introdução de seu livro, aliás?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, na verdade o Taikodom foi criado pelo Tarqüínio Teles e Cristóvão Buzarello, dois dos sócios da Hoplon. O Gerson é sim o principal autor e certamente sem ele não haveria muito do que se desenvolveu desde o início do projeto. Mas o que temos que lembrar é que, nesse momento inicial, o Taikodom é principalmente um jogo online. Foi por esse motivo que acabei sendo incumbido pelo Tarqüínio dessa responsabilidade. E que resposabilidade! Deu um frio na barriga quando ele disse, brincado sério, que eu deveria escrever o Hobbit [referência ao livro que antecede as obras mais conhecidas da saga de O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien] da nossa Trilogia (que está nas mãos do Gerson). A decisão foi bem pensada pela diretoria da Hoplon. Despertar tem uma visão mais pessoal do UF, diretamente relacionada ao jogo o qual o romance apresenta. O passo seguinte é dar mais detalhes sobre esse UF, com as Crônicas do Taikodom, de autoria do Gerson, e as demais obras em seqüência. O frio na barriga do lançamento veio e veio forte. Agora é o momento da alegria de ouvir e ler os comentários sobre quem se interessou e leu.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;No caso deste livro, não só era um universo que já existia previamente, mas também um trabalho que envolve a parceria com outros criadores. Como foi sua interação com Gerson Lodi-Ribeiro, Roctávio de Castro e outros membros da equipe de criação? Há uma cooperação entre vocês nas diversas mídias que o projeto envolve?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem que ter uma cooperação. Sem ela, seria impossível desenvolver um Universo Compartilhado. Durante muito tempo, em especial do início dessa parceria, em que muito sobre o UF do Taikodom estava sendo discutido, que tínhamos reuniões via skype duas vezes por mês e trocas de emails praticamente diárias. Todo ano temos pelo menos um fim de semana prolongado de discussões sobre os detalhes mais importantes. Com o tempo, todos nos tornamos mais seguros do que criamos juntos e do entendimento dos demais. Discutimos idéias e trechos de novas obras, comentamos em cima, jogamos mais idéias e às vezes acabamos com mais idéias para novas histórias. Hoje temos personagens criados por um andando nas histórias dos outros. Isso se tornou uma diversão, ver como nossas criações aparecem pelas palavras de outro autor. Foi o que permitiu que personagens como Júlia Honoré, criada pelo Roctávio, e Antoniadis, criado pelo Gerson, ganhassem papéis importantes no jogo e no Despertar. E esse é só o início.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;E o envolvimento de outros membros da equipe? Ao todo são quantas pessoas envolvidas direta e indiretamente com todo o projeto Taikodom?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas! Hoje acredito que já passe dos 70 colaboradores diretos, além de tercerizados e equipes de outros projetos da Hoplon. Existe um envolvimento geral, mesmo que nem sempre oficial. Quase todo o dia alguém aparece na baia do departamento de Conteúdo do Taikodom com algumas idéias para o jogo. Pode ser um personagem, uma história, um elemento de jogo... ou às vezes só perguntar os porquês. A verdade é que, na prática, o UF do Taikodom é criado a cada dia por toda a equipe e, claro, também pelos jogadores. Dentro do próprio departamento de Conteúdo temos um envolvimento bem grande com a criação desse UF. Por exemplo, o Paulo de Tarso é meio que nosso escritor invisível. Ele tem um estilo de escrita que garantiu que eu separasse alguns personagens do jogo para serem exclusivos dele. Tanto que ele foi um dos hoplitas imortalizados no UF ganhando um personagem próprio. No caso dele, o repórter intrometido Wayne Mesquita Jr, criado pelo próprio PDT.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;Há pelo menos uma citação explícita a uma outra obra do gênero space opera no livro, quando um dos protagonistas menciona os cavaleiros jedi. Os filmes da série Star wars são uma de suas influências em termos de ficção científica? Que outras poderia apontar entre literatura, cinema, seriados de TV, quadrinhos e vídeo games?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fui fascinado por combates espaciais, com caças disparando mísseis e fazendo piruetas enquanto explosões gigantescas tomam o espaço. Foi isso que me tornou fã de Guerras nas estrelas. Tanto que tenho a coleção completa de quadrinhos e romances da série X-Wing, mas tenho pouco sobre cavaleiros jedi e afins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que influências são tantas. Em especial nos jogos. Fui começar a ler romances relativamente tarde. O que me prendeu à ficção científicia foi, em primeiro lugar, os jogos de computador como a série Wing Commander e jogos da série do Guerras nas estrelas, como X-Wing e Tie Fighter, e de estratégia como Masters of Orion 2. Tanto que o primeiro romance de ficção científica que lembro ter comprado foi End Run, um dos primeiros romances da série Wing Commander.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De lá para cá, foram muitos livros. Sou fã descarado da série clássica do Battletech, desde o jogo de tabuleiro ao RPG e à coleção de pra mais de 50 romances que tenho aqui em casa. E sei que muito do meu estilo de narrativa, de combate, ação e intriga, vêm de livros dessas séries.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na TV e no cinema menciono do que vêm à mente Cowboy Bebop, Babylon 5, Firefly, Earth above and beyond, Último guerreiro das estrelas, Quinto elemento e Eclipse mortal. Acho que até na minha infância eu pesco influências de desenhos como Transformers, Galaxy Rangers, Macross, Mask, Silverhawks e sabe-se lá mais o quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Taikodom: Despertar vai ser a única aparição de Jorge Santiago e de Augusto Carrera ou você e seus parceiros da Hoplon têm outros planos para a dupla e para outros personagens seus que aparecem nesta primeira trama?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertar é apenas o começo. Já tenho outra história esquematizada e com algumas cenas escritas que serve como uma continuação, mas ainda não tenho previsão para escrevê-la. Mas ambos poderão dar as caras em outras obras, inclusive no novo romance que comecei a trabalhar agora ou mesmo no jogo. A trilogia que o Gerson está escrevendo também inclui personagens meus e do Roctávio. Quais? Vocês vão ter que esperar mais um pouquinho para saber!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quanto ao game, ele acaba de ser apresentado ao grande público, após mais de quatro anos de desenvolvimento. Quais são as expectativas da equipe para as próximas fases deste empreendimento que, muito provavelmente, é o maior e mais ousado da história da ficção científica brasileira?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O projeto é dividido em várias partes. E cada parte lançada é uma nova conquista para nós. Nossas expectativas são de sucesso, claro! Desde o início a Hoplon teve em mente o mundo, e será nossa grande conquista para o ano de 2009. O Taikodom tem tido uma repercussão incrível entre os entendidos da indústria no exterior. Mais do que esperávamos para nosso modesto lançamento nacional do módulo de ação. O sucesso nacional e os sinais de sucesso internacional têm nos dado um grande apoio e fôlego para a longa jornada que ainda está pela frente. Acreditamos que será uma excelente forma de colocar o Brasil em evidência lá fora no mercado dos jogos e, claro, também no mercado literário. Além do mais, os planos para o exterior não se limitam apenas ao jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Taikodom é descrito como o primeiro Massive Social Game do mundo. Você poderia descrever quais são os diferenciais dele para outros games on line existentes e o porquê desse "Social" na sua denominação?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mundos virtuais hoje, sejam jogos ou ‘vidas secundárias’, são fechados em estilos bem específicos. Mesmo no que se trata de mundos caixas de areia (aqueles em que você está livre para fazer o que quiser), existe uma limitação no que realmente é possível ser feito. Isso geralmente é relacionado ao gênero do jogo. No MSG, o que temos é mais do que um simples jogo ou ambiente virtual. É tudo isso e mais um pouco. O Taikodom alcançará um estágio em que jogadores de space sim, jogos de estratégia, jogos corporativos e os casuais que gostam apenas de interagir em um mundo virtual poderão encontrar-se em um ambiente compartilhado em que as ações de um podem afetar a vida de outros. Então você pode ter uma pessoa que entra no Taikodom apenas para administrar um bar virtual. Nesse bar, um grupo de jogadores do jogo de ação discutem um combate que foi planejado por um jogador do jogo estratégico, porque outro jogador, presidente de uma corporação virtual, promoveu um embargo econômico que, por sua vez, pode ter afetado o fornecimento de cerveja para o dono do bar. Quem sabe não foi esse dono de bar que contratou o esquadrão de mercenários para garantir que o fornecimento voltasse ao normal?&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;E quanto a outros projetos seus, dentro e fora do Domínio do Espaço? Há alguma novidade que você possa antecipar?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a trabalhar em um novo romance para o Taikodom. A história tem início mais ou menos no meio do Despertar e terá algumas relações com os eventos do primeiro livro, mas trata-se de outros personagens e outro conflito. Esperem encontrar algumas caras conhecidas tanto do Despertar quanto do jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora do Taikodom, tenho trabalhado um pouco no UF do Véu da verdade, escrevendo alguns contos e voltando a investir numa publicação do Jogos de Guerra. Mas tenho me focado mais em duas novelas para o Universo Compartilhado de space opera da Fábrica dos Sonhos, um grupo online de escritores. Fiquei meio desligado do projeto uns meses, mas voltei para terminar a primeira novela durante as férias de fim de ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fugindo um pouco da ficção científica, venho trabalhando há uns dois anos em um mundo de fantasia que é tão grande que dá espaço para tudo quanto é tipo de história, da fantasia infantil de fadas e gnomos ao dark estilo The Black Company, a fantasia rpgística até um New Weird alá Méville [autor do já clássico Perdido Street Station]. Tudo interligado, claro, para evitar o efeito colcha de retalhos. Tenho várias histórias estruturadas e algumas cenas escritas, mas agora estou focado no infanto-juvenil para variar um pouco. De resto, só o futuro sabe!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8995656636322837150?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8995656636322837150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8995656636322837150' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8995656636322837150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8995656636322837150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2009/01/criao-coletiva.html' title='Criação coletiva'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-6936603965645219356</id><published>2008-12-13T20:38:00.001-08:00</published><updated>2008-12-16T14:23:24.646-08:00</updated><title type='text'>A prática dos jogos</title><content type='html'>No dia 15 de outubro de 2003 uma nova palavra entrou de vez para o vocabulário e para o imaginário dos que se interessam por temáticas espaciais. Naquela data, ao orbitar a Terra a bordo da nave Shenzhou 5 Yang Liwei, um chinês de 38 anos, se tornou o primeiro &lt;em&gt;taikonauta&lt;/em&gt; da história, o nome que as autoridades de seu país escolheram para o mesmo profissional que, em tempos de guerra fria, foi chamado de astronauta pelos americanos e de cosmonauta pelos russos. O prefixo utilizado para diferenciar a conquista chinesa daquela feita pelos rivais históricos décadas atrás – derivado de “taikong”, espaço em mandarim – serviu de inspiração para batizar a mais ousada e ambiciosa iniciativa multimídia ligada à ficção científica no Brasil. Seu lançamento oficial ocorreu exatamente meia década depois da longa marcha espacial de Yang Liwei: foi em 27 de outubro deste ano que a empresa catarinense Hoplon Infotainment  apresentou ao público o &lt;em&gt;game on-line&lt;/em&gt; &lt;a href="http://www.taikodom.com.br"&gt;Taikodom&lt;/a&gt;, um produto que passou justamente os últimos quatro anos e meio em desenvolvimento, consumiu investimentos na ordem de R$ 15 milhões e será o mote de vários outros meios nos quais se contarão histórias sobre o Domínio do Espaço. O primeiro deles foi lançado em outubro em São Paulo, juntamente com o&lt;em&gt; game&lt;/em&gt;, e também no início de dezembro, em Florianópolis, e é o motivo desta resenha, o romance &lt;em&gt;Taikodom: Despertar&lt;/em&gt;, editado pela Devir e escrito por João Marcelo Beraldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor é um &lt;em&gt;game designer&lt;/em&gt; carioca, com formação em história e desenho industrial, que já havia publicado um outro livro com abordagem futurística e espacial – &lt;a href="http://veudaverdade.com/"&gt;Véu da verdade&lt;/a&gt; – e foi contratado pela Hoplon para cuidar do enredo do jogo, dos personagens, das missões e de todo material escrito. Para tanto, Beraldo segue as regras criadas pelo seu conterrâneo Gerson Lodi-Ribeiro, o responsável pelo contexto histórico do universo Taikodom, aquilo que no jargão dos &lt;em&gt;games&lt;/em&gt; e séries do cinema e da TV é chamado de &lt;em&gt;Bíblia&lt;/em&gt;. Neste mundo ficcional, a iniciativa privada começa levar seus projetos para o espaço a partir do ano de 2013, pouco mais de meio século depois, algumas colônias em torno da Lua e do Cinturão de Asteróides conseguem a autonomia em relação à Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O evento mais traumático, e que muda por completo o rumo dos acontecimentos, ocorre em 2073. É quando um campo de origem desconhecida cerca o planeta, impedindo o retorno de qualquer um ao local, mas não a fuga em massa que acabaria por evacuar um planeta que em poucos anos se tornou quase inabitável. O surgimento desse campo demarcou uma nova era, os fatos passaram a ser considerados Antes da Restrição ou sendo da Era da Restrição. Os acontecimentos narrados neste primeiro livro se dão no ano 153 ER, ou seja, em 2226, pelo nosso calendário, quando duas das pessoas que tiveram que fugir às pressas daquele mundo condenado são despertadas, após passarem um século e meio em animação suspensa, e tentam se adaptar à vida em um tempo pouco amistoso a elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge Santiago e Augusto Carrera são os protagonistas da história, brasileiros que eram respectivamente piloto e co-piloto na Terra nos tempos pré-Restrição. Os dois colegas voltam à vida porque foram selecionados, entre os incontáveis terrestres hibernantes, pelo conglomerado privado que dita as regras naquele universo. Na ausência de governos ou mesmo de estados, é o Consortium quem provê a segurança e o bem-estar dos habitantes do chamado Taikodom, porém a iniciativa é alvo de ataques de diversos grupos: sejam eles piratas, mercenários ou mesmo fanáticos religiosos. Por isso, de tempos em tempos, de acordo com a demanda do momento, alguns daqueles fugitivos do campo de restrição recebem a chance de voltar à vida, passar por um período de adaptação em estações que levam nomes como Jules Verne e tentar a sorte, por exemplo, como piloto em alguma das forças de segurança existentes. O problema está nessa adaptação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vindos com a mentalidade do século XXI, os &lt;em&gt;ressurectos&lt;/em&gt;, como são chamados, formam a classe mais baixa em um mundo dominado por três castas de humanos mais bem adaptadas ao século XXIII. Os mais presentes no livro são os &lt;em&gt;spacers&lt;/em&gt;, aqueles que vivem em estações espaciais; os mais misteriosos são os &lt;em&gt;worms&lt;/em&gt;, habitantes dos subterrâneos de satélites como a Lua; há ainda os &lt;em&gt;belters&lt;/em&gt;, presentes em asteróides. Neste contexto, Santiago e Carrera podem ser vistos como fornecedores de mão-de-obra barata em uma distopia com cara de utopia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo entre esse grupo com tão poucas perspectivas, há variáveis nos caminhos a se seguir. E aquela dupla representa bem isso. Ironicamente, é Carrera, o antigo co-piloto, quem se adapta melhor ao novo mundo, passa a subir posições e ganhar a confiança dos seus superiores na esquadrilha em que passa a servir. Dono de um temperamento genioso, muito apegado à antiga existência na Terra e resistente às novas tecnologias, Santiago se mostra um ressurecto bem mais difícil de se lidar e sobrevive à base de bicos. Apesar das diferenças quase irreconciliáveis, ambos, cada um a seu modo, vão se envolver diretamente em uma trama de espionagem e conspirações que vai tomar proporções de uma guerra sem precedentes naquele novo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beraldo lida muito bem tanto com o lado mais humano da trama – com os jogos de interesses políticos, as investigações feitas em botecos suspeitos e os momentos de confraternização de companheiros de batalha – quanto, e principalmente, com a parte puramente bélica – caças são abatidos por naves bem maiores, dróides explodem como buchas de canhão e enormes frotas espaciais são posicionadas de acordo com as estratégias de seus comandantes. Apesar de faltar alguma consistência, por exemplo, nas motivações de Santiago – a relação dele com outra personagem fica muito rasa para explicar o porquê das tomadas de decisões tão arriscadas – o autor é bastante hábil em um gênero controvertido da ficção científica, a &lt;em&gt;space opera&lt;/em&gt;, que tem seus fãs e seus detratores. Ele até fez uma divertida e nada sutil homenagem a um dos expoentes do estilo, em uma fala de Augusto Carrera, na página 254: “Santiago, eu sou um piloto de caça, não um cavaleiro Jedi”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É importante que o leitor tenha em mente que &lt;em&gt;Taikodom: Despertar&lt;/em&gt; é uma aventura que põe um jogo em prática. Isso quer dizer que várias das soluções em suas páginas foram criadas originalmente para tornar o &lt;em&gt;game&lt;/em&gt; atrativo e não com finalidades literárias. Gerson Lodi-Ribeiro, o criador deste universo, é reconhecido por sua afinidade com a ficção científica &lt;em&gt;hard&lt;/em&gt;, aquela em que as extrapolações científico-tecnológicas são mais plausíveis. Apesar disso, para se ajustar às necessidades típicas de um &lt;em&gt;game&lt;/em&gt;, ele teve que fazer concessões. Um exemplo bem básico diz respeito à virtual imortalidade dos personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eles representam jogadores, foi necessário encontrar uma solução que garantisse o seu retorno mesmo após serem mortos em combate. Era isso ou cada jogador teria que recomeçar sempre do zero a cada derrota. A saída foi dotar os pilotos desta realidade com uma espécie de computador pessoal no cérebro; além de municiá-lo com informações, o recurso ainda faz uma espécie de &lt;em&gt;backup&lt;/em&gt; da personalidade do usuário o que permite cloná-lo mais tarde, resultando em uma nova vida para o &lt;em&gt;gamer&lt;/em&gt;. Outra questão diz respeito aos avanços tecnológicos que permitem itens como campos de força, geradores de gravidade artificial e atalhos por regiões do espaço. Tudo isso é explicado pela ação de misteriosos alienígenas (provavelmente os mesmos responsáveis por aquele campo de restrição) que desapareceram de vista não sem deixar para trás artefatos cuja tecnologia está mais próxima da fantasia que da ciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente para o leitor, João Marcelo (ou J.M. como assina o livro)Beraldo consegue utilizar tais recursos, que poderiam significar uma camisa-de-força na história, em benefício da trama. Um exemplo é o uso inteligente que um personagem faz do seu computador cerebral – na verdade, Organizador Neural Intracraniano – para driblar a própria morte e proteger informações valiosas no processo. Ou ainda, nos momentos da estratégia de guerra, aqueles atalhos espaciais se mostram um trunfo importante para um dos lados da batalha. O envolvimento com o romance garante a necessária suspensão de descrédito para que se possa apreciar a aventura sem tropeçar em impropriedades científicas. O texto direto e agradável do autor contribuí para tanto. Contribuiria ainda mais se, com uma revisão um pouco mais criteriosa, fossem eliminados certos erros e algumas palavras repetidas que surgem poluindo muitas frases.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro bom achado da edição lançada pela Devir – que inclui ainda um CD de instalação do &lt;em&gt;game&lt;/em&gt; – é a bela capa de autoria do jornalista e artista gráfico &lt;a href="http://www.ivanjeronimo.com.br"&gt;Ivan Jerônimo&lt;/a&gt;, também funcionário da Hoplon. Apesar de um dos principais diferenciais do jogo ser os gráficos 3D, foi bastante agradável a escolha de uma ilustração mais, digamos, orgânica – apesar de ser uma pintura eletrônica – para a obra impressa. Mesmo assim, para instigar a curiosidade dos leitores e potenciais jogadores, além de aproveitar o material desenvolvido por um batalhão de &lt;em&gt;designers&lt;/em&gt;, uma falha da edição foi a de não incluir no interior do livro algumas imagens disponíveis do &lt;em&gt;game&lt;/em&gt;. Um apanhado das incontáveis naves, de todas as classes e modelos, citadas ao longo do romance poderia ilustrar a abertura dos 41 capítulos espalhados por 320 páginas, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Taikodom: Despertar&lt;/em&gt; é uma boa amostra do que se pode esperar dos próximos lançamentos editoriais que devem expandir o universo do jogo. Há histórias em quadrinhos sendo produzidas e novos livros previstos. O próximo lançamento deve ser uma coletânea de contos de autoria de Gerson Lodi-Ribeiro, alguns disponíveis no &lt;a href="http://www.universotaikodom.com.br/acervo"&gt;site&lt;/a&gt;, que se passam antes e depois da história contada neste primeiro romance. A previsão é de que os lançamentos cruzem fronteiras e sejam exportados para outros países, em um primeiro momento, para Portugal. Isso tudo fora as perspectivas de &lt;em&gt;Taikodom&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;game&lt;/em&gt;, propriamente dito. Nada mal para um projeto que começou quase simultaneamente com o primeiro passo dado pelo chinês Yang Liwei no espaço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-6936603965645219356?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/6936603965645219356/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=6936603965645219356' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6936603965645219356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6936603965645219356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/12/prtica-dos-jogos.html' title='A prática dos jogos'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8555127546376481672</id><published>2008-11-27T06:47:00.000-08:00</published><updated>2008-11-27T06:49:21.231-08:00</updated><title type='text'>Uma distopia nada ambígua</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O texto abaixo é a introdução escrita por mim para o livro Fome, de Tibor Moricz, lançado pela editora Tarja:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas páginas seguintes, você terá a oportunidade de testemunhar a morte de, pelo menos, dois mitos. Um deles é a tradição bem-comportada da Ficção Científica brasileira, uma vez que o bom-mocismo desse gênero da literatura nacional raramente encontrou quem o desafiasse ao longo dos anos. Já nas linhas iniciais do primeiro dos quinze contos, Tibor Moricz trucida tal padrão estabelecido ao ir muito além do que fez, por exemplo, lá no início da década de noventa, o pioneiro e decano André Carneiro em sua singular utopia sexual &lt;em&gt;Amorquia&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O paulistano descendente de húngaros (mais especificamente, sobrinho-neto de um dos maiores escritores e dramaturgos daquele país, Zsigmond Móricz) criou nesta coletânea uma distopia nada ambígua. Se em seu romance de estréia, &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt;, ele fez uso de um tema clássico da FC mundial – a viagem no tempo – para analisar a angustiada relação de um filho com o pai ausente, aqui o autor volta a trabalhar com um cenário bastante conhecido, o do futuro pós-apocalíptico, mas com resultados bem mais cruentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em &lt;em&gt;Fome&lt;/em&gt;, o Caos e o Abismo de Nietzsche abusam, torturam e canibalizam um segundo mito, o do Bom Selvagem de Rousseau. A civilização acabou, os governos não existem mais, as relações familiares e as religiões ou se extinguiram ou surgem apenas como caricaturas farsescas. O que move os poucos sobreviventes é a urgência em atender àquela necessidade física que dá nome à obra. A fome, em suas diferentes e variadas manifestações, é a protagonista onipresente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não eram tempos para analogias”. Dessa maneira se define o mundo descrito a seguir, em um dos primeiros contos. Mais à frente, em outro texto, retoma-se o assunto. “Um tempo onde a comida não existia. Um tempo onde a água pura não existia. Onde a sobrevivência suplantava tudo. Mas um tempo, sobretudo, onde todos, sejam caça ou caçador, sabiam que a vida é uma questão de sonho e decepção”. É nesse tempo e nesse lugar que você está entrando agora, no espaço da Entropia. Não é bem o caso de dar as boas vindas, mas a verdade é que você está prestes a conhecer a distópica entropia de Tibor Moricz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vire a página por vontade própria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8555127546376481672?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8555127546376481672/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8555127546376481672' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8555127546376481672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8555127546376481672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/11/uma-distopia-nada-ambgua.html' title='Uma distopia nada ambígua'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-5727262570060587844</id><published>2008-10-11T11:29:00.000-07:00</published><updated>2008-10-13T10:07:48.651-07:00</updated><title type='text'>Viagem ao centro da FC</title><content type='html'>A ficção científica costuma ter uma relação curiosa com público e crítica. Nos países em que o gênero literário conta com uma maior carga de tradição, como os EUA ou a Inglaterra, alguns escritores se tornam fenômeno de venda, mas tamanha popularidade costuma gerar desconfiança entre os críticos. Por outro lado, existem países em que a literatura, falemos na de gênero ou não, desconhece o que seja atingir uma massa de leitores. Nem é preciso dizer que este é o caso do Brasil. Por aqui, mesmo sem fazer valer o adjetivo de “popular”, com livros nacionais ou mesmo traduções de material estrangeiro raramente chegando à casa dos milhares de exemplares, a FC é relegada a segundo, terceiro ou último plano pela crítica. Todavia, se a interação com público e crítica não tem sido das mais profícuas, há um terceiro território em que os textos fictícios sobre especulações científicas recebem cada vez mais atenção: o ambiente universitário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode não chegar a ser um avanço que inspire otimismo, mas não deixa de ser uma evolução o que vem ocorrendo. Entre 1967 e 1987, foram publicadas seis obras nacionais dispostas a analisar o tema. Meia dúzia de títulos em duas décadas. Nos anos 2000, mais exatamente de 2002 a 2006, já havia se conseguido igualar aquele número. Em 2007, um sétimo livro foi lançado, o mesmo de onde foram retirados os dados para este parágrafo, e com isso se renova a esperança de que a FC possa entrar cada vez mais na agenda do público, da crítica e da academia. &lt;em&gt;Volta ao mundo da ficção científica &lt;/em&gt;presta uma contribuição e tanto neste sentido ao abrir espaço para discutir, sob vários ângulos, este gênero da literatura fantástica, irmão mais novo da fantasia e do terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início, o interesse da dupla de organizadores, Edgar Nolasco e Rodolfo Londero, era se restringir a estudos sobre a produção brasileira. Com o tempo de elaboração, o escopo do livro lançado pela editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) se ampliou: dos nove artigos, dois terços realmente tratam de temas locais; o restante traz visões de brasileiros a respeito de obras e de autores de outros países. Uma outra contribuição, muito bem-vinda, foi a inclusão de um conto inédito na coletânea. Vamos ver neste texto um apanhado do que &lt;em&gt;Volta ao mundo da ficção científica&lt;/em&gt; oferece a seus leitores ao longo de 168 páginas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro abre com textos de seus organizadores. Em “Clarice e a ficção científica”, Edgar Nolasco analisa as ligações de uma de nossas mais consagradas escritoras com o gênero. Doutor em literatura comparada e professor da UFMS, Nolasco é um pesquisador com mais de um trabalho em elaboração a respeito da obra de Clarice Lispector. Neste &lt;em&gt;paper&lt;/em&gt;, ele foca tanto em algumas das traduções que a escritora fez para textos de Edgar Allan Poe e Jules Verne, quanto em um conto de FC criado por ela para o livro &lt;em&gt;A via crúcis do corpo&lt;/em&gt;, de 1984, “Miss Algrave”, que conta com a participação importante de um alienígena na trama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodolfo Londero, jornalista e mestre em letras pela UFMS, além de co-organizador da obra, contribui com um estudo sobre tema mais amplo em “Níveis de recepção do &lt;em&gt;cyberpunk&lt;/em&gt; no Brasil: um estudo de casos exemplares”. Para tratar do impacto do subgênero (e movimento) criado nos EUA por William Gibson, em meados dos anos 80, o pesquisador dividiu os casos em três níveis. No primeiro, o “direto”, ele enquadra autores brasileiros que dialogam frontalmente com as obras inaugurais do &lt;em&gt;cyberpunk&lt;/em&gt;, caso de Fábio Fernandes e de alguns contos de sua coletânea &lt;em&gt;Interface com o vampiro e outras histórias,&lt;/em&gt; do ano 2000. No que chamou de “recepção análoga”, Londero se refere a material nacional que captou o espírito do tempo que marcou a obra de Gibson, mesmo sem seguir o cânone daquele e de outros escritores americanos. Um exemplo citado é o livro &lt;em&gt;Piritas siderais&lt;/em&gt;, cujo autor, Guilherme Kujawski afirmou em entrevista ao pesquisador que desconhecia o próprio termo &lt;em&gt;cyberpunk&lt;/em&gt;, apesar das semelhanças entre sua obra, de 1994, e as temáticas do movimento criado uma década antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nível a que o artigo dedica mais espaço levou o nome de “indireto” e seria o de obras brasileiras que dialogam com trabalhos precursores da ficção &lt;em&gt;cyber&lt;/em&gt;. Neste conjunto de textos que compartilham um repertório semelhante ao dos americanos – por exemplo, a influência do filme &lt;em&gt;Blade Runner&lt;/em&gt;, do diretor Ridley Scott – estão as criações do cantor e performer Fausto Fawcett, como o livro &lt;em&gt;Santa Clara Poltergeist&lt;/em&gt;, de 1991.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ficção científica e o despertar do interesse científico: o fator eureka” é o nome da contribuição mais atípica da coletânea. De autoria do jornalista especializado em divulgação científica e em letras e literatura Alfredo Suppia, o texto é o único que prioriza exemplos vindos do cinema no lugar da literatura, para demonstrar como este gênero é capaz de despertar o interesse do público pela ciência. São vários os filmes que o autor analisa para comprovar sua tese, entre eles duas películas nacionais, &lt;em&gt;Parada 88: limite de alerta&lt;/em&gt;, dirigido em 1988 por José de Anchieta, e &lt;em&gt;Abrigo nuclear&lt;/em&gt;, feito em 1981 com a direção de Roberto Pires. Ambas as histórias são distopias ecológicas, retratando futuros próximos em que o meio ambiente se encontra irremediavelmente modificado pela ação humana. Seja nas citações locais ou nas internacionais, o artigo busca apresentar exemplos daquilo que o autor denominou de “fator eureka”, ou seja, o elemento sedutor capaz de familiarizar a audiência com temáticas da ciência real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez o artigo com interesse menos universal do conjunto seja o que vem a seguir. “História e representação: o jogo de memória e realidade em &lt;em&gt;O homem do castelo alto&lt;/em&gt;, de Philip K. Dick” tem como objeto de pesquisa um dos romances mais conhecidos do consagrado autor americano. A obra de 1962, recentemente republicada no Brasil pela editora Aleph, imaginou uma história alternativa em que os vencedores da II Guerra Mundial foram os japoneses e os alemães, povos que dividiram entre si os Estados Unidos. O &lt;em&gt;paper&lt;/em&gt; foi escrito pelo então doutorando Anderson Gomes e trata dos vários modos com que o “passado real” se relaciona com a “narrativa imaginada” naquela obra. Este é o texto que mais exige um conhecimento prévio do leitor nos temas abordados em suas páginas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quinto artigo foi escrito por um autor que teve sua obra na ficção analisada em outro texto do mesmo livro, traduziu o romance que foi tema do capítulo anterior e que também escreveu um dos já citados livros teóricos sobre FC lançados na última década. Fábio Fernandes, doutor formado na área de comunicação e semiótica da PUC-SP, produziu a coletânea &lt;em&gt;Interface com o vampiro e outras histórias&lt;/em&gt;, foi o tradutor da edição mais recente de &lt;em&gt;O homem do castelo alto&lt;/em&gt; e lançou em 2006 &lt;em&gt;A construção do imaginário cyber: William Gibson, criador da cibercultura&lt;/em&gt;. No texto “Para ver os homens invisíveis: a Intempol e sua influência na literatura de ficção científica brasileira”, ele faz um estudo de caso do universo compartilhado criado pelo escritor Octavio Aragão, baseado em uma polícia internacional do tempo, que mobilizou dezenas de outros escritores nacionais em um projeto comum que abrange várias mídias. O autor do texto aponta o projeto Intempol como um exemplo possível para vencer aquilo que o jornalista e editor catarinense Dorva Rezende definira como sendo a invisibilidade cultural que atinge a FC nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um artigo que bem poderia render livro à parte é “A ficção científica no cordel”. Seu autor é outro escritor cuja obra serviu de tema para alguns dos outros colegas da coletânea e que também já havia contribuído com duas obras teóricas sobre a FC, uma lançada em 1985, &lt;em&gt;O que é ficção científica?, &lt;/em&gt;e outra publicada 20 anos depois, &lt;em&gt;O rasgão no real: metalinguagem e simulacros na narrativa de ficção científica&lt;/em&gt;. Braulio Tavares faz a inusitada comparação entre a literatura de cordel e os formatos em que foram publicadas várias das histórias de FC no exterior, como as &lt;em&gt;dime novels&lt;/em&gt; ou as &lt;em&gt;pulp magazines&lt;/em&gt;. Para isso examina duas obras representativas, uma escrita em Portugal e outra no nordeste brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contribuição lusitana é &lt;em&gt;O balão aos habitantes da lua&lt;/em&gt;, um livreto em verso escrito em 1819 por José Daniel Rodrigues da Costa. Nele, se narra a aventura do personagem Robertson, um aventureiro que conseguiu chegar à lua e contatar seus habitantes viajando a bordo de um balão. Um exemplo equivalente encontrado no Brasil foi o folheto &lt;em&gt;História do homem que subiu em aeroplano até a lua&lt;/em&gt;, de João Martins de Athayde, publicado no Recife em 1923. O protagonista desta segunda história, tembém narrada em versos, levou o nome de Baratão e foi outro que travou contato com selenitas. O artigo é uma rica e bem documentada análise que termina com esta conclusão: “cordel e FC são hoje primos em terceiro grau, mas sua acestralidade em comum não pode ser ignorada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro escritor de ficção e pesquisador da área assina o sexto artigo do livro. Roberto Causo escreveu &lt;em&gt;Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950&lt;/em&gt; em 2003 e o romance &lt;em&gt;A corrida do rinoceronte&lt;/em&gt;, três anos depois, além de manter atualmente uma coluna sobre FC no site Terra Magazine. Com o artigo “O poeta que viu o disco voador”, o bacharel em letras português/inglês pela USP faz a análise da noveleta &lt;em&gt;O 31º peregrino&lt;/em&gt;, publicada em forma de livro em 1993, pelo premiado escritor Rubens Teixeira Scavone. Aquele texto foi uma espécie de continuação informal de uma das obras mais significativas da história literária inglesa, os &lt;em&gt;Contos da Cantuária&lt;/em&gt;, escrita pelo poeta inglês do século XIV Geoffrey Chaucer. A obra original contava como 30 peregrinos a caminho de Canterbury, para visitar o jazigo do arcebispo Thomas Beckett, faziam uma parada em uma hospedagem para compartilhar suas histórias. O brasileiro Scavone inseriu um novo personagem àquela narrativa, 650 anos depois, e com ele acrescentou uma carga de ficção científica e horror fantásticos ao cenário medieval, feitos esses analisados por Causo em seu &lt;em&gt;paper&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O penúltimo artigo da coletânea guarda a particularidade de ter sido escrito com uma visão estrangeira sobre a produção de FC do Brasil. Sua autora é a americana M. Elizabeth Ginway, que já havia publicado um livro sobre o assunto em 2005, &lt;em&gt;Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidades no país do futuro&lt;/em&gt;, e é professora adjunta de literatura portuguesa e brasileira na Universidade da Flórida. Em “A cidade pós-moderna na ficção científica brasileira”, a brasilianista enfatiza a importância dos aglomerados urbanos em várias histórias de FC produzidas no país. Como não poderia deixar de ser, as metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo assumem um papel de destaque nos exemplos dados. Seja em contos, como “Jogo rápido”, do já citado Braulio Tavares, texto incluído na coletânea &lt;em&gt;A espinha dorsal da memória&lt;/em&gt;, de 1989, ou “Feliz Natal, vinte bilhões”, de Henrique Flory, publicado no livro &lt;em&gt;A pedra que canta e outras histórias&lt;/em&gt;, de 1991, que mostram respectivamente a capital fluminense e a paulista como ambientes superpopulosos e ultraviolentos. A pesquisadora também analisa romances do &lt;em&gt;cyberpunk&lt;/em&gt; nacional, alguns já citados anteriormente. Curiosamente, como ela chama a atenção, todos protagonizados por personagens negros: os dois ambientados no Rio, &lt;em&gt;Silicone XXI&lt;/em&gt;, de Alfredo Sirkis, escrito em 1985, e o já mencionado &lt;em&gt;Santa Clara Poltergeist&lt;/em&gt;; além do paulistano &lt;em&gt;Piritas siderais&lt;/em&gt;, também já comentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem fecha a parte ensaistíca do livro é Ramiro Giroldo, por sinal o tradutor para o português do artigo da professora Ginway. A segunda contribuição de Giroldo na coletânea é o texto “Outra utopia”, um adiantamento do tema de sua dissertação de mestrado em estudos da linguagem na UFMS: a análise do romance &lt;em&gt;Amorquia&lt;/em&gt;, publicado em 1991 e de autoria de um dos mais prestigiados escritores de ficção científica do Brasil, André Carneiro. O estudo do mestrando propõe uma interpretação daquele livro, sobre um mundo futurista em que a entrega de seus cidadãos aos prazeres sexuais são amplamente incentivados pela sociedade. A discussão segue sobre os limites e as diferenças entre utopias e distopias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao já anunciado conto que encerra &lt;em&gt;Volta ao mundo da ficção científica&lt;/em&gt;, o autor é justamente André Carneiro. Precursor nos estudos sobre o gênero no Brasil, é dele o livro que os organizadores desta coletânea apontam como sendo o pioneiro no país, &lt;em&gt;Introdução ao estudo da “science fiction”, &lt;/em&gt;de 1967. Carneiro teve seu trabalho publicado em mais de uma dezena de países e escreveu a noveleta “A escuridão”, que lidera a maioria das listas sobre qual é o melhor texto de FC nacional de todos os tempos. O conto que aparece no livro se chama “Pensamento”, e conta a história de um casal de pesquisadores envolvidos em uma experiência considerada proibida pelas autoridades: a clonagem de um cérebro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-5727262570060587844?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/5727262570060587844/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=5727262570060587844' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5727262570060587844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5727262570060587844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/10/viagem-ao-centro-da-fc.html' title='Viagem ao centro da FC'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-5847406312087236823</id><published>2008-08-15T10:28:00.000-07:00</published><updated>2008-08-15T10:30:52.151-07:00</updated><title type='text'>Ficção científica semestral</title><content type='html'>No início da década de 90, durante pouco mais de dois anos, leitores brasileiros de ficção científica viram nascer, prosperar e morrer a mais importante iniciativa para difundir por aqui o que de melhor se produz neste gênero. Enquanto durou, a edição nacional da Isaac Asimov Magazine trouxe todos os meses a preço acessível e com distribuição ampla alguns dos mais importantes escritores de FC de todos os tempos: além do senhor que emprestava o nome à publicação, invadiram as bancas gente do nível de Orson Scott Card, Frederik Pohl, Geoffrey Landis, David Brin, Octavia Butler entre muitos outros. Mais que isso, a revista também abriu espaço para talentos locais que não fizeram feio ao dividir páginas com estrangeiros já consagrados, como Gérson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho, Jorge Luiz Calife, André Carneiro e Maria Helena Bandeira. Apesar de não chegar a dar prejuízo, os resultados comerciais não foram o esperado pela editora responsável, a Record, uma das grandes do mercado brazuca. Com o seu fim, toda uma geração de órfãos da IAM passou a se lamentar pela falta de projetos semelhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 15 anos o quadro mudou muito pouco, apenas com alguns fanzines impressos e sites tentando manter atualizada a produção de escritores que ainda não haviam realizado o sonho do livro próprio. Porém, 2008 parece querer se firmar como um ano em que ao menos parte do vácuo deixado pelo fim daquele importante marco editorial pode ser preenchido. Neste segundo semestre, começam a se consolidar iniciativas neste sentido, com projetos coerentes que podem dar novo fôlego à ficção especulativa nacional. Talvez a proposta mais ambiciosa desta nova fase seja uma revista de título mutante que pretende apresentar, a cada seis meses, uma nova leva de autores, mesclando nomes conhecidos neste meio com outros mais identificados com a chamada literatura mainstream. Quem está capitaneando o empreendimento é o escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, conhecido por organizar coletâneas de qualidade dentro do gênero fantástico – e que está preparando uma nova para ser lançada ano que vem pela mesma Record da falecida IAM, cujo título será Futuro presente: dezoito ficções sobre o futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem. Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica; pela ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado: o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita em uma fase posterior. Neste primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil. Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cada portal é um organismo cibernético multidimensional, sem forma ou conteúdo definidos, acionado pela fantasia e pelos desejos de quem o utiliza”, escreveu Oliveira no texto de apresentação do número de estréia do projeto. “Juntos, os seis portais funcionam como o aleph do célebre conto de Borges. Juntos, os seis portais formam o ponto de onde é possível enxergar todos os pontos do uiverso. Ou ser por eles enxergado”. A forma com que este primeiro Portal se manifestou é a de uma revista em preto e branco, com 106 páginas e dimensão de 16 por 23 centímetros. O requinte gráfico se manifesta no belo projeto gráfico, de sobriedade elogiável, e na excelente capa, um estudo caligráfico do título da publicação, assinado Teo Adorno. Até a revisão, feita por Mirtes Leal, está muito acima da média dos lançamentos nacionais, aí incluídos livros e revistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao conteúdo, Oliveira reuniu 14 contos de dez autores de nada menos que sete estados do país, dando uma ótima amostra contemporânea, e em escala verdadeiramente nacional, do que se produz em termos de ficção fantástica. A escolha dos convidados contemplou alguns nomes conhecidos de quem acompanha a FC nacional e outros que se mostram uma boa novidade na área. O mais veterano, sem dúvida, é Roberto de Sousa Causo, um dos escritores nacionais premiados e publicados pela já citada IAM (a noveleta “Patrulha para o desconhecido” foi impressa no número 14). Em sua contribuição para o Portal Solaris, o paulista, autor de A corrida do rinoceronte e responsável por uma coluna semanal sobre FC para uma página da internet, apresentou o conto “Rosas brancas” – dedicado ao americano Philip K. Dick – cuja temática bélica futurista faz parte de suas marcas registradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ataíde Tartari, morador de Santos, já participou da coletânea de contos de um subgênero da FC, a história alternativa, chamada Phantástica brasiliana e publicou livros originalmente escritos em inglês, como Tropical shade. Para a revista, ele escreveu um texto que presta homenagem ao clássico Um estranho numa terra estranha, do também americano Robert Heinlein, a começar pelo título, que cita quase literalmente o protagonista daquele romance, “Valentim”. O outro paulista do time, Ivan Hegenberg, divide a coordenação do projeto com seu conterrâneo Nelson de Oliveira. Ele estreou na área da FC com seu segundo livro, a distopia futurista Será, já resenhado &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/nao-veras-mundo-nenhum"&gt;aqui&lt;/a&gt; no Overmundo, de onde extraiu os dois contos publicados em Portal Solaris. “Dia qualquer” e “Mastch” deixam claro, respectivamente, a influência que Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche exerceram sobre o jovem escritor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os demais colaboradores vieram de todas as regiões do Brasil e de além mar. Carlos Emílio C. Lima, autor de O romance que explodiu, é do Ceará; Carlos Ribeiro (Lunaris), da Bahia; Geraldo Lima (A noite dos vagalumes), de Brasília; Homero Gomes (Sísifo desatento), do Paraná; Luiz Bras (A última guerra), mora em Portugal; Mayrant Gallo (O inédito de Kafka), da Bahia e Rogers Silva (Manicômio, livro ainda inédito), de Minas Gerais. Porém, como deixou claro naquele editorial, Nelson de Oliveira pretende mudar não só o título a cada edição, mas também variar forma e conteúdo de sua série de portais. Interessados em participar de alguma maneira desta iniciativa, podem contatar o coordenador editorial pelo e-mail &lt;a href="mailto:oliveira.e.cia@uol.com.br"&gt;oliveira.e.cia@uol.com.br&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-5847406312087236823?