Quando chegou à minha caixa de correspondência o mais recente livro de Carlos Orsi não pude deixar de pensar nos catecismos pornográficos que Alcides Caminha assinava com o pseudônimo Carlos Zéfiro durante a década de 60 no Rio de Janeiro. O saudosismo foi despertado pela forma como foi produzida a novela O que o olho vê, pela Scarium, editora mantida pelo carioca Marco Bourguingnon. Responsável pela mais longeva publicação em papel dedicada à ficção fantástica no país – um zine com o mesmo nome da editora por onde já publicaram os melhores escritores de ficção científica, horror e fantasia brasileiros que já está indo para a edição de número 26, com chamada para submissão de contos de FC – a empresa mantém sua loja virtual desde 2002. Mesmo com esse pé na tecnologia, não perde o status artesanal de seus impressos, como os livros de sua coleção Scarium Fantástica, da qual a nova obra do jundiaiense que já foi assunto do Overmundo por três vezes – primeira, segunda e terceira – é o terceiro volume.
Editada em um formato de bolso, com 13 cm por 18,5 cm, 48 páginas, encadernação grampeada e a capa, monocromática roxa, colada por cima, a novela tem o charme das primeiras publicações do gênero, na época pioneira das pulp magazine. Só faltou o papel já vir amarelado para dar ainda mais o clima de folhetim, que já começa com a citação escolhida pelo autor, de Iam Fleming, no original, na língua de James Bond: “Nunca mande um homem quando puder mandar uma bala”. Uma citação muito adequada, já que a trama é também de espionagem e de intriga internacional. Mas se fosse apenas isso que fizesse parte da receita, O que o olho vê não seria uma representante da literatura fantástica. O que a insere nesta vertente é que a novela também é uma ótima história alternativa, subgênero dos mais respeitados da ficção científica.
A história alternativa, ou HA, é um meio furtivo de levar a ficção científica a quem tem reservas com o meio. Mesmo editoras que são declaradamente restritivas à FC já publicaram este gênero que faz especulações com a História e, portanto, é, sim, conceitualmente, ficção científica. Caso da Cia. das Letras que durante muito tempo informou em sua página na Internet que não aceitava receber originais deste ramo da literatura. Felizmente, tal decisão editorial não a impediu de publicar os excelentes livros Associação Judaica de Polícia – no qual o consagrado Michael Chabon especula um mundo em que Israel foi varrido do mapa e os EUA cedem o Alasca provisoriamente como lar para os judeus do mundo –, ou Complô contra a América – do ainda mais consagrado Philip Roth, que com falsas memórias de sua infância imagina um pró-nazista Charles Lindbergh chegando à presidência dos Estados Unidos nos beligerantes anos 40.
Editoras voltadas ao gênero também lançaram sua cota de HA, como a Aleph que republicou no Brasil a obra de outro Philp, o K. Dick, autor de um dos primeiros e mais famosos romances do gênero, O homem do Castelo Alto, no qual, sempre consultando o oráculo do I Ching, escreveu sobre um mundo no qual os países do Eixo venceram a II Guerra Mundial, o que levou alemães e japoneses a dividirem o território americano entre si. Mesmo assim, o maior astro do gênero, Harry Turtledove, ainda não é muito conhecido no Brasil, mas conta com tradução para nossa língua ao menos em Portugal, onde foi lançado recentemente, pela editora Saída de Emergência, O dilema de Shakespeare, livro robusto no qual o dramaturgo é convocado a escrever uma peça que sirva de inspiração à resistência dos ingleses que tiveram seu país dominado pela Espanha católica e inquisitorial do rei Filipe e sua Armada Invencível.