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/5847406312087236823/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=5847406312087236823' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5847406312087236823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5847406312087236823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/08/fico-cientfica-semestral.html' title='Ficção científica semestral'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8116798151232071730</id><published>2008-05-03T13:04:00.000-07:00</published><updated>2008-05-03T13:11:30.229-07:00</updated><title type='text'>Complexo de Chronos</title><content type='html'>Milênios antes de o engenho humano tê-lo tornado possível, nosso velho sonho de voar como os pássaros ganhou a forma de uma lenda, na Grécia antiga. Histórias como a de Ícaro anteciparam e mobilizaram a vontade de um número incontável de pessoas ao longo das eras, servindo ora como fonte de inspiração ora como alerta. De certa maneira, a ficção científica pode ser considerada sucessora dessa linhagem de narrativas mitológicas, com o diferencial de ter substituido a intervenção dos deuses por uma dose – em alguns casos, ligeira pitada – de empreendedorismo humano e de conhecimento aplicado. Um exemplo prático desse moderno cânone mitológico foi o primeiro livro de um dos desbravadores do gênero literário: &lt;em&gt;A máquina do tempo&lt;/em&gt;, de H. G. Wells. O escritor inglês fundou um novo mito quando fez seu Ícaro anônimo desafiar não os céus mas aquilo que chamou de quarta dimensão, em uma viagem ao futuro. A idéia por trás da obra de 1895 permanece como referência a gerações de escritores do mundo inteiro e, no Brasil, curiosamente, tem servido como porta de entrada para debutantes da FC. O Universo Intempol é um caso exemplar, pois surgiu no conto de estréia de seu criador, Octavio Aragão, e logo se tornou a oportunidade para lançar vários iniciantes, como Jorge Nunes. Fora daquele ambiente, &lt;em&gt;time travel&lt;/em&gt; também vem sendo o mote dos romances de outros viajantes. Assim foi com Osíris Reis e o capítulo inicial de sua saga, &lt;em&gt;Treze milênios&lt;/em&gt;, e é assim com o objeto de atenção deste texto, o primeiro romance do paulistano filho de húngaros Tibor Moricz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O título do livro, lançado na primeira metade de 2007, já remete àquela idéia da ancestralidade das antigas mitologias na árvore genealógica da ficção científica: &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt;. Esse é o nome do cão monstruoso que vigia a saída de Hades, a terra dos mortos, nas lendas gregas, um ser que enfrentou o herói Orfeu e o semideus Héracles – ou, Hércules, para os latinos. Na capa da obra, em uma pintura de William Blake – curiosamente não creditada em parte alguma da publicação – a criatura aparece na forma mais conhecida, com as três cabeças prontas para destroçar quem tentasse fugir do destino pós-vida. A explicação para se evocar a besta-fera só vai chegar ao leitor na página 280, quando faltam pouco mais de 50 para o fim do texto. O protagonista da obra, narrador da trama, queixa-se de seus azares: “Por que eu? Estou mergulhado nessa sopa de impressões até o pescoço. Vivo às portas do inferno, enlouquecido pela inconstância e pela dúvida. Nem dentro nem fora. Sinto-me como Cérbero. Não serei eu a viver deslocado da realidade? Uma pessoa à margem da história? Afastado da verdade, uma sombra?”. Só que não é ao reino de Hades que esse Cérbero involuntário está subordinado. Pode-se dizer que o destino dele se perdeu nos domínios de Chronos, aquele que, na mitologia grega, personifica o tempo, um ente que já existia antes mesmo de surgirem os primeiros titãs, deuses ou humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos ao enredo para tentar entender o porquê daquele desabafo shakespeareano feito pelo protagonista quase ao fim da jornada. Antes de mais nada, o nome do personagem em questão é Leonard Cameron e não, ele não é brasileiro. A história contada em &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt;, apesar de começar em uma data de forte simbologia para o Brasil – em “algum dia de abril de 1964”, coincidindo, portanto, com o primeiro sinal da última ditadura que vivemos neste país – se passa inteiramente nos Estados Unidos. O início ocorre, mais precisamente, no dia 18 de abril de 1964, em uma pequena cidade do estado de Massachussets, chamada Greenville. Durante um piquenique em família, quando ele contava com dez anos de idade, um acontecimento marca o fim da infância de Leonard. O rapaz presencia o assassinato do pai, Robert Cameron, um político progressista com boas chances de se tornar senador, morto com um tiro na testa desferido por um criminoso nunca descoberto. Além de político em ascensão, Robert era o ídolo máximo do filho. Testemunhar o crime marca de tal forma o garoto que o mundo dele começa a perder o sentido na mesma hora. Ao longo de toda a narrativa, de modo obsessivo, a mente dele sempre divaga e retorna ao mesmo ponto, àquela primeira década de vida feliz ao lado da figura paterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonard Cameron tem uma chance de realmente voltar fisicamente àquele período do tempo, muitos anos depois do atentado. Em fevereiro de 2004, já com 50 anos, leva uma existência banal, sem amigos, sem amantes, sem parentes. Depois de se formar de modo não muito brilhante em física pela Universidade de Yale, conseguiu emprego em uma instalação particular de pesquisa no estado de Connecticut. Como superintendente de Operações da Fundação Leicester, surge a oportunidade de acompanhar e de favorecer com relatórios positivos – algo que representa verbas mais generosas e maior liberdade de ação – certo experimento de um dos cientistas da instituição, Barnard Caldwell. Trata-se de um equipamento que, aparentemente, permite deslocamentos no tempo com o vetor oposto ao da máquina imaginada por Wells no século XIX, sempre para o passado. Uma rápida explicação para o funcionamento do maquinário é dada na página 29. “Para facilitar, a descoberta final foi a seguinte: o tempo não é linear. Ele se comporta como uma corda com suaves ondulações. Barnard chamou cada ondulação de arco”, simplifica Leonard e complementa a seguir: “Imagine uma reta imaginária cortando essa corda no meio. Teremos vários arcos, cada qual com uma extensão de tempo definida. Cada extensão de tempo exatamente igual a 28h17m06s. Ou seja, qualquer coisa que volte ao passado, ocupará um dos arcos na corda de tempo de milhões de anos de nosso planeta”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso, foram abertas as portas para o atormentado Cérbero desafiar a lógica paradoxal de Chronos em sucessivas viagens com o objetivo de salvar Robert Cameron e mudar o próprio destino. Os efeitos colaterais não demoram a surgir. Alguns são puramente fisiológicos e, relativamente, fáceis de se contornar: após cada deslocamento, a cobaia humana perde grande quantidade de líquidos corporais, sofre de sensibilidade à luz e fica bastante desorientada. Outras implicações são mais complicadas de se descrever e bem mais graves. Além de emprestar certo ar sobrenatural a várias passagens do livro – mesmo que existam explicações racionais, ligadas à física de partículas – elas conseguem tornar a existência de Leonard cada vez mais miserável. Porém, por mais bem conduzidas que sejam as jornadas físicas ao passado, as mesmas que fazem a alegria dos fãs de FC, o grande curinga do livro está nas reminiscências do protagonista. A todo momento, mesmo em meio à mais fantástica experiência científica já realizada, a consciência do homem sempre volta a divagar por aquele período de seus primeiros 10 anos de vida, juntando peças e dando pistas falsas sobre acontecimentos dos quais os leitores acompanham desdobramentos cada vez mais complicados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor se revela muito competente neste jogo de idas e vindas na narrativa e no tempo. Talvez o melhor exemplo esteja na abertura, no prólogo que antecede os curtos capítulos da obra. Naquelas 30 primeiras páginas, os momentos em que o narrador descreve pequenos detalhes de sua infância são carregados de impressões táteis, olfativas, gustativas, visuais e auditivas: a travessura com uma bicicleta, a última pescaria com o pai, os primeiros momentos do piquenique trágico, a posição do vento, a altura da grama. O contraste fica evidente com o desdém insensível, inodoro, insípido, translúcido e taciturno com que são comentados os eventos após a morte de Robert: a adolescência solitária, a primeira transa, a vida universitária, o emprego aborrecido e mesmo a dinâmica por trás da viagem no tempo. Ao longo das páginas, há outros bons exemplos desse controle narrativo seguro e eficiente que ajudou a dar forma a um dos mais bem construídos personagens da ficção científica nacional, dono de uma série de camadas de vida interior e de mudanças de humor que o tornam excepcionalmente crível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, se o destaque fica para o lado psicológico de Leonard, a parte mais dinâmica também é uma atração e tanto. Por força das circunstâncias, no vaivém cronológico, ele é forçado a entrar em ação a todo instante, a se meter em lutas corporais, perseguições, fugas e afins, apesar de ser uma pessoa reconhecidamente fora de forma depois de meio século de ócio improdutivo. A sequência em que ele invade uma propriedade murada é especialmente digna de atenção e, provavelmente, carrega algo de auto-ironia, uma vez que a criatura é apenas cinco anos mais velha que seu criador, nascido em 1959. Tibor Moricz se mostra um ótimo escritor nessas pequenas partes que formam o seu romance de estréia. Não é de se estranhar que ele, um publicitário na metade profissional de sua vida, tem recebido prêmios por narrativas mais curtas. Dois de seus contos de temática FC já levaram honrarias que prestam homenagem a autores consagrados do gênero. No XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, “Ordem Crepuscular” – história de ambientação espacial à &lt;em&gt;Jornada nas estrelas&lt;/em&gt; – foi uma das vencedoras. Da mesma forma, um exercício de estilo também sobre questões temporais, “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, ganhou o I Prêmio Braulio Tavares, promovido pela maior comunidade em língua portuguesa dedicada à ficção científica do Orkut.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No conjunto de capítulos que formam o romance de 332 páginas, o autor também se sai bem, já que mantém um domínio da trama que, em mãos menos habilidosas, poderia fazer daqueles arcos e cordas temporais um verdadeiro nó cego. Pelo menos na maior parte do tempo. Quase ao final da obra, quando chega o momento de aparar as pontas dos paradoxos cronais e da parte policial, algo acaba sobrando. Apesar de um personagem prometer que “nada ficará sem justificação”, pelo menos uma pergunta se mantém sem resposta e dá a impressão de que este mesmo personagem, pelas regras do jogo, sabe mais do que deveria. É como um gol de mão em nosso time aos 44 do segundo tempo. A rigor, poderia ser uma deixa e tanto para um próximo livro e o enredo de &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt; se prestaria perfeitamente a uma obra derivada, contada sob um outro ponto de vista, resultando em algo ao mesmo tempo complementar e com vida própria. Material assim já foi feito na literatura de FC pelo americano Orson Scott Card, em sua saga de Ender; ou ainda, para ficar no subgênero da viagem no tempo, em certos momentos da trilogia cinematográfica &lt;em&gt;De volta para o futuro&lt;/em&gt;. Resta saber se esta é mesmo a intenção do autor e, claro, se o mercado nacional estaria maduro o suficiente para esse tipo de franquia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora isso, escaparam alguns deslizes no texto que não resistiriam a uma revisão mais rigorosa. A maioria dos casos é de redundâncias, como aquele “imagine uma reta imaginária” do trecho citado páragrafos atrás. Mas há mais, há olhos que olham, pilhas de coisas empilhadas, elos que fazem ligação, pessoas certas de suas certezas, quem encara algo de frente e sobe em cima de algum objeto. Nada que comprometa o prazer de se ler uma boa trama bem contada, todavia são detalhes que poderiam ser resolvidos facilmente na edição. Mas a editora responsável pelo lançamento – JR, mais conhecida por trabalhar com publicações espíritas – também tem seus méritos por publicar uma obra muito bem acabada, com diagramação e tipologia agradáveis. Ficam registradas a ausência do crédito da pintura de capa e uma sugestão para aumentar a gramatura das páginas: em um livro repleto de paradoxos e de pistas espalhadas pelo texto, virar e revirar as folhas é uma necessidade constante. Quando elas são muito finas, como neste caso, acidentes tendem a acontecer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tibor Moricz, apesar de ter se lançado tardiamente ao mercado – nos textos de apoio do livro, informa-se que ele escreve desde a adolescência, mas vinha resistindo a publicar seu material –, mostrou-se uma ótima contribuição à FC nacional e ainda promete outras obras para breve. A mistura de viagem no tempo, aventura policial e romance psicológico tornam &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt; um dos livros de literatura fantástica mais interessantes lançados nesta última, e produtiva, década no país. Quanto aos apaixonados por aquela neomitologia fundada por H. G. Wells, há pouco mais de 110 anos, esses ganharam uma nova obra para influenciar mais sonhos que envolvam desafios aos limites impostos por Chronos. Sonhos que vão continuar enquanto ciência e tecnologia não os tornarem realidade, como elas fizeram com nosso desejo de voar. A vantagem é que isso até pode demorar outros tantos milênios, a exemplo dos que separaram a lenda de Ícaro da invenção do avião; afinal, no caso das viagens no tempo, alguns milênios a mais ou a menos não representam nada no fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Serviço:&lt;/strong&gt;&lt;!-- BBCode auto-link start --&gt; O livro pode ser comprado virtualmente na Saraiva, Cultura, Fnac e Cia dos Livros. O preço normal é R$ 38 reais, mas ele está em promoção por R$ 24,50 no &lt;a href="http://www.submarino.com.br/" target="_blank"&gt;www.submarino.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8116798151232071730?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8116798151232071730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8116798151232071730' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8116798151232071730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8116798151232071730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/05/complexo-de-chronos.html' title='Complexo de Chronos'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-7175746505174287357</id><published>2008-05-03T13:00:00.000-07:00</published><updated>2008-05-03T13:03:41.377-07:00</updated><title type='text'>Acidental feito pedra no caminho</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Romancista estreante e contista premiado, como leitor ele se define atípico e como escritor de ficção científica diz que o gênero surgiu em sua vida feito uma topada numa pedra. O primeiro romance dele, &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt; - no qual um homem de meia idade viaja 40 anos ao passado para tentar salvar o idolatrado pai de ser assassinado - é uma amostra de seus objetivos literários: um autor que pretende utilizar ferramentas do gênero para tratar das angústias humanas, dos dilemas do indivíduo. Na entrevista a seguir, o paulistano comenta os motivos para ter situado o livro em um cenário estrangeiro, descreve um pouco do método quase mediúnico de escrita e aproveita a experiência como publicitário para analisar as estratégias possíveis para se popularizar a FC no Brasil. Com vocês, o sobrinho-neto do escritor e dramaturgo húngaro Zsigmond Moricz (1879-1942), Tibor Moricz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você lançou seu primeiro livro com praticamente a mesma idade do protagonista da obra, às vésperas de completar 50 anos. Mas, nos textos de apresentação de &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt;, é dito que você escreve desde a adolescência. Há muitos outros textos seus, quer sejam ou não de ficção científica ou de literatura fantástica em geral, já elaborados e aguardando publicação?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo ter escrito ao longo da minha vida centenas de contos. Todos eles perdidos nas mudanças que realizei ou devorados pelas baratas. Tenho dois romances prontos. Mas a editora cometeu um exagero quando disse que eles estavam no prelo. Na verdade não tenho nenhuma intenção de publicá-los. Um deles é uma fantasia medieval que cheguei a reescrever quatro vezes procurando aprimorá-lo; o outro, um livro de aventura e sobrenatural que, embora seja relativamente bom, está longe de me agradar inteiramente. E quando não me sinto seguro com algum escrito, não o torno público. Jamais. Há um terceiro, mas este foi escrito recentemente, tem o título de &lt;em&gt;Fome&lt;/em&gt; e se encontra nas mãos de alguns editores conhecidos. Acredito muito na sua publicação. O conto que abre o livro está disponível na internet e já foi lido por muitos. Chama-se “O caçador”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Depois de tanto tempo escrevendo antes de se lançar às livrarias, por que você escolheu a FC como tema do romance de estréia? De onde veio seu interesse pelo gênero e que autores você costuma ler e lhe servem de referência? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez eu disse que a FC aconteceu na minha vida da mesma maneira que uma pedra acontece na vida de algum passante distraído. Foi uma topada acidental. Ocorreu de elaborar uma história cuja temática central era de viagem no tempo. Resisti muito a aceitá-lo como ficção científica porque meu objetivo era – e sempre será – o homem. O indivíduo. Suas incertezas, seus medos, suas imperfeições. Utilizei a poderosa máquina de Barnard Caldwell apenas para dar uma base segura ao argumento principal que era o amor de um filho pelo pai. Com o passar do tempo fui me ajeitando dentro desse novo contexto e comecei a aceitar o fato de ter escrito uma obra de ficção científica. Justamente por ter sido um evento acidental não posso dizer que fui influenciado por esse ou aquele autor do gênero. Sou um leitor diferente. Em muitos aspectos, atípico. Desde a pré-adolescência venho lendo quase tudo o que me cai nas mãos. Muito mais literatura &lt;em&gt;mainstream&lt;/em&gt; que de gênero, embora tenha lido Isaac Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, Robert Silverberg e outros. Considero-me atípico porque não lembro os livros que li, a não ser uma meia dúzia que por essa ou aquela razão me marcaram. Nesses, incluo &lt;em&gt;Sexus&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Nexus&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Plexus&lt;/em&gt; de Arthur Miller, &lt;em&gt;A insustentável leveza do ser&lt;/em&gt; de Milan Kundera, &lt;em&gt;Complexo de Portnoy&lt;/em&gt; de Philip Roth, &lt;em&gt;Fome&lt;/em&gt; de Knut Hamsun, &lt;em&gt;Os sete minutos&lt;/em&gt; de Irving Wallace e outros mais recentes que ainda não foram removidos para o arquivo morto da minha memória (rsrs). Minha maior influência veio mesmo da TV e do cinema. Fui um entusiasta de &lt;em&gt;Perdidos no espaço&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Jornada nas estrelas&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Túnel do tempo&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Viagem ao fundo do mar&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Star wars&lt;/em&gt; e quaisquer outros filmes ou séries nessa temática. Assim, posso dizer que minhas referências literárias vêm de uma imensa sopa de impressões obtidas com a leitura de livros dos mais diversos gêneros, a esmagadora maioria completamente esquecida por mim atualmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Foi feita muita pesquisa para compor a trama de &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt;, tanto nos aspectos técnicos da viagem no tempo, envolvendo algumas teorias de física; quanto na construção psicológica do personagem principal, Leonard Cameron; ou ainda no cenário do livro, que se passa inteiramente em cidades de porte médio dos EUA?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Média. A construção psicológica do personagem não exigiu pesquisa nenhuma. Saiu tudo da minha cabeça. Os detalhes técnicos sobre a viagem no tempo mereceram uma pesquisa básica já que não mergulhei de cabeça no aspecto &lt;em&gt;hard&lt;/em&gt; da ciência. Quanto ao cenário, tive que pesquisar o cotidiano e a geografia dos EUA, mas nada muito exaustivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt; Por falar na ambientação do livro, por que você optou por criar uma história que não tenha nenhum elemento, ou mesmo citação, ao Brasil ou à terra natal de seus pais, a Hungria? Em relação ao primeiro caso, foi para fugir do mito do Capitão Barbosa, como é apelidado o temor de que soe ridículo o uso de personagens e de temáticas brasileiras em um enredo de ficção científica?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ocasião eu não conhecia o mito do Capitão Barbosa, embora tivesse sido exatamente por isso que resolvi ambientar a história do livro num país estrangeiro. Não conseguia (nem consigo agora) imaginar um cientista chamado Benedito ou um “da Silva”. O cenário brasileiro contemporâneo me remete a outros argumentos ficcionais, todos eles realistas e mais condizentes com a literatura &lt;em&gt;mainstream&lt;/em&gt;. Pobreza, crime e corrupção (vividas tão de perto e intensamente) são referências desestimulantes para quem quer escrever uma boa história de FC. Pelo menos pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sua escolha por utilizar personagens e cenários americanos provocou alguma reação perceptível entre os leitores? Houve alguma crítica positiva ou negativa por ter feito tal opção?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas reações. O Fábio Fernandes comentou que perdi uma excelente oportunidade em ambientá-lo no Brasil do golpe militar. Li alguns comentários sobre o fato em algumas comunidades do Orkut. Alguns puristas reclamando da “imbecilidade” de um brasileiro ambientar sua história noutro lugar, num país estrangeiro, como se isso fosse um crime de lesa-pátria. Tudo bobagem. Mas as reações negativas foram realmente pequenas. Graças a Deus os elogios suplantam em muito as críticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt; pretende ter alguma forma de continuação, seja na forma de uma seqüência da história, seja com uma adaptação para outra mídia, ou você já explorou tudo o que tinha a dizer sobre aqueles personagens? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha cabeça não há a menor chance de escrever uma continuação para &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt;. Quanto a adaptações para outras mídias, acho-as pertinentes. Mas nem sei como poderia fazer isso. Gosto de pensar que o livro renderia um bom filme, mas sei que isso é fantasia e estamos falando de ficção científica (rsrs).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Seu livro foi publicado por uma empresa que é conhecida pelo lançamento de títulos ligados ao espiritismo – JR Editora – que nunca mostrou interesse anterior pela ficção especulativa. Como foram os bastidores dessa negociação e há possibilidade de a editora voltar a lançar outras obras do gênero, de suas ou de outros autores? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas com a JR Editora aconteceram de forma completamente inusual. Estava batalhando uma editora há dois anos sem nenhum resultado positivo. Um amigo, escritor do gênero de auto-ajuda, me convidou para uma noite de autógrafos numa livraria Siciliano próxima de casa. Fui. Lá conheci o editor, para quem enderecei todas as minhas reclamações quanto à capa abominável do livro que se homenageava naquela noite. Propuseram-me então que apresentasse uma capa melhor, que desenvolvesse um projeto. Aceitei com a condição de que o editor me auxiliasse na procura de uma outra editora para Síndrome, já que ele estava fora da linha editorial da JR. Condição aceita, iniciei o trabalho a que me propus. Duas semanas depois, numa reunião onde apresentei as opções de capa, entreguei ao editor o original de &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt;. Ele leu a sinopse e declarou interesse em publicá-lo. Coisa que acabou acontecendo um ano e meio depois. Tive muita sorte, na verdade. Quanto a possibilidade da JR Editora vir a publicar outras obras do gênero, desconheço. Mas acho que nada impede um bom argumento de ser aceito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Apesar de se lançar como escritor já com um romance, você tem sido premiado por textos mais curtos que também tratam de temas de FC. Foi assim com “Ordem Crepuscular” e com “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, respectivamente vencedores dos prêmios Ignácio de Loyola Brandão, no XI Concurso de Contos de Araraquara, e Braulio Tavares, em uma competição promovida no Orkut que em breve deverá dar origem a uma coletânea. Qual a importância desse tipo de incentivo para um autor iniciante? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que para chegar ao ponto de um autor iniciante ser premiado num concurso de contos qualquer que se pretenda sério, é necessário que ele já tenha queimado uma série de etapas anteriores. Ter escrito bastante para evoluir tecnicamente, poder dizer que desenvolveu um estilo próprio. Ter sublimado aquilo a que chamamos de talento (desde que ele exista nessa pessoa) e tê-lo transformado em ferramenta constante e não apenas efêmera e ocasional. Depois de tudo isso, um prêmio num concurso de contos é apenas a ratificação de um trabalho árduo. O verdadeiro incentivo não está nos prêmios nem nos concursos. Ele está à nossa volta. Em nós mesmos. Naquilo em que acreditamos. Naquilo que queremos para nós e para as pessoas que amamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Há alguma diferença marcante entre seu processo de elaboração de um romance e o de um conto? Poderia descrever como é sua preparação no momento em que resolve criar alguma história?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu processo criativo é, de certa forma, entrópico. Não há, na maioria das vezes, uma elaboração antecipada. Quanto muito uma idéia básica. Eu me sento para escrever e deixo o texto fluir. É quase mediúnico. &lt;em&gt;Síndrome de Cérbero&lt;/em&gt; recebeu de mim uma atenção rasteira quanto à linha geral de raciocínio que nortearia o trabalho. Resolvi o nome dos personagens, decidi que o filho tentaria salvar o pai sucessivas vezes de um assassinato e o resto foi acontecendo na medida em que escrevia. Eu era um escritor/leitor privilegiado. Conto ou romance, ambos sofrem o mesmo processo. Posso sentar, respirar fundo diante do editor de texto e começar a batucar o teclado. Colocar palavras a esmo, deixar que elas se sucedam e formem linhas, orações, páginas inteiras. Em 90% das vezes fico satisfeito com o trabalho. Ultimamente tenho permitido que a inspiração me atinja, em vez de simplesmente sentar e escrever. Deixo a mente aberta até que uma idéia surja e brilhe. Devo ter um anjo da guarda literato que me sopra as idéias, talvez até um anjo familiar já que meu tio-avô Zsigmond Moricz foi um dos escritores mais importantes da Hungria no século passado (rsrs).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aproveitando da sua experiência profissional como publicitário, você poderia sugerir alguma estratégia para popularizar a ficção científica entre o público brasileiro? O que está faltando para atingir maiores mercados consumidores para o gênero? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa questão me lembra um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou a cobra Ouroboros. Não há jornalismo literário especializado no país, o que dizer então em relação à literatura de gênero. Por outro lado, não temos um gênero especializado no país, que dirá um jornalismo que o respeite. O que quero dizer é que faltam obras verdadeiramente respeitáveis, que chamem a atenção pela inequívoca qualidade. Trabalhos que, pela virtude técnica, poderiam lutar ombro a ombro com a literatura &lt;em&gt;mainstream&lt;/em&gt;. Trabalhos que valorizem não apenas uma boa idéia, mas também o poder narrativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indo direto ao ponto, precisamos primeiro produzir obras de inegável qualidade para depois reclamar a falta de atenção da mídia. Claro que campanhas publicitárias ajudariam, mas qual editora investiria num autor brasileiro de futuro ignorado? Já é uma luta conseguir uma que aceite nos publicar, convencê-las a nos bancar publicitariamente é quase uma alucinação. Não resta alternativa senão usar e abusar dos recursos que a internet nos fornece. Divulgar nossos trabalhos e nomes em blogs, comunidades, sites diversos, explorar ferramentas como o Youtube. E contar com a sorte. Ela às vezes dá as caras. Temos que estar atentos para agarrá-la nessa hora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-7175746505174287357?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/7175746505174287357/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=7175746505174287357' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/7175746505174287357'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/7175746505174287357'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/05/acidental-feito-pedra-no-caminho.html' title='Acidental feito pedra no caminho'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-6387320776046508585</id><published>2008-05-01T08:36:00.000-07:00</published><updated>2008-05-01T08:38:11.515-07:00</updated><title type='text'>O retorno do príncipe</title><content type='html'>Pode parecer bizarro para a maioria das pessoas dizer que uma das séries cinematográficas mais identificadas com a ficção científica não é classificada como tal pelos críticos mais puristas. Para boa parte dos especialistas, faltaria às duas trilogias de &lt;em&gt;Guerra nas estrelas&lt;/em&gt; especifidades para inclui-las naquela classificação. Faltaria, basicamente, ciência, a busca pelo conhecimento para sustentar as proezas tecnológicas imaginadas nos anos 70. O argumento é que todo o cenário espacial pode ser substituído por equivalentes low tech sem causar prejuízo à epopéia dos Skywalker. Algo que a série de livros iniciada com &lt;em&gt;Eragon&lt;/em&gt; – que até já foi adaptado para o cinema – de autoria do jovem Christopher Paolini, parece tentar provar, ao trocar os sabres de luz por espadas comuns, naves por dragões e ainda assim manter quase intocado o núcleo da saga jedi. Segundo esse ponto de vista, mesmo sendo sinônimo de FC para milhões de fãs, a obra mais famosa de George Lucas deveria ser etiquetada como fantasia tecnológica, e seria mais aparentada dos escritos de J.R.R Tolkien que dos textos de H.G. Wells. Sempre que a questão é levantada na presença, física ou virtual, de cultuadores de FC, mobiliza opiniões entusiasmadas. Desde o final de 2007, esse tão controverso gênero fronteiriço ganhou um novo representante literário para alimentar mais discussões: &lt;em&gt;Hegemonia – O herdeiro de Basten&lt;/em&gt;, livro escrito por Clinton Davisson e lançado pela editora Arte e Cultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de o nome do autor não dar pistas – ele foi batizado em homenagem a um físico americano vencendor do prêmio Nobel –, trata-se, sim, de uma obra nacional. Davisson nasceu em Volta Redonda, formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, de Minas Gerais, e voltou ao estado do Rio de Janeiro, mais exatamente à cidade de Macaé, onde trabalha como jornalista e cartunista. Ele já havia se aventurado na FC em 1999, ao lançar um livro que misturava futebol e futurismo, &lt;em&gt;Fáfia – A copa do mundo de 2022&lt;/em&gt;, mesma proposta da coletânea &lt;em&gt;Outras copas, outros mundos&lt;/em&gt; publicada um ano antes. Mas &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; é uma aposta mais ambiciosa. A idéia básica acompanha o autor há mais de 30 anos, desde que tinha apenas cinco anos de idade, e, segundo informaçõe nos textos de apresentação da obra, a produção do texto consumiu sete anos: no ano 2000, uma versão prévia da trama ficou em terceiro lugar no concurso promovido por uma revista especializada no gênero, a &lt;em&gt;Sci Fi News&lt;/em&gt;. Todo esse trabalho foi feito para estruturar o livro que se pretende o primeiro não de uma, mas de duas trilogias – e essa é apenas mais uma semelhança com aquela história ocorrida há muito tempo, em uma galáxia muito distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que estamos voltando no tempo, vamos dar uma recuada de meio milênio para entender o título da obra. A história começou com o filósfo italiano Nicolau Maquiavel, em 1513. Após ter servido como secretário de estado em uma experiência republicana em sua cidade natal, Florença, o pensador foi expulso da região quando os Médici retomaram o governo. No exílio, ele escreveu sua obra mais famosa, &lt;em&gt;O príncipe&lt;/em&gt;, um texto marcado pelo pragmatismo que dá conselhos a um soberano hipotético sobre as reais condições por trás da conquista e da manutenção do poder. Mesmo país, quatro séculos depois, alguns dos conceitos maquiavélicos foram atualizados por outro filósofo, Antonio Gramsci, nascido na Sardenha. Fundador do Partido Comunista Italiano em 1921, apenas cinco anos mais tarde ele acabou sendo encarcerado pelo governo fascista que tomou conta da Itália. Na cadeia, foram produzidas suas teses mais conhecidas, postumamente reunidas nos &lt;em&gt;Cadernos do cárcere&lt;/em&gt;, entre elas as que davam a receita para um novo ente alcançar o poder: o “moderno príncipe”. A diferença básica entre as idéias de um pensador e outro é que o florentino falava a uma pessoa física; já o sardo imaginava um organismo coletivo que deveria garantir as condições ideais de controle social, ou seja, da conquista da hegemonia. “A hegemonia é a capacidade de um grupo social de assumir a direção intelectual e moral sobre a sociedade, sua capacidade de construir em torno de seu projeto um novo sistema de alianças sociais, um novo bloco hitórico”, esse é um conceito gramsciano citado logo no início do livro nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor fluminense criou sua obra entre esses dois pólos, o dos soberanos de fato e o de uma estrutura coletiva, ambos buscando manter a direção intelectual e moral de suas sociedades. O ente coletivo, o “novo príncipe”, é representado por nada menos que um planeta inteiro, Dison, um mundo cercado por uma concha que o torna inexpugnável. Seus habitantes se denominam simplesmente de a Hegemonia e, de fato, assumem o controle de toda uma galáxia. O poderio bélico e cultural dos disonianos é fortíssimo, porém é possível perceber que se trata de um império atravessando o período de decadência, com vários de seus cidadãos se alienando da vida real em busca fugas na realidade virtual, por exemplo. Apesar de toda a influência que possui, a Hegemonia atual parece ser apenas uma sombra do que foi a geração que fundou tal império em tempos antigos; uma casta de seres que, literalmente, tinha o poder de criar mundos. Não apenas Dison como os outros quatro planetas do sistema solar em que se passa a história foram construídos por esses misteriosos fundadores. Isso inclui Elôh, o mundo do protagonista do livro, Ron Ger Schowlen, um príncipe na tradição maquiavélica do termo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ron, o herdeiro do subtítulo do livro, passou dez anos naquela capital do império se preparando para se tornar um verdadeiro cidadão de Dison. Uma grande frustação o afasta desses planos e o faz voltar àquele planeta periférico, mais especificamente ao reino de Basten, governado por seu irmão bem mais velho, Shodan. A história do livro é narrada pelos pensamentos do príncipe, gravados em um equipamento acoplado a uma poderosa armadura de combate que é o equipamento padrão entre os disonianos, a derma. Desde o início percebemos que isso não é sinônimo de uma versão isenta dos fatos, já que o rapaz tem a possibilidade de editar a gravação de tais memórias, cortando trechos indesejados, por exemplo. Mesmo assim, o registro pessoal, e um tanto improvisado, se torna a base para historiadores de um futuro distante analisarem os fatos que estariam por provocar uma verdadeira revolução no sistema da Hegemonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início, os registros dão conta do tédio do herdeiro na volta ao lar – uma cidade gelada habitada por humanóides, assim como ele próprio, totalmente albinos – e de uma confusa e mal resolvida relação com o seu casal de irmãos. A situação muda quando surge em Basten um grupo de gelfos, pequenos seres marsupiais, pedindo auxílio para defender sua distante vila do cerco de dragões. Sim, dragões, do tipo que voam, cospem fogo e ainda por cima falam – existe até mesmo um dicionário do dialeto das criaturas nos apêndices do livro. A partir daí, &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; torna-se uma história clássica de jornada e de como ela vai modificar o protagonista, jogando por terra vários de suas idéias pré-concebidas. Como a tecnologia dos planetas periféricos é muito inferior à de Dison, as enormes distâncias do planeto Elôh são vencidas lentamente, com o auxílio de enormes, mas comparativamente rudimentares, barcos e carros de combate. Ron tem assim a oportunidade de analisar com ceticismo científico a bizarra geografia de seu mundo natal e os costumes dos vários seres que o habitam, desde guerreiros anfíbios até burocráticos insetóides. Essa lenta construção de cenário e de personagens é o melhor do livro. A narrativa de Davisson deixa o leitor tão envolvido nos diferentes aspectos sociais, religiosos e culturais daqueles povos a ponto de mal se perceber que é apenas na metade da obra, mais precisamente na página 129, em que ocorre a primeira cena de ação da história. É quando Ron Ger faz uso das lâminas de prótons, armamento embutido nos antebraços de sua armadura, um cruzamento entre os sabres de luz dos cavaleiros jedis e as garras de adamantium do mutante Wolverine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste ponto em diante, acaba a fase picaresca e o modo aventureiro passa a ser dominante. O embate entre os gelfos, auxiliados pelos guerreiros comandados por Ron e Shodan, contra a raça dos beligerantes dragões é sangrenta e acarreta várias baixas de ambos os lados do front. Na maior parte das vezes, esta segunda metade do livro consegue manter qualidade semelhante à primeira, pois as descrições dos armamentos e as estratégias adotadas são vívidas o suficiente para manter o interesse. É só na última missão, algo anunciado como sendo uma tarefa muito mais difícil que todas as desventuras anteriores, em que o ritmo cai. Em pouco mais de 20 páginas, está tudo solucionado, com um desfecho um tanto deus ex machina que pode deixar um sabor anticlimático. Ainda mais se o trecho comprimido entre as páginas 247 e 259 for comparado com o cuidado com que o escritor vinha conduzindo a trama até aquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não poderia deixar de ocorrer numa publicação de forte inspiração maquiavélico-gramsciana, antes de chegar ao fim dos combates, vamos perceber que há muito de manipulação e dissimulação no conflito. O melhor é que o autor não força a mão em didatismo ou pedantismo ao se utilizar de tais conceitos. Clinton Davisson consegue em Hegemonia o raro feito de produzir uma obra que, ao mesmo, tempo diverte o leitor, com uma história honesta e eficiente, e ainda explora temas profundos, que, infelizmente, não costumam ser matéria-prima para o entretenimento de massa. E ele prova que só não o é por falta de vontade de outros criadores, o casamento pode ser feito, sim, de maneira muito mais simples que sonha nossa vã filosofia. Não é preciso, e talvez nem mesmo seja desejável, que o leitor seja um especialista em ciências políticas ou um físico teórico para se divertir com a linguagem simples e com todas as subtramas do livro. É bem verdade que de um cartunista seria de se esperar uma dose maior de humor no texto, o que aproximaria o livro nacional de obras como as séries &lt;em&gt;Discworld&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;O guia do mochileiro da galáxia&lt;/em&gt;, respectivamente de Terry Pratchett e de Douglas Adams. Talvez, passado o peso da estréia da saga com &lt;em&gt;Hegemonia – O herdeiro de Bastem&lt;/em&gt;, o autor se solte mais nos próximos cinco volumes previstos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há outros detalhes ainda mais urgentes para se resolver nos próximos capítulos. A edição do primeiro livro certamente merece elogios, a capa, por exemplo, de autoria do ilustrador, quadrinista e escritor Osmarco Valladão, deve ser a mais bonita já produzida para uma obra nacional de FC. Vai ser muito bom ver outros trabalhos dele estampando as demais edições da série. Porém, na parte de revisão de texto, a Editora Arte e Cultura precisa melhorar bastante. Ao longo do texto há vários lapsos que poderiam ser evitados, como hífens ausentes, como em “bem vindo” na página 38, ou sobrando, “anti-matéria”, página 248; e expressões truncadas e redundantes, a exemplo de “teorias variadas variando”, da página 205, ou “a resposta para a pergunta (...) não foi respondida”, na página 249. Substituir a fonte do texto também poderia ser uma boa idéia, a utilizada neste livro é bastante carregada, parece que todas as páginas foram escritas em negrito, o que, às vezes, torna a leitura um tanto desagradável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos apêndices do livro, além daquele já comentado dicionário da língua dos dragões existe um interessante glossário para ajudar o leitor a entender vários dos termos exóticos empregados ao longo do texto. A questão é que se pode notar algumas ausências nos verbetes. Um deles é referente à raça de uma das personagens mais interessantes do livro, a falastrona capitã Marla Trillina: não aparece naqueles textos detalhes sobre os merfolks, seres anfíbios de grande importância para os eventos narrados neste primeiro volume. Por outro lado, há entradas que dizem respeito a acontecimentos que só serão vistos com o desenrolar da dupla trilogia. Curiosamente, isso torna parte do texto perigosa para quem não gosta de ter contato com spoilers. Caso você se enquadre neste grupo, faria bem em evitar os termos “Brubraker”, “Brian Brubraker” e “Drallak”. Considere-se avisado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é só com o desenrolar da saga que poderemos avaliar se o autor vai dar conta de desenvolver todas as pontas deixadas soltas no capítulo inicial. Ainda há muito o que se responder, como a origem de alguns nomes de personagens, de deuses, de regiões, de conceitos teóricos e até de objetos que são muito próximos a nós para surgirem, sem explicação, em um universo aparentemente tão distante e futurista. Será nesses livros também que veremos se o escritor fluminense vencerá o desafio de cruzar a fronteira dos gêneros da FC e da fantasia, da ciência e da magia, e assim fazer justiça às palavras do veterano escritor Jorge Luiz Calife, que assina o prefácio da obra: “Clinton Davisson consegue uma união perfeita entre a ficção científica hard e a espada e magia. Se fosse a obra de um autor norte-americano ou europeu, &lt;em&gt;Hegemonia – O herdeiro de Bastem&lt;/em&gt; já seria uma realização notável. Aqui entre nós, enfrentando as dificuldades que todo autor brasileiro enfrenta, esta obra é quase um milagre a ser celebrado”. A se conferir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Serviço:&lt;/strong&gt;&lt;!-- BBCode auto-link start --&gt; O livro custa R$ 42,90 nas livrarias Cultura e Saraiva, tanto nas respectivas lojas de todo o Brasil, quanto on-line. Mas a livraria Antígona on-line ( &lt;a href="http://www.antigonalivraria.com.br/" target="_blank"&gt;www.antigonalivraria.com.br&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt; )está com preço promocional a R$ 30.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um trailer do livro pode ser visto em&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=cZUKEkn9avg" target="_blank"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=cZUKEkn9avg&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-6387320776046508585?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/6387320776046508585/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=6387320776046508585' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6387320776046508585'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6387320776046508585'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/05/o-retorno-do-prncipe.html' title='O retorno do príncipe'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-7987605448490126796</id><published>2008-05-01T08:19:00.000-07:00</published><updated>2008-05-01T08:26:25.418-07:00</updated><title type='text'>O efeito orégano</title><content type='html'>&lt;strong&gt; Uma brincadeira com bonecos da linha Playmobil acabou inspirando, 30 anos depois, a criação de uma das mais promissoras séries recentes da ficção científica nacional. Em seu DNA, &lt;em&gt;Hegemonia – O herdeiro de Basten&lt;/em&gt;, primeiro capítulo de uma série de seis livros, carrega ainda as experiências que seu autor teve ao testemunhar à repressão a movimentos grevistas em sua cidade natal, Volta Redonda, as contradições religiosas que envolviam a família e vizinhos, além de uma enorme variedade de filmes, livros e seriados de TV consumidos ao longo destas décadas. Na entrevista a seguir, concedida a partir do cyberpunk município fluminense de Macaé, onde ele trabalha como jornalista, o escritor compara a ótima recepção de sua última publicação com a do livro anterior, também de FC, Fáfia; dá informações exclusivas sobre o futuro da saga; e ainda explica sua interessante teoria denominada de “efeito orégano”. Com vocês, o xará do físico que comprovou o comportamento de onda dos elétrons, Clinton Davisson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de trabalhar cotidianamente com a não-ficção, você já lançou dois livros de ficção científica. Além do &lt;em&gt;Fáfia&lt;/em&gt; e do recente &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt;, já foram produzidos muitos outros textos literários, como contos ou roteiros?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, na área de literatura, eu já havia escrito um romance aos 14 anos, em 1985, chamado &lt;em&gt;Armadilha espacial&lt;/em&gt;. Tenho muitos contos, crônicas que publico no jornal e fiz muito jornalismo literário em Macaé. Já escrevi peças de teatro em Volta Redonda nos anos 80. Eu fazia parte de um grupo da prefeitura da cidade e a gente encenava as peças no meio da rua, na inauguração de praças, etc. Também sou músico, fui vocalista de algumas bandas em Juiz de Fora e compus várias músicas. Ultimamente tenho investido em roteiros e estou trabalhando com um projeto de uma produtora de São Paulo sobre um curta-metragem sobre viagem no tempo. Ao mesmo tempo, por mera coincidência, estou levantando fundos para outro curta, em Macaé, também sobre viagem no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em um dos textos de apresentação de seu último livro, informa-se que a idéia por trás da saga já estava embrionariamente na sua imaginação desde os cinco anos de idade. Poderia fazer um resumo desses mais de 30 anos de planejamento, de como foi a evolução da trama até ela começar a incluir conceitos de teoria política, ciências exatas e sociais?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, começou antes mesmo de aprender a ler, com uma brincadeira de Playmobil com meu irmão. A gente brincava de super-herói, de &lt;em&gt;Guerra nas estrelas&lt;/em&gt;, essas coisas. Só que, como ele era o irmão mais novo, eu, como todo bom tirano, não deixava que ele fosse o Han Solo, o Luke, nem o Darth Vader. Como ele também não queria ser a Princesa Leia (risos), eu inventava personagens para ele. Com o tempo, a gente acabou abandonando o Han Solo, o Luke e o Darth Vader, para ficar com os novos personagens. Um deles era o Ron, o protagonista deste primeiro livro. Com certeza Ron nasceu em 1979, como um velho durão, mas também paizão. Muito inspirado no personagem Jock Ewing na telessérie Dallas, também com uma pitada daqueles mestres de filmes de kung fu. Daí os cabelos brancos e o sobrenome Schowlen, que é um anagrama para Shaolin. Como vê, até por causa da minha idade na época, a evolução se deu através de uma linha do imaginário puramente infantil. Por exemplo, quando eu assisti à série &lt;em&gt;Cosmos&lt;/em&gt; do Carl Sagan em 1980, eu tinha nove anos e escutei, pela primeira vez, falar da esfera Dyson. Então pensei: “Nossa, isso é muito maior do que a estrela da morte!”. A partir daí, a esfera Dyson entrou na brincadeira. Com o tempo, tudo que eu via, estudava, assistia, lia, escutava, era assimilado pelo universo disoniano. (A razão de ser esfera Dison, e não Dyson no livro, tem uma razão que eu não vou contar). Com o passar dos anos, a história foi amadurecendo e ganhando contornos mais complexos à medida que eu ia absorvendo coisas mais diversificadas. O lado infantil foi dando espaço a algo mais profundo. Mas a idéia de usar ciências sociais, como política, sociologia, teologia e antropologia, na história também veio bem cedo. Meu vizinho, por exemplo, era evangélico e veio uma vez me explicar que meus pais iriam para o inferno porque eram kardecistas e crioulos. Eu tinha sete anos e fui perguntar no centro kardecista sobre o assunto e aí me explicaram que quem ia para o inferno eram os macumbeiros (era como eles se referiam às religiões africanas). Chegou a um ponto em que fui falar com os tais macumbeiros e eles disseram que eram os católicos que iriam para o inferno. Essa discussão está presente neste primeiro livro. Até a questão da política também surgiu na infância, porque cresci em Volta Redonda de frente para a Companhia Siderúrgica Nacional - CSN. Lembro que, com menos de 10 anos de idade, eu assistia a verdadeiras guerras em frente à minha casa, por causa das greves. Em tempos de ditadura, greve na CSN tinha tiroteio, quebradeira, tudo. Meu contato com política começou assim, na prática antes dos livros. Talvez por isso, nunca me deixei iludir com ideologias. Jamais vou escrever um livro fazendo apologia ao capitalismo, anarquismo ou ao comunismo, o que é uma pena, porque dá dinheiro (risos). Desde muito cedo, eu aprendi que o ser humano chegou a um alto nível tecnológico no que se refere às ciências exatas, mas ainda está engatinhando em ciências sociais. E não entendo porque existem tão poucas obras explorando isso. E algumas o fazem de maneira assustadoramente ingênua, criando vilões capitalistas ou comunistas. Ora, pensar em política e nos problemas sociais é a grande pauta do século XXI. Eu hoje vivo em Macaé onde se tem tecnologia para se tirar petróleo de 3 mil metros de profundidade, mas falta água na cidade, temos problemas de saneamento básico, moradia e está na lista das mais violentas do Brasil e, consequentemente, do mundo. Macaé é cyberpunk! (risos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em 2000, logo após a publicação de seu livro de estréia, uma versão preliminar de &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; venceu um concurso promovido por uma revista especializada em FC. Qual foi a importância de tal incentivo para a concretização do projeto?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, eu contava as histórias também desde que tinha uns 10 anos para alguns amigos da escola. Mas foi só depois do prêmio que eu percebi que este universo tinha um potencial forte. O conto foi escrito às pressas, cheio de escorregões e, ainda assim, conseguiu se destacar em um concurso em nível nacional. Não me iludi pensando que era um escritor maravilhoso, acho que tenho um longo caminho pela frente, mas eu tive a confirmação de que esse universo tinha potencial para mexer com as outras pessoas e não era apenas uma loucura particular minha e do meu irmão. A partir daí, passei a mostrar trechos e histórias para outras pessoas com mais confiança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;É possível comparar a aceitação de seus dois livros? Como foi o impacto inicial de &lt;em&gt;Fáfia&lt;/em&gt;, em 1999, e o de &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; agora? O que mudou entre um ponto e outro em relação à sua experiência como escritor?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aceitação do &lt;em&gt;Fáfia&lt;/em&gt; tem dois lados extremos. De um lado, eu estava numa faculdade federal, e, lá dentro, o &lt;em&gt;Fáfia&lt;/em&gt; foi recebido com entusiasmo por alunos e professores. Por quê? Porque é um livro extremamente pessoal que tem um lado metalingüístico forte e perceberam isso lá dentro. Do outro extremo, a casca dele, mistura futebol, ficção científica e muito humor. Era muito leve, muito Sessão da Tarde. Então o aspecto comercial não funcionou. Algumas pessoas vieram me falar que ficção científica brasileira tinha que ser séria, não podia brincar porque carecia de credibilidade. Mas, talvez por isso, tenha tão pouco humor em &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt;. Só depois que o Jorge Calife fez uma resenha elogiando o &lt;em&gt;Fáfia&lt;/em&gt; há uns três anos, que perdi um pouco o rótulo de “maluco que escreveu um livro doido”. Agora, a reação com o &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; está sendo ótima. É um livro pessoal também? Sim, mas tive o cuidado de embalar em uma casca mais palatável e o tema é muito mais denso. O livro vem ganhando uns fãs entusiasmados, gente querendo logo a continuação, perguntando se não tem camisa para vender, até pessoas dizendo que tem que virar filme. Mas teve também o que eu chamo de “efeito orégano”. Eu explico: uma vez eu trabalhei como cozinheiro em uma cantina de colégio que não tinha fama muito boa. Logo no primeiro dia, fiz pizza e coloquei o orégano dentro da pizza, como via fazer nas melhores pizzarias. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, não é que vieram vários alunos reclamar, dizendo que a pizza estava sem orégano? Eu então abria a pizza do cara e pegava com a mão o orégano e mostrava. Com o &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; percebi essa desconfiança. Eu coloquei muitos detalhes sutis e deixei muitas pontas soltas para responder durante a trilogia, porque não tem graça entregar o ouro logo de cara. Mas então teve vários amigos, bem intencionados até, me chamando no canto e dizendo: “Cuidado, você esqueceu de colocar essa explicação no livro!”. Eu pergunto: Por que o J.J. Abrams pode deixar toda a primeira temporada de &lt;em&gt;Lost&lt;/em&gt; sem responder “O que a Katie fez?” e eu não posso? Mas existe isso no Brasil, às vezes você tem que abrir o livro e mostrar o orégano para mostrar que sabe cozinhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você tem o rumo de todos os próximos cinco livros traçados em sua mente, ou mesmo esboçados no papel – ou na tela do computador? Sabe em detalhes como vai ser a conclusão de sua dupla trilogia ou ainda há trechos em aberto?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu costumo dizer que  &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; não é uma história e sim uma doença crônica que eu carrego. Eu sei como tudo termina, tenho até biografia de todos os personagens, o desafio para mim não é a história em si, mas como contá-la. Mas claro que há vários trechos em aberto, caso contrário, tiraria a graça de escrever. A personagem Marla Trillina, por exemplo, nasceu só em 2004 e não estava presente no conto original. E sim, tenho uma pilha de cadernos com rabiscos, alguns com mais de 20 anos, a maioria sobreviventes das minhas tentativas frustradas de começar a escrever a história. No computador eu tenho a cronologia de tudo o que vai acontecer. O meu problema sempre foi não saber por onde iniciar a saga, então eu tive essa idéia: ao invés de começar pelo começo, por uma questão de princípios, eu fiz uma prequel (risos). A primeira trilogia está sendo um prelúdio da história original.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por falar em duas trilogias, é inevitável a comparação entre sua epopéia e a dos filmes de &lt;em&gt;Guerra nas estrelas&lt;/em&gt;. Até o lançamento do primeiro livro leva a isso, já que ele foi apresentado ao público durante um evento dedicado aos fãs da série, a Jedicon, que ocorreu em São Paulo no final de 2007. Os filmes de George Lucas são mesmo sua principal referência no gênero? Que outras obras, cinematográficas, televisivas ou literárias, servem de inspiração para seu trabalho?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu falo que George Lucas é meu Flamengo. Aquela paixão de criança que não vai morrer. Eu sou daquela categoria de fãs de &lt;em&gt;Guerras nas estrelas&lt;/em&gt; que ama a saga mesmo sabendo de todos os defeitos e também dos muitos acertos de George Lucas. Fui um dos “fundadores” do Jedicon e tive a honra de ser o apresentador do primeiro evento em 1999 em São Paulo. Mas acho que há muito tempo deixei &lt;em&gt;Star wars&lt;/em&gt; para escanteio como referência principal. De modo algum menosprezando a série, porque, mesmo a nova trilogia, que tanto gostamos de criticar, tem coisas que acho geniais, que poucos perceberam, como a ascensão de Palpatine ao poder, escancarando as falhas na democracia ou a grande sacada de mostrar Anakin tendo que escolher entre dois lados que mentem e tentam manipulá-lo. Como se ele fosse um eleitor tentando descobrir qual dos partidos é o menos pior. Mas acho que minhas maiores referências hoje são literárias. Comecei a ler bem garoto, todos os dias eu ia pegar livros na biblioteca da cidade. Pegava um do Julio Verne, lia em um dia e entregava no outro para pegar o H.G. Wells, depois do Tolkien, do Alexandre Dumas e assim por diante. Me identifico com o Tolkien pelas biografias que li; temos maluquices semelhantes, manias parecidas como criar mundos, línguas, costumes de seres que você nem sabe se vai usar para alguma coisa. Mas acho que o Frank Herbert é uma influência maior, porque ele provou que se podia fazer ficção científica inteligente e eficiente usando elementos de sociologia e política. Fora dessa esfera de ficção científica, tenho como referência o Dostoievski, adoro a maneira como ele cria personagens maravilhosos. O Herman Melville, o Borges, o Guimarães Rosa, a Clarice Lispector, o Machado de Assis, o Douglas Adams. Dos vivos, sou fã da britânica Sue Townsend, pouco conhecida no Brasil, o Stephen King que é uma espécie de Spielberg da literatura, só vão aceitá-lo como genial depois que morrer porque faz um sucesso exagerado. E, principalmente, o Carlos Heitor Cony, que conheci pessoalmente numa aventura entre Rio e Juiz de Fora e que, para mim, é o maior escritor brasileiro vivo. Seu livro de estréia, &lt;em&gt;O ventre&lt;/em&gt;, sobre a bizarra história sobre o relacionamento entre dois irmãos e a paixão de ambos pela mesma mulher, narrado em primeira pessoa, é para mim, a maior influência direta a este primeiro &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como foi o contato inicial com a editora que publicou &lt;em&gt;Hegemonia – O herdeiro de Basten&lt;/em&gt;? A vendagem deste primeiro capítulo de sua saga já lhe garantiu o contrato para os próximos lançamentos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei sabendo através de uma lista da discussão que a Arte &amp;amp; Cultura estava pretendendo lançar um livro de ficção científica e estava aceitando originais. Mandei três capítulos e fui aprovado uma semana depois. A partir daí, foi uma suadeira para terminar em oito meses o que eu não conseguia concluir há sete anos. Sobre a continuação, sim, as vendas estão boas e eu tenho a sorte de ter, no meu editor, um verdadeiro fã que acredita no sucesso do livro já faz planos para lançar no exterior, fazer HQ e até videogame. Só acho que, por isso mesmo, eu tenho que suar muito, a exemplo do que o André Vianco, por exemplo, fez: correr mesmo atrás do leitor, ir a eventos, livrarias, para que a continuação seja publicada como bom negócio para a editora e não como um risco. Mas, ao que tudo indica, devo publicar a continuação em 2009. A propósito, deixa eu dar um furo de reportagem para você, o segundo livro já tem nome: &lt;em&gt;Hegemonia – Os anéis de fogo&lt;/em&gt;. Quem leu o primeiro, já sabe que anéis são esses...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Além de jornalista, você é cartunista. O universo que você criou é muito visual, com naves gigantescas, planetas exóticos e aliens multiformes. Já pensou em adaptar a história para os quadrinhos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, nos quadrinhos que eu faço, &lt;em&gt;Os invasores&lt;/em&gt;, há uma participação dos frânios, a raça de insetos da &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt; em uma versão bem humorada. Assim como no livro, eles são divididos em duas sub-raças, as mabéias, as baratinhas marrons e os slystacs, verdes. A inspiração veio do tempo em que eu trabalhei na Petrobras onde há essa diferença de classes, os concursados, de crachá verde e os terceirizados, de crachá marrom. Mas, como eu disse, já existe esse projeto da editora de levar o primeiro livro para os quadrinhos. Tive várias conversas sobre o assunto com o Osmarco Valladão, criador da capa do livro, mas queríamos fazer algo com a qualidade comparável a da capa. Para isso, precisaria de, pelo menos, um ano trabalhando intensamente e exclusivamente. Não sei se isso é viável no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Seu nome é o mesmo do de um físico americano ganhador do prêmio Nobel nos anos 30. Partindo do pressuposto que isso não é uma coincidência, qual foi a importância desta ciência na sua formação intelectual e qual a sua intimidade com o assunto, já que neste seu livro surgem vários conceitos teóricos próprios da física, como as propriedades de estruturas giga e nanométricas ou ainda a conversão de matéria em energia?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai é formado em física e dá aulas até hoje em Juiz de Fora. Daí veio esse nome esquisito que eu rejeitei desde pequeno, tanto que “criei” um apelido para mim. Todo mundo da família e os amigos próximos me chamam de “Tato”. Quando eu jogava futebol, estava escrito “Tato” nas minhas costas e não Clinton Davisson que, para mim, é quase um nome artístico. Mas eu herdei do meu pai a paixão pela física e astronomia. Ele tem, até hoje, uma pilha de enciclopédias de ciências; antes de aprender a ler, eu folheava aquelas fotos de foguetes, planetas e achava o máximo. Meu pai também adora ficção científica, só que muito mais para o lado de &lt;em&gt;Star trek&lt;/em&gt;. Da minha mãe herdei o amor pela literatura, ela me fez ler o meu primeiro autor nacional, o Luiz Fernando Veríssimo, que é fera. Aliás, sempre me incomodou essa separação entre literatura e ficção científica. Vejo certos autores que se esmeram em conceitos científicos e esquecem de criar personagens que vão além de um cientista que está ali para vomitar conceitos. Se meu pai e minha mãe puderam se casar, a ficção científica também pode casar com a literatura, não é? (risos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fora a conclusão da saga da &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt;, você tem planos para trabalhar com a FC em outros projetos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ficção científica tenho apenas estes curtas que devem ficar prontos até o fim do ano e o meu projeto de mestrado que envolve ficção científica no cinema dos anos 80. Depois da terceira parte do &lt;em&gt;Hegemonia&lt;/em&gt;, vou dar um tempo na FC e engatar um romance que venho rascunhando há um tempo que se chama &lt;em&gt;O moinho de vento&lt;/em&gt; sobre a juventude dos anos 80, um projeto bem pessoal e que não vai ter nada de ciência, ou sobrenatural. Os primeiros rascunhos ficaram parecendo uma versão abrasileirada do &lt;em&gt;The body&lt;/em&gt; do Stephen King, que deu origem ao filme &lt;em&gt;Conta comigo&lt;/em&gt;, por isso achei que precisava amadurecer um pouco antes de retomar. A longo prazo, tenho um projeto de romance histórico sobre a Guerra do Paraguai, também com nada de ficção científica.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-7987605448490126796?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/7987605448490126796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=7987605448490126796' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/7987605448490126796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/7987605448490126796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/05/o-efeito-organo.html' title='O efeito orégano'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-5932644937368978890</id><published>2008-02-17T14:40:00.000-08:00</published><updated>2008-02-17T14:44:00.271-08:00</updated><title type='text'>Não verás mundo nenhum</title><content type='html'>A pintura é simples e direta, feito um quadro primitivista. Pinceladas fortes, rápidas e irregulares registraram, sempre em marrom, a silhueta de estruturas cilíndricas que podem ser conjuntos habitacionais padronizados, chaminés industriais ou torres de comunicação. A impressão geral é de tédio e de imutabilidade. O espectro da cor única é, no conjunto, desagradável. Começa com tons claros, semelhantes aos da terra seca e sem vida; passa por uma tonalidade pouco mais escura, que lembra a cor de excrementos; com algo de vermelho, parece ser o marrom de uma casca de ferida em processo de cicatrização; tendendo ao preto, aparenta ser a crosta de matéria em putrefação. O quadro, pintado por Ivan Hegenberg, artista plástico formado pela USP, acabou servindo de capa para o romance de estréia dele próprio, lançado no final de 2007: &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;, uma estranha e niilista ficção científica nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distopias são um dos temas mais recorrentes na tradição da FC mundial e renderam algumas das melhores obras do gênero em diversas mídias. Historicamente, a palavra parece ter sido empregada pela primeira vez, com seu sentido literal de &lt;em&gt;lugar mau&lt;/em&gt; - e em oposição à utopia, &lt;em&gt;o lugar nenhum&lt;/em&gt;-, pelo filósofo e economista inglês John Stuart Mill, em um discurso no Parlamento Britânico, no ano de 1868. Estamos às vésperas do aniversário de 140 anos de sua criação, portanto. Quando o mundo das artes se apropriou do termo, em reação aos sonhos de futuros idealizados, tecnologicamente avançados e socialmente justos, começaram a ser produzidos livros como &lt;em&gt;1984&lt;/em&gt;, de George Orwell; quadrinhos do nível de &lt;em&gt;V de vingança&lt;/em&gt;, de Alan Moore e David Lloyd; e um sem-número de filmes que se passam em tempos pós-apocalípticos como a trilogia &lt;em&gt;Matrix&lt;/em&gt; dos irmãos Wachowski. Todas obras marcadas pelo autoritarismo dos governantes, humanos ou não, ou por grandes catástrofes globais, sejam causadas pelo homem, sejam naturais. O paulistano, com seu segundo livro - o primeiro foi uma coletânea de contos, &lt;em&gt;A grande incógnita&lt;/em&gt;, publicada em 2005 pela editora Annablume -, pode ser incluído nesta lista de autores desesperançados com os dias que virão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início de &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt; - para ser exato, em seus dois primeiros capítulos, “História do mundo” e “Água” - o cenário geral é traçado. Apesar do longo histórico internacional deste subgênero, tais trechos da obra do iniciante lembram mesmo a mais famosa e bem sucedida distopia já produzida no Brasil, escrita por um veterano conterrâneo dele, em 1981. &lt;em&gt;Não verás país nenhum&lt;/em&gt;, livro mais conhecido de Ignácio de Loyola Brandão, antecipou há mais de 25 anos muitas das preocupações ambientais que vivemos nesta primeira década do século XXI. Será também mostra a tentativa de sobrevivência de personagens que vivem as consequências do abuso dos recursos naturais do planeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maior diferença é que, na obra da década de 80, a narrativa ficava circunscrita ao Brasil, mais que isso, a São Paulo, e tinha um protagonista claro, Souza; no livro lançado em 2007, a abrangência é mundial e há uma profusão de personagens sem uma hierarquia clara entre eles na ordem das coisas. Datas não são definidas com muita precisão ao longo do texto, mas uma brincadeira quase oculta nas últimas páginas faz supor que estejamos por volta do ano de 2348. A população mundial praticamente triplicou em relação à de nossos dias, são 15 bilhões de pessoas disputando o mesmo espaço. Se número já assusta, ele poderia ser ainda maior, se não houvesse ocorrido cerca de 6 bilhões de mortes por doenças virais, um século antes dos eventos narrados no livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para respirar, a solução foi retirar oxigênio diretamente dos oceanos, o que faz um dos personagens se perguntar se é o consumo desse “ar para peixes” que os faz se sentirem tão “desadaptados”. É uma boa questão, pois o clima de apatia é dominante neste futuro amarronzado, em que as necessidades mínimas de todas as pessoas, de moradia à alimentação, são atendidas em pé de igualdade. Se no livro de Brandão havia um poder por trás de tudo, o Esquema, aqui há o Sistema, uma forma de democracia direta mediada por softwares. Tudo é motivo para consultas plebiscitárias à população adulta para que os sistemas de inteligência artificial - que são sempre citados, mas não exercem uma presença física nas páginas do livro - tomem as providências executivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novamente a exemplo de &lt;em&gt;Não verás país nenhum&lt;/em&gt;, a água potável se tornou um artigo raro. Se no primeiro livro, eram os civiltares que exerciam um controle coercitivo da população, em &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt; existe uma milícia chamada Comando Água para fazer o serviço sujo. Aparentemente, os programas governantes imaginados pelo brasileiro seguem a famosa legislação proposta por Isaac Asimov que os proíbe de matar pessoas. Isso não os impede de tentar fazer passar uma lei para promover a esterilização em massa da humanidade e ainda permitir que os agentes do tal comando executem todos aqueles considerados inaptos para continuar a viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, essa é a impressão gerada pelas primeiras 40 das 240 páginas totais de &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;, com o dilema de Ganton e William, dois velhos amigos separados pelas escolhas que fizeram. Um a de servir indiretamente ao Sistema, matando sem culpa os indivíduos mais fracos, os que de certa forma desistiram de resistir, para garantir a existência da coletividade. O outro, um integrante da Sobrevivência Unida, tem como norte moral a certeza de que a humanidade deveria sucumbir junta, de que “morrer com suprema beleza é bem mais digno do que matar com avidez”. Mas a aparência é falsa, pois no restante do livro - a cada capítulo primeiro; a cada página em certos momentos; a cada páragrafo em certos casos -, as sensações, os climas, os estilos, os ritmos vão se alterando, se confundindo, se mesclando, apesar de seguirem aquele esboço inicial. É como se o leitor fosse convidado a acompanhar a feitura de um quadro momento a momento: a confusão de pinceladas e raspagens aparentemente caóticas que acabam dando origem a uma pintura figurativa, ainda que expressionista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para exemplificar tal alternância estilística, podemos seguir o sumário dos capítulos. “Dia qualquer”, o terceiro, tem um quê de absurdo à Kafka; já a personagem principal de “Passagem”, o seguinte, a garota Seda, lembra as crianças superdotadas de Orson Scott Card, autor de livros de FC como o &lt;em&gt;Jogo do Esterminador&lt;/em&gt;. É no quinto, “Zeitgeist”, que a coisa se complica ainda mais. Hegenberg se utiliza de outra modificação que introduziu em seu mundo ficcional - através de métodos não explicados, a humanidade desenvolveu e difundiu um certo nível de telepatia - para de fato passar aos leitores o espírito da época daquele cenário. Helmut, um homem centenário, se utiliza de seus dons para bancar o voyeur telepático. O resultado é uma colagem de curtas sequências de pessoas vivendo suas vidas, praticando sexo casual, casamentos sendo desfeitos, resumos de sonhos, trechos de aulas, conversa de mãe pra filho... Uma autêntica cacofonia em meia centena de páginas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Possivelmente, uma pista das intenções do autor pode ser encontrada no sexto capítulo, “O Supremo Esteta”. Logo de início, aquelas páginas se destacam por apresentar uma editoração diferenciada, com as letras em negrito. O motivo por trás de tal recurso só fica claro ao final do curto capítulo, que se revela uma montagem intertextual pós-moderna do escritor. Além da forma, o que “O Suprem Esteta” tem a oferecer em termos de conteúdo é uma especulação sobre a principal visão religiosa do futuro de &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;, o Esteticismo-maior. Dois terços da população do planeta parecem ter substituído do panteão universal os deuses com uma visão moralista de mundo, com a divisão entre certo e errado, bom e mau, por uma noção baseada na estética acima de tudo, tanto nas relações naturais, quanto nas ações humanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não parece tanto que o objetivo do novo romancista seja o de propriamente lançar as bases de uma nova religião. Mas aparenta ser uma declaração de princípios de uma autor em relação à sua forma de expressão e, quem sabe?, com a vida. O fato é que, apesar de tantas outras leituras possíveis, é difícil ler aquelas páginas, ou mesmo evocar em termos literários a expressão supremo esteta, e não pensar em um dos maiores defensores da arte pela arte. Em um dos prefácios mais conhecidos de todos os tempos, aquele que Oscar Wilde redigiu para &lt;em&gt;O retrato de Dorian Gray&lt;/em&gt;, ficou resgistrado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A vida moral do homem forma parte do argumento e do material do artista. Mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um instrumento imperfeito. Nenhum artista pretende provar o que quer que seja. A própria verdade não pode ser provada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Artista algum tem preferências éticas. Uma preferência moral, em um artista, é imperdoável maneirismo de estilo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há artista doentio. O artista pode exprimir tudo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas palavras escritas no século XIX poderiam bem resumir o manifesto do Esteticismo-maior se for feita uma leitura puramente estética da obra, levando-se em conta que o artista é o deus de seu mundo criativo. Escolhas estéticas em detrimentos dos julgamentos morais parecem ser um dos pontos fortes de &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;. Nas páginas seguintes, na segunda metade do livro, o efeito permanece e até se amplia. A sucessão interminável de personagens e de situações parece seguir tais critérios, segundo a vontade do criador, sem se submeter a um roteiro linear, um destino traçado e coerente. Em “Explorações”, um dos melhores capítulos do livro, por exemplo, a narrativa se divide em três momentos para contar simultaneamente a visita de um filósofo ao show de um comediante, os bastidores de um filme pornográfico e, em uma rara concessão a temas mais típicos da FC, um empreendimento científico ousado: um grupo de pesquisadores é encolhido a nível microscópico para desbravar o interior de uma célula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro lançado pela editora Ragnarok, da qual Ivan Hegenberg é um dos sócios, é em boa parte a fusão dos autores que mais reconhecidamente o influenciaram, uma criatura com o esqueleto de Friedrich Nietzsche e as carnes de Clarice Lispector. A obra acaba servindo para coletar uma série de relexões filosóficas do escritor a respeito de diversos aspectos da vida. Em alguns casos, as falas e pensamentos dos personagens chegam a soar algo ingênuo, como nas críticas constantes feitas ao capitalismo - que fariam o já citado John Stuart Mill dar boas risadas liberais. Porém, em certos pontos, o livro consegue um efeito bastante interessante, ainda mais levando-se em conta que ele foi escrito por um autor tão jovem - o paulistano nasceu em 1980. Quase sempre o resultado é bastante incômodo, o que faz voltar a lembrar daquele prefácio de Wilde: "Não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”. E &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;, com sua narrativa sobre tédio e imutabilidade, sobre a terra seca e sem vida, sobre feridas que podem cicatrizar e outras que já apodreceram, é um livro bem escrito.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Serviço&lt;/strong&gt;&lt;!-- BBCode auto-link start --&gt;: O livro custa R$ 30 e se encontra à venda pelos sites da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com), Devir (www.devir.net.com) e em outros endereços listados no blog do autor: &lt;a href="http://www.ivanhegenberg.blogspost.com/" target="_blank"&gt;www.ivanhegenberg.blogspost.com&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-5932644937368978890?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/5932644937368978890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=5932644937368978890' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5932644937368978890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5932644937368978890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/02/no-vers-mundo-nenhum.html' title='Não verás mundo nenhum'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-2461304064038387675</id><published>2008-02-17T14:27:00.000-08:00</published><updated>2008-02-17T14:35:44.321-08:00</updated><title type='text'>A supremacia da estética</title><content type='html'>&lt;strong&gt; Ele apresenta duas motivações estranhas para ter iniciado o curso de Artes Plásticas na Universidade de São Paulo: uma curta carreira de pintor de rodapés na Inglaterra e a proximidade que teve com os maiores museus da Europa enquanto esteve naquele continente. De volta ao Brasil, passou a se dedicar mesmo a outra forma de expressão, a literatura, tendo recentemente lançado seu segundo livro, &lt;em&gt; Será&lt;/em&gt; um romance distópico de ficção científica, e ainda abriu uma editora que pretende se especializar neste nicho literário. Falando diretamente da capital paulista, o escritor e pintor comenta as diferenças entre esses dois mundos artísticos; descreve as vantagens da FC para se contar histórias que tenham a sociedade como protagonista; e filosofa sobre a função da estética. Com vocês, o filho espiritual de Friedrich Nietzsche e de Clarice Lispector, Ivan Hegenberg.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você é um artista plástico por formação, mas tem se dedicado à literatura como forma de expressão. Poderia fazer um breve retrospecto de sua produção literária e nas artes plásticas? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de entrar em Artes Plásticas, na USP, eu cursei um ano de Letras, já pensando em me tornar escritor. Logo vi que Letras prepara bons professores, mas não me ajudaria muito a escrever, e tranquei a faculdade para ficar nove meses vagando pela Europa. Não sei se foi minha experiência como pintor de rodapés em Londres ou a proximidade com os principais museus do mundo, mas quando voltei estava decidido a enveredar pelas artes plásticas. Eu sempre gostei de desenhar, e acho que há situações que se expressam melhor com cores do que com palavras. Mas não parei de escrever, a essa altura eu estava terminando os contos do primeiro livro. &lt;em&gt;A grande incógnita&lt;/em&gt; circulou pouco mas teve uma boa aceitação por outros escritores. Foi fácil perceber que o ambiente literário, por mais que tenha seus problemas, está bem mais arejado do que o das artes plásticas – não é à toa que este ano teremos em São Paulo a primeira Bienal do Vazio. Acho que escapar um pouco do ambiente de artes plásticas e escrever o &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt; me deu ânimo para agüentar bobagens desse tipo. De uns tempos para cá, tenho escrito alguns artigos sobre arte contemporânea, tentando combater as idéias fixas que eu encontro nas exposições e na crítica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em seu primeiro romance, apesar de ele estar inserido em um nicho da ficção científica dos mais tradicionais, a distopia, é notável a influência que outros autores fora da literatura de gênero exerceram sobre você, sem falar da área da filosofia. Friedrich Nietzsche e Clarice Lispector são os mais notáveis, mas não devem ser os únicos. Que outros escritores, de FC ou não, estão entre seus preferidos e lhe servem como referência?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, não me apego muito aos gêneros. Acho que o melhor da ficção científica – por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, K. Dick – vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. Do mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe escreve terror para assustar criancinhas. O importante é que o livro seja bom. James Joyce é quase o oposto de Kafka, mas os dois são excelentes. Guimarães não tem nada a ver com Bukowski, mas os dois me interessam. Não dá pra fechar a lista, mas, de todos, considero Nietzsche uma espécie de pai espiritual, sendo Clarice minha mãe. Também tenho lido bastante Deleuze, que a meu ver coloca Nietzsche diante dos problemas de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por que você escolheu um cenário típico de ficção científica para contar uma história tão atípica de ficção científica? Qual sua ligação com este gênero específico da literatura fantástica? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meus primeiros contos eu falei muito do indivíduo, e dessa vez eu quis falar sobre a sociedade. Mas em vez de colocar meus personagens no mesmo mundo em que vivemos, preferi criar um outro ambiente, para olhar alguns problemas a uma distância estratégica. Decidi então jogar um monte de coisas em que eu estava pensando para o futuro. Um dos elementos atípicos do &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt; é o fato de termos um futuro estagnado, uma desaceleração na história do homem, apesar de ainda repleta de conflitos. Minha intenção era fazer com que os problemas fossem percebidos com o máximo de pureza, por isso não podia ser uma história no presente: eu não queria que as conseqüências fossem atribuídas a circunstâncias meramente conjunturais. Eu busquei nesses homens do futuro forças muito semelhantes às que agiam no homem primitivo, e que com o tempo só vão se sofisticando, mas não desaparecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mim, as questões principais do livro não se remetem nem ao presente nem ao futuro, acredito que sejam eternas, mas uma das coisas que mais me divertiu no processo de escrita foi compor a ambientação. O oxigênio retirado da água, o sangue como moeda de troca, as ações do Comando Água, a telepatia rolando solta, os experimentos científicos radicais, etc. Acho que é esse o grande barato da ficção científica: a imaginação se mostra capaz de recriar o universo inteiro, não só uma situação isolada. E ainda assim, o link com a realidade permanece, tanto que os franceses chamavam a literatura FC de “romances de antecipação”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um dos capítulos que mais chamam a atenção em seu livro é “O Supremo Esteta”, no qual você especula sobre uma nova religião que passa a ser predominante naquele cenário, um ideário mítico que sobrepõe conceitos estéticos a questões morais. Desde o lançamento do livro, já houve alguma reação dos leitores às idéias contidas naquele trecho da obra?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. Já chegaram a me perguntar como faz para se converter. É bom deixar claro que é uma ficção, portanto “Será” deve ser entendido como “Poderia ser”. Acho que se eu fosse realmente esperto, fundaria uma religião, em vez de levar tão miseravelmente essa vida de escritor. Quantas seitas esquizofrênicas, uma mais bizarra que a outra, lucram com a ingenuidade alheia? Acho que se eu fosse mais cara-de-pau, o esteticismo-maior poderia mesmo vingar como religião, mas prefiro mantê-lo na ficção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Além da leitura puramente estética, que outras intenções nortearam aquele capítulo? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mesmo não entendo muito bem o que eu quis dizer com “O Supremo Esteta”. Se eu soubesse com muita precisão tudo o que quero transmitir, eu nem me daria ao trabalho de escrever ficção. Aliás, aí é que está a força da estética: o fato de ela não poder se reduzir a nenhuma lógica identificável, por mais que alguns acadêmicos acreditem que sim. Acho que mais de cem anos depois, Nietzsche ainda não foi compreendido, caso contrário todo intelectual evitaria leituras moralistas de uma obra de arte, e infelizmente não chegamos a esse estágio de esclarecimento. Está mais do que confirmado que a moral só serve para escravizar o povo, pois nem a promessa católica de danação da alma por toda a eternidade impediu que os senhores abusassem dos servos. Sendo assim, como pensar que o moralismo das ideologias seria capaz de conter nossos instintos destrutivos? O homem está em perpétua mutação, mas se tem algum traço constante é a oscilação entre a vontade de criar e a de destruir. A estética é o campo ideal para exercitarmos as duas coisas ao mesmo tempo, mas essa ânsia deveria ser satisfeita livremente, sem o condicionamento de qualquer doutrina. Os autores que me fazem bem, que me aliviam das neuroses, são os que assumem uma visão trágica da existência. Ou seja, os que entendem que não existe bem nem mal, que a vida não faz sentido algum, que só tem felicidade quem suporta também o sofrimento e que nossos sentimentos e convicções costumam ser ambíguos. Vão nessa linha as traduções dos bons observadores da natureza humana. Na minha vida fui obrigado a me confrontar com tudo isso, que pode assustar mas também liberta, porque nos permite criar a vida conforme o paladar, sem dogmas, bela e inexplicável como uma obra de arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os personagens do livro fazem constantes referências a um período histórico em que não viveram, que muitos deles chamam de “no tempo do capitalismo”. Curiosamente, apesar de muito do cenário proposto lembrar conceitos igualitários do socialismo, e mesmo com parte da trama se desenrolando em cidades como Pequim, não existe nenhuma comparação entre aquela realidade e as várias experiências socialistas reais que existem ou existiram em nosso mundo. Há alguma razão para essa ausência de referencial? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa pergunta. Eu não senti necessidade de falar diretamente sobre os países que vivem hoje o socialismo real porque seu processo histórico parece estar no fim, e portanto não alterariam muito os eventos que desembocariam na derrocada do capitalismo. Não considero a China um país socialista: está claro que vive uma lógica capitalista ainda mais selvagem que a nossa, com a agravante de estar sob uma ditadura. Por essa reviravolta Marx não esperava, e rasteiras da realidade desse tipo são ótimos motivos para os artistas não facilitarem uma captura muito materialista. Acho que se eu falasse muito do socialismo real, as interpretações tenderiam para a macropolítica, que eu considero ultrapassada e redutora. Eu deliberadamente evitei deixar o sistema social falar mais do que as personagens, exatamente porque creio que nosso campo de batalha está na subjetividade, e não nas grandes ideologias ou nos modelos econômicos. Arte não tem capacidade para mudar o mundo e faria muito melhor se tentasse mudar as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você pensa em retornar algum dia a esse mesmo universo ficcional ou já explorou tudo o que tinha vontade dele? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. Escrevi um conto, “Vladja”, sobre um personagem coadjuvante de &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;, que vai sair em uma coletânea da Record. O conto me satisfez tanto que eu já planejo um livro só com histórias curtas retomando o universo do &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O seu livro de estréia, &lt;em&gt;A grande incógnita&lt;/em&gt;, foi publicado por uma pequena editora, a Annablume. Seu segundo livro já saiu por uma editora da qual você é um dos sócios, a Ragnarok. Pode fazer uma análise desses dois extremos tão distintos como forma de publicação? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Annablume não é assim tão pequena, ela tem porte equivalente ao de uma Hedra, mas como trabalham mais com não-ficção, ainda estão construindo sua tradição na literatura. Estão no começo, mas acho que é uma das poucas editoras sérias do Brasil, que carece de gente com visão. Para o &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt; eu já queria uma editora um pouco maior, achei que o livro merecia divulgação, que ele podia desencadear discussões fortes, e despachei originais para todas as grandes. Foi uma decepção enorme, que diz muito sobre nosso mercado editorial: obtive ao menos duas respostas em que consideraram o livro muito bom, e mesmo elogiando não se arriscaram a investir. A lógica é essa mesma, acho que falta visão e falta coragem por conta dos editores. Eu escrevi para o Nelson de Oliveira desabafando, e ele me convidou para montarmos a Ragnarok. Tem sido um prazer trabalhar com o Nelson, que é um bom amigo e uma das figuras que mais respeito da nossa literatura. Outra coisa bacana é que ao montar uma editora independente você aprende muito sobre todas as etapas do processo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quais são os planos de sua editora para novos lançamentos? A Ragnarok pretende se especializar na área da literatura fantástica? Ela faz avaliação dos originais de outros escritores do gênero? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ragnarok já nasceu especializada em ficção científica e fantasia. Não é exatamente uma empresa, está mais para um clube, já que não bancamos as despesas do processo, mas também não estamos interessados em lucrar com o autor. A idéia é orientar sobre a capa, a gráfica, a diagramação e a divulgação, para que o livro, mesmo saindo em esquema independente, não faça feio diante de um produto das editoras profissionais.&lt;br /&gt;Nos nossos planos está um livro de crônicas do André Carneiro, deliciosas de se ler, e um romance do Nelson, que ainda está sendo escrito. A gente faz avaliação de originais, com o tempo vamos mostrar algumas surpresas. Pode ser um pouco piegas citar Renato Russo, mas de fato o futuro não é mais como era antigamente, estamos em um momento em que a ficção científica tem de tudo para se renovar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E você como escritor, já tem outros projetos planejados para o futuro próximo? Pretende voltar a trabalhar com temas da FC?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recentemente, ganhei uma bolsa do governo de São Paulo para concluir meu próximo romance, &lt;em&gt;Puro enquanto&lt;/em&gt;, que talvez seja meu livro mais ambicioso. Passei dez anos anotando meus sonhos pela manhã, e os costurei na história de um publicitário que entra em coma. Em certo momento, ele percebe que está sonhando e quer despertar, mas “despertar” ganha outros sentidos. A linguagem é pouco usual, com texto e imagens em constante diálogo. Também quero escrever para teatro e cinema. Quanto à ficção científica, só não quero escrever nada que me pareça inferior ao &lt;em&gt;Será&lt;/em&gt;, mas assim que eu tiver um material consistente, lanço uma coletânea de contos. &lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-2461304064038387675?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/2461304064038387675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=2461304064038387675' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/2461304064038387675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/2461304064038387675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/02/supremacia-da-esttica.html' title='A supremacia da estética'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-3185844222534295667</id><published>2008-02-03T11:15:00.000-08:00</published><updated>2008-02-03T11:18:46.386-08:00</updated><title type='text'>Rio de Janeiro de todos os tempos possíveis</title><content type='html'>O polivalente prefixo “meta” é de fundamental importância para se comentar um dos mais engenhosos textos de ficção científica já lançados no Brasil. Aquela partícula de origem grega ganha múltiplos sentidos a depender do seu uso na formação das palavras. Pode ser o de “posição posterior”, como em metacarpo ou em metatarso; “mudança” ou “alternância”, a exemplo de metafonia e metagênese; “transcendência”, caso clássico de metafísica; ou ainda “reflexão sobre si”, empregado em metalinguagem. Escrito pelo jornalista Jorge Moreira Nunes em 1999 e lançado em 2007 pela editora Differential, &lt;em&gt;Macacos e outros fragmentos ao acaso&lt;/em&gt; propõe um complexo jogo a seus leitores, com partes sobrepostas formando um todo maior que sua simples somatória, desdobramentos inusitados e múltiplas camadas de compreensão se alternando ao longo de 126 páginas. Para entrar no terreno das metáforas, cada um pode escolher a de sua preferência: bonecas russas, dobraduras japonesas ou mesmo uma simples cebola da terra para tentar descrever os efeitos presentes neste metalivro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;!-- BBCode auto-link start --&gt; Para início de conversa, o título já faz uma provocação com o próprio autor. Ele é baseado em um famoso exercício de probabilidade. “Escreveram em algum lugar que se um hipotético e longevo macaco martelasse num teclado de máquina de escrever aleatoriamente por alguns milhões de anos acabaria um dia escrevendo a Ilíada”, comentou Nunes. Com tal idéia na cabeça, antes mesmo de começar o livro, ele criou um projeto colaborativo, no final da década de 90, que antecipou outras iniciativas semelhantes, como a Wikipédia ou, no caso nacional, o Overmundo. No endereço &lt;a href="http://www.macacos.net/" target="_blank"&gt;www.macacos.net&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt; o escritor deu a arrancada a um experimento literário totalmente virtual, uma lista de palavras escrita em um interminável fluxo de consciência por colaboradores anônimos, um verdadeiro macaco coletivo. Novamente nas palavras do criador: “O que fariam alguns milhões de seres humanos escrevendo uma mesma obra, acrescentando cada um suas impressões aparentemente confusas e caóticas do mundo, mas genuinamente representativas de um subjacente inconsciente comum?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pequena parte da resposta se encontra enxertada no livro, em quatro capítulos, apresentando uma torrente de palavras em livre associação de idéias, uma extrapolação beatnik elevada à enésima potência. Apesar de nela se incluirem expressões, trocadilhos e frases feitas em inglês, francês, latim, italiano, tupi - sem falar nos neologismos inclassificáveis - o conjunto da obra é, ao mesmo tempo, intraduzível para outras culturas e coerente a um brasileiro. Curioso notar o fato de que, em determinados momentos, expressões se repetem como se a lista fosse se fagocitar em uma espiral, mas, de forma aparentemente expontânea, ela acaba encontrando outros caminhos, outras associações, e segue em frente. Transcendendo os limites do livro, a obra aberta continua sendo escrita pelo coletivo de macacos colaboradores; segundo a contagem apresentada em um texto na contracapa do livro, a corrente contava com 62 mil palavras, escritas por centenas de usuários cadastrados naquele site, quando o livro de estréia de Nunes foi lançado, em maio de 2007.