O Brasil não é apenas consumidor, mas também produz história alternativa. O maior incentivador e um dos pioneiros no gênero em nosso país é o carioca Gerson Lodi-Ribeiro. Apesar de o veterano J. J. Veiga ter escrito antes uma história em que Antonio Conselheiro sobrevivera ao cerco de Canudos, é uma noveleta de Lodi-Ribeiro a mais citada como precursora das HAs em nosso país. “A ética da traição”, publicada na Isac Asimov Magazine brasileira, falava de um Brasil que havia perdido a Guerra do Paraguai, mas, em compensação, se tornara um país mais desenvolvido. Este texto e outros de uma segunda linha de especulação do autor, na qual os holandeses não foram expulsos, mas se aliaram aos quilombolas e se mantiveram em Recife, foram compilados em forma de livro: Outros Brasis, da Mercuryo, em 2006. Antes disso, quando se comemoravam os 500 anos da descoberta do Brasil, ele já havia organizado uma coletânea inteira do gênero, chamada Phantastica Brasiliana, pela editora Ano-Luz, da qual participou Carlos Orsi, como coeditor e um dos autores.
Após o intervalo explicativo, vamos voltar a O que o olho vê. Esta novela de Carlos Orsi já estava escrita há tempos, foi concluída logo após sua participação em Phantastica Brasiliana, portanto, antes dos atentados de 11 de Setembro e muito antes desta pandemia de gripe suína que preocupa o mundo. Tudo isso torna ainda mais saborosa a sinopse com que o editor Marco Bourguingnon descreve o livro: “Um estudante brasileiro de Cosmologia vivendo nos Estados Unidos da América, ou melhor, nos Estados Cristãos da América, acaba se envolvendo em uma emaranhada trama de espionagem internacional. Ele parte para uma missão importante, recuperar os códigos do vírus da gripe suína escondido artificialmente dentro de um olho.”
Este é um bom resumo da trama, narrada em primeira pessoa pelo brasileiro que nunca tem seu verdadeiro nome revelado. O que torna o livro uma história alternativa é uma diferença básica entre aquela linha do tempo e a nossa, algo que no jargão do meio é chamado de ponto de divergência. No universo elaborado por Orsi, os Estados Unidos foram atingidos por uma epidemia de gripe tão forte em 1915 que o país se viu impedido de entrar no que seria a Primeira Guerra Mundial para auxiliar a Inglaterra. Sem essa participação, o Império Britânico caiu, o mundo islâmico de alguma forma se tornou o maior produtor de tecnologia e quanto aos EUA... Como escreveu Bourguingnon eles se tornaram uma república fundamentalista e substituíram o United por Christian, em apenas um exemplo das diferenças entre este mundo e o nosso. Parte da brincadeira é ver o novo significado de siglas como MIT ou da expressão que substitui a nossa conhecida Cortina de Ferro. Fora as apropriações bíblicas e do Alcorão para explicar termos científicos da cosmologia, como a explicação para a radiação de fundo ou o novo nome do Big Bem, os melhores achados do livro, verdadeiros exemplos de catecismos científicos propriamente ditos.
É curioso que o autor tenha se contido para evitar falar mais, detalhar, exemplificar mostrar mais exemplos dessas novas sociedades imaginadas por ele. Como ficou, O que o lho vê é uma ótima novela, evocando conceitos de inteligência artificial, nanotecnologia, fisiologia humana, física de partículas entre outros temas que o autor, jornalista especializado em divulgação científica, sabe lidar como ninguém no Brasil. Mas dá o que pensar no que poderia ser um romance sobre este mundo em que a guerra fria se mistura à guerra santa dando origem a um mundo ao mesmo tempo novo e tão reconhecível. Resta torcer para que Carlos Orsi volte ao tema e aprofunde os detalhes dos quais só nos deixou espiar a superfície. A impressão é de que é possível trazer muito mais à tona.