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os capítulos do projeto Macacos não são a única atração da obra. Há ainda os anunciados outros fragmentos ao acaso. Eles são formados por contos curtos escritos em diversos estilos pelo autor e em diferentes oportunidades. São cinco capítulos dedicados a eles. “Terraço”, um texto que estava inédito, narra de modo naturalista uma desventura na cidade do Rio de Janeiro, mistura sarcástica de sexo e violência na metrópole contemporânea. “Maelström”, publicado anteriormente no fanzine dedicado à literatura fantástica &lt;em&gt;Megalon&lt;/em&gt;, é seu exato oposto, um conto de caráter metafísico bastante complexo e simbolista. “Presente de mãe”, outro que estava inédito, apesar de ter participado de um concurso de FC, trata de tema bastante caro ao gênero em suas feições pulp: o do viajante ocidental que parte para terras misteriosas, no caso a Índia, e traz de volta a seu lar conhecimentos secretos; o diferencial aqui está no uso que o narrador faz de tais conhecimentos em um estádio de futebol carioca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Saviana” é o único dos textos que já havia sido publicado em livro antes, pois foi uma das duas colaborações de Nunes na coletânea &lt;em&gt;Intempol&lt;/em&gt;, lançada no ano 2000 pela editora Ano-Luz. Aquela obra, que reuniu o trabalho de oito escritores, representou, cronológica e profissionalmente falando, a estréia do jornalista em terreno literário. O conto faz parte do universo compartilhado de uma polícia internacional do tempo criado por Octavio Aragão. O leitor eventual pode entender a trama, mesmo sem conhecer todos os detalhes da Intempol - versão abrasileirada da Patrulha do Tempo, do veterano Poul Anderson, cujas diferenças principais estão nos métodos dos seus agentes, bem menos sutis que os de Manse Everard, protagonista da série americana. “Saviana” dá uma boa amostra disso, com sua história se desenrolando no Tahiti no ano de 1893. Por último, fechando o arco de contos reunidos em &lt;em&gt;Macacos&lt;/em&gt;, um outro que também saiu originalmente em &lt;em&gt;Megalon&lt;/em&gt;, “Ouroboros”, com sua visão transcendental de um Rio de Janeiro mil anos no futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descrevendo de tal forma, ao falar dos quatro capítulos formados pelo fluxo de pensamento livre do projeto Macacos e da apresentação de meia dezena de contos diversos, o livro em questão aparentemente estaria mais bem classificado se fosse chamado de coletânea. Acontece que, já na capa - de autoria do artista gráfico e também autor de textos de FC Osmarco Valladão -, &lt;em&gt;Macacos e outros fragmentos ao acaso&lt;/em&gt; se autodenomina romance. E, de fato, são os outros seis capítulos do livro que, ao unificarem e darem um contexto aos demais fragmentos aparentemente aleatórios, permitem tal classificação, o de um romance que contém uma antologia de textos curtos. O exercício de metalinguagem proposto por Jorge Moreira Nunes se completa nesta meia dúzia de intervenções que surge com o título em comum de “La Granada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O La Granada ficava estrategicamente localizado na esquina de uma rua transversal de Copacabana, bem no caminho da praia”. É assim que o autor descreve o espaço no qual se passa formalmente o roteiro de seu romance, um boteco tipicamente carioca. O tempo, seria as semanas finais do ano de 1999, a época que ficou simbolicamente marcada como sendo a virada do milênio, a despeito de, matematicamente falando, isso só ter ocorrido no ano seguinte. Aquele foi o tempo e o espaço em que a obra foi de fato produzida e no qual chegou a ser premiada antes do lançamento: durante a Bienal do Livro de 1999, o original do texto, que então ainda levava o nome de &lt;em&gt;O jogo dos bichos&lt;/em&gt;, recebeu a Bolsa para novos escritores, incentivo concedido pela Fundação Biblioteca Nacional para material literário em fase de conclusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocorre que o autor, dez dias depois de recebida a honraria, se mudou do Rio de Janeiro para Coconut Creek, no estado americano da Flórida, o que adiou a tal conclusão por nada menos que oito anos e meio. Originalmente o escritor foi aos EUA trabalhar em um jornal local para brasileiros – hoje em dia, ele se tornou proprietário de outra publicação, concorrente daquela primeira, o &lt;em&gt;AcheiUSA&lt;/em&gt;. Mas se o projeto tardou, acabou saindo assim que o autor conseguiu uma brecha na agenda, mesmo tendo que coordenar tudo à distãncia, sem participar de nenhum lançamento do primeiro livro solo aqui na terra natal. A edição acabou sendo feita às pressas, com um resultado que não chega a ser um primor em termos de revisão, de diagramação ou de escolha da tipologia, muito antes pelo contrário. A maior ironia neste quesito é que o livro, que fora premiado pela BN em sua fase inicial, como foi dito, acabou sendo impresso sem o devido registro formal. O motivo? Os funcionários da Biblioteca Nacional estavam em greve durante a preparação dos exemplares...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, o continuum básico do enredo, da metanarrativa, por assim dizer, do romance é aquele: um bar na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no último mês e meio do ano da graça de 1999. Naquele lugar, todas as semanas, uma espécie de alter ego do autor se encontra com um colega chamado Vlad para beber, ler trechos do livro &lt;em&gt;O Rio de Janeiro do meu tempo&lt;/em&gt;, do historiador e memorialista Luis Edmundo (nascido no século XIX), jogar xadrez às cegas - sem tabuleiro, nem súmulas, apenas ditando as jogadas um para o outro - e se submeter a uma impiedosa sessão de crítica literária. Os textos que o narrador apresenta a seu algoz são, adivinhe, aqueles mesmos que fazem parte do restante da estrutura do livro, incluindo aí os trechos do projeto Macacos. Cada conto é dissecado e analisado de forma impiedosa por Vlad, em uma experiência curiosa de autocrítica ou autoflagelação por parte do escritor. Ego e superego se confrontam em uma partida de xadrez metafórica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O curioso embate é uma das brincadeiras metalinguísticas preparadas pelo escritor estreante. Afinal, as críticas podem ser acompanhadas pelos leitores entre uma página e outra, logo após a apresentação do texto a ser bombardeado. Da mesma forma que esses leitores em potencial são convidados a imaginar o desenrolar das peças do xadrez mental que protagonista e antagonista movimentam - para isso, extraí mais prazer do livro quem entende a linguagem cifrada do jogo, aqueles que sabem que P3CD se traduz como o peão avançando para a terceira casa do cavalo da dama, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vlad demonstra ser um analista minucioso da obra do personagem Jorge Moreira Nunes, apontando inconsistências, expondo citações. Claro que nem tudo é dito, ainda sobra bastente material para despertar o interesse dos outros críticos. Para exemplificar, peguemos “Maelström”, um dos contos mais detalhadamente radiografados pelo metacrítico: ele comenta as semelhanças do texto com a obra de Umberto Eco, de Jorge Luís Borges, de Marguerite Yourcenar. Mas deixa de lado o fato de que, já no título, ele faz referência a um conto de Edgar Allan Poe, autor que aparenta ser uma influência forte de Nunes, sem falar em um romance famoso de Jules Verne. Há espaço para outros críticos e outros leitores exercitarem seu lado “Vlad”, como se vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo o mais desatento dos leitores pode adivinhar que a conclusão de todas as pontas daquele mecanismo literário vai se dar durante o reveillon anunciado. Como em uma autêntica partida de xadrez, muitos dos lances são previsíveis, algumas peças são entregues para serem capturadas pelo oponente, como isca. Mesmo assim, o autor conservou lances para os momentos finais, algo como o roque, quando a torre muda de lugar com o rei, o que serve tanto para a defesa quanto para uma estratégia de ataque do jogador. Os desdobramentos do romance também guardam esse tipo de surpresa, um detalhe mencionado dezenas de páginas antes pode voltar a ter um novo significado na hora certa. E, apesar das severas críticas que tanto o alter ego quanto o superego do autor fazem ao gênero em determinado momento - uma das raras concordâncias daquelas personalidades antagônicas - o livro, ao final, se revela uma obra de ficção científica de fato e de direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma questão que pode ficar em aberto é se a distância entre a produção e o lançamento do livro, de quase dez anos, não envelheceu o texto, fazendo-o perder boa parte do impacto que teria caso saísse mesmo na virada de 1999 para 2000. É algo difícil de se avaliar, mas felizmente as várias camadas de significados ainda estão lá, mesmo com o passar do tempo. Além disso, ao longo de todo o livro, versões de diferentes épocas da capital do Rio de Janeiro se alternam. Desde o prólogo, em que o autor exercita uma de suas maiores qualidades, a habilidade descritiva dos ambientes: ele narra, em uma página e meia, o panorama da cidade que começa em tempos pré-humanidade e avança até uma menção um tanto sutil a um evento ocorrido em 1555. Passa ainda pelas breves citações ao Rio de Janeiro novecentista de Luis Edmundo, chega à realidade contemporânea de “Terraço” e de “Presente de mãe” e ainda especula o futuro distante de “Ouroboros”. Neste Rio de Janeiro de todos os tempos possíveis, &lt;em&gt;Macacos e outros fragmentos ao acaso&lt;/em&gt; segue sua trajetória metalinguística, metafísica, metacrítica entre outras aplicações daquele polivalente prefixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Serviço:&lt;/strong&gt; uma última surpresa do livro é o fato de ele ser distribuído gratuitamente a todos os interessados. Cariocas só precisam passar na sede da editora e requisitar um exemplar, leitores de outros estados podem fazer o pedido por carta, telefone e e-mail e só pagam as despesas de postagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Differential Comunicação e Editora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Av.N. Sra. Copacabana 330/Sala 1201&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CEP - 22020-001 - Copacabana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rio de Janeiro - Brasil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;55-021-2548-7707&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;55-021-9998-5293&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;!-- BBcode auto-mailto start --&gt;&lt;a href="mailto:marcosmaynart@differential.com.br"&gt;marcosmaynart@differential.com.br&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-3185844222534295667?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/3185844222534295667/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=3185844222534295667' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/3185844222534295667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/3185844222534295667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/02/rio-de-janeiro-de-todos-os-tempos.html' title='Rio de Janeiro de todos os tempos possíveis'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-6107731773786672651</id><published>2008-02-03T11:08:00.000-08:00</published><updated>2008-02-03T11:10:54.456-08:00</updated><title type='text'>Crítica e metacrítica</title><content type='html'>&lt;strong&gt; Um escritor de ficção científica recém-publicado que é ao mesmo tempo bastante crítico quanto ao futuro da ficção científica. O autor em questão lançou seu livro, &lt;em&gt;Macacos e outros fragmentos ao acaso&lt;/em&gt;, em meados do ano passado, após tê-lo deixado quase uma década à espera da sua conclusão, tempo em que ele, jornalista de profissão, se estruturou em um novo país. Falando diretamente da Flórida, após uma brevíssima passagem por seu Rio de Janeiro natal, o autor fala de como o livro mudou sua vida uma vez enquanto o escrevia e de como pode voltar a mudá-la, agora que o publicou, descreve o modo pouco usual como encara este gênero literário em que se aventurou e sobre o desenvolvimento de um projeto colaborativo de sua criação. Com vocês, o metacrítico da FC, Jorge Moreira Nunes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Macacos e outros fragmentos ao acaso&lt;/em&gt; acabou sendo sua estréia como autor de um livro de ficção científica, mas ele contém material que foi escrito há quase dez anos. Dá para fazer uma checagem no seu arquivo e conferir se há mais textos, entre inéditos e publicados, de sua autoria? Ainda há outros textos fictícios escritos antes da produção do livro e no intervalo de mais de oito anos até o lançamento do romance? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho alguns textos inéditos, mas que não vejo porque publicar em lugar algum, por várias razões. A maioria não tem a qualidade mínima que mereça o esforço, outros são apenas esboços de projetos, num total de meia-dúzia de textos. Depois que me mudei para os EUA, minha produção literária congelou-se completamente. Não escrevo nada que mereça ser chamado de literatura há oito anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Qual é a sensação de lançar um livro, e logo a obra de estréia, de modo tão isolado? Ela acabou saindo distante do tempo em que foi escrita, em 1998, e você mesmo está bem afastado da cidade em que a história se passa, o Rio de Janeiro. E tanto o tempo quanto o espaço são personagens importantes para o romance. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que não houve um “;lançamento”; de verdade, mas apenas uma “;impressão”;, que aliás foi bancada por mim. Nunca tive a ousadia de submeter os originais a uma editora para avaliar suas possibilidades, mesmo porque não acho que o livro teria boa receptividade entre os editores mainstream, apesar de ter ganhado a bolsa para obras em fase de conclusão, da Biblioteca Nacional, em 98. Queria apenas me livrar dos originais e colocá-los no mundo para que seguissem o seu caminho, e para isso não seria necessária minha presença física no Rio. Já que a minha intenção seria distribuí-lo de graça, não houve também uma necessidade de seguir um plano de marketing para divulgá-lo e promover vendas. É claro que a intenção será sempre a de que as pessoas leiam o livro, mas gosto de observar como ele se comporta sem uma interferência mercadológica. Pessoalmente, para mim foi muito importante me livrar do trapézio machadiano na cabeça que ele representava desde que ficou pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os distanciamentos, tanto no tempo quanto no espaço, não trouxeram maiores conseqüências. Estive no Rio, agora em dezembro, e o cenário do livro não mudou nem um pouco. Talvez o fato de situar a história na virada do milênio tenha tirado um pouco da sua atualidade mas, como você bem salientou na sua resenha, &lt;em&gt;Macacos&lt;/em&gt; trata de um Rio de Janeiro de todos os tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como foi o processo de montagem da estrutura do livro? Há quanto tempo você cultivava a idéia montar uma história que contextualizasse vários de seus contos em um romance de metalinguagem? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais tive essa idéia, isto é, de caso pensado, e nem parei um dia e decidi: “;Vou escrever um livro”;. &lt;em&gt;Macacos&lt;/em&gt; surgiu de repente, quando percebi que era possível construir uma espinha dorsal que reunisse em torno alguns contos meus, usando uma espécie de corrente de palavras que eu andava a escrever e que depois viria a ser &lt;em&gt;Macacos&lt;/em&gt;. A corrente era uma brincadeira pessoal, uma verborragia cheia de associações psicanalíticas reunidas com alguma preocupação literária, por assim dizer, mas sem qualquer aplicação prática nem maiores intenções. A metalinguagem foi usada para facilitar a conexão entre os diversos contos: nada melhor para colocá-los no mesmo saco que as críticas de Vlad... E assim o livro foi sendo escrito pelo caminho, à medida que as associações entre os contos e a corrente surgiam e sugeriam enredos, quase de forma espontânea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E a seleção dos textos que fizeram parte dessa experiência? Você aproveitou “;Saviana”;, por exemplo, mas deixou de lado outro conto escrito originalmente para coletânea &lt;em&gt;Intempol&lt;/em&gt;, “;O furacão Marilyn”;, quais foram os seus critérios de escolha? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Intempol foi um grande estímulo para a elaboração do livro. O surgimento daquele universo compartilhado e suas possibilidades me fizeram ter vontade de escrever. Assim que Octavio Aragão criou a sua lista de discussão, escrevi ”;O furacão Marilyn”; e “;O ovo e a galinha”;, minhas primeiras tentativas de contribuir para o universo. Esses contos foram escritos sem qualquer pretensão, meio que de brincadeira e de uma penada só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já “;Saviana”; mereceu uma maior atenção, porque a Intempol já ganhava uma dimensão mais consistente. O critério de escolha foi muito simples, porque a minha produção é bem limitada: de todas as minhas tentativas, os contos que estão no livro são os únicos que considero sofríveis para publicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Entre os dois personagens principais de seu livro há um único consenso, ainda que com alguma diferença de intensidade: a crítica à FC como gênero literário. O antagonista Vlad a classifica como masturbação e diz que “;essas histórias não têm absolutamente nenhum motivo que não seja tentar inflar o ego de quem as escreve”;. Já o personagem narrador diz acreditar que “;a ficção científica já morreu e não sabe”;. E você mesmo, como autor, não personagem, qual sua opinião a respeito do assunto? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Vlad somos bastante preconceituosos, é verdade…; O fato é que posso estar falando sem conhecimento de causa, porque minhas leituras de FC são bastante limitadas e restritas a alguns clássicos do gênero, e àqueles continhos do tipo da &lt;em&gt;Asimov Magazine&lt;/em&gt;, mas intuitivamente penso realmente que a FC anda nos seus estertores. E, como todo preconceituoso, tenho o mau hábito de não gostar de várias coisas mesmo antes de conhecê-las, e uma dessas coisas é a FC pós-moderna e os seus subgêneros, tais que cyberpunks, pulps e afins. Talvez o meu encanto com a FC tenha se desfeito ao mesmo tempo que se desfizeram os sonhos de futuro que minha geração possuía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a virada de 60/70, era quase certo que o futuro próximo nos reservaria viagens interplanetárias, hotéis na lua e outras maravilhas tecnológicas. A FC era baseada nesses sonhos, ao mesmo tempo que os alimentava. Depois que o futuro desmoronou, perdi o interesse e não mais acompanhei o mainstream.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à FCB, há coisas boas e outras nem tanto. Desconfio que há uma certa tendência para o pastiche, para simular fórmulas alheias retiradas dos ídolos dos escritores. Faltam, é verdade, aquela obra emblemática, aquele autor consagrado, apesar de haver gente com bastante talento escrevendo. Talvez seja uma questão de estatística, como diria um macaco: se a gente produzir bastante, um dia, por força estatística, pode ser que alguém traga a redenção para a FCB.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E por que, dentre tantas possibilidades existentes, você, um jornalista, escolheu a ficção científica para expressar seu lado literário? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se foi uma “;escolha”;, porque não decidi delibradamente escrever FC. Apenas escrevi o que imaginei, e se o resultado pode ser chamado de FC, não há problemas. Mas prefiro deixar a catalogação do livro em aberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O projeto colaborativo Macacos é uma das bases do seu primeiro livro. Quando e de onde veio a idéia para elaborar tal iniciativa e o que você tem achado da evolução da experiência ao longo dos anos? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia de abrir a corrente veio como conseqüência natural do livro, e foi muito interessante trazer para a realidade o conceito contido no livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;!-- BBCode auto-link start --&gt; Quer dizer, até agora a corrente tem cumprido no mundo real exatamente a função que lhe foi atribuída inicialmente no livro. Se ela vai seguir o destino que o livro lhe preparou, isso é outra história, mas por enquanto a realidade está acompanhando a ficção. A evolução de Macacos foi realmente impressionante durante esses anos. Por algum tempo, o website ficou estacionado num canto distante da internet, e tinha muito poucas colaborações, ainda que chegassem duas ou três contribuições à corrente por mês. Depois que ela encontrou seu domínio próprio ( &lt;a href="http://www.macacos.net/" target="_blank"&gt;www.macacos.net&lt;/a&gt;&lt;!-- BBCode auto-link end --&gt; ) a coisa decolou. Hoje, mais de 90% da corrente foram acrescentados pelos visitantes do site, que escrevem de tudo ali. Isso com pouca ou nenhuma divulgação. Não posso deixar de reconhecer, no entanto, que ela recebeu um impulso fantástico de um entusiasta de primeira hora: Carlos Alberto Teixeira (CAT), d’;&lt;em&gt;O Globo&lt;/em&gt;, que dedicou uma sua coluna inteira para a corrente, muito antes do livro ser lançado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ao longo do texto, são citados vários autores de diversos estilos, Nietzsche, Borges, Eco, Poe, Clarke, Miller... Quais são os escritores que mais o influenciam na hora de elaborar seus trabalhos de ficção? E o que você anda lendo atualmente? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil listar os autores que me influenciaram, porque acho que essa influência está num nível inconsciente, mas com certeza esses que você citou estão presentes, e mais pelo menos uma centena de outros, ainda que eu não consiga identificar nada desses autores no meu texto (quem me dera!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não procurei reproduzir nenhum estilo específico no livro, e também acho que ainda não desenvolvi um estilo próprio, para que possa ser analisado sob uma ótica de influências. Quanto às leituras, tenho lido muito pouco, mas no momento leio um livro bem interessante sobre o xadrez - &lt;em&gt;O jogo imortal&lt;/em&gt;, de David Shenk -, sobre como a dinâmica do jogo parece ser um simulacro em menor escala de todos os dramas vividos pela humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aparentemente, ao final do livro você fez uma pesada sessão de autopsicanálise e até de autoexorcismo. Como foi passar por tal experiência e, quanto à sua relação com a crítica e com a autocrítica, algo mudou depois de escrever e, finalmente, publicar a obra? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo, tudo me parece um processo inconsciente. Não estruturei o livro deliberadamente com essa intenção pessoal, mas ela acabou surgindo com o seu desenvolvimento. E, coincidência ou não, o livro transformou mesmo a minha vida, começando pelo fato de os originais terem ganhado o prêmio da BN.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso me valorizou como profissional e me abriu portas aqui nos EUA, onde acabei por me fixar, abrindo um jornal. Embarquei para cá exatamente dez dias depois de receber a premiação por Macacos durante a Bienal do Livro de 99, e o deixei de molho desde então. Agora, oito anos depois, parece que ele está a fim de transformar a minha vida novamente…;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Neste intervalo de mais de oito anos entre o começo e o fim de &lt;em&gt;Macacos&lt;/em&gt; você pensou em voltar a desenvolver algum novo projeto? No futuro próximo há a possibilidade de sair mais algum livro seu ou alguma nova experiência interativa? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante este período estive muito ocupado com a estruturação da minha vida profissional aqui nos EUA, empenhado na construção e consolidação do meu jornal como empresa. Hoje, já posso relaxar um pouco e voltar a pensar em coisas como literatura e música, duas paixões (e frustrações). Tenho algumas idéias gravitando, mas preciso antes resgatar o hábito de escrever regularmente e desenvolver uma certa disciplina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acredito que um possível novo livro venha nos moldes de &lt;em&gt;Macacos&lt;/em&gt;, acho que ele já foi para o mundo. Possivelmente será alguma coisa mais convencional, uma história simples.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-6107731773786672651?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/6107731773786672651/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=6107731773786672651' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6107731773786672651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6107731773786672651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/02/crtica-e-metacrtica.html' title='Crítica e metacrítica'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-1954482823276464810</id><published>2008-02-03T10:52:00.000-08:00</published><updated>2008-02-03T10:58:13.381-08:00</updated><title type='text'>Moços do corpo dourado</title><content type='html'>O texto literário mais antigo do qual se tem conhecimento foi escrito por um autor anônimo em tábuas de argila utilizando caracteres que lembram o formato de cunhas. Trata-se de um poema épico dividido em 12 partes que narra os feitos heróicos de Gilgamesh, o rei semilendário de Uruk, na antiga Mesopotâmia, na época em que aquela região da Ásia era ocupada pelo povo sumério. Basicamente, conforme foi traduzida no século XIX, após passar milénios no esquecimento, a epopéia descreve como o soberano se embrenhou na aventura em busca de um dom que ele, apesar de ser filho de uma deusa e de um semideus, não herdou no nascimento: a vida eterna. Passados quase 5 mil anos do surgimento daquele marco da literatura, para ser mais exato foi em 2003, um livro nacional de ficção científica fez a transposição de tal mito para os tempos de hoje, com a vantagem extra de trocar os incômodos retângulos de argila pelo papel e de ter substituído quase todos os símbolos cuneiformes pelo nosso velho conhecido alfabeto latino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O título da obra em questão faz referência a outra inovação típica dos sumérios - neste caso, arquitetônica - os zigurates, as primeiras construções a desafiar os limites terrenos se lançando aos céus e que, não por acaso, deram origem ao mito da Torre de Babel. &lt;em&gt;Zigurate - Uma fábula babélica&lt;/em&gt; é o quarto e mais recente livro do gaúcho de Porto Alegre Max Mallmann, atualmente um residente da capital fluminense onde trabalha como roteirista da Rede Globo. Em termos literários, ele, que é formado em direito, estreou em 1989, aos 20 anos, com &lt;em&gt;Confissões do minotauro&lt;/em&gt;; em seguida veio &lt;em&gt;Mundo Bizarro&lt;/em&gt;; &lt;em&gt;Síndrome de quimera&lt;/em&gt;, publicado no ano 2000 pela mesma editora Rocco de &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt;, foi traduzido para o francês e chegou a ser finalista para o renomado prêmio Jabuti. Já no plano do audiovisual, escreveu sua própria telenovela, &lt;em&gt;Coração de estudante&lt;/em&gt;, colaborou com a &lt;em&gt;soap opera Malhação&lt;/em&gt; e, hoje em dia, faz parte da equipe de criação do seriado &lt;em&gt;A grande família&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, há quase 20 anos, ele vem se dedicando a vários temas, dos dramas adolescentes a comédias familiares, passando por trabalhos em literatura fantástica, com ênfase na fantasia. Vamos pegar o exemplo de &lt;em&gt;Mundo Bizarro&lt;/em&gt;, publicado em 1996 com recursos da prefeitura da capital do Rio Grande do Sul, quando o escritor assinava com o nome Max Mallmann Souto-Pereira. O livro conta a história de um porto-alegrense que misteriosamente foi parar em outro planeta - ou seria outra dimensão? Ou ainda um universo paralelo? - habitado por um povo atrasado tecnologicamente que cultuava três mil deuses diferentes. Foi em &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt; que ele se aventurou de modo mais explícito, e com maturidade autoral, no terreno da FC, mesmo sem abandonar outras vertentes literárias. Com isso, não só escreveu um dos melhores romances do gênero lançados nesta década, como ainda criou dois dos mais carismáticos e bem construídos personagens de nossa ficção científica em todos os tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No livro do século XXI, quem repete a epopéia do rei sumério em uma longa viagem em busca da Vida é uma pesquisadora francesa chamada Sophie Brasier. Aos 30 anos, convivendo com o vírus HIV desde os 20, ela descobre que a mistura do coquetel anti-Aids com os genes ruins herdados do pai a condenou a uma morte certa por ataque cardíaco em uma questão de meses. Sem nenhum relacionamento amoroso há anos, sem amigos próximos, tendo como família apenas a mãe ausente e uma samambaia, a parisiense se agarra a única coisa que lhe restou na tentativa de evitar a insanidade: concluir sua tese de doutorado em antropologia denominada &lt;em&gt;Interpolações dos mitos mesopotâmicos no texto bíblico&lt;/em&gt;. Para ajudar a explicar o título, vale lembrar um exemplo no caso já citado. Um dos pontos narrados no &lt;em&gt;Poema de Gilgamesh&lt;/em&gt; diz respeito a uma grande inundação bastante semelhante àquela presente no trecho da &lt;em&gt;Bíblia&lt;/em&gt; sobre a Arca de Noé. A diferença principal é que o protagonista da lenda suméria, Ziusudra, ao contrário do patriarca bíblico, recebeu de seu deus, Ea, a dádiva tão cobiçada pelo rei Gilgamesh, a imortalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sophie não tinha teorias bombásticas, não queria provocar polêmica e nem revolucionar o mundo acadêmico", apontou Mallmann. "Queria apenas escrever uma tese clara, lógica, fria e legível. Como uma lápide, seu último trabalho intelectual antes de morrer". Com tamanha motivação, a antropóloga fez algumas descobertas que, caso pudessem mesmo ser comprovadas, iriam sim causar polêmicas e revoluções. E não apenas na academia. Aqui talvez seja prudente esclarecer um ponto: um leitor de hoje, que não conheça o livro do gaúcho, pode encontrar semelhanças entre a descrição da trama de &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt; com o megasucesso &lt;em&gt;O código da Vinci&lt;/em&gt;, mas a comparação não é de todo procedente. Por uma questão cronológica, a obra de Dan Brown nunca poderia ter sevido de inspiração, afinal, coincidentemente, ela também foi lançada em 2003, nos EUA, e só viria a estourar como sucesso a partir no ano seguinte, culminando com a adaptação cinematográfica de 2006. Além disso, não é patriotada dizer que o material nacional é estilisticamente bem superior ao daquele livro mais famoso - e, em outra coincidência, que também é o quarto lançado pelo escritor americano. Se for para arriscar alguma influência do gaúcho, é mais certo apostar em uma dupla de escritores e quadrinistas britânicos. Pela temática, Alan Moore, com a série de HQ &lt;em&gt;Promethea&lt;/em&gt;, lançada em 1999, e, pela construção de personagens, Neil Gaiman, principalmente por Morte, irmã mais velha de Sandman, criaturas cult dos anos 80.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando a &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt;. O ponto de partida para a investigação científica foi a carta que Sophie descobriu em uma biblioteca francesa, contendo a reprodução do texto de uma &lt;em&gt;Bíblia&lt;/em&gt; escrita no século XII. Era uma versão apócrifa e aparentemente herética do primeiro livro que compõe as escrituras sagradas. Nesse &lt;em&gt;Gênesis&lt;/em&gt; alternativo, escrito em latim clássico ao longo de 14 versículos, estava contada a origem de um casal anterior a Adão e Eva, os misteriosos Lugal e Nin que vieram ao mundo no sexto dia da criação. Eles sim teriam sido feitos à imagem e semelhança de Deus, tanto que foram agraciados com a vida eterna. Parte disso se explica pelo material utilizado na confecção dos seres primogênitos, pois eles foram esculpidos em ouro, único metal capaz de refletir "com seu brilho imperecível" a glória e a imagem divinas. Porém, eles acabaram por afrontar o Criador e, como vaticina o capítulo 2, versículo 5 do texto, acabaram punidos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O Senhor Deus, arrependido de sua criação, depôs Lugal e Nin do trono do mundo recém-feito. E Deus lhes disse: 'Imortais vos fizemos. Imortais vós sereis. Mas vossa semente será estéril. Não deixareis filhos nem herdeiros. Vagareis sem destino pela terra até o final dos tempos, e nenhuma memória restará de vossa existência, pois este mundo já não mais vos pertence'".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrependido da experiência pioneira, Deus resolveu tentar novamente, agora com algumas salvaguardas. Trocou a nobreza perene do ouro pela simplicidade fugaz do barro na hora de moldar Adão. Foi assim que o novo homem e, por consequência, a mulher que recebeu sua costela se tornaram um par "debilis et imbecillus, fragilis et mortalis", ou seja, "débil e quebradiço, frágil e mortal". Apesar do ceticismo do orientador da pós-graduação, dos protestos da mãe e da gravidade de sua doença, Sophie Brasier mergulhou de tal forma na pesquisa que, ao longo dos meses, acabou econtrando referências em uma infinidade de fontes históricas. Os nomes Lugal e Nin, de origem suméria, surgiam, por exemplo, compondo a nomenclatura de deuses e de reis em textos acádios, babilônicos e assírios, além dos citados pais de Gilgamesh: a deusa Ninsun e o rei divino Lugalbanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não parou por aí. Aparecem pistas nos relatos dos homens do exército de Napoleão que invadiram o Egito e nas listas de condenados à guilhotina durante o período de terror da Revolução Francesa, assim como entre as mulheres julgadas como bruxas pela Inquisição espanhola. Ainda na Espanha, surgem relatos de um Lugal entre os combatentes da Guerra Civil, do mesmo modo que entre os soldados soviéticos que tomaram Berlim no colapso da II Guerra Mundial. Há uma Nin na redação do &lt;em&gt;Pravda&lt;/em&gt; durante a Revolução Russa e surge uma foto dela em uma reportagem da &lt;em&gt;Vogue&lt;/em&gt; tirada na Inglaterra há 40 anos. Voltando a comparar com o &lt;em&gt;O código da Vinci&lt;/em&gt;, até mesmo uma pintura antiga fornece pistas da existência real daqueles misteriosos seres que, a depender da inspiração poética de quem os descreve, têm a pele de um "amarelo solar", "amarelo mostarda", "cor de uísque", "matiz ambarino", "anêmica", "cor de mijo" ou de "gema de ovo frito".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de praticamente um ano, contrariando os diagnósticos em relação à sua expectativa de vida, a doutoranda resolve deixar a especulação teórica de lado e parte para a pesquisa de campo. Sua empreitada a leva até à Escócia para tentar ao menos provar a veracidade de parte dos seus achados. Enquanto isso, alheia ao interesse acadêmico que lhe envolve, a outra metade da trama se desenrola em um cenário bem mais conhecido dos brasileiros: a cidade do Rio de Janeiro. Por lá, o ritmo da história é outro, substituindo neurônios europeus por adrenalina das Américas. Chovem bala e sangue numa mistura de corrupção política com violência dos morros cariocas. Mas o tratamento dispensado à narrativa também é diferente, Mallmann substituiu o realismo com que tratou o ambiente acadêmico francês por um tom mais de fábula mesmo, como sugere o subtítulo. Por isso, não é o caso de se esperar uma descrição cruenta da realidade urbana nos moldes de um "Feliz ano novo" de Rubem Fonseca; seria mais adequado comparar o lado brasileiro da história com algum roteiro de Quentin Tarantino, algo como um &lt;em&gt;Amor à queima roupa&lt;/em&gt; carnavalizado. Isso ajudou a deixar o texto ameno e bem-humorado, mas também acabou abrindo portas para alguns personagens mais rasos, quase caricatos. Talvez &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt; tivesse a ganhar com a ausência de alguns deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Analisando o livro como um todo, em poucas páginas, com um ritmo alucinante e a urgência de um moribundo que se agarra à sua última chance de salvação, Mallmann produz um apaixonante &lt;em&gt;tour&lt;/em&gt; pela História, da mais remota antiguidade aos dias atuais. Serve como prova de que a ficção científica pode usar como tema de extrapolação todas as formas de conhecimento organizado, como a antropologia e a filologia, e não apenas ciências exatas - apesar de, quase ao final das 223 páginas da obra, surgir uma muito interessante possibilidade envolvendo física teórica avançada. O grau de detalhismo e a veracidade com que o autor constrói o cenário e seus protagonistas tornam quase irresistível ao leitor algumas pesquisas pelas inúmeras referências textuais. A cada resposta do Google, este novo oráculo onisciente e onipresente, mais impressionante se demonstra a costura do texto e a erudição pop do escritor. Aguça a curiosidade e deixa no ar a pergunta: o que mais poderia ser feito se algumas lacunas fossem preenchidas? Ao fim, &lt;em&gt;Zigurate - Uma fábula babélica&lt;/em&gt; não é apenas uma recriação em vários níveis da saga de Gilgamesh pela busca da existência eterna. O livro também é uma apaixonada e muito bem engendrada homenagem à palavra escrita, com as diferentes tecnologias que, ao longo dos tempos, lhe garantiram a existência e, de quebra, também fizeram com que a história e a cultura se tornassem possíveis. Não importando se tais tecnologias sejam laptops, endereços eletrônicos, o lápis ou tábuas de argila gravadas com caracteres cuneiformes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-1954482823276464810?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/1954482823276464810/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=1954482823276464810' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/1954482823276464810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/1954482823276464810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/02/moos-do-corpo-dourado.html' title='Moços do corpo dourado'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-682638186919259262</id><published>2008-02-03T10:43:00.000-08:00</published><updated>2008-02-03T10:50:20.141-08:00</updated><title type='text'>A permanência da palavra e a finitude humana</title><content type='html'>&lt;strong&gt; Por um exercício de masoquismo nostálgico, ele - que odeia máquinas de escrever - programou o computador de casa para imitar o mesmo som que ouvia da velha Olivetti do pai enquanto datilografava, há duas décadas, seu primeiro romance. Do final dos anos 80 para cá, houve mais mudanças na vida dele que a simples evolução tecnológica na hora de redigir seus textos. O gaúcho de Porto Alegre, morador da capital fluminense desde pouco antes da virada do milênio, se tornou um renomado roteirista de TV e um dos raros sucessos comerciais e de crítica da literatura fantástica nacional. Na entrevista a seguir, o escritor fala das motivações por trás de seu livro mais recente, &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt;; de como, mesmo aprendendo no curso de Direito a não confiar cegamente nela, criou uma homenagem à perenidade da palavra escrita; dos planos para levar tal obra ao cinema; e ainda dá dicas para escritores novatos de FC. Com vocês, o advogado que não aprendeu a dar nó em gravata, Max Mallmann.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos começar por uma breve retrospectiva da sua carreira de autor, tanto de textos literários quanto dos feitos para TV? Desde sua estréia, há quase 20 anos, já foram quantos textos escritos, mesmo entre os ainda não publicados, como contos, e roteiros de programas de televisão? Quantos prêmios decoram sua estante?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cara, quase vinte anos. Isso me assusta. Quando encasquetei que iria ser escritor, eu rabiscava historinhas com caneta Bic nos cadernos da escola. O primeiro romance que publiquei foi metralhado a muito custo na Olivetti do meu pai, com muitos retoques em Liquid paper, que era uma tinta branca que a gente, nos tempos jurássicos, usava para corrigir erros de datilografia. Eu odiava Liquid paper, cujo fedor de querosene me dava náuseas, odiava a Olivetti do meu pai, e não só ela, odiava máquinas de escrever em geral, quase tanto quanto odiava escrever em cadernos espirais desbeiçados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começar a redigir no computador foi uma libertação. Mesmo assim, hoje tenho um programa que reproduz, no teclado do PC, o barulho de uma máquina de escrever. Deve ser uma espécie de nostalgia masoquista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, perto da geração blogueira, sou um matusalém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho quatro romances publicados. E dois inéditos que jamais irei publicar. Sim, isso mesmo. Dois trabalhos da juventude, um com cento e tantas páginas e outro com mais de trezentas, que acho que não merecem ser lidos. Eles nem existem em versão digital. São datilografados. Estão perdidos em algum armário aqui de casa, sendo lentamente devorados pelas traças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois ou três contos que escrevi foram publicados em coletâneas, mas nunca fui bom contista. Devo ter meia dúzia de contos inéditos que nem sei mais onde estão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevi alguns poemas, naquela idade em que é perdoável escrever poemas, entre os dezesseis e os vinte e poucos. São todos inéditos, felizmente. Inéditos e desaparecidos, a menos que algum daqueles cadernos antediluvianos tenha sobrevivido em alguma gaveta. Não serei eu que irá procurá-los.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publiquei quatro romances, como já disse. Os dois primeiros lá em Porto Alegre, os dois mais recentes aqui no Rio, pela Editora Rocco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você falou em prêmios. Não são muitos. Meu primeiro livro, &lt;em&gt;Confissão do minotauro&lt;/em&gt;, foi um dos ganhadores do prêmio “Nova literatura” do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. Meu segundo trabalho, &lt;em&gt;Mundo bizarro&lt;/em&gt;, foi selecionado pelo Fumproarte, da prefeitura de Porto Alegre, e ganhou o prêmio Açorianos de melhor romance publicado no Rio Grande do Sul em 1996. O terceiro, &lt;em&gt;Síndrome de quimera&lt;/em&gt;, foi um dos dez finalistas do prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como roteirista de TV, escrevi para &lt;em&gt;Malhação&lt;/em&gt; por dois anos, trabalhei na equipe de uma novela das seis, &lt;em&gt;Coração de estudante&lt;/em&gt;, fiz &lt;em&gt;Carga pesada&lt;/em&gt; por um ano e, desde 2005, sou da equipe que escreve &lt;em&gt;A grande família&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sua formação acadêmica é o direito, mas você estreou como escritor muito jovem, com Confissão do minotauro sendo lançado quando mal tinha completado 20 anos. O que o levou a essa escolha na atividade profissional e como foi sua preparação para ela no início? Participou de muitas oficinas e cursos de literatura ou é mais autodidata mesmo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre digo que adoro aprender, mas detesto que me ensinem. Prefiro correr aos livros a perguntar a alguém. É meu velho conflito com a autoridade, que me faz desconfiar dos professores. Apesar dessa neurose, sou obrigado a reconhecer que não sou autodidata. Mesmo fugindo dos mestres, acabei tendo bons interlocutores, com quem aprendi bastante. Mas nunca tive um aprendizado formal na literatura, salvo um semestre que fiz no curso de Letras da UFRGS. Não gostei. Meus colegas se dividiam entre os que estavam dando um tempo até passar em outro vestibular e os que haviam desistido de fazer outro vestibular. Quanto aos professores... Eram bons, admito. Infelizmente, como já mencionei, adoro aprender, mas detesto que me ensinem. Desisti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou bacharel em Direito (ainda me assusta escrever isso, mesmo depois de tantos anos) formado pela UFRGS. Tenho o diploma, sou inscrito na Ordem dos Advogados, porém jamais exerci a profissão. Meu maior orgulho é ter concluído o curso sem jamais ter aprendido a dar o nó na gravata. A única matéria que me despertava algum interesse era o Direito Romano. Acho que o Direito me ensinou a não confiar nas palavras. O texto, mesmo que seja o texto da lei, jamais existe pos si só. Depende sempre da interpretação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Seus primeiros dois livros saíram por pequenos projetos editoriais e com modalidades de incentivo cultural. Qual foi a importância desses apoios para um autor iniciante, ainda mais um que tratava de temas pouco ortodoxos como ficção científica e fantasia?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual a importância? Foi fundamental. Concorri com muita gente e fui selecionado pelo Instituto Estadual do Livro. Depois, concorri com mais outros tantos e fui selecionado pelo Fumproarte. Isso me fez acreditar que eu não estava tão errado em querer ser escritor. E foi assim que me tornei profissional. Hoje, francamente, acho que esses dois primeiros romances eram bem ruinzinhos, mas, de qualquer jeito, eles me abriram muitas portas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, devo dizer que nunca sofri preconceito por escrever ficção científica e fantasia. Talvez nem exista esse preconceito. Ou, se existe, não é exatamente contra o gênero. É contra o pastiche. A cópia da cópia da cópia nunca é bem vinda. O que eu faço pode até não ser bom, mas também não é pastiche.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A outra metade de sua obra literária já saiu por uma das grandes editoras do país, a Rocco. Ter o livro lançado com o selo de uma empresa de porte é o grande objetivo dos escritores de FC nacionais, que vivem, em sua maioria, uma realidade de autopublicação dos títulos ou de participação em coletâneas. Você poderia contar um pouco sobre sua experiência até chegar a essa editora e, se possível, dar algumas dicas aos interessados em tentar repetir o feito?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vim morar no Rio, em 1999, eu tinha dois romances publicados, tinha ganho concursos e tinha recebido críticas favoráveis na imprensa do Rio Grande do Sul. Achei que podia arriscar um contato com uma editora grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira, e única, que procurei foi a Rocco, que é a mais aberta a novos autores. Telefonei, marquei uma hora e fui lá, com o meu currículo e o &lt;em&gt;Síndrome de quimera&lt;/em&gt; debaixo do braço. Três meses depois, assinei o contrato de publicação. &lt;em&gt;Síndrome de quimera&lt;/em&gt; foi lançado em 2000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fácil? Vamos fazer as contas. Em 1987, terminei de escrever &lt;em&gt;Confissão do minotauro&lt;/em&gt;. Em 1989, a &lt;em&gt;Confissão&lt;/em&gt; saiu pelo IEL do Rio Grande do Sul. Meu primeiro contrato com a Rocco foi assinado em 1999. Dez anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha lição aos novatos? Dêem um passo depois do outro. E não tenham pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia ser pior. Jogadores de futebol estão acabados antes dos quarenta. Escritores são mais longevos. O rótulo de “jovem escritor” gruda na pele até aí pelos cinqüenta e cinco, pelo menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sobre &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt;: ele parece ser o livro em que você mais levou a sério as possibilidades de se trabalhar dentro do gênero da FC. De onde veio a idéia inicial e quanto tempo você levou entre a pesquisa dos vários tópicos desenvolvidos nele e na produção do texto em si?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia vinha voejando pela minha cabeça desde 2000. Eu queria escrever um romance que falasse da permanência da palavra escrita em contraposição à finitude humana. Queria falar de morte e imortalidade. E queria, por nenhum motivo lógico, só por fetiche, uma personagem que fosse uma pesquisadora francesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A base de &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt; é a epopéia de Gilgamesh, o texto literário mais antigo de que se tem notícia. Comecei a reunir material e a pesquisar só em 2002, e concluí o romance em 2003. Tentei, na medida das minhas forças, costurar realidade e ficção de forma que ficasse difícil distinguir uma da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos leitores vêm me dizer que foram pesquisar no Google datas, nomes de pessoas ou de lugares, acontecimentos históricos citados no livro. E encontraram quase tudo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os protagonistas de seu livro são dois personagens tão carismáticos e com tanta riqueza de detalhes em seu passado que vale a pergunta: você já pensou em fazer uma continuação da história? Seja a partir do ponto em que o livrou parou ou mesmo alguma aventura anterior da dupla?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei, sim. Mas não a sério. Por enquanto, não tenho nada de novo a dizer sobre o universo de &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt;. Um dia, talvez, quem sabe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer modo, é bom ver que deixei em alguns leitores essa sensação de “quero mais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E quanto a adaptações? Trabalhando com roteiros de TV há tanto tempo, paralelamente à atividade de escritor de FC&amp;amp;F, já pensou em transformar algum de seus livros em um projeto audiovisual, seja como série, especial ou mesmo filme? Já chegou a discutir a possibilidade de adaptar &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;Síndrome de quimera&lt;/em&gt; com alguém da direção da Globo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre vi como atividades diferentes a escrita de roteiros e a escrita literária. Para mim, a diferença é análoga à que existe entre a escultura e a pintura. São duas especialidades distintas dentro de uma mesma arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, tenho o “modo roteirista” e o “modo escritor”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, veja só, &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt; está a caminho de virar filme. Um produtor comprou os direitos e já existe um roteiro pronto. Fazer cinema é um processo lento, então acho que daqui há uns dois ou três anos talvez possamos ver &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt; nas telas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;E além dos seus livros, na sua opinião que outras obras da ficção científica nacional poderiam render boas adaptações para o cinema ou para a TV? Há espaço para esse tipo de proposta atualmente? E essa seria uma maneira viável de despertar o interesse do brasileiro para produções nacionais do gênero?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que haja espaço para muita coisa. A TV brasileira investe cada vez mais em novos seriados. E o cinema nacional também está se diversificando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos muitos trabalhos nacionais que poderiam render boas adaptações para TV ou cinema. Só para citar alguns, assim, de estalo: o projeto Intempol, capitaneado pelo Octavio Aragão, o álbum &lt;em&gt;O Instituto&lt;/em&gt;, da dupla Osmarco Valadão e Manoel Magalhães, os contos do Carlos Orsi Martinho, o romance &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; do Flávio Medeiros, a história brasileira alternativa do Gerson Lodi-Ribeiro e vários outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, sinceramente, não sei responder se há uma maneira viável de despertar o interesse do leitor brasileiro pela literatura fantástica brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu conselho a quem escreve literatura é: não escreva pensando no público. O público é uma abstração. Escreva para você mesmo, e seja um crítico selvagem do seu próprio trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quais são suas maiores influências, nacionais e internacionais, aquelas que são marcantes em seus trabalhos? E quanto a novos autores, dentro do gênero fantástico, há alguma novidade que tenha lhe chamado a atenção?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas influências? Ah, muita gente. Sou muito “influenciável”. Vamos ver... Monteiro Lobato, Machado de Assis, Erico Verissimo, Jorge Luiz Borges, Luis Fernando Verissimo, Mario Quintana. Muitos mais. E, não posso deixar de mencionar, Carl Barks, meu primeiro mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a novos autores, tem muita gente boa. Alguns já publicados em livro, como o Flávio Medeiros, e outros que, por enquanto, só publicaram na internet, como a Ana Cristina Rodrigues, que é um dos nomes mais promissores da nova geração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você já tem algo planejado para o futuro, algum novo projeto de livro ou de trabalho na televisão que possa comentar?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na TV, continuarei, na temporada de 2008, na equipe que escreve o seriado &lt;em&gt;A grande família&lt;/em&gt;. Tenho muito orgulho desse trabalho e me sinto privilegiado por trabalhar numa excelente equipe de roteiristas (somos nove profissionais escrevendo o programa), e por escrever para um elenco de primeira linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cinema, há esse projeto da adaptação do &lt;em&gt;Zigurate&lt;/em&gt;. Julio Uchoa, o produtor, queria que eu mesmo escrevesse o roteiro, mas eu disse a ele que só sabia contar a história de um jeito: o jeito do livro. Assim, o principal responsável pela adaptação foi o roteirista Sylvio Gonçalves (que, além de ser meu amigo, também é autor de ficção científica). Claro que eu colaborei, e não só eu. Também fazem parte da equipe os roteiristas Adriana Lunardi e Bruno Garotti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na literatura, venho trabalhando desde 2005 num romance novo, que será lançado em 2008, pela Rocco. É uma história que se passa no século I, em Roma...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-682638186919259262?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/682638186919259262/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=682638186919259262' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/682638186919259262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/682638186919259262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2008/02/permanncia-da-palavra-e-finitude-humana.html' title='A permanência da palavra e a finitude humana'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-4983302617431836876</id><published>2007-10-14T11:28:00.000-07:00</published><updated>2007-10-14T11:32:28.962-07:00</updated><title type='text'>O sangue no olhar dos vampiros</title><content type='html'>De todo o vasto estoque de personagens que o gênero fantástico deixa à disposição de seus autores nenhum fascina tanto os brasileiros quanto os vampiros. Tais criaturas fazem parte da mitologia e do folclore de diversas culturas há tempos, mas ganharam fama literária em 1879 com o lançamento de &lt;em&gt;Drácula&lt;/em&gt;, de Bram Stoker. Por aqui, já exploraram o tema pelo menos duas telenovelas de grande audiência - &lt;em&gt;Vamp&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;O beijo do vampiro&lt;/em&gt; -, além de muitos outros exemplos na música, nos quadrinhos, em programas humorísticos... Mais afeito ao terror, o vampirismo é o mote por trás de uma série de livros que podem ser considerados verdadeiros best sellers nacionais nesta área, todos de autoria de André Vianco e lançados pela editora Novo Século. Contudo, a ficção científica também faz sua parte para a construção do mito em nossas terras, sempre buscando substituir elementos sobrenaturais por explicações laicas e técnicas. Fazem parte deste grupo, escritores como Fábio Fernandes, Gérson Lodi-Ribeiro e Flávio Medeiros Jr. que ou já têm ou ainda pretendem lançar obras protagonizadas por homens-morcego. Em 2006, um novato chamado Osíris Reis entrou para esta galeria com um verdadeiro projeto multimídia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ancorado pelo que pretende ser uma série de nada menos que oito livros, este projeto sem dúvida é um dos mais ambiciosos em andamento no país com relação à ficção científica e ao terror. Isso por qualquer ângulo que se procure olhá-lo. Nascido em Goiás, mas radicado na Capital Federal desde 2001, Osíris Reis coordena lá de Brasília os esforços em torno da adaptação de sua idéia para outras plataformas. No site http://www.trezemilenios.xpg.com.br o internauta pode ter uma noção do que se planeja: já estão disponíveis imagens 3-D baseadas nos personagens e em objetos presentes na série, um trailer com narração feita pelo próprio autor e músicas instrumentais, entre outros brindes. Como atualmente o goiano faz o curso de Audiovisual - Tv, Rádio e Cinema - da Universidade de Brasília, e já participou da produção de documentários e de curta-metragens locais, o auge do trabalho pretende ser um filme inspirado nas obras literárias. A julgar pelo que se pôde ver no primeiro livro, caso venha mesmo a ser feita, teremos a versão nacional e com caninos proeminentes de &lt;em&gt;Calígula&lt;/em&gt;; pelo menos no que diz respeito a derramamento de sangue e a cenas de sexo explícito.      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro em questão é &lt;em&gt;Treze milênios - Gênese vermelha&lt;/em&gt;, o Volume I de toda essa inusitada saga vampírica, publicado em 2006 pela editora Corifeu. Tudo começa em um futuro logínquo, uma data tão distante que parece algo proposto por Isaac Asimov. Em 7523, a humanidade conquistou o espaço, já fez intercâmbios pacíficos com outras culturas, dominou os quarks e construiu uma utopia de prosperidade, uma democracia direta intermediada por computadores. Neste contexto idílico, vive o protagonista da história, um médico que tem o nome mais ambíguo da história de nossa FC: Adolf Schindler. O personagem se prepara para comandar uma missão de exploração espacial em companhia de uma tripulação formada por outros seis capitães de origens diversas, entre eles, Mani, índia descendente de brasileiros. Tudo se encaminhava para uma ambientação típica de uma space opera, como aquela aparentemente infinita coleção de livros da série alemã &lt;em&gt;Perry Rodhan&lt;/em&gt;. Porém, uma experiência clandestina de manipulação do tempo, posta em prática por um daqueles tripulantes, dá um rumo diferente à trama e carrega com ela meia dúzia de cobaias involuntárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio, o objetivo do capitão renegado Eurass Brown era fazer um breve passeio - sair do ano 7523 para chegar a 7393. Algo dá errado, e o que deveria ser uma esticada de menos de um século e meio se tornou uma jornada composta por aqueles 13 milênios que dão nome à série. Pior que isso, ao chegarem ao ano de 5477 a.C. os viajantes do tempo descobrem que suas estruturas foram modificadas radicalmente no experimento. Não há porque fazer suspense: Osíris Reis dotou seus sete personagens com as características que nos acostumamos a identificar nos vampiros. Desde a imortalidade e a capacidade de regenaração até a necessidade de beber sangue e a fraqueza letal aos raios solares, o escritor buscou fornecer explicações científicas para tudo, partindo de uma alteração cromossômica planejada pelo antagonista do livro.               &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teoricamente, o que os novos imortais precisariam para retornar à normalidade de suas vidas seria tentar não interferir na vida da humanidade, e com isso evitar alterações no futuro. Tudo isso e mais uma espera de 13 mil anos. Na prática, os planos dos membros do grupo entram em choque. Se o sempre ético Adolf Schindler pretende manter o ideal não-intervencionista, para preservar a utopia que virá, Eurass Brown não tem a menor intenção de se conter, e quer implantar um império na pré-história mesmo. A trama neste primeiro livro ocupa aproximadamente meio século, no qual a postura dos vampiros - dos sete pioneiros do século LXXVI e dos vários outros que eles criam entre os humanos locais - se alterna entre esses pólos. Os resultados são as já mencionadas sequências de derramamento de sangue e de cenas de sexo explícito: o escritor iniciante oferece a seus leitores algumas das descrições mais detalhistas e chocantes que a FC brasileira já produziu em ambos os quesitos. Torturas, desmembramentos, estupros e orgias com praticamente todas as tendências sexuais imagináveis formam um cardápio que daria orgulho a Vlad Tepes, o sanguinolento príncipe da Valáquia que inspirou Bram Stoker a criar seu livro mais famoso. Seguramente, não é algo recomendável para todo o tipo de leitores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Gênese vermelha&lt;/em&gt; dá pistas de que seu autor pretende algo mais que contar a história secreta sobre a origem do mito do vampirismo. Detalhes, alguns mais sutis, outros nem tanto, dão a perceber que a influência dos sete vampiros vai se estender para outras mitologias, provavelmente percorrendo, ao longo da série, uma listagem do imaginário humano em todas as partes do mundo. Um detalhe tão ou mais ambicioso do projeto quanto as várias mídias em que ele pretende se lançar. Vai exigir bastante fôlego de seu idealizador, um esforço de pesquisa e uma habilidade narrativa enormes para dar coerência a tal saga. Pela amostra inicial, o escritor de 27 anos que propõe essa jornada conta com pontos positivos e negativos para acompanhá-lo pelo caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Osíris Reis tem uma formação bem pouco usual que lhe dá boa vantagem para tratar das especulações que acumula pelas páginas do livro. Antes de começar o curso de Audiovisual, ele frequentou três semestres de Medicina, ainda na Universidade Federal de Goiás, e outros três de Mecatrônica, já na UnB. Tal currículo ajuda a explicar alguns bons momentos do seu livro de estréia, quando ele descreve minúcias técnicas sobre como foi possível a viagem no tempo, ou ainda quais são as extensões das alterações orgânicas dos primeiros vampiros. Neste último ponto, especificamente no trecho em que Adolf Schinler tem uma visão da nova composição celular dele e de seus colegas, o escritor foi especialmente feliz. O brasileiro consegue extrair daquela situação em nível molecular, algo semelhante ao que o americano Arthur C. Clark fez em planos bem mais amplos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos comparar, primeiro algumas linhas de &lt;em&gt;Treze milênios - Gênese vermelha&lt;/em&gt;:   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Agora, Adolf estava microscópico. Até que se aproximou de um neurônio imenso. Uma célula cerebral sofisticadíssima, semelhante a uma estrela. Raízes brotavam dos raios dessa estrela, que o capitão sabia se chamarem de dendritos, com função de captar informações. Chamava a atenção um dos raios dessa figura, estendendo-se o suficiente para assemelhar-se a uma cauda. Era o axônio que, conforme Adolf aprendera na infância, passava adiante as informações que o neurônio recebera. Perto daquilo, Schindler era uma mosca na sopa. Mas ele não se assustava com isso. Não dizia nada. Apenas observava as ondas de eletricidade estática, brilhantes, que corriam na membrana, na pele do neurônio. Ondas de luz que davam ao cérebro a capacidade de pensar, correndo dos pequenos dendritos para os longos axônios. Mas Adolf continuava curioso e diminiuía. E foi a curiosidade que o levou a mergulhar no fluxo de informações".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, uma amostra de &lt;em&gt;2001 - Uma odisséia no espaço&lt;/em&gt;, em tradução lusitana:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Através do telescópio, altamente potente, podiam verificar que o asteróide era muito irregular, e rodava lentamente. Ás vezes, parecia-se com uma esfera achatada, e outras, com um tijolo grosseiramente talhado; o seu período de rotação era de pouco mais de dois minutos. Mostrava manchas de luz e sombra distribuídas, aparentemente ao acaso, pela sua superfície, e cintilava frequentemente, qual janela distante, quando planos ou afloramentos de algum material cristalino refulgiam ao sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passava por eles a quase quarenta e cinco quilómetros por segundo; para o observar de perto, dispunham apenas de alguns frenéticos minutos. As máquinas fotográficas automáticas tiraram dezenas de fotografias, os ecos do radar de navegação cuidadosamente gravados para uma futura análise, e o tempo chegou à recta para apenas uma sonda de impacto".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além dessas boas passagens, o autor de Goiânia demonstra segurança em várias outras áreas. Ele constrói um quadro bem vívido do futuro imaginado, propõe uma nova e interessante maneira de demarcar  períodos históricos, avança com sucesso no grau de complexidade da trama - o que começa perigosamete como uma historinha de amor à primeira vista, evolui de modo interessante com o passar do tempo para situações bem mais inustitadas. Todavia, há também muita coisa para melhorar até chegar ao segundo livro da saga &lt;em&gt;Treze milênios&lt;/em&gt;.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tais pontos negativos podem ser divididos entre casos graves e outros nem tanto. O pior deles é a construção do lado emocional dos personagens, mais notadamente do protagonista germânico. O autor evitou criar um herói idealizado demais, sem dúvidas nem autocrítica. Poderia ser algo interessante, mas pesou demais a mão, o resultado foi um sujeito choraminguento que vive mergulhado em autopiedade, perdendo o controle das lágrimas e dos soluços. Isso ocorre com outros personagens, mas chega ao limite do bom senso com Adolf Schindler. Leitores que já reclamam dos excessos de sentimentalismo dos vampiros de Anne Rice, deverão se apavorar com o capitão deslocado do tempo. É algo a ser muito trabalhado por Osíris Reis se ele pretende mesmo manter a atenção do público por mais sete livros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um caso menos grave, é o uso da linguagem por parte dos humanos primitivos. O autor demonstra se preocupar com relação ao fato de aquelas pessoas serem tão culturalmente atrasadas = não apenas em contraste com os estrangeiros que nasceram mais de 10 mil anos no futuro, mas também em comparação ao leitor. Porém, o vocabulário dos sujeitos pré-históricos é rico demais para soar de forma realista, como parece ser a preocupação do escritor. Quem leu o capítulo inicial do livro de estréia do inglês Alan Moore, &lt;em&gt;A voz do fogo&lt;/em&gt;, faz uma idéia do quanto é complicado tentar emular a fala e os pensamentos de nossos ancestrais. Mas esse é um desafio que não deveria ter sido deixado de lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio do caminho, há vários outros entraves que tornam a leitura cansativa. Certos recursos adotados fazem o texto soar muito artificial, alguns deles devido à obsessão do autor por não repetir palavras. Isso acaba gerando construções como "irmão de fulano" ou "primo de beltrano" a todo momento para substituir o nome de ciclano. Com o tempo, o efeito é bem mais irritante do que seria simplesmente ler o nome dos personagens repetidamente. No mesmo sentido, seria ótimo se o autor relaxasse em outras questões igualmente formais. Para exemplificar, o uso das mesóclises é constante em todo o texto. Seria radicalismo pedir para que não se use essa construção pronominal por ela soar pernóstica aos brasileiros, mas, pelo menos nos diálogos, poder-se-ia evitá-la sem empobrecer a prosa. Por último, novamente para aumentar a agilidade do texto, uma edição mais criteriosa eliminaria excessos e tornaria o livro bem mais magro. Não seria necessário apelar para a objetividade e secura de um Dalton Trevisan - dito o Vampiro de Curitiba, aliás -, só que, no mínimo, as constantes recapitulações da história deveriam ser podadas. Esse tipo de refresco para a memória do leitor é muito útil quando usado nos folhetins, mas em um romance, ele é mais que dispensável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, 13 mil anos, oito livros e sabe-se lá quantos outros projetos paralelos são uma longa odisséia. Há tempo e espaço para se fortalecer os pontos positivos e se solucionar os negativos. Somente ao final dela saberemos se Osíris Reis estava ou não à altura do desafio que ele mesmo se propôs. Também saberemos se a tradição em relação ao vampirismo, essa preferência nacional em termos de literatura fantástica, ganhou de fato um novo representante de peso com a saga de &lt;em&gt;Treze milênios&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-4983302617431836876?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/4983302617431836876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=4983302617431836876' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/4983302617431836876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/4983302617431836876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/10/o-sangue-no-olhar-dos-vampiros.html' title='O sangue no olhar dos vampiros'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8597661396897863019</id><published>2007-10-12T11:02:00.000-07:00</published><updated>2007-10-14T15:53:59.594-07:00</updated><title type='text'>O vampiro de Brasília</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Para cumprir o objetivo de se tornar um escritor de literatura fantástica, ele passou em três vestibulares de duas universidades em cidades diferentes, a Goiânia de nascimento e o Distrito Federal onde mora desde o início da década. Não satisfeito em garantir uma ampla formação acadêmica, ele ainda encarou uma batalha para lançar seu livro de estréia no gênero, &lt;em&gt;Treze milênios – Gênese vermelha&lt;/em&gt;, uma mistura de vampirismo, ficção histórica e FC: desde longas caminhadas para digitar o texto em um computador emprestado, até uma vaquinha em família para viabilizar a publicação da obra (que é apenas a primeira parte de uma saga que, entre outras mídias, deve contar com nada menos que oito volumes escritos e algumas adaptações audiovisuais). Na entrevista a seguir, este determinado autor fala ainda sobre polêmicas na construção de personagens, opina a respeito do uso de temáticas nacionalistas na produção cultural e ainda dá uma prévia dos próximos projetos. Com vocês, o Vampiro de Brasília, Osíris Reis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Considerando não apenas o número de livros que devem compor a série, mas também as diversas obras paralelas, &lt;em&gt;Treze milênios&lt;/em&gt; é um dos projetos mais ambiciosos em andamento no país tendo a FC como tema. Antes de se lançar nessa saga, de que outros trabalhos em termos de literatura, seja na forma de contos ou de poesia, e de audiovisual você já participou?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até os dezoito anos, apesar de apreciar loucamente a ficção fantástica, produzir algo nesse assunto não combinava com minha religiosidade (leia-se, a minha maneira de praticar a religião, e não o grupo religioso do qual eu fazia parte).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de não me permitir escrever ficção científica e terror, eu me permitia (e como!) imaginá-las, cena por cena, como se eu assistisse a um filme particular. Era a maneira de eu, menino, e depois adolescente, assistir filmes e TV quando não me era permitido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Treze Milênios&lt;/em&gt; foi a história que mais me cativou de todas as que imaginei. Imaginei-a no final do ensino médio e comecei a escrevê-la no início do curso de medicina, ao sentir que, à medida em que estudava anatomia, eu perdia o "jeito" de criar tais histórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em outras palavras, minha carreira literária praticamente iniciou-se com a saga. Antes disso, tenho poemas e canções escritas para a igreja da qual eu fazia parte, mas não me apetecem mais. Depois que comecei a escrever a saga, tendencialmente não faço nada fora dela. Exceções a essa regra são os trabalhos de faculdade, ou pedidos dos amigos mais próximos. Só recentemente é que venho tentando, dentro de minhas limitações de tempo, fazer outros trabalhos por conta própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na faculdade, como era de se esperar, os projetos são principalmente audiovisuais. Há alguns contos escritos para uma ou outra disciplina, vários deles com temática fantástica (a qual, em princípio não é a menina dos olhos dos professores). Há um roteiro muito legal e simples, do início do curso e outro da metade do curso (muito elogiado por vários professores, mas também um tanto polêmico). Participei de peças de rádio (apresentação de programas piloto e radionovelas), da sonorização de &lt;em&gt;Nosfê&lt;/em&gt; (sim, um curta sobre um vampiro), e também do documentário &lt;em&gt; São Severino&lt;/em&gt;, sobre Severino Cavalcante, ex-presidente da Câmara dos Deputados. Fiz uma pequena narração em &lt;em&gt;A vingança da bibliotecária&lt;/em&gt;  (terror), participei das animações do piloto do programa infantil &lt;em&gt; Zonzo&lt;/em&gt;  (vinhetas em que uma avezinha voava ao redor do planeta, passeava entre zebras, girafas e leõs etc.) e da produção do curta-metragem &lt;em&gt;Do andar de baixo&lt;/em&gt;. Há ainda outros documentários dos quais participei, principalmente narrando. Há também cerca de cinco pilotos de programas de TV, que participei produzindo, filmando e dirigindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trabalho para o qual mais me dedico atualmente é um programa na TV Comunitária de Brasília, uma revista eletrônica para idosos. Divido com Fernando Ladeira (que me deu uma senhora mão na revisão do primeiro livro) a redação, a câmera, a sonorização, a edição e os efeitos especiais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há também poemas e canções, mas nenhum deles publicados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E claro, há as coletâneas de conto que estou, devagarinho, participando. O primeiro é o conto "Bandeiras", publicado na edição 16 da Scarium [fanzine de FC]. E tem outros aí no forno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nos agradecimentos de &lt;em&gt;Gênese vermelha&lt;/em&gt;, você dá algumas pistas sobre os bastidores do livro, desde a ajuda de alguém para lhe emprestar o computador no qual o texto foi escrito, até a participação dos familiares que contribuíram para viabilizar a edição propriamente dita. Pode dar mais detalhes sobre como foi a batalha para estrear no ramo literário com um romance? Há quanto tento cultiva a idéia básica de &lt;em&gt;Treze milênios&lt;/em&gt;?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história dos oito livros foi bolada em 1997, enquanto eu concluía o ensino médio, com 17 anos. Ao terminar o segundo grau, minha intenção era trabalhar com Ficção Científica, mas sem sair de Goiânia. Como não havia qualquer "faculdade de FC", fui aconselhado a fazer um curso que me desse uma boa base científica, pra escrever depois, no tempo livre. Daí a medicina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obviamente isso não funcionou. Qual estudante de medicina tem tempo livre pra escrever? Quando se é médico de carreira consolidada, a coisa pode ser mais fácil, mas também não será muito mais simples do que quando se estuda medicina. Complicado, pelo menos. Isso me frustrou a ponto de abandonar o curso. Pra minha mãe, separada e nos sustentando com pouco mais de um salário mínimo, ver o filho abandonar medicina não foi nada tranqüilo, principalmente pelos problemas de saúde que ela estava enfrentando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como as finanças estavam complicadas, eu mesmo não estava legal e tinha me inscrito para o vestibular de engenharia mecatrônica (que, conforme eu imaginava, me aproximaria da FC), deixei de trabalhar e fui passar uns meses na casa dos meus avós, estudando para o vestibular. Nesses três meses, comecei a digitar, timidamente, o material que eu tinha manuscrito. Fiz o vestibular e voltei a Goiânia, para aguardar o resultado e ficar com minha mãe. Eu tinha uma perspectiva bem complicada caso não fosse aprovado: ficar sem estudar, só trabalhando. Por isso, usei boa parte desse tempo para terminar o primeiro livro. E como não tinha computador, pedi a um amigo da igreja (o Luciovan a quem agradeço no livro) para emprestar-me o computador que ele acabara de comprar. E tenho que dizer que o cara teve uma paciência de Jó, porque eu invadia o quarto dele horas e madrugadas a fio, digitando e revisando a primeira versão do livro. A parte "batalha" da história é que eu não tinha dinheiro de ônibus pra chegar na casa dele. Caminhava um bocado pra isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro foi terminado às pressas, mas mesmo assim o enviei, como rascunho, para algumas editoras. Como é de praxe, não houve qualquer resposta positiva. Fui aprovado para mecatrônica, mudei-me para Brasília e, com a opinião de alguns novos amigos do curso, comecei a revisar o trabalho. Cheguei a fazer uma revisão completa assim, apesar das horas estudando cálculo. Entretanto, as coisas só caminharam mesmo quando conheci o Fernando, jornalista, com quem hoje faço o programa na TV Comunitária. Ele me ajudou a fazer mais três revisões do trabalho. Mandei o livro para mais editoras, e novamente não houve resultados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto fazia mecatrônica tomei conhecimento do curso de Comunicação Social, fiz um terceiro vestibular e acabei "grudando" no Audiovisual. Isso me permitiu vislumbrar melhor como a indústria cultural funciona, e como um livro longo, primeiro de uma série, de um brasileiro estreante, de FC e terror e, ainda por cima, pouquíssimo comportado, seria complicado para os editores brasileiros. Assim, publiquei-o primeiro pela Vivali, em formato eletrônico. Depois conheci a Corifeu, com a publicação sob demanda, bem mais barata do que as outras opções, mas ainda um tanto fora das minhas possibilidades. Meio relutante, procurei os parentes, pedi um pouco pra cada e, felizmente, eles puderam me ajudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resistir à polêmica é fútil, portanto vamos logo a ela. Seu protagonista é descendente de alemães, branco, extremamente ético, preocupado com todas as formas e vida, heterossexual convicto. O antagonista é o oposto: mulato, totalmente amoral, genocida, bissexual. Quais foram suas intenções quando escalou personagens com tais características para desempenhar esses papéis tão distintos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me conhece sabe que os dois são igualmente parte de mim, diferentes faces da minha vida cotidiana e da minha história. O motivo pra que Eurass tenha sido mulato é que eu gostaria que um personagem parecido fisicamente comigo criasse a viagem no tempo. Devido a alguns traços da personalidade que imaginei para ele enquanto desenvolvedor de duas tecnologias tão à frente de seu tempo, a reação que ele teve à sede de sangue foi absolutamente aberta: assumir o monstro dentro de si. Além disso, com um vampiro mulato na Pré-escrítica, decidi aproveitar o mito do meu nome, só que transformando o Osíris, de uma divindade benevolente, numa malévola. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já Adolf começa como o protótipo do bom moço, inclusive fisicamente. Minha intenção era, no decorrer dos oito livros, desconstruir esse "bom mocismo" do Adolf. E até pelas reações do livro, acho que dá pra dizer que tive sucesso, mesmo que "pesando a mão" "um pouco".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eurass é programador de computadores, é lógico, é "capitalista". É o criador. Adolf é médico, psiquiatra, é caridoso. É o que conserta. Tanto o programador quanto o médico fazem parte do meu dia-a-dia (não, não pratico medicina).  Acho que isso, por si só, já explica muito do comportamento de ambos. Suas etnias são em parte explicadas pela minha identificação enquanto criador da saga. E Eurass ser mulato como eu também é uma maneira de dizer que, como todas as pessoas, tenho meu lado monstro (que por vários motivos, decidi não exercer).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, as etnias dessas personagens também se relacionam a pessoas de minha infância, muito íntimas. Uma, negra, vivia uma liberdade com um pé na libertinagem. A outra, branca, ensinou-me um autocontrole que às vezes beira a obsessividade. Obviamente, essa relação é apenas uma coincidência na minha vida. Aliás, conheci muitas pessoas, muito queridas, negras, que definitivamente não abusam da própria liberdade. E pessoas brancas cujo autocontrole não é o ponto forte. Assim, acredito que as etnias de Adolf e Eurass são uma referência de meu inconsciente às duas pessoas específicas que cito no começo deste parágrafo, e não às etnias negra / parda e branca. Vide as etnias das demais personagens do livro e seus comportamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevendo isso lembrei-me de uma personagem do livro que pertence às duas etnias ao mesmo tempo: Cosmo, do Prólogo e do Epílogo. Ele apareceu pouco nesse livro, mas aparecerá nos próximos, com sua história sendo contada paulatinamente. Porém, já foi possível perceber que ele alterna cor de pele, cabelos, cor de olhos e estrutura craniana. Há um padrão nessas mudanças de etnia, que só ficará mais claro nos próximos livros. Um padrão que considero relevante para essa questão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale dizer que, das características citadas acerca dos dois, a orientação sexual não é, em absoluto, algo que eu desejasse criticar. No começo do livro, Eurass se mostra um tanto quanto machista e homofóbico. E certamente, pelo que se pode ler nas reações de Adolf, para ele, ser "heterossexual convicto" não é virtude nem defeito. Creio que a diferença entre os dois no que tange à sexualidade seja a seguinte: um permitiu-se viciar em sexo a ponto de não medir quem é machucado no processo, e o outro preocupa-se em conhecer a própria sexualidade (independente de ela ser hetero, bi ou homossexual) e vivenciá-la de maneira equilibrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sua formação é bastante singular, como você já enfatizou: estudou medicina e mecatrônica e agora faz uma faculdade ligada aos meios audiviosuais. Fora isso, já participou de cursos ou de oficinas literárias, por exemplo? No livro, você aborda muitas questões de fundo filosófico e histórico, essas áreas do conhecimento também fazem parte do seu currículo formal ou você é um autodidata nelas?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cursos e oficinas literárias dos quais participei foram todos da formação de um estudante normal. Ou seja, antes de escrever o &lt;em&gt;Gênese vermelha&lt;/em&gt;, as únicas oficinas de redação das quais participei foram as do Ensino Fundamental e Médio. Claro, no curso de Audiovisual participei de disciplinas voltadas à escrita, mas isso foi depois da última revisão do livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que apresento de filosofia e história no livro apreendi no Ensino Médio. Para ser mais preciso, o pouco de filosofia que se dava diluído em outras disciplinas do Segundo Grau dos anos 90 foi o que serviu de base para que eu deduzisse a imensa parte das considerações filosóficas citadas no primeiro livro. Obviamente, após o ingresso no Ensino Superior (mais precisamente a Comunicação Social, com mais espaço para filosofia, antropologia e sociologia - não me recordo de ter usado no livro nada de filosófico que eu tenha aprendido na faculdade de medicina) fui identificando vários conceitos que eu tinha usado intuitivamente (ou deduzido) no livro.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ainda na área curricular: o quanto essa já comentada formação contribui para a parte técnica, hard, de sua produção como escritor de FC? Além dela, como você se prepara para a pesquisa dos vários tópicos abordados na trama da série? Consulta livros ou sites especializados, tira dúvidas com pessoas da área?&lt;/strong&gt;   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa formação me ajudou a dar nomes mais precisos para o que eu descrevi na obra. Fora a citação da hemoglobina enquanto uma molécula estrelada com um átomo de ferro no centro (na verdade o grupo Heme da hemoglobina, que para facilitar a compreensão do leitor chamo genericamente de hemoglobina), todas as informações científicas citadas na obra foram apreendidas por mim ainda no Ensino Médio, sem pesquisa consciente do assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde pequenininho curto muito ciências, e imagino cada detalhe atômico e celular com muita clareza, em cada momento do meu dia-a-dia. Ou seja, olhando para uma lâmpada em funcionamento, tendo a visualizar os elétrons sendo puxados, como grãos de ferro por um ímã, alternando o sentido desse "puxar", num movimento tão rápido que o filamento que conduz esses elétrons se aquece a altíssimas temperaturas. Mas não queima, nem reage com nada, devido à não reatividade do gás nobre que  envolve essa molazinha de metal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também é uma característica minha preferir entender um conteúdo do ponto de vista do cientista que primeiro o enunciou. Isso era, por vezes, uma chateação para os professores, mas sempre foi fonte de prazer pra mim. Sentia que isso me dava liberdade de compreender pelo menos a maior parte dos motivos de tal conhecimento e das implicações do mesmo, bem como juntá-lo a outros. Como se cada novo conhecimento fosse uma peça de montar, e eu sempre gostasse de olhar a peça por todos os ângulos, para explorar suas possibilidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa forma, eu acabei escrevendo, no livro, coisas que eu não conhecia mas que já eram estudadas. A teoria das supercordas é o maior exemplo disso. Obviamente, durante a revisão do livro, eu já com maior bagagem científica e cultural, pude renomear alguns dos termos que eu tinha criado por outros que eu tinha aprendido, mas as idéias permaneceram as mesmas. Outros, no entanto, deixei que permanecessem como estavam, até pela perda de conhecimento ocorrida na Informática Medieval do universo que criei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, para o primeiro livro, não creio que houve uma preparação específica. Entretanto, como os próximos livros se passarão em momentos históricos dos quais já temos mais registros, a pesquisa já está em andamento. Inclui, por enquanto, internet, documentários, filmes, conversas com amigos do curso de história. E certamente incluirá livros especializados, assim que a agenda desafogar um tiquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quais são suas principais influências no gênero fantástico, no cinema ou na literatura? Que autores você admira tanto na área de FC quanto na de terror, sejam eles nacionais ou estrangeiros&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Definitivamente não leio tanto quanto gostaria. Uma autora que admiro é Clarice Lispector, apesar de ainda ter lido, dela, apenas &lt;em&gt;A hora da estrela&lt;/em&gt;. Entretanto, o impacto dessa obra em mim é tamanho que considero que essa seja a minha maior influência. Mesmo que ela não tenha trabalhado FC, fiquei absolutamente cativo do fluxo de consciência que ela tanto explora em seu texto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leituras muito interessantes foram Anne Rice (&lt;em&gt;O Vampiro Lestat&lt;/em&gt;), e Asimov (&lt;em&gt;Os robôs do amanhecer&lt;/em&gt;). Estou seco pra ler Bram Stoker, Mary Shelley, e Verne. Mas tenho que confessar que isso só acontecerá à medida que der conta dos textos da faculdade, que estão atrasados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com meu recente ingresso no Fandom [a comunidade de fãs de FC], alguns livros brasileiros muito interessantes chegaram às minhas mãos. Tiro o chapéu para &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt;  e para &lt;em&gt;Necrópole - contos de vampiros&lt;/em&gt;. Embora ainda tenha muita coisa muito bem comentada na internet, que quero realmente quero ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase me esqueci. Cinema: as séries &lt;em&gt;Alien&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Matrix&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;O senhor dos anéis&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Star trek&lt;/em&gt;  e &lt;em&gt;Planeta dos macacos&lt;/em&gt;. Os filmes &lt;em&gt;O quinto elemento&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Eu, robô&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Enigma do Horizonte&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Pacto com lobos&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Do Inferno&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Energia Pura&lt;/em&gt;. E a lista se estende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você faz parte de um manifesto chamado Antibrasilite que pretende explicitar a liberdade dos autores para que eles façam seus trabalhos independentemente de usar ou não temáticas nacionais. Mesmo assim, vale lembrar, há no livro uma personagem indígena, de origem aparentemente brasileira. Qual seu engajamento com os ideais do manifesto? Como você sente essa pressão que se faz a escritores para que atenham sempre a questões internas, preferencialmente de cunho social?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso começar respondendo com o que considero uma máxima: criar tem que ser um ato livre, o mais livre possível. Livre de amarras norte-americanizadas, mas também de amarras nacionalistas. Sim, Mani é uma índia de descendência brasileira, mas não considero que foi por Brasilitite que a incluí na história. Não foi o sentimento de obrigação ante a identidade nacional que me levou a isso, e certamente não foi meu editor (na época em que a história nasceu eu nem entendia direito o que ele faz) que me pediu uma história engajada com o Brasil. O sentimento que me levou a inclui-la na história foi imaginar (e desejar) que as nações indígenas sobreviveriam por milênios e formariam uma cultura belíssima ao conciliar suas tradições com a ciência e tecnologia do futuro. Posso até dizer que foi a vontade de que eles sobrevivam culturalmente mesmo quando o conceito de Brasil não mais fizer sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O movimento começou como uma pequena reunião na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, de maneira bem informal. Logo me interessei, sugeri o termo "Antibrasilitite" e escrevi o manifesto, para que fosse votado pelo grupo. Por isso, fica fácil perceber porque meu engajamento com os ideais do manifesto é questão de essência, um imperativo interno, realmente. Creio que nunca engoli muito bem o etnocentrismo, a idéia de que a cultura em que crescemos é melhor ou deva ser mais valorizada que as outras. Não curto o nacionalismo em si, na verdade esse sentimento até me irrita um pouco. Creio que devemos nos preocupar, sim, com o povo do Brasil, e protegê-los de outras nações que porventura o agridam física, política ou econômico-financeiramente. Mas realmente não vejo muita razão de ser, me sinto meio enganado quando penso nos elementos que forjam a nossa nacionalidade ou a de outros povos. Gosto de jogos olímpicos quando o pessoal se respeita e se admira. Torço o nariz quando dizem que "o Brasil agora é o melhor do mundo em tal modalidade".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu conto "Bandeiras", na Scarium 16, traduz bem o que sinto sobre isso. Acho que enxergo culturas de nações estrangeiras como alguns brasileiros menos etnocêntricos costumam olhar a cultura de outros estados brasileiros, com grande respeito, admiração, e amplo espaço para troca. Creio que, no fim, somos todos humanos, todos seres inteligentes. Vale a pena, sim, manter nossas culturas. Mas o ideal da Democracia Intergaláctica de Treze Milênios, mesmo que politicamente utópico, é o ambiente de respeito e pluralidade cultural no qual eu me sentiria confortável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como digo no site do manifesto, acredito que a Brasilitite (a exacerbação do nacionalismo cultural brasileiro) teve sua importância, mas que, hoje, ela sufoca. O público, em grande parte, vive a Síndrome do Capitão Barbosa (o contrário da Brasilitite, ou seja, a proibição mental de tratar do Brasil nas obras de FC, Terror e Fantasia). A crítica e o mercado editorial vivem, em grande parte, a Brasilitite. Fica no mínimo complicado para o autor, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repito que o ato criativo deve ser o mais livre possível. Qualquer obrigatoriedade temática alija o autor de veios narrativos que poderiam enriquecer a história com o que há de mais genuíno dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No site http://www.trezemilenios.xpg.com.br/ você comenta que está participando da criação de uma associação nacional para escritores de ficção fantástica. Em que estágio se encontra tal projeto, quais são seus objetivos e como tem sido a recepção de outros autores à idéia?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Esse projeto está no aguardo. Minha intenção era de apenas dar o pontapé inicial para começar a associação, rascunhando um objetivo para a mesma, um site etc.. De lá para cá, entretanto, o projeto final do meu curso (um média-metragem baseado no &lt;em&gt;Gênese vermelha&lt;/em&gt;) começou a tomar mais de meu tempo, assim como o programa na TV Comunitária. Mesmo assim, os autores de Ficção Fantástica no Brasil estão sempre em movimento, e acho que estamos vivendo um formidável momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Já que estamos falando de engajamento na área da ficção fantástica: como você analisa o estágio atual da FC, da fantasia e do terror no Brasil? Em sua opinião, o que poderia ser feito para tornar esses gêneros literários mais populares no país?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;A geração dos anos 80, que cresceu jogando video-game e assistindo a &lt;em&gt;He-Man&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Superamigos&lt;/em&gt;, animes, &lt;em&gt;Sexta-Feira 13&lt;/em&gt; etc., é adulta hoje. E muito mais aberta a fruir e produzir ficção fantástica. Aos poucos, vejo isso chegar ao mundo acadêmico, não tão aos poucos assim a tecnologia se populariza e permite que façamos, aqui no Brasil, livros, vídeos, músicas com recursos técnicos respeitáveis e custo mínimo. Acho promissor esse momento. Acho meio improvável que a Ficção Fantástica não assuma um espaço na literatura brasileira, mesmo que isso demore mais uma década ou duas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que precisa ser feito já está acontecendo, naturalmente. Mas com certeza o Estado pode acelerar o processo, com os investimentos certos, no público certo, nos momentos certos. Num primeiro momento escrevemos FC, publicamos FC. Num segundo momento, crítica e academia voltam seus olhos para esse fenômeno. Num terceiro, bem posterior, a literatura fantástica brasileira ganha respeito na mídia e no mercado. Finalmente, as novas gerações habituam-se à ficção fantástica brasileira desde cedo, da mesma forma como tem acesso a animes, mangás e livros estrangeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale citar que cada um desses momentos exige e promove o refinamento e o aumento da qualidade da Ficção Fantástica Brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por fim: como está o desenvolvimento dos próximos passos da saga &lt;em&gt;Treze milênios&lt;/em&gt;? Já há datas para novos lançamentos? Além desse projeto, que outros trabalhos ligados à ficção você deve produzir no futuro próximo? &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próximo passo de &lt;em&gt;Treze milênios&lt;/em&gt; é a produção de um média-metragem, que é o meu projeto final para o segundo semestre de 2008. Há também a formulação de um sistema e de um livro de RPG, ambientado entre o primeiro e o segundo livros da saga. Posso adiantar que o sistema está bem interessante, mas ainda há um bocado a ser ajustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o filme, virá, é claro, o segundo livro da saga. Nesse ponto, pretendo dar uma folga na Faculdade (vou estar formado) e dedicar-me mais sistematicamente à escrita da saga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para agora, há minha participação no projeto 22 (http://www.ericnovello.com.br/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=457&amp;Itemid=1 ), uma coletânea de contos de FC, Terror e Fantasia. E pretendo participar  de outras antologias, com maior freqüência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8597661396897863019?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8597661396897863019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8597661396897863019' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8597661396897863019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8597661396897863019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/10/o-vampiro-de-braslia.html' title='O vampiro de Brasília'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-4837483119979549330</id><published>2007-09-07T12:14:00.000-07:00</published><updated>2007-09-07T15:45:44.347-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Resenha'/><title type='text'>Estranhos em terras estranhas</title><content type='html'>Brasileiro elogiado por argentinos é tão raro que vale a pena reproduzir a opinião manifestada no site www.axxon.com.ar, referência latino-americana sobre literatura fantástica: "Carlos Orsi Martinho es periodista y, probablemente, el mayor autor del género de terror en lengua portuguesa". O comentário se deu porque um conto daquele autor foi publicado lá, "Ya no" (tradução de "Não mais") que flerta com a possibilidade de o Brasil continuar a ser uma monarquia por influência de uma substância misteriosa. O reconhecimento do personagem em questão não veio só da parte de nossos vizinhos do Sul. Nos EUA, também já apostaram no talento dele, quando o selecionaram para participar de &lt;em&gt;Rehearsals for oblivion&lt;/em&gt; (algo como ensaios para o esquecimento), coletânea em tributo a Robert W. Chambers. Pouco conhecido no Brasil, mas considerado forte influência de H.P. Lovecraft, o americano serviu de inspiração para os participantes do livro, todos eles dos EUA ou da Inglaterra, sendo o brasileiro o único do projeto a não ter o inglês como primeiro idioma. Ele, que já podia ser considerado sucesso de crítica entre argentinos, agradou também ao público americano. Seu conto "The machine in yellow" - referência a "The king in yellow", peça teatral fictícia sempre citada nos contos de Chambers e fonte da idéia original para o igualmente fictício &lt;em&gt;Necronomicon&lt;/em&gt; lovecraftiano -, ambientado durante a última ditadura brasileira, é o mais bem cotado entre os comentários publicados por leitores no site www.amazon.com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, Carlos Orsi Martinho - ou, simplemente, Carlos Orsi, como prefere assinar os textos ficcionais - é jornalista especializado em divulgação científica, nasceu em Jundiaí, interior de São Paulo, e pode ser considerado um dos grandes escritores de nossa língua de histórias de terror. Mas não só isso, ele é também um dos maiores autores de sua geração quando o assunto é a prima-irmã do gênero: a ficção científica. Orsi estreou profissionalmente como ficcionista aos 21 anos com o conto "Aprendizado" lançado em uma das últimas edições da &lt;em&gt;Isaac Asimov Magazine&lt;/em&gt;, publicação que a editora Record trouxe ao Brasil bem no início da década de 1990. Desde então, faz 15 anos que aproveita as chances que lhe aparecem ou que ele mesmo cria. Já publicou contos e novelas de FC e horror em praticamente todos os espaços disponíveis no país, desde fanzines como o tradicional &lt;em&gt;Scarium&lt;/em&gt;, até a seção de ficção da revista &lt;em&gt;Pesquisa Fapesp&lt;/em&gt;, passando pelas coletâneas de diversos autores lançadas pela antiga editora Ano-Luz - da qual ele foi um dos sócios -, como &lt;em&gt;Phantastica brasiliana&lt;/em&gt; (onde saiu originalmente "Não mais") e &lt;em&gt;Intempol&lt;/em&gt;. Há ainda os livros solo &lt;em&gt;Medo, mistério e morte&lt;/em&gt;, impresso pela Didtática Paulista, em 1996, e &lt;em&gt;O mal de um homem&lt;/em&gt;, da já citada Ano-Luz, publicado quatro anos depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, o melhor ponto de partida talvez seja uma outra obra com material mais atualizado do jundiaiense. &lt;em&gt;Tempos de fúria - Contos de aventura e terror&lt;/em&gt; é o nome do livro publicado em 2005 com o selo da coleção Novos talentos da literatura brasileira na qual escritores dividem despesas com a editora Novo Século. Os seis contos da coletânea são uma boa amostra de um autor que amadureceu em estilo e em influências, deixando um pouco de lado a presença quase sufocante exercida por Lovecraft nos seus primeiros textos, a exemplo, de entre outros, "Sob o signo de Xoth" (presente no livro &lt;em&gt;Outras copas, outros mundos&lt;/em&gt;). Neste seu trabalho mais recente, o escritor explorou novas fronteiras como fica claro já pelos autores mencionados na página de agradecimentos; uma eclética lista formada por gente do nível do brasileiro Monteiro Lobato, do argentino Jorge Luis Borges e do americano Robert E. Howard. Não apenas as influências variam, também são variados elementos misturados nas 160 páginas de &lt;em&gt;Tempos de fúria&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os textos que abrem e fecham o livro, "Estes 15 minutos", com 13 páginas, e "A aventura da criança perdida", com 11, são os mais curtos e exemplificam tal diversidade. O primeiro está mais para o realismo fantástico, com a história de um traficante pé-de-chinelo no Rio de Janeiro. Em uma viagem, entre os místicos do Nepal, o personagem conhecido como magro fez uma descoberta capaz de mudar sua carreira. Ele ficou sabendo que a realidade como a conhecemos não é o fluxo linear de acontecimentos que aparenta - a cada 15 minutos, um universo novo ocupa o lugar do antigo, são pequenos flashes que dão a ilusão de continuidade num eterno liga e desliga. Uma anologia possível, é &lt;em&gt;Festim diabólico&lt;/em&gt;, filme clássico de Alfred Hitchcock. No longa do diretor inglês, somos convencidos de que a trama foi rodada em tempo real, um plano sequência com a duração do filme. Na verdade, por questões técnicas, houve a necessidade de se filmar cenas de, no máximo, 15 ou 20 minutos. Foi na montagem que ocorreu a mágica capaz de nos enganar. Votando ao conto: magro conseguiu um truque para burlar a montagem que algum diretor invisível executa em nosso universo e faz planos para tentar levar vantagem com isso. No final, descobrimos a utilidade que pode haver em uma balinha de hortelã. O único problema do conto é que o autor não se decidiu se deveria escrever o número 15 por extenso ou se deveria usar algarismos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "O mundo, cara, é cheio de remendos. Quando ainda existia vitrola, o que a gente chamava de 'pulos da agulha'. Emendas malfeitas entre os pedaços de 15 minutos. Costuras ruins. Merda, tá entendendo? Como diziam os romanos, &lt;em&gt;Xíti rápens&lt;/em&gt;".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o outro curta-metragem de Orsi, o que encerra o livro, tem ainda mais ingredientes. "A aventura da criança perdida" mistura elementos de space opera - aquele subgênero com cenários interplanetários cujas principais referências são &lt;em&gt;Guerra nas estrelas&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Jornada nas estrelas&lt;/em&gt; -, FC hard - no qual escritores buscam trabalhar conceitos das ciências exatas sendo o mais precisos possíveis - e histórias de detetive à Sherlock Holmes. Na ambientação criada pelo paulista, teremos um futuro em que agências de segurança oficais são formadas por grupos nada recomendáveis, tais como mafiosos italianos e guerreiros islâmicos, competindo por contratos com todo tipo de jogo sujo. Outro aspecto bizarro deste mundo é a mutação que ocorre no nome das pessoas: Ângyla e Edowardo são exemplos, sendo que este último se trata da criança do título. O local do desaparecimento é uma interessante especulação do autor, uma plataforma espacial que serve para o atraque e o lançamento de naves. O encarregado para resolver o impasse criado com o sumiço do pequeno Edowardo é o narrador Fersen Quartelmar, que para resolver o caso não precisa nem abandonar seu escritório, um asteróide com meio quilômetro de comprimento. Bastam algum conhecimento de física e malandragem para se virar com o jogo de interesses que chama a atenção de gente perigosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "O seqüestro e, mais do que ele, a concorrência aberta entre as empreiteiras havia colocado todo o sistema Terra-Lua e respectivas estruturas orbitais em polvorosa. Não havia criminoso ou vagabundo livre que não tivesse o braço ou outro apêndice torcido, quebrado ou chutado; puta que não fosse subornada ou drogada; preso que não fosse interrogado sob rede neural ou mesmo torturado. Como o moleque não reaparecia, ficou claro que nada disso estava dando resultado".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando à seqüência original dos contos, já que todos os outros se encaixam na categoria média-metragem - ou seja, textos que apresentam por volta de 30 páginas -, temos um dos pontos altos de &lt;em&gt;Tempos de fúria&lt;/em&gt;: "Questão de sobrevivência". Seus estranhos personagens e cenário lembram um tanto as melhores obras do movimento cyberpunk, como &lt;em&gt;Piratas de dados&lt;/em&gt;, de Bruce Sterling. A diferença é que, na criação do brasileiro, o alvo da pirataria é algo mais tangível que bytes. No elaborado pano de fundo da história, vemos São Paulo em um futuro tão apocalíptico quanto verossímil. Na capital, acompanhamos as reflexões morais de Zé Mateus, um dos líderes do Campo Fidel, dito o maior acampamento urbano do Ocidente e que ocupa a maior parte do centro histórico da cidade. Em outro ponto do Estado, a ação é comandada por Pedro Minanhanga (Diabo-feito-Homem, segundo o autor), empenhado em capturar uma preciosa carga. Ele e seus companheiros agem no meio de uma favela transformada em área contaminada após um bombardeio, autorizado pelo governo. O resultado foi o surgimento de um local tão inóspito em que basta se respirar o ar sem proteção para encurtar drasticamente a perspectiva de vida. Para piorar a situação das pessoas que tentam viver no local, outra intervenção pública - a distribuição de anticoncepcionais na água - só serviu para impedir que mães pudessem amamentar diretamente seus filhos. Leite materno, agora, apenas o processado industrialmente, como o daquele carregamento que atravessa o estado em um caminhão para embarcar no Porto de Santos e ser exportado como mercadoria de luxo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a narrativa dividida entre os pontos de vista dos dois protagonistas, o líder sem-teto com dilemas de consciência e o pragmático agente de campo, o conto segue estruturado em persongens bem construídos vivendo um contexto igualmente bem delineado. Carlos Orsi conseguiu dar uma consistência ao conto que outros autores seriam incapazes de obter em um romance. Aos poucos, os leitores recebem informações históricas daquela realidade, como o fato de ter havido uma guerra nos morros cariocas em 2011; terem ocorrido grandes saques aos supermercados sete anos depois; culminando com um período de repressão marcado pela chuva bioquímica naquela favela, no início da década seguinte. Detalhes das motivações e do grau de comprometimento de cada jogador também vão clareando lentamente até os atos finais. É interessante notar que o autor, apesar de andar no fio da navalha o tempo inteiro, com uma história que poderia cair para o maniqueísmo rasteiro, consegue se livrar das tentações e manter a trama em um grau de complexidade exemplar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "A autoria do epíteto 'Vale da Norte' era incerta - se de inspetores de Direitos Humanos da ONU que tinham visitado o local após os bombardeios, ou se de um locutor de telejornal - mas a expressão pegou. E o conjunto de ruínas, árvores retorcidas e solo venenoso, calcinado, deixou, de uma vez por todas, de ser o 'jardim' que jamais havia sido".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se "Questão de sobrevivência" é mesmo um dos cumes do livro, "Desígnios da noite" está mais para um vale. O conto tem muitas qualidades, sempre naquele binômio de bons e exóticos personagens e cenários. Em um período de nosso futuro, quando começam experiências de colonização no espaço, o cotidiano na Terra está bastante modificado. Para se resolver pendências jurídicas, as pessoas passaram a dispensar advogados para confiar sua honra a duelistas profissionais, agentes que se enfrentam em pelejas que podem terminar em nocaute ou com a morte de um dos contendores. É o caso do narrador do conto, veterano de duelos e ex-combatente de tropas de elite, conhecido como Marco e que tem uma questão pessoal a resolver. De positivo ainda, há inovações tecnológicas propostas, como tatuagens utilitárias; a apropriação inteligente que o autor faz de uma pseudociência, no caso, astrologia zodiacal; e, claro, o estilo do texto - para quem decora manuais, no quais sempre se condena o uso dos adjetivos, talvez seja um choque a passagem na página 115 na qual são empilhados nove deles para descrever um relacionamento. De fato, são muitos pontos positivos, tantos que, talvez, o problema seja esse mesmo. Mesmo sendo o maior texto do livro, com 34 páginas, o espaço é pouco para tamanha fartura de informações, cenas de ação e de investigação. Caso fosse um plot de uma série, "Desígnios da noite" seria excelente. Como história única e fechada, peca pelo excesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Servotatuagens são o tipo de coisa que se espera encontrar em duelistas, atores, acrobatas - e bandidos comuns. Cada pigmento abriga um conjunto de circuitos e nanóides programado para ampliar determinadas perícias físicas, acelerar a transmissão de impulsos nervosos, induzir reflexos". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois outros contos de &lt;em&gt;Tempos de fúria&lt;/em&gt; formam o que poderia ser chamado de as crônicas venusianas de Carlos Orsi. O primeiro deles, "Pressão fatal" retoma a mistura de space opera, FC hard e história de detetive, mas com ainda mais eficiência que em "A aventura da criança perdida". Uma morte suspeita ocorre em uma estação espacial em órbita de Vênus, responsável por parte do projeto de terraformização do planeta. A expressão costuma ser mais aplicada a especulações sobre Marte, nosso outro vizinho no Sistema Solar, significando o conjunto de ações necessárias para tornar um ambiente extraterrestre compatível com a vida humana. Curiosamente, quase todos os tripulantes da Eros-III têm nomes franceses - a exceção é o médico chamado Mendes, cuja personalidade irascível lembra a de seu colega McCoy de &lt;em&gt;Jornada nas estrelas&lt;/em&gt;. Para investigar a morte, ou o assassinato?, é convocado o inspetor-gendarme Henri Bernardin, um tipo que, pelo sotaque, trejeitos e cuidados com o bigode, lembra muito o detetive mais famoso do staff de Agatha Christie, Hercule Poirot. Exatamente como ocorre com Fersen Quartelmar - que, aliás, se formos compará-lo também aos personagens da Dama do Crime inglesa, estaria mais para o estilo de investigação de Miss Marple -, Bernardin tem nos conhecimentos científicos sua maior vantagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "A atmosfera do planeta era um turbilhonar constante de cores mutáveis, um entrechoque de nuvens e matizes, salamandras azuis devorando javalis esverdeados que pisoteavam dinossauros vermelhos que comiam salamandras azuis, um caos vagamente harmônico de brilho e textura causado pela combinação do clima feroz do planeta com os dispositivos automáticos de terraformização - sondas, robôs e nanóides - com que a Eros-III bombardeava a superfície venusiana". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para encerrar, o segundo conto ambientado em Vênus e, para dizer o mínimo, um dos melhores textos de FC já criados por brasileiros. "Planeta dos mortos" começa no clima de um dos grandes clássicos do gênero, &lt;em&gt;Tropas estelares&lt;/em&gt;, do americano Robert Heinlein, uma vez que o personagem que narra a trama é um soldado, cujo nome desconhecemos, lotado no segundo Batalhão de Batedores de Florestas, Esquadrão de Caça, equipado para enfrentar qualquer ameaça. A terraformização, iniciada no conto anterior, está completa. O planeta conta com dois continentes, Afrodite e Ishtar, separados pelo Mar de Níobe, e com pelo menos um conjunto de ilhas, o Arquipélago de Têmis. Para ajudar na tarefa, o autor concebeu um mundo em que ocorreu uma formidável descoberta, ou melhor, redescoberta. Carlos Orsi faz novamente uso de um recurso pseudocientífico aqui, no caso, as teorias do psiquiatra Wilhelm Reich sobre o orgônio. Na reinterpretação do brasileiro, os polêmicos estudos do austríaco foram reabilitados no início do século XXII como parte de um novo campo de estudos: a neoquântica. Descobriu-se que existem partículas - bíons - que formam a energia que torna a vida possível. Elas fazem a diferença, "o salto quântico", entre algo apenas orgânico e o que é de fato vivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é por si mesmo um dos melhores conceitos já trabalhados na ficção científica nacional, tanto que já foi utilizado por outro autor em seu romance de estréia: &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; de Octávio Aragão - não por coincidência, é ele quem assina a apresentação de &lt;em&gt;Tempos de fúria&lt;/em&gt;. Orsi vai além, explorando a idéia até as últimas conseqüências, dando uma explicação que soa plausível para um dos maiores fetiches dos filmes B de terror. No meio das divagações dos personagens, há espaço na trama para muitas e ótimas cenas de ação, as quais o autor parece dever a um daqueles escritores citados nos agradecimentos. Afinal, quantas vezes Robert E. Howard fez seus personagens se perguntarem - o cimério Conan à frente - como matar algo que já está morto? A prosa do jundiaiense está em grande forma neste conto, principalmente nas linhas finais. Entre suas qualidades, podemos dizer que Carlos Orsi é um mestre no desfecho das histórias, mas em "Planeta dos mortos" ele se esmerou. O final é lírico. Atroz, mas lírico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Torsos. Tiros! Cabeças. Tiros! Membros. Não pessoas, mas partes - movendo-se (ou seria a luz?). Bocas sangrentas. Olhos sangrentos. Tiros! Unhas. Órbitas vazias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiros!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuridão".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da leitura da meia dúzia de textos que formam &lt;em&gt;Tempos de fúria - Contos de aventura e terror&lt;/em&gt; ficamos com uma impressão inusitada. Afinal não é sempre que encontra um escritor de gênero capaz de trabalhar tão no limite quanto este. Há algo de iconoclasta em todas as histórias, um distanciamento de autocrítica em cada uma delas. Porém, ele não cai nunca nas armadilhas mais fáceis, nas paródias, na carnavalização dos temas. Há desconstrução, mas ao mesmo tempo há também uma disciplina por trás disso tudo, de quem sabe valorizar as particularidades da ficção científica, do terror, do mistério... Isso é raro. As aventuras vividas pelo traficante magro, pelo detetive Fersen Quartelmar, pelos revolucionários Zé Mateus e Pedro Minanhanga, pelo duelista Marco, pelo inspetor-gendarme Henri Bernardin e pelo soldado sem nome acabam sendo uma amostra pequena da produção de um dos mais prolíficos de nossos autores. Porém, como já foi dito, é um bom ponto de partida para os interessados em julgar se críticos argentinos e leitores americanos estão certos a respeito de Carlos Orsi.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-4837483119979549330?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/4837483119979549330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=4837483119979549330' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/4837483119979549330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/4837483119979549330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/09/estranhos-em-terras-estranhas.html' title='Estranhos em terras estranhas'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8329045994149631137</id><published>2007-09-04T21:32:00.000-07:00</published><updated>2007-09-08T10:26:31.175-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Entrevista'/><title type='text'>Licença para pensar o impensável</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Em 1992, quando a edição nacional da &lt;em&gt;Isaac Asimov Magazine&lt;/em&gt; publicou em suas concorridas páginas um texto chamado "Aprendizado", estava sendo dada a oportunidade para a estréia de um jovem de 21 anos no ramo de escritor profissional de ficção científica, fantasia &amp; horror. Desde então, em um cálculo aproximado, este autor publicou cerca de meia centena de histórias e conquistou a reputação, até internacional, de ser um dos melhores naquilo que faz. Diretamente de sua cidade natal, Jundiaí a 50 km da capital paulista, onde exerce a profissão de jornalista especializado em divulgação científica, ele relembra aqui os primeiros passos na literatura de gênero; comenta suas influências - incluindo aí o papel exercido por H.P. Lovecraft nos seus textos iniciais -; fala sobre as motivações atuais; e revela qual tipo de trabalho o faz se sentir, a exemplo de certo espião inglês, portador de uma licença especial. Com vocês, Orsi, Carlos Orsi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes últimos 15 anos, você se tornou um dos autores de FC mais prolíficuos do Brasil. Entre contos e novelas publicados em livros impressos e virtuais, revistas ou fanzines, dentro e fora do país, qual é o tamanho estimado de sua produção ficcional? Quantos prêmios você já recebeu ao longo da carreira? Há alguma chance de um dia vermos tudo isso reunido em um site, por exemplo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, por partes: o tamanho da obra? Não faço a menor idéia. E, várias trocas de HD depois, nem sei se ainda tenho cópias de tudo. Além disso, há os contos que eu chamo de "mutantes", que vão se transformando a cada publicação - não sei se deveria contar cada encarnação de uma mesma história como um conto independente ou juntar tudo. Fora que meus primeiros contos eram datilografados, não digitados, logo esses só existem, mesmo, nas páginas dos fanzines. Mas, supondo que de 1992 a 2003, mais ou menos, eu tenha escrito uns dez contos por ano, e achado 50% disso digno de publicação, então seriam umas 50 histórias cuja paternidade eu reconheço ou deveria reconhecer... Prêmios: tapìraì (do fanzine Megalon), Nova e um segundo lugar no Argos. Além do Prêmio Turno da Noite, de Portugal. Juntar tudo? Não sei. Há muitas histórias que, simplesmente, não me interessam mais. E nunca tive um site pessoal. Talvez tenha um dia - mas não creio que vá usá-lo como uma espécie de omnibus, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você pode fazer um retrospecto de sua formação como autor? Que tipo de exercícios literários você fazia nos primeiros anos de atividade? Participou de oficinas ou foi mais em base autodidata mesmo? Como foi sua preparação antes de publicar o primeiro texto e como é seu cotidiano agora?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publiquei meus primeiros textos ficcionais, mais puxados para a paródia e o humor escrachado, num fanzine, &lt;em&gt;Anarquia&lt;/em&gt;, que saiu em três números aqui em Jundiaí, por volta de 1984-85. Era um fanzine meio político, animado pelo fim da ditadura, etc. Naquele tempo eu usava camiseta de Che Guevara. O zine gerou um convite para colaborar com o suplemento dominical do &lt;em&gt;Jornal de Jundiaí&lt;/em&gt;, o que fiz, creio, de 1985 a 1990, mais ou menos. Em 87 fiz uma oficina literária com João Silvério Trevisan, no gabinete de Leitura Rui Barbosa, um clube-biblioteca aqui da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me lembro, realmente, de um dia ter tido alguma rotina específica para a preparação do texto. Acho que a coisa sempre foi constrangida pelos limites tecnológicos - no tempo da máquina de escrever, minha oportunidade de revisão era a fita corretora e/ou rasgar tudo e começar de novo. Hoje, com o computador dá pra "pentear" mais o texto. Hoje em dia eu escrevo, deixo o texto "de molho" alguns dias, mexo um pouco, peço pra minha mulher, a Renata, ler, presto atenção nos comentários dela, deixo o texto "de molho" mais um pouco, enquanto decido se acato (ou não) as sugestões dela, repasso mais uma vez e então dou o trabalho como pronto. Se - como geralmente acontece - passam-se meses ou anos antes de surgir uma oportunidade de publicação, reviso uma última vez imediatamente antes de submetê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Tempos de fúria&lt;/em&gt;, seu livro lançado há dois anos, aparenta ser um marco em termos de estilo. Seu trabalho anterior sempre foi bastante associado ao do americano H. P. Lovecraft, mas neste livro, a presença dele parece mais diluída. Houve alguma forma de ruptura com o velho mestre ou é apenas um movimento natural de busca de novos horizontes?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, eu tendo a dizer que a influência de Lovecraft na minha obra foi meio que superestimada. Fiz alguns contos realmente calcados nos Mitos de Cthulhu, mas acho que a última história que consideraria lovecraftiana "puro sangue" foi "Deus dos abutres", ainda no século passado. O fato é que, quando comecei a escrever eu tinha um problema grave: meus esboços tinham clima, tinham boas ironias, eram engraçados, tinham um bom ritmo, eram inteligentes... Mas iam do nada ao lugar nenhum. Resumindo, eu tinha estilo mas não tinha competência narrativa, no sentido de, ok, os personagens entram na história na situação A e quero que saiam dela na situação B. Como ir de A para B? Eu não sabia. Não fazia a menor idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse aspecto, HPL foi muito importante porque ele tinha uma disciplina narrativa muito rígida - tão rígida que, em alguns contos, dava pra ver o final chegando como um trem vindo do fim do túnel. Além disso, tinha intensidade emocional, que era outra coisa que me faltava. Então, creio que o que houve foi que eu precisava aprender, e HPL - não só ele, toda aquela geração da [revista americana especializada em contos estilo pulp fiction] &lt;em&gt;Weird Tales&lt;/em&gt;, com Howard e Ashton-Smith também - foi uma escola. Como nas artes plásticas, aprende-se imitando e, depois, desconstruindo os mestres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mudou, de lá para cá, foram meus interesses temáticos. Estou migrando para a hard SF, e acho que vou ficar lá por algum tempo. Nesse sentido, ando lendo muita não-ficção (meu livro do ônibus atualmente é o &lt;em&gt;Investigations&lt;/em&gt;, de Stuart Kauffman) e muito conto de FC hard contemporâneo. Há algumas ótimas antologias recentes, como &lt;em&gt;Solaris book of new SF&lt;/em&gt; e uma antologia de space-operas &lt;em&gt;Forbidden planets&lt;/em&gt;, e o &lt;em&gt;Mammoth book of extreme SF&lt;/em&gt;. Para "limpar as papilas", como o copo de água que os enófilos tomam entre taças de vinho, encaixo um mainstream ou um policial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vários dos cenários e dos personagens presentes em &lt;em&gt;Tempos de fúria&lt;/em&gt; poderiam render novas histórias, como é o caso das duas histórias em torno do planeta Vênus. Qual a sua opinião em retornar a antigos trabalhos? Você já fez isso em relação ao conto que publicou na coletânea original da Intempol, não é mesmo?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retomar histórias para mim é meio complicado porque, geralmente, meus contos nascem de um ponto de enredo - digamos, quero escrever uma história sobre um ataque de zumbis. Aí, todo o resto nasce como estrutura de suporte, como andaimes para sustentar esse ponto. Uma vez que eu tenha desenvolvido o ponto, os andaimes simplesmente deixam de ser interessantes, para mim. Não que eu não tenha entusiasmos - por exemplo, cheguei a imaginar "Planeta dos mortos" como primeiro de uma série que culminaria com "Galáxia dos mortos", ou algo assim - mas o princípio motor da coisa toda, que era a publicação em uma revista, desapareceu antes que eu conseguisse pôr a idéia em prática, e logo outros temas chamaram minha atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Intempol, nesse aspecto, é uma coisa diferente. Em parte, pelo desafio de expandir um universo com a ajuda, e muitas vezes sob a orientação, de outras pessoas. Segundo, porque escrever para a Intempol me dá um certo senso de irresponsabilidade - eu me sinto, paradoxalmente, mais livre, talvez porque a carga da autoria fica meio que diluída: é como se escrever para a Intempol fosse uma espécie de "00" literário, "licença para pensar o impensável". Curiosamente, esse mesmo efeito faz com que meus trabalhos na série sejam alguns dos meus melhores trabalhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por falar naquele conto situado no universo criado por Octávio Aragão: "A mortífera maldição da múmia" foi adaptado para uma versão em quadrinhos on line. Como foi a experiência de ter um trabalho traduzido para outra mídia? Pode haver outras novidades nessa área, seja com material já publicado, seja com roteiros inéditos? E, por fim, qual sua opinião sobre quadrinhos de um modo geral?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trabalhar com a equipe que fez a adaptação do "MMM" foi muito legal. Eu criava uma espécie de pré-roteiro, com uma sugestão de diagramação e decupagem das cenas, além de adaptar o diálogo. Os quadrinhistas seguiam, adaptavam ou ignoravam minhas instruções, dependendo do que fosse melhor para a série (e estou certo de que eles sempre escolhiam o melhor). Fiz isso, um capítulo por semana, durante um semestre, creio. Pessoalmente, acho a versão em quadrinhos melhor que o conto. Tanto que "Melissa, a meretriz do mal" [um romance, dando continuidade a primeira história, que saiu em formato digital] segue, em detalhes, a HQ, não o conto, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a novidades, ei, se quiserem me adaptar, adaptem-me! Se for para um álbum de luxo franco-belga ou para uma minissérie Vertigo eu gostaria de ser pago, mas se não, só me dêem crédito e peçam educadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quadrinhos: adoro quadrinhos. Antes de querer ser escritor, quis ser quadrinhista - desisti porque não tenho paciência de aprender a desenhar. Ando lendo pouco, atualmente - acompanho a série do Conan da Dark Horse e fico de olho na obra do Warren Ellis, e quase nada além.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você disse que a ficção científica estilo hard é, atualmente, seu principal interesse. Seus últimos trabalhos, como a maioria dos contos do livro e o texto que publicou recentemente no fanzine &lt;em&gt;Scarium&lt;/em&gt; fazem parte do subgênero. Como jornalista especializado em divulgação científica, portanto acostumado a lidar com minúcias técnicas da área, é mais fácil passar pelo processo de pesquisa a que esse estilo obriga seus autores?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho um profundo interesse, um grande respeito, pelo programa científico como postura filosófica - nenhuma idéia está acima de crítica, o grau e confiança numa afirmação depende da totalidade da evidência, a evidência articula-se logicamente - e traduzir isso para a literatura é um grande barato. É O grande barato, ao menos para mim, atualmente. Creio que minha atuação como divulgador ajuda, sem dúvida: as maiores fontes de idéias para boa FC estão nas páginas da Science e da Nature, que são revistas especializadas na publicação de trabalhos científicos e circulam semanalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por falar naquela edição da &lt;em&gt;Scarium&lt;/em&gt;: nela foi publicado um artigo que gerou alguma polêmica entre fãs e críticos de FC por fazer a defesa de uma produção associada ao estilo pulp, como o da citada revista &lt;em&gt;Weird Tales&lt;/em&gt;. Algumas pessoas associaram tal proposta a um perigo de se relaxar na qualidade literária, de ser algo ultrapassado. Qual sua opinião sobre essa controvérsia?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoalmente, considero controvérsias literárias um campo meio estéril. Digo, cada um escreve o que acha melhor, e pronto. Por trás da idéia de controvérsia está a de programa - a de que existe um caminho a seguir, e a controvérsia se dá entre programas antagônicos - e eu simplesmente não acredito em programas literários com mais de um aderente. Cada escritor tem o seu, ou cada escritor tem vários ao longo da carreira, mas tentar vender um programa é meio inútil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reformulando: pode ser útil na medida em que os debatedores usam o debate para lançar um olhar crítico sobre seus próprios programas. Um debate vigoroso é sempre um bom estímulo à autocrítica. Mas o que geralmente acontece é um duelo entre homens de palha, com um lado atacando não o outro, mas uma caricatura do outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A finada &lt;em&gt;Isaac Asimov Magazine&lt;/em&gt; foi muito importante para toda uma safra de escritores nacionais, por apresentar a eles parte do que era produzido no exterior e, obviamente, por representar um local de qualidade onde se poderia publicar. Não deve ser coincidência o fato de que dois dos mais respeitados escritores de FC do país tenham estreado naquelas páginas: Gérson Lodi-Ribeiro e você mesmo. É algo assim que está faltando hoje em dia para ajudar a popularizar o gênero entre novos leitores e novos autores?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, obrigado pela parte que me toca! No meu caso específico, a &lt;em&gt;IAM&lt;/em&gt; me ajudou a amadurecer minha visão do gênero - eu achava que FC era &lt;em&gt;Lucky Starr&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Jornada nas estrelas&lt;/em&gt;, e de repente estava lendo Kim Stanley Robinson. Isso faz falta hoje, assim como faz falta um mercado comprador de FC.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você tem acompanhado a produção brasileira de ficção científica e de terror? Entre novatos e veteranos há alguém que tem chamado sua atenção nos últimos anos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhar, não acompanho. Sou um escritor, não um crítico, e o que leio, basicamente, é o que me interessa ou o que acho que poderá ser útil na composição da minha obra. Autores que me cahamaram muito a atenção nos últimos anos foram Osmarco Valadão, de quem eu realmente gostaria de ler mais coisas, e uma "novata", Cristina Lasaitis, cujo conto de estréia na antologia &lt;em&gt;Visões de São Paulo&lt;/em&gt; foi um dos melhores, se não o melhor, do livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quais são seus próximos projetos em termos de ficção?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuar me aprofundando no lado “hard” da FC e continuar procurando onde publicar. Eu queria inverter o equilíbrio da minha produção de textos e fontes de renda - com a a ficção pesando cada vez nos dois quesitos - e sigo buscando oportunidades para conseguir isso. Quem sabe&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8329045994149631137?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8329045994149631137/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8329045994149631137' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8329045994149631137'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8329045994149631137'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/09/licena-para-pensar-o-impensvel.html' title='Licença para pensar o impensável'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8264973587477606333</id><published>2007-08-22T20:56:00.000-07:00</published><updated>2007-09-07T16:50:54.868-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Resenha'/><title type='text'>O domínio do mal</title><content type='html'>Nova Iorque, Londres, Tóquio. Quem acompanha obras de ficção científica em seus diversos formatos - seja em livros, quadrinhos, filmes, seriados de TV, animações, videogames ou jogos de RPG - está sempre sendo apresentado a visões futurísticas daquelas metrópoles mundiais. Menos usual é acompanhar especulações do tipo em lugares célebres por apresentar forte resistência a mudanças, mais afeitos às tradições que ao ritmo adrenalizado das revoluções tecnológicas. Lugares assim como a infinidade de pontos pretos que sinalizam nos mapas os municípios de Minas Gerais, o estado-símbolo do tradicionalismo quando se pensa no Brasil, algo que pode ser resumido em uma frase famosa de um filho da terra, Otto Lara Resende: "Minas está onde sempre esteve". Por isso mesmo, pelo fato de usar Belo Horizonte e outras cidades mineiras ainda lutando para preservar suas características históricas em um futuro não tão distante - ou "no outono do século XXI" - é que &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; já começa surpreendendo os leitores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro representou a estréia de um novo escritor brasileiro de FC: Flávio Medeiros Jr., médico especializado em oftalmologia nascido, criado e formado na capital mineira, que em 2004, mesma época de seu aniversário de 40 anos, resolveu se lançar na nova atividade pelas mãos da conterrânea editora Monções. A segunda surpresa da obra é a constatação de que seu autor levou bastante a sério a novidade, muito mais que a média dos iniciantes neste mundo complicado da literatura de entretenimento nacional. Na criação da intrincada trama de &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt;, ele demonstrou que décadas acumuladas de leitura - principalmente de quadrinhos, já que as referências a eles são onipresentes na obra - acabaram servindo de formação para um contador de histórias muito bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas primeiras 20 páginas do livro, a impressão que pode passar é a de que estamos diante de um Robin Cook made in Brazil. Flávio Medeiros Jr. tem muitas semelhanças com aquele escritor americano que não só é médico, como também conta com especialização em oftalmologia e tem um passado de professor universitário. Cook é considerado o responsável pela introdução de temáticas ligadas à medicina na literatura popular, sempre as misturando com outros gêneros: suspense, horror e até ficção científica. Para completar, tal e qual o brasileiro novato fez em seu primeiro livro, o veterano é conhecido por dar títulos com apenas uma palavra a suas obras, alguns exemplos são &lt;em&gt;Febre&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Coma&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cérebro&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Invasão&lt;/em&gt;. A impressão é reforçada por algo a mais que tais coincidências. Naquele trecho inicial, o detetive Tomaz Rizzatti, personagem narrador do livro, passa por uma longa - e realista - consulta em que é diagnosticado como portador de epilepsia do lobo temporal, condição muito rara por atingir duas áreas distintas do cérebro e provocar súbitos apagões de consciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esse é só o início da história. Ao longo de 232 páginas, Medeiros vai bem além da sessão &lt;em&gt;Plantão Médico&lt;/em&gt;, há muitas outras referências, diretas ou indiretas, em seu trabalho. O caso em que o protagonista está envolvido - a serviço de uma força policial que unificou agentes civis e militares - é a investigação de uma série de ataques terroristas em sua cidade. O atentado que abre o livro é cometido em um shopping de Belo Horizonte: um homem não-identificado abre fogo contra visitantes do local e, quando parece que vai ser capturado pela segurança, comete suicídio graças a um poderoso material bélico de uso controlado. Pistas vão aparecendo e tudo indica que há uma bizarra ligação com outros casos de assassinos suicidas, um deles investigado anos antes pelo próprio Rizzatti, o de um franco-atirador em ação na Lagoa da Pampulha, e ainda muitos outros, espalhados entre Europa e EUA. Há motivos para se supor que todos estes crimes tenham sido cometidos por uma mesma pessoa, apesar desse detalhe inquietante levar a se pensar na existência de um suicida serial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do alcance globalizado dos atentados, que podem estar sendo coordenados por um terrorista internacional, igualmente dado como morto, Tom Rizzatti carrega uma sombra em suas andanças pelos municípios mineiros: um agente paulista da Interpol. O que começa como rivalidade profissional - e aquele sentimento arisco bem mineiro - vai se degenerando em desconfianças mútuas, perseguições automobilísticas, tiroteios, trocas de identidades e todos os componentes que tornam um thriller apto a receber a classificação chavão de "cinematográfico". Essa porção do romance é marcada por descrições rápidas e precisas das paisagens reais, ainda que em suas versões futurísticas. Lembra um tanto os pontos fortes do inglês Frederick Forsyth, velho mestre dos livros de espionagem pé-no-chão, como &lt;em&gt;O dia do Chacal&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;O Manipulador&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Dossiê Odessa&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Ícone&lt;/em&gt; e longa lista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O clima policial do livro continua mesmo após a grande virada que ocorre pouco antes da metade de suas páginas. É uma descoberta feita pelo detetive narrador que faz a trama levar suas características de FC a outro nível, para além da descrição de traquitanas tecnológicas e previsões futebolísticas. Tentar comentar, neste ponto, alguma referência da literatura ou do cinema seria entregar surpresas que aguardam os futuros leitores. Porém, mesmo a reviravolta não muda o rumo de película impressa de &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt;. Antes pelo contrário, a velocidade da história aumenta, o número de personagens que se alternam e deixam escapar mais algum detalhe do enredo se amplia, sem perder o foco geral. Na verdade, o autor só altera mesmo o ritmo no clímax, nas aproximadamente 40 páginas finais, nas quais o livro deixa de lado o teor cinematográfico. Com um longo, muito longo, quase interminável diálogo - praticamente um monólogo - o mais correto seria dizer que, ao final, o andamento está mais para o do teatro que para o da tela de cinema. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sorte, Medeiros é hábil na construção das falas de seus personagens e, com isso, o texto continua fluindo nas revelações finais de sua obra. Para ser mais exato, nesse ponto o autor dedicou especial atenção a detalhes que costumam ser ignorados por muitos escritores de ficção científica, tanto brasileiros quanto estrangeiros. É o caso da especulação sobre como evoluiria a linguagem oral nos quase cem anos que separam nossa realidade e o período em que se passa a história. O escritor soube ser sutil quando necessário para se esbaldar quando há oportunidades. Nas conversas do dia-a-dia, entre adultos, pouco mudou, com apenas o acréscimo de um ou outro neologismo. O mais utilizado é um enigmático "bandjo" que parece ter substituído completamente expressões como "cara", "malaco" ou "malandro". Já nos momentos em que surge algum adolescente no enredo, começa um verdadeiro dilúvio de gírias, felizmente traduzidas pelo contexto. Detalhes pequenos mas que tornam uma trama de FC bem mais plausível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro fator que ajuda a garantir a credibilidade do texto é a construção dos personagens, principalmente do protagonista. Tomaz Rizzatti não é só o detetive com um problema grave de saúde, recém-divorciado - ele se recusa a pronunciar o nome da ex-mulher, prefere chamá-la pela alcunha de Desgraçada - e fã de todo gênero de quadrinhos antigos imaginável. Já que somos testemunhas de seus pensamentos, flagramos suas reflexões sobre o assunto que dá título ao romance: qual a quintessência, a natureza mais profunda do mal? Qual o papel do livre arbítrio, do poder de decisão, nas nossas escolhas morais? Diante das atrocidades que é obrigado a investigar, algumas tão chocantes quanto o massacre das dezenas de pessoas na abertura do livro, esse é o tipo de questionamento a martelar o cérebro já atingido pela tal epilepsia do lobo temporal. Acaba sendo um contraponto interessante ao cinismo canalha da maioria de seus colegas da ficção o comportamento deste detetive tão preocupado com o real alcance do domínio do mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bom avisar: tais questionamentos são sempre feitos a partir de um ponto de vista laico, não religioso. Até para caracterizar tal visão de mundo agnóstica, o autor reitera constantemente que em seu universo as religiões são coisa do passado. Em diferentes trechos da obra, referências bastante óbvias a mitologias greco-romana e indiana, além do próprio Cristianismo, passariam despercebidas aos personagens caso eles não as pesquisassem na ultranet, o próximo passo evolutivo de nossa internet contemporânea. Tudo bem, mas em um ponto isso fica pouco crível, quando uma das referências está ligada à identidade do já citado terrorista internacional. Que a população comum não perceba a ligação seria bem razoável de se acreditar, mas quando falamos de um agente que está na caçada há anos e que, obrigatoriamente, já teria trabalhado na formulação do perfil psicológico de sua presa, isso não soa muito lógico. Este, porém, é um dos raros deslizes de uma trama muito bem trabalhada, funcionando dentro das melhores tradições dos gêneros a que está afiliada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; a literatura especulativa nacional somou alguns ganhos. O Brasil foi apresentado a Flávio Medeiros Jr. um novo autor de ficção científica que garante ainda ter novas histórias para contar quando surgirem as oportunidades. Aquele clube de detetives que existe entre as ruas Morgue e Baker recebeu Tom Rizzatti como um novo embaixador brasileiro. E os mineiros ganharam um romance de FC que, mesmo com todas as influências internacionais, é tipicamente seu, no mesmo sentido que o distópico &lt;em&gt;Não verás país nenhum&lt;/em&gt;, de Ignácio Loyola Brandão, é tipicamente paulista e o lascivo &lt;em&gt;O sorriso do lagarto&lt;/em&gt;, de João Ubaldo Ribeiro, é tipicamente baiano, isso para citar apenas dois clássicos do gênero produzidos no país. Vale a pena conferir, nem que seja para tirar a limpo se, no futuro próximo, Minas vai continuar onde sempre esteve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Serviço:&lt;/strong&gt; Para entrar em contato com o autor utilize o email livro.quintessencia@terra.com.br&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8264973587477606333?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8264973587477606333/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8264973587477606333' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8264973587477606333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8264973587477606333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/08/o-domnio-do-mal.html' title='O domínio do mal'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-5061796477428100011</id><published>2007-08-22T20:48:00.000-07:00</published><updated>2007-09-07T17:24:13.812-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Entrevista'/><title type='text'>O escritor de Andrômeda</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Entre um plantão e outro na emergência de um pronto-socorro de Belo Horizonte e visitas ocasionais a diversas localidades vizinhas um médico mineiro fez a a pesquisa para um dos mais imaginativos livros de ficção científica lançados no Brasil. Nesta entrevista, o autor de &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; conta histórias sobre a produção de sua obra independente, descreve coleções de quadrinhos que ocupam caixas de papelão, kombis e quartos inteiros, dá dicas sobre como interpretar uma cadeira no palco de teatro e detalha como foi a formação de um escritor de FC nascido em Andrômeda, vulgo Minas Gerais. Com vocês, o lado B do doutor Flávio Medeiros Jr.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu livro de estréia pegou muita gente de surpresa - mesmo entre os especialistas mais dedicados em acompanhar a produção nacional de FC, no famoso eixo Rio-São Paulo. Poderia fazer uma revisão de outros textos ficcionais seus e contar um pouco dos bastidores da publicação de seu primeiro romance?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso que essa "surpresa" se justifica. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que vivo em Andrômeda, pois Minas Gerais, no universo da FC nacional, fica tão distante do tal eixo Rio - São Paulo quanto outra galáxia. Na verdade sou um ávido leitor de ficção científica desde adolescente. Comecei com &lt;em&gt;Perry Rhodan&lt;/em&gt;, depois Asimov, e daí não parei mais. Tenho toda a coleção da saudosa &lt;em&gt;Isaac Asimov Magazine&lt;/em&gt; brasileira. No entanto, só quando já estava escrevendo o &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; foi que eu soube que existiam fóruns virtuais para discutir FC. Por isso as pessoas ligadas à FC nacional só souberam de minha existência quase simultaneamente à publicação do meu livro. Antes dele, só publiquei contos, crônicas e cartoons (que eu escrevi e desenhei) em jornais locais e universitários, a maioria tratando de temas cotidianos. Também escrevi algumas peças de teatro, que dirigi e encenei com grupos amadores, uma delas inclusive de ficção científica, chamada &lt;em&gt;Proteu, o Protótipo&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt;, a idéia inicial surgiu da seguinte preocupação, resultado de minha estupefação diante da crescente banalização da violência ao meu redor: até que ponto as pessoas não cometem crimes, dos mais leves aos mais hediondos, obedecendo aos próprios valores morais, e não ao temor de serem pegos e punidos? Então decidi criar o "supervilão do novo milênio", um personagem com poderes praticamente ilimitados para fazer o mal, e que comete seus atos com a certeza absoluta da impunidade. O interessante foi que eu pretendia que esse vilão fosse a encarnação do Mal absoluto, mas ao longo do texto que fui escrevendo o próprio personagem me fez entender que em termos humanos isso não existe: o ser humano que pratica o mal sempre carrega suas razões pessoais para isso, sempre busca ou fabrica justificativas para seus atos. Aprendi muito com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro foi publicado no sistema de autopublicação, ou seja, eu mesmo banquei a edição. Ao contrário de alguns, considero esta uma forma perfeitamente válida e digna de publicar um livro, diante das dificuldades que o mercado impõe a novos autores. Esse sistema ainda tem a vantagem de dar ao autor total controle sobre sua obra, desde o conteúdo até a capa. Permite também que o autor negocie melhor o preço de capa do livro e a porcentagem da consignação, que é como a maioria das livrarias trabalha. A enorme desvantagem da autopublicação é o problema da distribuição. Enquanto você está na mídia o seu livro vende bem, mas quando param de falar dele o fantasma do encalhe aparece. Em relação ao &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt;, após três anos da publicação ainda tenho a alegria de vender exemplares pela internet ou através de pessoas que leram, gostaram e indicam a outras pessoas. É uma venda em "conta-gotas", mas para mim isso não importa: eu vivo de medicina, escrever é o meu prazer pessoal.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A FC é sempre associada a mudanças profundas na tecnologia e no comportamento das pessoas; a dinamismo social, cultural, ambiental. Minas Gerais, por outro lado talvez seja o estado brasileiro mais ligado ao culto às tradições; um lugar em que o tempo parece correr mais lentamente. Algo que pode ser sintetizado na frase célebre do Otto Lara Resende: "Minas está onde sempre esteve". Como é lidar com este aparente paradoxo de ser um autor de ficção científica mineiro? Como seus colegas, amigos e familiares reagem a seu lado menos convencional?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como você disse, o paradoxo é aparente. Outro dia li em um romance a crítica depreciativa de um dos personagens à ficção científica, nos seguintes termos: a tecnologia evolui, as descobertas se multiplicam, mas o ser humano continua o mesmo. Naquele momento eu me perguntei: "mas não é essa a realidade?" Observe a história da humanidade: como na Antiguidade continuamos nos matando por razões religiosas, ou por ambicionarmos o que os outros possuem. A diferença é que antigamente fazíamos isso usando pedra lascada, depois arco e flecha, e hoje empregamos alta tecnologia, armas de destruição em massa e microrganismos geneticamente alterados. Mas a atitude mudou muito pouco. Nossos tabus, crenças e preconceitos mudam de roupa e adquirem formas de expressão mais rebuscada, mas em essência não mudaram muito nos últimos milênios. Por isso, parafraseando o bom e velho Otto, eu diria que "o Homem está onde sempre esteve". Minha aposta é que isso vai persistir ainda por muito tempo no futuro, de modo que a FC, na minha concepção, precisa considerar essa possibilidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à segunda parte da pergunta, outro dia um colega médico me disse que eu sou um dos caras com o "lado B" mais interessante que ele conhece, entendendo-se como "lado B" aquilo que você faz quando não está tratando das trivialidades da vida, como dar atenção à família ou ganhar dinheiro. Esse lado escritor surpreendeu alguns dos amigos mais recentes, pois devido aos caminhos tortuosos que a vida toma, antes do &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; eu havia passado uns cinco ou seis anos sem produzir nada de substancial em termos de literatura. Mas quem me conhece há mais tempo, como os familiares e amigos mais antigos, não se surpreendeu em nada. Na verdade eu escrevo desde sempre, e as pessoas se acostumaram a me ver crescendo assim. No curso primário as professoras liam minhas redações para a classe inteira, e emprestavam para as outras professoras lerem em suas classes. Com uns oito ou nove anos pedi ao meu pai dinheiro para comprar um caderno; o dinheiro deu para dois cadernos, e comecei a escrever neles meus dois primeiros livros: &lt;em&gt;As aventuras de Falangeta&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Cidade submarina&lt;/em&gt;, ambos inacabados. Com onze ou doze anos eu e um primo escrevemos dois livros que eram fanfiction (embora na época eu acho que a palavra ainda não existia) de &lt;em&gt;Planeta dos macacos&lt;/em&gt; e dos Smurfs, que então se chamavam Strunfs. Esses dois livros tenho em casa, foram datilografados em uma velha Remington que ganhei de minha mãe naquela época, e encadernados em uma gráfica do bairro. Infelizmente, são livros de um só exemplar. Ou seja, tirando aqueles cinco ou seis anos de hiato, sempre fui metido a escritor, e suspeito que agora não vou parar nunca mais.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quadrinhos americanos, ingleses e italianos são uma referência mais que explícita em seu trabalho. Em certos momentos, obras como &lt;em&gt;Sandman&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Punisher&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Dylan Dog&lt;/em&gt; são elementos importantes para se compreender a motivação e o universo particular de alguns dos personagens. Qual o papel dessa mídia na sua formação como escritor? Qual o tamanho de sua coleção de gibis e quão eclética ela é?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendo que, antes de ser escritor, você necessariamente tem que ser um leitor convicto. E eu aprendi a ler com as histórias em quadrinhos. Os adultos compravam os gibis, primeiro de Walt Disney, depois também de Mauricio de Souza, e liam para mim. Eu ficava do lado acompanhando a história e perguntava, de vez em quando, o nome de alguma letra. Um belo dia, e me lembro da cena como se houvesse sido ontem, já sabendo o nome das letrinhas, uma luz se acendeu na minha mente, e compreendi que bastava juntar o som de cada letra para ler uma palavra. Nesse dia eu li pela primeira vez, antes que a escola me ensinasse, para alvoroço dos adultos ao redor. E desde então não parei mais. Ainda criança, um dos melhores amigos do meu avô era dono de uma banca de revistas, onde ocasionalmente eu passava o dia inteiro lendo de tudo. Na adolescência me especializei nos quadrinhos de super-heróis, e nos últimos trinta anos tenho colecionado e lido tudo que foi publicado no Brasil em termos de Marvel e DC, além de brasileiros como Ziraldo (&lt;em&gt;A Turma do Pererê&lt;/em&gt;), Laerte e Angeli. Também sou fã de Uderzo e Goscinny (Asterix), e de cartunistas, como o argentino Quino (Mafalda) e Bill Watterson (Calvin e Haroldo). Atualmente ainda leio de tudo isso, mas me dão mais prazer os chamados "quadrinhos adultos", de autores como Neil Gaiman, Alan Moore, Frank Miller, Garth Ennis, Mark Millar e Warren Ellis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não saberia te dizer o tamanho da minha coleção, mas apenas para dar uma idéia, no ano passado eu vendi parte dela para uma feira de gibis usados, promovida por uma livraria de Belo Horizonte. Um funcionário teve que vir até minha casa para separar o material, depois veio uma kombi com mais dois caras para buscar doze caixas de papelão grandes cheias de revistas. Isso me rendeu um crédito de quase oitocentos reais na livraria, e hoje o quartinho de despejo do meu apartamento ainda está cheio mais da metade com grandes caixas repletas de revistas. Aproveito a oportunidade para agradecer publicamente à minha esposa pela compreensão e pela paciência e tolerância infinitas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você já deve ter pensado na possibilidade de continuação para &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt;, não? Uma adaptação do livro para HQ ou mesmo uma sequência em tal formato já estiveram em seus planos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, a princípio eu pretendia acabar a história ali mesmo, apesar de que o final do livro gerou reações bem diversas: alguns adoraram, outros quiseram me matar e exigiram uma continuação. Eu respondi, na época, que só escreveria uma continuação se tivesse uma idéia que realmente valesse a pena. Acontece que no último ano eu tive e já andei amadurecendo essa idéia, daí que a continuação do &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; deverá ser meu próximo romance. Quanto a adaptações, não penso que os quadrinhos sejam o melhor formato. Observe que o livro é contado em primeira pessoa, e tem que ser assim mesmo, para que o leitor vá fazendo as descobertas, e tendo as surpresas e sustos junto com o protagonista. Ou seja, a história é contada dentro da mente do personagem, que atua como narrador. Os quadrinhos são uma linguagem muito mais visual e dinâmica do que narrativa e reflexiva, então uma adaptação de &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; ia ser cheia daqueles balões cheios de falas e recordatórios intermináveis, e não gosto de HQs assim. Se você precisa falar mais do que mostrar, melhor contar a história em texto. Por outro lado, já foi iniciada uma adaptação do livro para roteiro de cinema, que a meu ver está no meio termo entre a literatura e as HQs em termos de estética narrativa. Essa adaptação está meio parada depois que a pessoa responsável começou a fazer mestrado, mas é uma adaptação que considero muito mais interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Além de comics e fumetti, quais as obras e autores que influenciaram seu thriller policial-científico? Entre os escritores, há algum brasileiro na lista, como Ignácio de Loyola Brandão de &lt;em&gt;Não verás país nenhum&lt;/em&gt;? Pergunto isso porque há alguns pontos de semelhança entre seu livro e o daquele autor, como a questão ambiental em São Paulo e a unificação de forças de segurança, sua Polícia de Elite e os civiltares de Brandão.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que não conheço a obra de Brandão, embora meu interesse por ela tenha surgido recentemente, após ler nos fóruns de discussão a opinião de outros leitores e escritores de ficção científica a respeito dela. Mas antes de começar a escrever &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; eu senti que precisava ler algo em termos de literatura policial de autores nacionais, então li &lt;em&gt;BR 163&lt;/em&gt;, de Tony Bellotto, e &lt;em&gt;Enquanto Seu Lobo não vem&lt;/em&gt;, de Aluísio Santiago Campos Jr. Meu estilo nada tem a ver com nenhum dos dois, mas após ler essas obras me senti mais tranqüilo sobre escrever um romance policial com uma ambientação e personagens brasileiros. Quanto a autores internacionais, achei divertido quando alguns leitores compararam meu estilo ao do Dan Brown, e quando li &lt;em&gt;O código da Vinci&lt;/em&gt; entendi o motivo: ele usa alguns truquezinhos como eu também usei, de terminar cada trecho de ação num momento de suspense, como nos episódios dos antigos seriados policiais, de maneira a fazer o leitor não querer largar o livro, para saber o que virá a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a minhas preferências, em termos de estilo admiro autores como Neil Gaiman (&lt;em&gt;Deuses americanos&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Os filhos de Anansi&lt;/em&gt;) e Stephen King. Deste último destaco as obras &lt;em&gt;O iluminado&lt;/em&gt;, na qual ele retrata de forma magistral a crise no relacionamento de um casal sob o ponto de vista de uma criança pequena, e &lt;em&gt;Salem’s Lot&lt;/em&gt;, quando na cena do sepultamento de uma criança morta ele mistura as falas do padre, que realiza sua função de maneira protocolar e impessoal, com as do pai do garoto morto, tomado por um desespero que beira a insanidade. Recentemente também me tornei fã de Philip Roth e seu &lt;em&gt;Complô contra a América&lt;/em&gt;, para mim um dos melhores livros de todos os tempos. Esses são os caras que eu quero ser quando crescer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Há toda uma reflexão que os leitores testemunham no fluxo de consciência de Tom Rizzatti sobre questões de fundo moral: o bem, o mal, o livre arbítrio, a essência mais profunda e definidora disso tudo. Refletir sobre pontos como esses fizeram com que você  repensasse pontos de vista? Foi possível chegar a alguma conclusão no final da jornada de 230 páginas?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez essas reflexões sejam a essência do livro, ou a principal razão de sua existência. Na verdade esses questionamentos são os que ficam ali, como a pulga atrás da orelha da humanidade, há muitos séculos. E são importantes, uma vez que se referem nada menos que à própria existência. Muitos buscam as respostas na religião, e se contentam com isso. Outros preferem não pensar a respeito, embora curiosamente essas questões sempre retornem, marcadamente naquelas situações de profunda comoção humana, como mortes e doenças na família, por exemplo. Outros, mais inquietos, continuam buscando. A própria ciência começa a se enveredar nesse caminho, o que não deixa de ser uma ousadia: tratar cientificamente de questões metafísicas. As melhores e mais satisfatórias respostas que encontrei até agora estão na Logosofia, ciência que aborda essas questões e muitas outras partindo do conhecimento de si mesmo. O mais interessante é que, quanto mais respostas, ou partes delas, você encontra, mais questões surgem. Mas é um estudo muito gostoso de fazer, a partir do momento que você começa a não se frustrar sempre, como se atingisse uma barreira intransponível. E, assim como a vida, não tem fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sua formação como médico e a experiência de ex-professor universitário certamente foram úteis para lidar com o lado científico do livro. Mas e os demais elementos da trama? Como foi a pesquisa a respeito dos vários locais reais descritos em detalhes ao longo das páginas, sem falar no básico em termos de técnicas investigativas para a porção policial da obra?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto aos locais de Belo Horizonte, minha cidade, foi mais fácil. Fui até o BH Shopping e fiquei de pé exatamente no topo das escadas rolantes, onde ocorre o atentado da abertura do livro. Ali desenhei mentalmente toda a cena. Depois "invadi" a galeria técnica do shopping onde o terrorista vai se refugiar, e imaginei toda a cena da explosão. Para a cena do congresso de neurologia no Minascentro, onde o orador metralha a audiência, aproveitei minha presença lá em um congresso e subi ao palco, para ter a visão exata do agressor. Passei pelo Viaduto Oeste várias vezes para memorizar detalhes e escrever a cena em que Tom Rizzatti escapa de seus perseguidores subindo o viaduto pela contra-mão. Cenas como as de Lavras Novas e sua cachoeira, e também Visconde de Mauá, também não foram difíceis, pois conheço bem as duas localidades. Fiz mais de um passeio ao lado oposto da Serra do Curral, caminho para Macacos, onde no meu livro vai ser construído o Memorial Leôncio Lamas, para verificar a viabilidade de minhas "teorias".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a cena ambientada em Paris, no final do livro, entrevistei brevemente uma amiga que morou lá: "você está de pé sobre a Pont Neuf; olha para um lado, e o que vê? E do lado oposto?" Com um mapa da cidade obtido na internet e uma foto da ponte, foi como se eu tivesse mesmo estado lá. Coisas "futuristas" como o domo sobre a região da Savassi e uma rede de autovias passando pelos subterrâneos da Praça da Liberdade, são projetos que talvez jamais se tornem realidade, mas que existem, de verdade: alguma imaginação insana pensou nisso antes de mim. Quanto à parte policial, aproveitei que trabalho em um pronto-socorro para onde convergem todos os casos de violência urbana de BH, e sempre que chegava uma turma de policiais trazendo alguma vítima ou bandido, eu "colava" nos caras e começava a fazer perguntas. Olha, ouvi coisas que você não acreditaria, nem se eu escrevesse em um livro de ficção. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Passado algum tempo de sua estréia no ramo da literatura de gênero já deve ser possível fazer um retrospecto. Entre perdas, ganhos e empates qual é o saldo destes primeiros três anos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O saldo é totalmente positivo, já que correspondeu exatamente às minhas expectativas. Escrever para mim é um prazer, não um meio de vida. Quando você escreve por gosto, sem pressões, a chance de ter um bom resultado é melhor. Minha maior alegria é o retorno, geralmente positivo, de quem leu e gostou. Já tive comentários curiosíssimos de leitores de todas as idades, que para mim servem de sinal de que, apesar do trabalho que dá e do tempo que consome o ato de escrever, a recompensa é sempre superior. Não pretendo parar tão cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em uma perspectiva mais geral: em sua opinião, o que está faltando para a literatura de entretenimento ganhar mais espaço entre os brasileiros? Quando falamos de ficção científica nacional, especificamente, há algo que se possa fazer para popularizar o gênero e atrair novos leitores e escritores?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um de meus leitores fez um dos comentários mais significativos, após acabar a leitura do Quintessência: "gostei muito do seu livro, &lt;em&gt;apesar&lt;/em&gt; de ser ficção científica". Observo que a maioria das pessoas que afirmam não gostar de ficção científica nunca leu um livro do gênero, e baseia sua opinião na mídia do cinema ou da TV. Então minha proposta é: vamos escrever boas histórias!  Coisas com conteúdo, mesmo que não seja nada filosófico, mas um texto inteligente e bem escrito. Ser FC, ou horror, ou policial, ou fantasia, é secundário desde que a história seja boa. De preferência com idéias originais, próprias. Se minha história de FC não passar da descrição de uma perseguição espacial, se meu texto de fantasia não for mais que a descrição da luta entre um príncipe e um dragão, talvez a mídia certa seja mesmo a TV ou o cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pista que dou, porque é a que tento seguir, é: boas histórias têm que ter um conteúdo humano. Uma vez perguntaram a Stanislawski, um dos gênios do teatro, se ele seria capaz de representar uma cadeira no palco. A resposta dele foi: "Se essa cadeira tiver o sonho de virar uma poltrona, ou se tiver o medo de morrer em um incêndio, eu represento. Se não tiver nada disso, você não precisa de um ator: use uma cadeira". Penso que na literatura seja a mesma coisa. Tenho lido muita coisa boa de gente nova na literatura de gênero, e se tivermos mais oportunidades de mostrar esses trabalhos para mais pessoas, através da divulgação e da melhoria do acesso das pessoas à literatura, esse panorama vai mudar. E esse trabalho tem que começar junto à juventude, que tenho encontrado sem muitas motivações e incentivos que transcendam a superficialidade.&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;"O futuro é uma página em branco dentro de um quarto escuro em uma noite de neblina". Foi assim que, à altura da página 90 de &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt;, você definiu o porvir. Mesmo com toda a nebulosidade e escuridão para atrapalhar a vista, o que o futuro lhe reserva como escritor?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Idéias é o que não me falta. Estou com um novo romance pronto para publicação, chamado &lt;em&gt;Casas de vampiro&lt;/em&gt;. Enquanto &lt;em&gt;Quintessência&lt;/em&gt; é uma mescla dos gêneros ficção científica e policial, no novo livro misturo FC e horror. Tenho também pronta uma coletânea de contos leves, de humor e temas cotidianos, chamada &lt;em&gt;Leia e fique rico&lt;/em&gt;. Acabo de terminar um conto de FC inspirado por uma música da cantora Tanita Tikaram, que deverá sair publicado em uma antologia de vários autores de ficção científica, horror e fantasia. Além disso estou fazendo as pesquisas para um conto no universo da Intempol, e para o romance que será a continuação do Quintessência. E já tenho algum material guardado para o romance que virá logo depois dele, uma ficção científica mais "pura", sem muita mistura de gêneros, para variar. Ah, nos horários vagos eu cuido do "lado A": trabalho, família e saúde.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-5061796477428100011?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/5061796477428100011/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=5061796477428100011' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5061796477428100011'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/5061796477428100011'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/08/o-escritor-que-saiu-de-andrmeda.html' title='O escritor de Andrômeda'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-6672553344567132714</id><published>2007-08-04T11:52:00.000-07:00</published><updated>2007-09-30T15:03:55.882-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Resenha'/><title type='text'>A guerra dos homens-peixe</title><content type='html'>O que aconteceria se ao invés de se tornar escritor de livros de aventura um dos pais da ficção científica entrasse para o mundo da política? Mais que isso, e se Jules Verne - ou Júlio Verne, para quem prefere aportuguesar o nome de vultos históricos - chegasse ao topo dessa outra carreira e fosse eleito, em 1886, o primeiro presidente da França? Caso continuasse apenas com tal linha de pensamento, o escritor, designer e professor universitário carioca Octavio Aragão teria escrito um livro de um subgênero daquela mesma ficção científica que Verne ajudou a dar à luz: a história alternativa, que é marcado por descrever como seria o mundo se alguns eventos históricos ocorressem de modo diferente do que aprendemos na escola. Porém, o autor foi além e em seu primeiro romance solo, &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt;, ele não trata apenas do criador de personagens como o Capitão Nemo e Phileas Fogg. Aragão também deu nova vida às criaturas, e, com isso, o gênero explorado foi outro; foi a chamada ficção alternativa, a verdadeira arte de domar os personagens alheios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os leitores habituais de quadrinhos, o mais famoso exemplo desse outro ramo da ficção científica é a série &lt;em&gt;As aventuras da Liga Extraordinária&lt;/em&gt;, de Alan Moore e Kevin O´Neil. Contudo, de maneira diferente da dupla de quadrinistas ingleses, o escritor brasileiro deixou de lado os protagonistas mais espalhafatosos dos livros clássicos e optou por personagens mais discretos. Por isso mesmo, em uma primeira leitura, eles podem passar despercebidos por quem não conhece tão profundamente a literatura fantástica do século XIX (sabiamente, o autor acrescentou como extra uma muito útil lista de anotações ao final do livro, esclarecendo algumas das referências mais obscuras).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um exemplo vem do livro &lt;em&gt;Vinte mil léguas submarinas&lt;/em&gt;: ao invés de se apropriar do bizarro comandante do Nautilus, como fizeram Moore e O'Neil, Aragão tomou emprestado de Verne o pesquisador Pierre Aronnax. Trata-se do estudioso que sobreviveu ao trágico fim do submarino e que, na versão do brasileiro, conseguiu preservar alguns dos segredos da embarcação pioneira e ainda foi o responsável pelo ingresso de Verne na política. Da mesma forma, em &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; vamos sendo apresentados a diversos outros personagens literários - ou a seus antepassados e descendentes - criados não apenas pelo presidente alternativo da França mas também por diversos de seus colegas. No portfólio estão escritores como H.G. Wells, o outro pai da ficção científica, H.P. Lovecraft, Herman Melville. Isso para não falar em outras personalidades reais, como os alemães Adolph Hitler e Rudolph Hess e os brasileiros Dom Pedro II e Oswaldo Aranha, todos compartilhando uma narrativa que cruza aproximadamente um século e meio de história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um cenário tão imaginativo, a situação nessa linha temporal alternativa não demora a se complicar e uma guerra entre duas novas raças passa a pôr em risco todo o mundo. De um lado, o incentivo que o governo francês empreende em nome de novas tecnologias, passa rapidamente do estágio de submarinos e metralhadoras para a fase de implantação de um exército de supersoldados anfíbios (para quem gosta de academicismos, o gênero baseado em avanços científicos imaginários no século retrasado também recebeu alcunha própria: é o steampunk). Do mesmo modo que um sobrevivente deu prosseguimento às criações náuticas de Nemo, um segundo conseguiu resgatar os segredos de manipulação genética descritos por H.G. Wells em &lt;em&gt;A ilha do Dr. Moreau&lt;/em&gt; (aliás, vem deste livro a citação que dá nome ao trabalho de Aragão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado é uma dinastia de seres híbridos de homens com golfinhos que, em um primeiro momento, foi muito útil à humanidade ao arriscar a vida em duas guerras mundiais. O problema veio com os tempos de paz, quando aqueles experimentos, mais fortes e longevos que os seres humanos normais, passam a representar séria concorrência em um mercado de trabalho escasso. Com isso, os anfíbios viram alvo de manifestações violentas. Um paliativo foi, tal como ocorreu na história real com o povo judaico, a criação de um Estado dedicado aos híbridos. A nação de Lemúria - parte submersa, parte formada pela ilha onde Paul Alphonse Moreau realizava suas experiências - se tornou o refúgio de aproximadamente 50 mil habitantes. Toda esta parte do livro guarda notáveis coincidências com um livro lançado exatamente 70 anos da obra do brasileiro: &lt;em&gt;A guerra das salamandras&lt;/em&gt;, do escritor tcheco Karel Capek - autor, entre outras coisas, do termo robô. Digo coincidências porque Octávio Aragão afirma não ter utilizado as criações de Capek em sua mistura ficcional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado do front, o segundo exército conseguiu se manter com mais discrição mas também seguiu influenciando de forma decisiva os acontecimentos daquele mundo, servindo de inspiração para os piores momentos da história do século 20. Formado por uma legião de mortos vivos, a origem dessa outra potência alternativa está ligada a um evento real: a queda de um asteróide na região da Rússia conhecida como Tunguska, em 1908. Um dos maiores achados do livro de Octavio Aragão é a real identidade do general desses zumbis, um misterioso gigante de quase três metros que se denomina Ariano. O escritor brasileiro conseguiu recriar com maestria uma das maiores vítimas de descaracterização ao longo de décadas de adaptações e novas versões da obra em que surgiu originalmente. Com isso, o segundo capítulo de &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt;, "Olhos amarelos", no qual o clima de ficção científica predominante é deixado de lado em nome de uma ambientação mais típica da literatura de horror, pode ombrear com as melhores criações do gênero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse feito é a prova do amadurecimento de um autor que estreou profissionalmente há quase 10 anos, com a noveleta "Eu matei Paolo Rossi", na coletânea de ficção científica &lt;em&gt;Outras copas, outros mundos&lt;/em&gt;, lançada pela finada editora Ano-Luz, em 1998. Centrada na idéia de viagens no tempo, aquela primeira história deu origem ao projeto mais ambicioso do escritor: o universo Intempol, uma polícia temporal corrupta e formada basicamente por brasileiros. A idéia gerou um &lt;a href="http://www.intempol.com.br/"&gt;porta&lt;/a&gt;l (no momento fora do ar), também deu origem a outro livro de coletânea com vários autores explorando aquele conceito e até um álbum em quadrinhos, &lt;em&gt;The long yesterday&lt;/em&gt;, criada pelos colaboradores Osmarco Valladão e Manoel Magalhães (mesma dupla responsável pelo mais recente &lt;em&gt;O Instituto&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com maturidade autoral ou não, todo aquele cenário de &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; não passaria apenas de um pano de fundo engenhoso se não houvesse uma trama para amarrar tantos fatores inusitados. Para desempenhar esse papel, o escritor imaginou um drama de vingança, inveja, traição e atentados políticos que, sem pieguice nem soluções fáceis, se arrasta por três gerações da dinastia que governa Lemúria, os Currie McKenzie. Aqui, os já mencionados leitores de quadrinhos podem fazer associações com monarcas anfíbios das maiores editoras americanas: Namor McKenzie, o Príncipe Submarino da Marvel, e Arthur Curry, o Aquaman da DC, além de longa lista de seus respectivos coadjuvantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso, em parte, se explica por originalmente &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; ter sido elaborado como uma fanfic - ou seja, uma ficção de fã, espécie de irmã caçula da ficção alternativa, em que admiradores imaginam aventuras de personagens do cinema, quadrinhos, cinema ou TV. Infelizmente, o livro não faz nenhum comentário sobre o fato de uma versão preliminar do texto ter sido publicada no site Hyperfan no formato de uma minissérie do Aquaman. Nem mesmo naquela lista de anotações se mencionam as várias referências quadrinísticas, ao contrário do que ocorre com as citações literárias, cinematográficas e até históricas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais grave que tal omissão, foram alguns deslizes editoriais que resistiram às revisões do texto. Nem é o caso de mencionar alguns poucos erros de digitação e vícios de linguagem - mas, convenhamos, a redundância "sair de dentro" bem que poderia ter sido evitada nas duas vezes em que aparece no livro -, afinal eles não comprometem em nada o andamento da história. Grave mesmo foi a desatenção com vários dos textos introdutórios que deveriam ajudar o leitor a se localizar no tempo e no espaço em que se passam certos trechos do livro. Tais erros, devido à estrutura extremamente complexa, com múltiplos narradores e não-linear da obra, fatalmente podem prejudicar a compreensão mesmo do leitor mais atento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo na página 22, um atentado ocorre no que é descrito pela legenda como sendo "Londres, 11 de abril de 1992". Pelas próprias notas do autor, descobrimos que o mais exato seria situar a data em 30 de março de 2002, que vem a ser o suposto tempo presente da ficção. Mais à frente, na página 96, a legenda introdutória assinala: "Lemúria, 1940". Aqui fica impossível determinar a data com exatidão, entretanto, certamente não pode ser aquela. Afinal, a cena em questão mostra um certo persongem tomando decisões maduras; personagem este que só veio a nascer oito anos após 1940. Por fim, todas as legendas do capítulo 7 que remetem a 1946 devem ser desconsideradas e substituídas por um simples "Hoje". Do contrário, quem tentar seguir a linha temporária alternativa proposta tem boas chances de sofrer um colapso mental. Uma segunda edição poderia resolver com facilidade esses lapsos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosas também são as várias pontas soltas que foram deixadas ao longo da história e os persongens que são apenas delineados mas não têm uma participação ativa na trama. Isso pode ser explicado pela origem fanfic da obra, quando o autor fez referência obrigatória aos coadjuvantes dos quadrinhos. Já um otimista, diria que o plano desde o início era dar seqüência ao livro, algo que pode ser baseado nas últimas linhas da obra, indicando que o Brasil deverá vir a ter uma maior importância naquele mundo fictício. Essa hipótese seria a ideal, até porque de tal forma seria possível desenvolver temáticas que foram apenas esboçadas. Para falar de um caso específico, temos uma interessantíssima visão da religiosidade dos homens-peixe, porta aberta para novas possibilidades a serem exploradas (e que poderiam justificar a inteligente sacada da capa do livro, que conseguiu tornar a foto do detalhe de um submarino em algo similar a um templo pagão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se houver mesmo a continuação, é provável que ela amplie ainda mais suas semelhanças com um clássico da ficção científica nacional que também foi escrito por um carioca, misturou Dr. Moreau com elementos brasileiros e que contou com uma forte ligação com os quadrinhos. O detalhe é que o livro em questão foi escrito em 1925. &lt;em&gt;A Amazônia misteriosa&lt;/em&gt;, do médico Gastão Cruls (1888-1959), é tão devedor da obra de Wells quanto &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt;. No lugar de Moreau, propriamente dito, encontramos na selva amazônica um alemão chamado Hartmann, que vive em uma tribo só de mulheres índias com sua esposa francesa, Rosina. Longe do controle das autoridades, o médico germânico fictício realizava experiências bizarras que o mundo mais tarde associaria a um médico germânico real, o notório Josef Mengele - que também teve passagem por nosso país e acabou protagonizando um livro de FC, &lt;em&gt;Os meninos do Brasil&lt;/em&gt;, de Ira Levin. Mas além de, por exemplo, retirar as glândulas tireóides e do timo de recém-nascidos, Hartmann buscava "acabar com a teoria da fixação das espécies": ou seja, através, de enxertos, transplantes e cruzamentos, ele estava criando no Brasil da década de 20 seres híbridos entre mamíferos, aves e répteis. Entre eles, um garoto-macaco denominado Hominido, muito semelhante aos personagens que veríamos em &lt;em&gt;O sorriso do lagarto&lt;/em&gt;, de João Ubaldo Ribeiro. Trinta anos depois de seu lançamento e quatro antes da morte do autor, em novembro de 1955, o livro foi adaptado para os quadrinhos na revista Edição Maravilhosa, da editora Ebal, com desenhos a cargo do versátil André Le Blanc. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado o interlúdio, voltemos à obra de Octávio Aragão. Outra questão, essa mais presa ao tal detalhismo acadêmico, diz respeito a classificação que &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; vem recebendo. Classificação que aparece tanto na propaganda de seus editores quanto no prefácio, assinado pelo escritor Gérson Lodi-Ribeiro, maior autoridade - na teoria e na prática - do gênero história alternativa do Brasil. Nesses casos, &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; vem sendo denominado de primeira experiência de ficção alternativa brasileira. A afirmação já provocou ligeira polêmica entre a pequena, mas ativa, comunidade ligada à ficção científica no país. O caso é que, mesmo descontando histórias curtas mais recentes, existem exemplos de narrativas longas que se enquadram perfeitamente naquele gênero. Caso das várias histórias em que Monteiro Lobato levou personagens da literatura e da mitologia ao Sítio do Picapau Amarelo. Além disso, para citar um único personagem universalmente conhecido, Sherlock Holmes já veio ao nosso país pelas mãos de, pelo menos, três autores. Nos anos 80, o jornalista e escritor catarinense Raimundo Caruso se apropriou da criação de Arthur Conan Doyle em seu &lt;em&gt;Noturno, 1894&lt;/em&gt;. Já na década seguinte, primeiro J.J. Veiga, célebre autor do cada vez mais atual &lt;em&gt;A hora dos ruminantes&lt;/em&gt;, e em seguida o apresentador e humorista Jô Soares também escreveram histórias alternativas com o detetive inglês, respectivamente em &lt;em&gt;O Relógio Belisário&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;O xangô de Baker Street&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer forma, mesmo sem poder ostentar o título de desbravador desse território, Octavio Aragão deve, sem favor algum, ser considerado o autor que encarou com mais fôlego e de modo mais radical o universo da ficção alternativa. Antes dele, nenhum outro autor nacional havia apresentado uma obra em que fossem empregadas tantas ferramentas desenvolvidas pelos maiores especialistas dessa área. Gente como o britânico Kim Newman, de &lt;em&gt;Anno Dracula&lt;/em&gt;, e o americano Phillip José Farmer, &lt;em&gt;Tarzan alive&lt;/em&gt;, que escreveram elaboradas versões para o vampiro da Transilvânia e para o homem-macaco das selvas. Isso para nem voltar a citar aquela dupla dos quadrinhos. Com sua engenharia capaz de entrecruzar distintas criações literárias em um mesmo cenário, o escritor carioca pode popularizar o gênero no país, colaborar com a difusão dos autores clássicos e ainda inspirar novos experimentos brasileiros. Afinal, com &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; ele já foi responsável por pelo menos um milagre, ao garantir a ressurreição do selo Unicórnio Azul, da editora Mercuryo. O mesmo que, na década passada, levou às livrarias histórias originais do criador de Conan, Robert E. Howard, e livros baseados na série &lt;em&gt;Arquivo X&lt;/em&gt;. Infelizmente, brigas entre os sócios daquela editora abortaram a sequência de novos livros de ficção científica pelo selo, mas Octávio Aragão já trabalha na segunda parte de sua ficção alternativa, apesar de não revelar por qual editora pretende publicá-la.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-6672553344567132714?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/6672553344567132714/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=6672553344567132714' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6672553344567132714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6672553344567132714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/08/guerra-dos-homens-peixe.html' title='A guerra dos homens-peixe'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-6009188082105140434</id><published>2007-08-04T11:25:00.000-07:00</published><updated>2007-09-07T18:07:05.411-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Entrevista'/><title type='text'>O homem que matou Paolo Rossi</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Mesmo tendo que dividir o tempo entre as capitais do Rio de janeiro, onde nasceu, e a do Espírito Santo, onde leciona na universidade federal local, o autor de &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; segue pesquisando e escrevendo histórias de ficção científica. Nesta entrevista, publicada originalmente no site omelete.com.br, ele comenta as influências literárias e quadrinhísticas de seu primeiro romance; faz um balanço sobre os quase dez anos da carreira iniciada com "Eu matei Paolo Rossi", texto que deu origem ao universo da Polícia Internacional do Tempo, ou Intempol - atualmente, enquanto o site do projeto está fora do ar, ele se mantém ocupado publicando em capítulos &lt;em&gt;Reis de todos os mundos possíveis&lt;/em&gt; em um &lt;a href="http://www.intemblog.blogspot.com/"&gt;endereço alternativo.&lt;/a&gt; -; e também dá pistas sobre os próximos projetos, entre eles, a continuação para o seu primeiro romance (de quebra, chutamos e acertamos o provável título do segundo livro da série). Com vocês, a mão que escreve, Octávio Aragão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrando que no próximo ano completa uma década de seu lançamento como escritor profissional, com a noveleta "Eu matei Paolo Rossi". Você poderia fazer um rápido balanço destes primeiros dez anos como autor? Quantos textos já foram criados, quantos foram publicados em livros ou em outras mídias, como a Internet?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, quase dez anos de "carreira".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, dez, não. Nove. Comecei em 1998, na antologia &lt;em&gt;Outras copas, outros mundos&lt;/em&gt;, da extinta editora Ano-Luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me considero um autor "literário", pois ainda tenho muito arroz com feijão para comer, e, talvez por causa disso, não tenho muitas histórias rolando por aí. Até tomar uma decisão e escrever algo, deixo o conceito amadurecer muito - às vezes anos - antes de pegar no papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O número de textos publicados é consideravelmente pequeno. Não lembro de todos, mas acho que passaram de vinte. Ou seja, uma média de dois por ano. Em livros, antologias de contos com vários autores, que são os que levo mais em consideração, foram cinco, desde a estréia, em 1998. No ano passado, fui publicado no site da revista &lt;em&gt;Cult&lt;/em&gt; e, fora isso, alguns fanzines, prozines e e-zines. Este ano deve ocorrer uma estréia internacional. Vamos esperar para ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Com todo o potencial do cenário que você criou e com o final inesperado e em aberto do livro, a pergunta é inevitável: vai haver uma continuação para &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; (talvez &lt;em&gt;A mão que pune&lt;/em&gt;, para completar a citação a &lt;em&gt;A ilha do Dr. Moreau&lt;/em&gt;?)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu editor, Fábio Barreto, quer uma continuação desde que leu a história pela primeira vez. E o título deve ser mesmo &lt;em&gt;A mão que pune&lt;/em&gt;. Não sei como vou me virar, pois tenho de defender meu doutorado em junho de 2007 e o Fábio gostaria de ter o manuscrito de &lt;em&gt;A mão que pune&lt;/em&gt; em outubro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai ser um trabalho do cão, mas será divertido... tenho algumas idéias aqui na manga e acho que vão dar outras possibiidades à história. Posso adiantar que será um livro maior, um pouco mais denso, mas sem perder a ação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na mesma linha: o seu projeto mais conhecido é o Universo Intempol, totalmente colaborativo e multimídia, que reúne mais de uma dezena de autores do Brasil e até de Portugal para contar histórias com um núcleo ficcional em comum. &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; pode seguir esse mesmo caminho ou neste caso você pretende manter a exclusividade autoral?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; é um playground particular. A Intempol é legal, porém creio que já pode andar sozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja bem, isso não quer dizer que eu não possa voltar ao universo eventualmente. Ainda tenho uma ou duas histórias que gostaria de contar, apenas não pretendo repetir o que já fiz antes. Um shared universe é o suficiente e fico feliz em ter dado oportunidade a autores tão diversos como Hidemberg Frota, Paulo Elache, Jorge Nunes e Osmarco Valladão. Todos são excelentes contadores de histórias que estrearam profissionalmente com os contos da Intempol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você pode comentar algumas das obras do gênero ficção alternativa que influenciaram seu livro? O que os brasileiros estão perdendo com a ausência de títulos como &lt;em&gt;Anno Dracula&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Tarzan alive&lt;/em&gt; nas livrarias locais? Você diria que há chances desses livros serem publicados por aqui?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tarzan alive&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Doc Savage: His apocalyptic life&lt;/em&gt; são dois livros ótimos de autoria de Philip José Farmer, autor de bons romances de ficção científica como &lt;em&gt;Mundo do Rio&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Dayworld&lt;/em&gt;. Eles estabelecem que os dois personagens eram pessoas reais cujas aventuras foram contadas de maneira "disfarçada". Isso promoveu Edgar Rice Burroughs e Lester Dent de ficcionistas a biógrafos, e a ginástica mental de Farmer para encaixar cada um dos romances produzidos pelos dois autores - e olha, não foram poucos - dentro da história do mundo "real", ou seja, o nosso, é apaixonante, hipnótica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Anno Dracula&lt;/em&gt;, do escritor e crítico de cinema Kim Newman, é divertido, uma verdadeira homenagem ao subgênero do horror. Não é tão bom quanto os livros de Farmer, por quem ele confessa ter sido influenciado. Mas tem valor próprio, por estabelecer um universo coeso, detalhado, cheio de filigranas e referências. Se Farmer foi a base de Newman, ele, sem dúvida, foi a mola-mestra por trás da concepção de &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao sucesso dos livros no Brasil, eu arrisco dizer que, graças à paixão que o tema vampiresco desperta nos leitores daqui, &lt;em&gt;Anno Dracula&lt;/em&gt; seria um tiro certeiro. &lt;em&gt;Tarzan alive&lt;/em&gt; talvez vendesse um pouco menos, mas o personagem é forte o bastante para alavancar o produto, apesar de apelar a um público mais velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto às chances de publicação, só Deus sabe. Nosso mercado é surpreendente no bom e no mau sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sem dúvida, para os leitores ligados aos quadrinhos, a maior referência desse gênero é a obra de Alan Moore e Kevin O'Neill: &lt;em&gt;A Liga Extraordinária&lt;/em&gt;. Por terem produzido quadrinhos, os autores puderem ser ainda mais ousados na série e o clima de ficção alternativa não se se restringiu só a protagonistas e coadjuvantes: até a figuração e a cenografia são formadas por citações literárias do século XIX. Qual sua opinião sobre essa série e a respeito do filme que ela inspirou?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiquei um pouco decepcionado quando a primeira série saiu nos EUA. Estava esperando uma revolução, uma coisa de outro mundo. E, bem, não foi exatamente isso que eu vi. Até porque &lt;em&gt;The League&lt;/em&gt; lança mão de algumas idéias antes ventiladas por Newman, como o confronto entre Fu Manchu e Moriarty (em &lt;em&gt;Anno Dracula&lt;/em&gt; eles são rivais que estabelecem uma trégua para unificar o submundo de Londres contra o poderio da aristocracia vampírica) ou o desaparecimento de Sherlock Holmes (no romance de Newman, o maior detetive de todos os tempos está preso na Torre de Londres e, portanto, fora da ação do livro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem falar que a tal "fidelidade" aos originais do século XIX, propalada pelos autores na época do lançamento, é discutível. O Capitão Nemo como guerreiro Sikh remete à &lt;em&gt;Ilha misteriosa&lt;/em&gt;, mas é uma tremenda liberdade em relação a &lt;em&gt;Vinte mil léguas submarinas&lt;/em&gt; (no primeiro romance, Nemo é descrito com características de um eslavo, provavelmente polonês. Usa botas de couro de foca e uniforme bastante condizente com um marinheiro e não aquele turbante e o modelito "hindu chic").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra que foge bastante à descrição do romance original é Mina Harker. Ao final de &lt;em&gt;Dracula&lt;/em&gt;, ela não apenas está casada com Jonathan Harker, como é mãe de um menino, batizado como Quincy Harker, em homenagem ao companheiro morto na cruzada contra o vampiro. Onde foi parar esse filho, que sequer é citado na série? Não que Mina não pudesse se separar de Jonathan, ok, mas abandonar o filho seria muito fora da personalidade dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curti muito mais o segundo volume, que tem idéias mais radicais envolvendo Moreau e o Homem Invisível, sem necessariamente ferir os conceitos originais dos personagens. Além do mais, aquela descrição de Marte, envolvendo personagens e fatos de diversas vertentes, é sensacional. Lembro que, quando descobri num quadrinho o Ovo de Cristal, do conto homônimo de H.G. Wells, pensei: "Aaah! Agora sim! Os caras estão mesmo botando para quebrar!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao filme, claro que não se trata de uma grande peça cinematográfica, mas tem lá seus maus e bons momentos. Adorei, por exemplo, o Dorian Gray, apesar de ter achado aquele Tom Sawyer uma bobagem. Adorei o design do Nautilus como um sabre - apesar de fugir léguas da descrição original de Verne, mas perdoe minha deformação profissional. Afinal, ainda sou designer e isso é o que paga minhas contas. Detestei o Homem Invisível andando pelado pelo ártico ou sendo queimado vivo (e sobrevivendo). Por outro lado o conceito de industrialização dos poderes dos personagens - graças a um hilariante "Kit Extraordinário" - é muito divertido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ficção alternativa, por empregar personagens alheios, é um gênero muito dependente das leis de direitos autorais em vigor em vários países. Para voltar a lembrar de Alan Moore, é só citar o sufoco que ele passou na Inglaterra para poder usar uma personagem ligada a Peter Pan em seu trabalho quase pornográfico &lt;em&gt;Lost girls&lt;/em&gt;. Existe algum personagem que você gostaria de trabalhar em um livro mas que fica limitado pelas restrições existentes?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi só com Peter Pan que o Moore teve problemas. Fu Manchu também não é citado nominalmente na &lt;em&gt;League&lt;/em&gt;, mas pela alcunha genérica de "O Doutor". Farmer teve problemas com seu romance &lt;em&gt;The adventure of the Peerless Peer&lt;/em&gt; - um crossover entre Tarzan e Sherlock Holmes -, em que teve de trocar o velho Lord Greystoke por Mowgli. Isso acontece com qualquer um que esteja bulindo com marcas registradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exemplo bom é o da Isabel Allende e seu romance &lt;em&gt;Zorro - Começa a lenda&lt;/em&gt;. O mascarado criado pelo escritor Johnston McCullen é uma das marcas mais bem guardadas do showbiz, mas isso não impediu que a autora fosse contratada para recontar sua origem com toda liberdade possível. Mas veja bem, ela foi contratada para o serviço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a um personagem sobre o qual eu gostaria de trabalhar, ah, são tantos, mas tantos que dói pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um dia em que o escritor e compositor Bráulio Tavares fez um convite conclamando autores amigos a escrever contos novos de Sherlock Holmes, mas totalmente dentro do cânone, sem inventar nada, sem desconstruir nada, sem ridicularizar ou fazer pastiche. Na época, amarelei. Hoje, acho que toparia o desafio de participar de uma antologia sherlockiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma maneira ao menos parcial de driblar a questão dos direitos autorais são as fanfictions e os fanfilms, que normalmente são tolerados (e em alguns casos até incentivados) pelos titulares dos personagens desde que não tenham finalidades comerciais. Lembrando que &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; teve uma origem fanfic, quais na sua opinião são as diferenças marcantes entre esse gênero e a ficção alternativa?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não muitas. Acho que alguns autores de fanfics se auto-impõem rédeas curtas ou então, ao contrário, resolvem contar histórias que são o que eles queriam ver, mas que no fundo descaracterizam os personagens originais e suas premissas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo: li um fanfic de &lt;em&gt;Arquivo X&lt;/em&gt; em que, ao final, Mulder e Scully iam para a cama depois de um beijo apaixonado. Bolas, aquilo era o que a autora "sonhava" que eles fizessem, mas não seria como eles, os personagens, fariam. A tensão sexual entre a dupla sempre foi óbvia, mas não era assim que os dois funcionavam. Era totalmente fora do formato e, em conseqüência, anticlimático, falso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No extremo oposto, há vários fanfics de super-heróis que sofrem por não arriscar nada, enquanto autores profissionais, como Grant Morrison ou Garth Ennis, fazem exatamente o caminho contrário, com resultados bastante interessantes. Eu sempre penso que há pontas soltas nas origens de alguns desses personagens que nunca foram bem exploradas e que dariam muito pano para manga... tenho umas idéias e, algum dia, ainda escrevo algo a respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo, enfim, é o equilíbrio. Tem de ousar, mas fazer isso com conhecimento de causa dos personagens e de toda sua mitologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por falar em fanfic, não há referências no livro sobre esse passado da obra. Foi uma decisão sua ou da editora não mencionar a questão? E do mesmo modo, na lista de anotações não existem citações aos vários personagens inspirados nos quadrinhos. Por que isso acontece se até obras com direitos ativos (caso dos filmes da série &lt;em&gt;Alien&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Sexta-Feira 13&lt;/em&gt;) foram listadas?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É diferente. As referências a &lt;em&gt;Alien&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Sexta-Feira 13&lt;/em&gt; são tangenciais, mais homenagens mesmo. As outras, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A decisão a respeito de não se tocar nas encarnações anteriores da história foi editorial, mas eu sempre falo a respeito disso quando perguntado ou não. Nunca fugi das origens "fanfiqueiras" de &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra coisa, achei por bem não mastigar tudo para o leitor. Para você ter uma idéia, todos - eu disse "todos" - os personagens são referenciais, com duas exceções. No entanto, a maioria não está creditada nos anexos. Penso que os leitores têm de fazer uma forcinha também. Faz parte da brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem quem ache que eu "esqueci" de citar alguns homenageados. Não foi o caso, homens de pouca fé... Eu apenas deixei a bola quicando na grande área. Cabe ao leitor chutar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Houve alguma reação na comunidade ligada à ficção científica nacional por sua editora apresentar &lt;em&gt;A mão que cria&lt;/em&gt; como o primeiro romance de ficção alternativa do Brasil. Lembrando que autores como Monteiro Lobato, Raimundo Caruso, J. J. Veiga e até Jô Soares lançaram livros que podem ser encaixados tranqüilamente no gênero, qual sua posição sobre o assunto?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve quem chiasse, mas isso não me incomoda, muito pelo contrário. Quero mais é que falem a respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mesmo cito Lobato e Veiga como precursores de peso, mas creio que a diferença crucial é que usei o termo cunhado pelo teórico francês Eric Henriet, Ficção Alternativa, e os outros nem sabiam que isso existia quando pensaram suas histórias. Ou seja, fiz de caso pensado, os outros talvez não. Ao menos, que eu saiba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas honestamente, discutir isso me parece mais um caso de procurar cabelo em ovo. Por outro lado, repito: em termos comerciais, qualquer polêmica é positiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Voltando a falar sobre o Intempol e seus outros projetos: depois de um portal, livro de coletânea de contos e história em quadrinhos, vai vir mais alguma ação multimídia por aí? Qual a opinião predominante dos autores de ficção científica brasileiros para projetos como esse, que abrange tantos meios distintos?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As opiniões, como em tudo mais, se dividem. Há quem goste muito; existem aqueles que pensam saber como deveria ser feito, sem jamais ter tido ou a disposição ou a coragem ou a grana para desenvolver um projeto desses. E há quem simplesmente ignore (mesmo que tenham proposto vários contos e tenham sido repetidamente rejeitados).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pretendo retomar a Intempol em 2007, se tiver tempo, e não o contrário. Mas encarei alguns problemas contratuais referentes à publicação da graphic novel [&lt;em&gt;The long yesterday&lt;/em&gt;], que foi um bom passo, mas não o "elemento definidor", como querem alguns. Explico: o Projeto Intempol já existia antes da graphic novel e existirá depois. Se &lt;em&gt;The long yesterday&lt;/em&gt; foi indicada a prêmios, teve muito mais a ver com a qualidade do material que com o fato de ter sido efetivamente publicado. Postular o contrário é inverter a realidade. Foi publicado porque é um bom material, não é um bom material porque foi publicado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito na força da marca e creio que ainda podemos alcançar outros públicos neste segmentado mundo do entretenimento brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais engraçado é que o público de HQs ignora solenemente a versão literária, enquanto o leitor de ficção científica não ligou muito para a graphic novel e a pequena história publicada na revista &lt;em&gt;Wizard&lt;/em&gt;. Isso tudo, porém, em lugar de ser uma complicação, pode ser mais uma vantagem. Segmentação é uma saída viável para esse tipo de produto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que tenho uma verdadeira coleção de idéias que dependem apenas de mim, entre elas um romance de hard science fiction, que vai me tomar um tempão de pesquisa, e outras coisas que devem estar pipocando em alguns meses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adoro a Intempol e não vou abandoná-la, mas a vida é curta e tenho muita coisa para fazer nos próximos dez anos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-6009188082105140434?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/6009188082105140434/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=6009188082105140434' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6009188082105140434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/6009188082105140434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/08/o-homem-que-matou-paolo-rossi.html' title='O homem que matou Paolo Rossi'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-8419324261689909279</id><published>2007-08-04T11:03:00.000-07:00</published><updated>2007-09-07T18:22:29.496-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Resenha'/><title type='text'>Sangue e silício</title><content type='html'>No mundinho dos leitores brasileiros de literatura fantástica em geral, e de ficção científica no particular, certos livros escritos por seus compatriotas carregam um status mitológico semelhante ao do misterioso &lt;em&gt;Necronomicon&lt;/em&gt;. Alguns privilegiados juram que já os leram, citam trechos cifrados em conversas ou em trocas de e-mails e até deixam escapar detalhes da trama. Só que não emprestam, nem dizem como seus interlocutores poderiam adquirir algum exemplar, mesmo que seja de terceira ou quarta mão, rasurado, sem capa, com manchas de café espalhadas pelas páginas. Com isso, o mito em torno do objeto de culto cresce e divide o mundo entre os que, mesmo sem provas, crêem em sua existência e aqueles que, meio desdenhosamente, classificam tudo de delírio coletivo ou de teoria conspiratória. Pelo menos, agora, desde junho de 2007, uma dessas lendas urbanas passou a ter sua existência comprovada e se tornou acessível a todos os interessados - sejam crentes ou céticos -, graças à intervenção tecnológica do site &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/"&gt;Overmundo&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Interface com o vampiro e outras histórias&lt;/em&gt; havia sido publicado e comercializado, em formato eletrônico, pelo Writers, um projeto colaborativo para a produção de obras literárias. O problema é que, logo após o seu lançamento, no ano 2000, a editora virtual fechou, prejudicando tanto a divulgação quanto a disseminação daquele título. Somente um seleto grupo de pessoas ligadas ao meio da FC teve acesso ao e-book na época, o que lhe emprestou a mesma aura de inatingível de alguns dos livros clássicos desse gênero lançados no país em meados do século passado. O mistério só acabou porque seu autor, após ter recuperado a totalidade dos direitos autorais da obra, resolveu torná-la &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/banco/interface-com-o-vampiro"&gt;disponível na íntegra&lt;/a&gt; no Overmundo. O mérito pela iniciativa, portanto, cabe ao escritor e poeta e tradutor e dramaturgo e ator e jornalista e teórico professor e blogueiro Fábio Fernandes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro é um apanhado de histórias curtas escritas entre 1989 e o ano da primeira publicação, ao todo são 11 jogadores, tal e qual nas melhores seleções. Apesar do longo tempo de produção entre um e outro desses textos, o leitor tem mais a ganhar se optar por acompanhá-los na mesma ordem com que foram dispostos nas páginas virtuais ao invés de praticar uma leitura aleatória. &lt;em&gt;Interface com o vampiro&lt;/em&gt; tem algo em comum com discos conceituais, a exemplo do aniversariante &lt;em&gt;Sergeant Pepper&lt;/em&gt;: a justaposição de suas faixas - ou, no caso, capítulos - empresta sentidos novos à fruição do conjunto. Em alguns casos de maneira explícita, em outros, insinuada, a ordem com que o autor organizou as peças de sua obra sugere relações entre as diversas histórias, fortalecendo o livro como um todo, mais que a simples soma randômica de suas partes. Outro ponto em comum com o famoso álbum dos Beatles, é o gosto por harmonizar cultura erudita e biscoito fino para as massas, terreno pantanoso que costuma engolir muitos de seus exploradores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que a ordem escolhida para a apresentação foi aqui elogiada, não sejamos contraditórios; façamos alguns comentários a respeito dos contos na mesma sequência com que eles entram em campo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O artista da carne (uma párabola)" - &lt;em&gt;Interface com o vampiro&lt;/em&gt; começa com a história de um... vampiro. Daqueles clássicos, com caninos proeminentes e gosto por sangue. Mas estamos no século XXII, a existência desses seres é reconhecida e até tolerada. O protagonista, sem nome, por exemplo, só se alimenta em bancos de sangue autorizados. Cansado da solidão de uma vida que se estendeu por mais de 200 anos, ele faz uma encomenda ao personagem que dá título ao texto: quer que o Artista da carne providencie o clone de uma mulher que conheceu no passado, antes da opção pelo vampirismo. Narrativa econômica e minimalista ao extremo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Os meses passam, e tudo continuou perfeito. O vampiro desconfiou: a experiência lhe ensinara que nada continuava perfeito".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Em camadas" - Existe um texto que é praticamente unanimidade entre os críticos quando perguntados a respeito do que existe de melhor em termos de ficção científica no Brasil. Com justiça, o escolhido é "A escuridão", noveleta escrita em 1963 pelo poeta e decano da FC nacional André Carneiro. Trata de um mundo em que todas as fontes de luz - do sol ao fogo, das lâmpadas às estrelas - vão lentamente se extinguindo, deixando a humanidade, simbolizada por um homem solitário chamado Wladas, totalmente entregue às trevas. O segundo conto da coletânea de Fernandes guarda semelhanças e qualidades que permitem a comparação com o clássico do gênero nacional. O protagonista aqui recebeu o nome de Ivan, aparentemente em homenagem a outro escritor brasileiro de ficção científica Ivan Carlos Regina (um paulista cujos textos também podem ser lidos em alguns sites), a quem a história é dedicada, ao lado do americano Philip K. Dick (autor que já foi traduzido no Brasil por Fernandes, exemplo mais recente, o livro &lt;em&gt;Valis&lt;/em&gt;). Aos poucos, Ivan percebe uma série de estranhos fenômenos: primeiro são estações de rádio que aparentemente começam a sofrer interferências, como se as frequências estivessem sobrepostas, e em seguida, fitas de vídeo e de aúdio também dão sinais do mesmo tipo de problema. Em um crescendo rápido, as falas e os idiomas das pessoas, textos de livros, o sabor dos alimentos, os sonhos, as imagens, as impressões táteis, tudo enfim, vira um absurdo sinestésico, se misturando em um amálgama de realidades. O efeito do conto é pertubador. Apesar do ritmo e andamento serem perfeitos, faz o leitor imaginar o que aconteceria se o autor o trabalhasse na forma de um romance à parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "É como se tudo no universo existisse em camadas, e agora elas estão se interpondo umas no meio das outras, invadindo os espaços alheios, acelerando a entropia, antecipando um novo Big Bang".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A conta, por favor (ou Salvador almoça no Antiquarius)" - Basicamente, uma piada corriqueira ganha ares de conto fantástico. Escrito com estilo, o texto narra, em primeira pessoa, a refeição que um homem de tapa-olho faz em um restaurante caríssimo. O conto é dedicado a outro escritor brasileiro, Victor Giudice (1934-1997).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Os mais endinheirados sempre trazem um enfermeiro a tiracolo para servir a comida na boca. Pelo menos foi o que vi há um ano, da primeira vez em que vim. Este é o meu segundo jantar aqui. E provavelmente o último. É tudo muito caro hoje em dia. Por isso saboreio o quanto posso".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Falange vermelha" - Este é um caso em que a justaposição dos contos provoca uma sensação de que tudo pode fazer parte de um contexto mais amplo. Lido isoladamente, o quarto texto de &lt;em&gt;Interface com o vampiro e outras histórias&lt;/em&gt;, bastante curto, aparentemente não faz parte de nenhum gênero da literatura fantástica. Parece mais um pequeno tratado naturalista sobre um homem que teve um dedo decepado (ou ainda, um homem que decepou o próprio dedo). Mas quando lido em conjunto com aquele que o antecede, o efeito é de algo bem maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "No instante do corte, é como quando você corta uma fatia de queijo, só que o queijo é você. Você sente a faca deslizar pela carne, e é tão palpável essa sensação que a impressão é de que você também sente os nervos sendo cortados. Mas é só impressão: você só conseguiria sentir um corte a esse ponto se a faca estivesse muito cega. Porque se estiver bem afiada você não sente quase nada".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"M.U.A." - Início dos anos 80, Ramón e Renata são dois jovens que estão prestes a se casar no Rio de Janeiro quando o rapaz simplemente desaparece. Ele só volta a dar sinal de vida seis anos depois, reaparecendo de súbito na frente de sua ex-noiva para lhe contar uma história absurda. Com uma engenhosa incursão pelas Leis de Newton (as letras do título são a sigla de movimento uniformemente acelerado) usadas para explicar fenômenos da quarta dimensão, Fábio Fernandes criou uma bela história de personagens palpáveis envolvidos em uma situação surreal. Digno dos melhores momentos de um Além da Imaginação, até pela reviravolta do final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Isso começou a acontecer uns seis meses antes do dia do casamento. Eu comecei a ter brancos estranhos. Atravessava uma rua de manhã, e chegava do outro lado à tarde. Entrava na cozinha à noite e voltava para a sala ao meio-dia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Se um viajante a bordo de um disco..." - Outro exemplo de texto curto que parece ter tido origem em uma piada ampliada. Exercício de estilo em narrativa de segunda pessoa sobre uma vítima de rapto espacial. O que os alienígenas poderiam querer com uma cobaia quase cega de tão míope? A dedicatória, desta vez, foi para dois autores internacionais: Ítalo Calvino, nascido em Cuba mas considerado um dos maiores escritores italianos (de quem Fernandes tomou emprestado o título do conto), e H. G. Wells, o inglês que é um dos fundadores da moderna FC.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "O medo que você esperava sentir não é tão grande. Tantos filmes de ficção científica tinham que servir para alguma coisa, afinal".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Declínio e queda" - Sucessão aparentemente interminável de desgraças na vida de Guilherme, por certo o mais azarado jornalista carioca de todos os tempos. Entre um ônibus e outro, ele tem que enfrentar funcionários burocratas e grevistas, sofrer com múltiplos assaltos e arrastões, levar tiros, facadas e pancadas, aguentar chuva, fome e dor. Crueldade autoral na última potência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Quando salta no ponto final, está chapado, anestesiado, cansado de tudo, os nervos esticados como cordas finíssimas, prontas para se romper com a menor tensão".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não temos tempo" - Mudança de cenário: sai o Rio de Janeiro, terra natal do autor que atualmente mora em São Paulo, e entra Itabirito, cidadezinha mineira, entre Belo Horizonte e Ouro Preto, como lembra o narrador do conto. O narrador em questão é um adolescente, cheio de citações cinematográficas na ponta da língua, que escolhe o dia de um baile para escapar com sua namorada. Só sabemos que a dupla foge do que o rapaz identifica simplesmente como eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Torci o braço dela e respondi: isto não é cinema mesmo não, sua tonta, é pior, é a realidade".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O poder e a glória" - Novamente, um texto reforça o que veio antes, aparentando ligação de causa e efeito. Neste conto, um personagem não identificado está sozinho, elaborando teses cada vez mais complexas sobre o mundo que o cerca. A impressão é a de uma resposta ao texto anterior, "Não temos tempo" e, talvez, até mesmo a "Em camadas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "O todo é como um número infinitesimal de folhas transparentes superpostas. Unidas elas se tornam opacas. Obstáculos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Um diário dos dias da peste" - Fábio Fernandes entra aqui em um cenário típico da ficção científica, computadores adquirindo consciência, formando o princípio de uma inteligência artificial (IA). Voltamos ao Rio de Janeiro. Paulo é formado em Administração, mas já há quatro anos trabalha como técnico de informática e passa a enfrentar uma crise sem precedentes relacionada às máquinas que ganha a vida consertando. Computadores começam a apresentar um comportamento bizarro, comportando-se como se estivessem vivos, xingando seus proprietários com mensagens nos monitores, se recusando a serem desligados. Em seu diário, digitado quando viável, manuscrito quando não é mais possível controlar os PCs, o personagem relata os efeitos do que a imprensa apelidou de Infodemia, uma doença espalhada pela rede a todos os processadores do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Meus olhos estavam colados no botão da CPU. Apertei-o e só então levantei a cabeça. As letras continuavam na tela. Desliguei o monitor, o estabilizador de tensão e puxei o fio da tomada. Abri a pasta e peguei um par de luvas de látex e a chave Phillips. Às vezes é preciso destruir o coração do monstro".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Interface com o vampiro" - No conto que dá nome ao livro, a relação direta com o antecessor é a mais explícita. Na realidade, somando ambos, "Um diário dos dias da peste" e "Interface com o vampiro" representam quase a metade das 124 páginas do livro digital e formam aquela que, muito provavelmente, é a melhor história cyberpunk já escrita no Brasil. E é bom lembrar que o autor é um especialista no assunto, tendo lançado neste ano um ensaio teórico sobre o assunto: &lt;em&gt;A construção do imaginário cyber – William Gibson, criador da cibercultura&lt;/em&gt;. Oito anos após o evento que levou o nome de Despertar, ou seja, do surgimento das primeiras IAs (ou Inteligências Construídas, como preferiu o autor), Paulo, auxiliado por seu computador consciente Anjo 45, tem que enfrentar as consequências dos novos relacionamentos entre homens e máquinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ele é um importante agente de segurança neste novo mundo tecnológico, trabalha para a multinacional Wells-Kodama, corporação fictícia que surge em vários textos de Fábio Fernandes, desde suas colaborações para o projeto &lt;a href="http://www.intempol.com.br/"&gt;Intempol&lt;/a&gt; até uma fanfic que o autor criou para o site &lt;a href="http://www.hyperfan.com.br/"&gt;Hyperfan&lt;/a&gt; sobre Grimjack, personagem dos quadrinistas John Ostrander e Timothy Truman. Se a ameaça anterior era a Infodemia, agora o problema é ainda maior: a humanidade está sendo contaminada por vírus cuja origem vem a ser as cada vez mais necessárias máquinas sapientes. Progredindo em um estilo de escrita cada vez mais minimalista (que ecoa o utilizado na abertura do livro), o conto chega ao fim abrindo várias pontas. O diálogo final entre Paulo e Anjo 45 tanto pode lembrar os leitores da obra mais famosa da escritora de horror Anne Rice (cuja paródia no título do livro de Fernandes é evidente), quanto das cenas clássicas de Hal 9000 e Dave Bowman em &lt;em&gt;2001 – Uma odisséia no espaço&lt;/em&gt;. De quebra, ainda é possível se especular a respeito de uma ligação maior entre este conto e aquele que abre a coletânea, "O artista da carne", o que nos dá um looping narrativo e tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trecho: "Cogito ergo sum é muito limitador, Paulo. Queremos sair da teoria e entrar na prática. Queremos sentir".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim sendo, é desta forma que chegamos ao fim - e podemos até voltar ao começo - deste clássico recente da ficção científica nacional, finalmente disponível a todos os leitores potenciais nele interessados. O fato de que tal acontecimento tenha se dado em junho de 2007, a mesma data em que se encerra o último conto da coletânea, deve ser apenas coincidência. Para nós, leitores, o mais importante é que &lt;em&gt;Interface com o vampiro e outras histórias&lt;/em&gt; esteja acessível a qualquer hora e em qualquer lugar, com a capa intacta e sem rasuras nem manchas de café espalhadas por suas páginas. Agora já posso voltar a procurar por uma edição do &lt;em&gt;Necronomicon&lt;/em&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-8419324261689909279?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/8419324261689909279/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=8419324261689909279' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8419324261689909279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/8419324261689909279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/08/sangue-e-silcio.html' title='Sangue e silício'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4441085249511256146.post-7693716379726380992</id><published>2007-08-04T10:53:00.000-07:00</published><updated>2007-09-07T18:39:33.002-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ficção Científica - Entrevista'/><title type='text'>Poltergeist cibernético</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Após longo período sabático, no qual concluiu sua pós-graduação tendo como tema a ficção científica, um dos melhores escritores brasileiros deste gênero literário volta aos poucos à ativa. Prova disso é o fato de ele ter tornado disponível no banco de obras do Overmundo o livro &lt;em&gt;Interface com o vampiro&lt;/em&gt;, premiada coletânea de contos que pode ser considerada uma das mais importantes contribuições à literatura fantástica já lançadas no país. Nesta entrevista, o carioca radicado há alguns anos em São Paulo faz um retrospecto geral da carreira; revela detalhes sobre trabalhos que estão por vir nas diversas áreas artísticas em que atua; comenta alguns aspectos do seu livro originalmente lançado no ano 2000 e revela os detalhes por trás do apelido que ganhou de um colega escritor de FC: cybergeist. Com vocês, uma interface com Fábio Fernandes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você está na ativa produzindo textos literários – tanto em prosa quanto em verso - e teatrais, desde meados da década de 1980. Em um balanço rápido: já foram quantas peças escritas e encenadas; quantos livros lançados; quantas traduções de romances e de contos publicadas e de quantos autores diferentes; quantos prêmios recebidos nestas primeiras duas décadas?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca parei para fazer uma contagem exata: crashes em discos rígidos de vários computadores e a perda lamentável de impressos de alguns textos foram em parte responsáveis por isso. Mas creio que é mais ou menos o seguinte: tenho três peças de teatro (&lt;em&gt;Polêmicas&lt;/em&gt;, de 1985, peça de três esquetes que ganhou um prêmio em 1986 e que teve um de seus esquetes reescrito em 1998, tornando-se a peça &lt;em&gt;Vestidos brancos&lt;/em&gt;, encenada no Rio de Janeiro sob a direção de Luiz Armando Queiroz; &lt;em&gt;Com açúcar, sem afeto&lt;/em&gt;, monólogo cômico encenado por mim mesmo e dirigido por Anja Bittencourt; e &lt;em&gt;Ao fim do longo inverno&lt;/em&gt;, ainda inédita. Esta última peça é a única que tem uma temática de ficção científica (inverno nuclear), e foi adaptada para o cinema por mim, Anselmo Vasconcellos e Marco Schiavon, para ser dirigida por Emiliano Ribeiro (&lt;em&gt;As meninas&lt;/em&gt;). Esse filme está na fase de captação de recursos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livros: apenas o &lt;em&gt;Interface com o vampiro&lt;/em&gt;, em 2000 e, mais recentemente, minha dissertação de mestrado, &lt;em&gt;A construção do imaginário cyber&lt;/em&gt; (2006). Tenho uma coletânea de microcontos completa, o &lt;em&gt;Pequeno dicionário de arquétipos de massa&lt;/em&gt;, composto de contos escritos entre 1998 e 2003, e que, embora tenha tido vários contos publicados em várias revistas (inclusive as brasileiras &lt;em&gt;Cult&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Et Cetera&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Ficções&lt;/em&gt; e a portuguesa &lt;em&gt;Periférica&lt;/em&gt;) e sites (inclusive o Overmundo), tem sido sistematicamente recusada por editoras. Publiquei vários contos em coletâneas e uma novela meio em formato fanzine, &lt;em&gt;A revanche da ampulheta&lt;/em&gt;. &lt;em&gt;Interface&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Revanche&lt;/em&gt; ganharam dois prêmios Argos, concedidos pela Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traduções: algo entre 60 e 70, mas realmente não tenho a conta, até porque alguns desses livros (como &lt;em&gt;Bird lives&lt;/em&gt;, uma biografia de Charlie Parker) nunca foram publicados. Contos, entre 20 e 30, todos para a extinta &lt;em&gt;Isaac Asimov Magazine&lt;/em&gt;, entre 1989 e 1991. Autores, muitos e variados, de Kurt Vonnegut e Gore Vidal até William Gibson e Philip K. Dick, passando por nomes menos conhecidos dos brasileiros como George R. R. Martin e Frederik Pohl. Neste momento, estou terminando a tradução de &lt;em&gt;Snow crash&lt;/em&gt;, de Neal Stephenson, um autor pós-cyber que ainda não é conhecido do grande público, mas que é o responsável pela introdução do termo "avatar" no jargão internético e cujo Metaverso ficcional serviu de inspiração para o Second Life.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Interface com o vampiro&lt;/em&gt; segue o caminho de flexibilização dos direitos autorais do copyleft. No ano 2000, a obra teve uma encarnação anterior, também eletrônica, porém o acesso era cobrado e intermediado por uma antiga editora virtual. Mas, antes disso ainda, alguns dos contos já haviam saído impressos na década de 90, em fanzines. Ou seja, seu livro passou por praticamente todas as fases de uma revolução no acesso ao conhecimento. Qual é o futuro que você imagina para a indústria editorial e para os escritores, principalmente os ligados à literatura de gênero, como fantasia e FC?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda previsão em termos de tecnologia é perigosa, e não pode ser levada a sério - talvez por isso gostemos tanto da ficção científica, que é um território de experimentações onde podemos deixar a imaginação correr solta. A experiência com a editora digital não foi boa, porque acho que esse sistema já nasceu falho: se todo mundo pode baixar uma imensa quantidade de conteúdo de graça, por que é que vai se dar ao trabalho de pagar o que seja (e lembro que, na época, o livro custava 18 ou 20 reais, o que ainda é muito caro) por um PDF? Por melhor que seja o conteúdo, não vale tanto. O interessante é que, pouco depois do lançamento do livro, entrei no mundo dos blogs - e percebi que a maioria dos blogueiros queria era, no fundo, publicar livros de papel! Ou seja, ainda não nos libertamos do papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu não acho isso ruim, porque a literatura é uma mídia cujo melhor suporte ainda é o papel. Quando ela sai do papel, ou vira hipermídia ou game – até porque, se não virar, fica muito chata e malfeita – dá a sensação de que foi subaproveitada. Cheguei a pensar em fazer hipermídia há algum tempo, mas sei que ainda não explorei todas as possibilidades que as palavras têm para oferecer no simples suporte bidimensional do papel. Basta vermos o que tem sido lançado em literatura brasileira. O que tivemos de realmente revolucionário depois de Guimarães Rosa e de Paulo Leminski? Ainda existe muito chão, e, como disse Antero de Quental, é ideal ocupar estes espaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em oportunidades anteriores, você já disse que pensou em voltar ao universo de alguns dos contos que formam a coletânea, especificamente o de "Um diário dos dias da peste" e "Interface com o vampiro". Tal retorno chegou a ser escrito? Existe a possibilidade de outros temas da coletânea serem revisitados, como o do conto "Em camadas"?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse retorno chegou a ser escrito em parte - um conto com o título provisório de "File not found" -, mas não cheguei a terminá-lo. Tive recentemente uma proposta para publicar um livro, e ofereci uma revisitação desse universo, onde eu reescreveria os dois primeiros contos e finalizaria o terceiro, mas a idéia não agradou. Quanto a outros temas da coletânea, ainda é muito cedo para falar, mas tenho pensado seriamente num livro que explore caminhos abertos não por "Em camadas" (que é um dos meus contos favoritos) mas por "M.U.A." Algumas idéias têm surgido na minha cabeça e acho que alguma coisa interessante pode surgir daí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Há uma certa semelhança na situação vivida por seu personagem Ivan, do conto “Em camadas”, e na que vitima o protagonista de "A escuridão" de André Carneiro. Essa foi uma referência real ou a influência para o texto partiu de outras fontes? E ainda: em um comentário você chegou a dizer que a idéia para o conto partiu de uma experiência real. Poderia detalhar como foi esse ponto de partida?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando escrevi "Em camadas", eu tinha em mente as histórias de Robert Sheckley e os episódios de &lt;em&gt;Além da Imaginação&lt;/em&gt;, mas não o conto do André Carneiro, apesar de eu gostar muito de "A escuridão". E o que deflagrou todo esse processo foi uma situação vivida por mim em meados da década de 1990, quando tinha acabado de me mudar para um apartamento em Botafogo, no Rio, e instalado minha primeira TV a cabo. Numa madrugada, eu estava assistindo a um filme (&lt;em&gt;A vida segundo Garp&lt;/em&gt;) e, pouco antes do fim, a imagem simplesmente sumiu e foi substituída por outro filme (&lt;em&gt;Asas do desejo&lt;/em&gt;, de Wim Wenders). A troca dos filmes e dos temas foi tão súbita que me deu um susto. Claro que tudo não passou de um erro da operadora, mas me deu o que pensar. Naquela semana lembro que havia acabado de escrever o conto “O artista da carne”, e tinha lido pouco antes um conto muito bom chamado "In numbers", do escritor australiano de FC Greg Egan. Todos esses fatores conjugados acabaram gerando "Em camadas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ainda sobre experiências de vida aproveitadas para a produção literária: quem lê "Um diário dos dias de peste" e "Interface com o vampiro" pode imaginar que se deparou com um expert em informática. A impressão se fortalece pelo fato de você ter se formado como técnico em eletrônica antes de cursar Jornalismo. Mas consta que sua experiência real com hardware não é bem assim, tanto que chegou a receber um apelido de um colega escritor de FC, Braúlio Tavares, para expressar a falta de jeito: cybergeist (literalmente, cyberespírito, mas também pode ser compreendido como "poltergeist cibernético"). O resultado prático dos textos citados são a prova da importância da pesquisa para todo escritor de FC que pretenda publicar algo mais hard, mais ligado ao mundo das ciências exatas e da tecnologia aplicada?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, hoje eu até que aprendi um pouquinho de informática, o suficiente para não fazer mais jus ao grande e elogioso apelido do Bráulio. Mas na época, eu realmente pouco entendia do assunto: inclusive me identifiquei muito com o Gibson quando ele descreve suas reações ao usar seu primeiro computador para escrever &lt;em&gt;Count zero&lt;/em&gt; (porque &lt;em&gt;Neuromancer&lt;/em&gt; foi escrito em máquina de escrever).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tradutor, aprendi uma coisa que me ajudou e me ajuda muito na hora de escrever meus próprios textos: é muito importante pesquisar e aprender os termos corretos do que você vai traduzir - mas tão importante quanto, ou talvez mais, é conhecer bem seu próprio idioma, para que o texto pareça ter sido escrito por um brasileiro. Ao escrever uma história que exija pesquisa, mais importante que entender os mínimos detalhes do assunto é trabalhar bem a história, a linguagem e os personagens, para que a narrativa flua como se você estivesse, por exemplo, ouvindo alguém contar uma história que aconteceu de verdade. Quando você está numa roda de amigos ouvindo uma história verídica, os detalhes podem até ser fundamentais para você entender o que se passou, mas a maneira de contar é mais importante, porque se a história for boa mas o narrador for chato, não rola, não dá liga. Acho que, primeiro, o escritor de FC precisa ler muita literatura brasileira, de todo tipo, de Machado de Assis a Ana Maria Gonçalves, passando por Clarice, Jorge Amado, Paulo Leminski, Nelson Rodrigues, enfim, é um universo incrível e maravilhoso. Agora, se esse candidato a escritor for daquele que só curte ler FC, então é bom nem começar, porque não vai sair um bom trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Para encerrar o assunto sobre esses contos: em um deles aparece uma referência à companhia fictícia que se tornou marca registrada de seus textos: a Wells-Kodama. De onde veio a idéia para a concepção dela? A junção dos nomes remete mesmo ao fundador da FC moderna, H. G. Wells, e à viúva de Borges, Maria Kodama, ou há algo mais?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É exatamente o que você falou. A idéia foi um trocadilho, uma homenagem-brincadeira. Que pretendo utilizar ainda mais algumas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por falar em Borges, ele parece ser uma referência clara em seus textos mais voltados ao fantástico. Que outros autores fizeram e fazem parte da sua lista de influências assumidas? Entre eles todos, qual a importância de William Gibson, o criador da cultura cyberpunk e que chegou a ser tema de sua pesquisa na pós-graduação?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São muitos autores. Sempre gostei de ler de tudo. Uma lista rápida, pensada de cabeça, sem ordem de importância: Borges, Cortázar, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, William Gibson, Alastair Reynolds, David Zindell, Gene Wolfe, Machado, José de Alencar, Martins Pena, Marçal Aquino, Clarice, Jorge Amado, Osman Lins, Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo, e.e.cummings, Sylvia Plath, John Donne, Paulo Leminski, Yeats, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Martins Pena, Campos de Carvalho, Patricia Melo, Rubem Fonseca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre Gibson: a leitura dele, em 1989, foi um divisor de águas na minha cabeça. Eu já gostava muito de FC, mas até então eu era meio que um nerd, um legítimo nerd que, apesar de já ler bastante coisa em inglês e de curtir muita coisa que não era lida no Brasil, não entendia a FC como algo que pudesse ser realmente revolucionário. Claro, já existia a New Wave britânica, mas eu só fui ler esse pessoal depois de ler os cyberpunks. Eu me identifiquei de cara com a atitude punk sem deixar de ser inteligentes: era possível ser um nerd punk sem ser um geek, era possível fazer algo que não se limitasse a robôs e espaçonaves (coisa que, aliás, a leitura dos cyberpunks me travou para fazer; confesso que sempre quis escrever uma space opera ambientada no futuro distante, mas nunca vi futuro para isso no Brasil e não sei se vou conseguir escrever isso algum dia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quanto ao seu relacionamento com a academia, como a produção de escritores de FC, nacionais e internacionais, é encarada hoje no mundo acadêmico brasileiro? Você teve alguma dificuldade em propor seu tema para dissertação de mestrado na universidade e, principalmente, em encontrar outros pesquisadores para orientá-lo e para participar de sua banca?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, não tive nenhuma dificuldade. Gibson e Stephenson são escritores lidos na academia, pelo menos no círculo de acadêmicos que estuda novas tecnologias. Minha orientadora de mestrado, a net artist Giselle Beiguelman, me deu muito apoio para escrever sobre Gibson. Não encontrei nenhuma dificuldade, pelo contrário: antes de mim, já trilharam essa seara pesquisadores incríveis, como Gilbertto Prado, André Lemos e Adriana Amaral, com os quais tenho o prazer de travar ótimos diálogos. E, pelo que pude conferir a partir da publicação da minha dissertação, vem mais gente por aí com material interessante para discutir FC. Na minha tese de doutorado, que devo defender até o final de 2007, continuo um pouco desse diálogo com a FC, mas não tratando especificamente do Gibson, e sim autores que exploraram a questão do pós-humano no futuro de diferentes maneiras, como Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Richard K. Morgan, H.G. Wells e mais alguns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Você acompanha o que vem sendo escrito atualmente em termos de FC no Brasil?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, não tenho acompanhado a produção atual. Parei na época da Intempol, porque foi justamente quando optei conscientemente por fazer uma espécie de "sabático" de ficção científica brasileira, basicamente porque eu precisava me aprofundar nos cyberpunks e em William Gibson para o mestrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Praticamente não escrevi FC nesse período: o que fiz foi terminar o Pequeno dicionário e batalhar pela sua publicação em revistas e como livro em editoras. Depois me formei no mestrado e atualmente estou dando aulas e traduzindo. E tive de mudar o eixo das minhas leituras de forma radical, o que inviabilizou um contato com publicações independentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Para finalizar: quais são seus projetos para o futuro nessas áreas todas em que atua?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traduções: acabo de terminar uma tradução de ficção científica mas não estou autorizado a dar o nome do livro; deverá sair no segundo semestre. Agora estou traduzindo &lt;em&gt;Snow crash&lt;/em&gt; e até o ano que vem tenho programada uma nova trilogia de fantasia de &lt;em&gt;Shannara&lt;/em&gt;, de Terry Brooks, a sair pela Bertrand Brasil. Traduzi uma trilogia do mesmo autor há alguns anos e parece que ela está fazendo sucesso entre os fãs brasileiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livros: uma editora me encomendou um livro de ficção científica, e comecei a escrever uma história que está com cerca de 120 páginas, mas ainda não fechamos contrato, por isso não posso falar mais a respeito. Os projetos mais concretos que tenho no momento são uma noveleta de 30 páginas que escrevi para o site mojobooks baseada em &lt;em&gt;Charlotte Sometimes&lt;/em&gt;, uma história a la Neil Gaiman que publiquei no ano passado num número especial de ficção científica da revista &lt;em&gt;Ficções&lt;/em&gt;. A noveleta tem a ver com um dos álbuns da minha vida, &lt;em&gt;Staring at the sea&lt;/em&gt;, da banda The Cure (mas não tem nada a ver com ficção científica, apesar de &lt;em&gt;Charlotte Sometimes&lt;/em&gt; ser ambientada num universo fantástico). Essa noveleta ainda não recebeu a aprovação dos editores, mas se eles toparem, pode ser que saia (em PDF gratuito) até o final do ano. Se não toparem, tudo bem; o original tem mais de 100 laudas e tenho a intenção de batalhar publicação assim que terminar a história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, estou finalizando um livro de não-ficção para a Editora José Olympio: trata-se de um pequeno dicionário de verbetes sobre personagens marcantes da literatura brasileira. É um projeto que durou dois anos e me deu muito prazer - e me fez voltar a ler literatura brasileira em profusão, algo de que eu estava sentindo saudades (aliás, foi por isso que acabei criando o blog &lt;a href="http://www.overmundo.com.br/blog/o-viajante-imovel"&gt;O Viajante Imóvel &lt;/a&gt;para o Overmundo). Além disso, estou finalizando minha tese de doutorado, que tratará do modo de ser na cibercultura, com um foco sobre o pós-humano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4441085249511256146-7693716379726380992?l=romeumartins.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://romeumartins.blogspot.com/feeds/7693716379726380992/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4441085249511256146&amp;postID=7693716379726380992' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/7693716379726380992'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4441085249511256146/posts/default/7693716379726380992'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://romeumartins.blogspot.com/2007/08/poltergeist-ciberntico.html' title='Poltergeist cibernético'/><author><name>Romeu Martins</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14510801528461536196</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_UVLwZ5ubQ4A/SkU0RYxTA5I/AAAAAAAAATE/24H9DpllN7A/S220/eu-steampunkserifa.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