E nesses tempos de crise e de vários lançamentos imperdíveis para quem acompanha a FC nacional (dê uma olhada na lista compilada por Fernando Trevisan em seu blog) uma ótima notícia é o preço deste lançamento. Na loja virtual da Scarium, a novela pode ser adquirida de qualquer parte do país por apenas oito reais. Não se pense que pelo preço ou pela produção artesanal vai se estar levando um produto mal-acabado. Apesar de a proposta de capa não ter me agradado e muito pouco ter a ver com o conteúdo da obra – há algo vagamente citado bem ao final do livro – esta novela está muito bem produzida e com um índice de erros de revisão aceitável mesmo se comparado ao de editoras maiores. Além de alguma confusão com o uso de itálico para diferenciar a fala do narrador da de uma inteligência artificial presente na história, percebi apenas cinco deslizes. Na página 18, aparece “tranaformá-la” no lugar de “transformá-la”; na 26, “quer” no lugar de “que” e “quatro” no de “quarto”; na 33, “batias” no lugar de “batia”; e a repetição da palavra “dentro”, na 36. Ou seja, o catecismo científico da Scarium é tão bom e barato e satisfaz tanto quanto os do Carlos Zéfiro.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
sábado, 2 de maio de 2009
Sobrevivência nas selvas
Quando anunciei em meu blog a publicação de um novo romance de Carlos Orsi disse que aquela seria uma ótima e uma má notícia para quem lê ficção científica no Brasil. Eu estava especulando ainda, pois havia acabado de receber o email do autor avisando que ele utilizara o Scribd para divulgar o e-book Nômade – Uma narrativa da grande viagem. Mas era uma especulação com base sólida, pois esse jornalista paulista, de Jundiaí, é o escritor de ficção fantástica nacional do qual mais li textos com a particularidade de que gostei de todos. Já havia resenhado um livro dele e o entrevistado, aqui mesmo, para o Overmundo e publiquei três contos de sua autoria naquele meu já citado blog entre os 60 textos disponíveis lá de várias vertentes da literatura de gênero: ficção científica, fantasia, horror, policial, detetive, história alternativa, ficção alternativa, contos filosóficos. Era grande a probabilidade de eu gostar deste novo romance, portanto.
E eu não me enganei. Li o e-book de 106 páginas no mesmo dia, naquela véspera de feriado. Já sabia que era uma história focada num tema clássico da FC: a idéia de uma nave geracional, ou seja, uma espaçonave preparada para atravessar uma distância tão longa que o percurso consumiria o espaço de gerações de seus tripulantes. Segundo os pesquisadores do gênero, o primeiro a pensar no assunto não foi um ficcionista, mas o ensaísta russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1926. Nos mais de 80 anos que se passaram, muitos escritores aproveitaram o conceito, destaco Tau Zero do americano Poul Anderson, publicado na forma de livro em 1970, com a trágica história dos tripulantes de Leonora Christine. No caso do ebook nacional, a nave leva o mesmo nome da obra, Nômade, e a grande viagem leva pouco mais de 200 anos para percorrer a distância que vai levar sua tripulação da Terra a seu novo lar.
Uma outra diferença das duas obras, é que o livro americano é uma referência no estilo hard, o tipo de FC que segue mais minuciosamente ciência e tecnologia plausíveis, extrapolando dentro de limites mais, neste contexto, realistas. Apesar de Carlos Orsi ser reconhecidamente um dos três brasileiros de maior destaque neste mesmo estilo, para seu romance ele enfatizou uma outra abordagem, Nômade é uma legítima obra voltada para o público juvenil. E isso é ótimo, a FC às vezes sofre tanto com o estigma de ser uma literatura inferior que muitos autores tentam dar tamanha densidade a seus textos, evocar tal sorte de experimentalismos formais que o prazer da leitura, o arrebatamento do sense of wonder acaba sendo sacrificado. Para uma profunda discussão sobre a vocação juvenil do gênero, recomendo este blog feito a quatro mãos.
E o ebook nacional consegue o feito de sustentar o senso de maravilhamento sem deixar de lado a apuração técnica típica do autor, jornalista especializado em divulgação científica. Provando que escrever para adolescentes não é e nunca foi sinônimo de textos mal pesquisados e implausíveis, muito menos de tratados didáticos sem sabor, o jundiaiense encontrou um equilíbrio excelente para sua narrativa. Nem os detalhes relacionados a sobrevivência na selva, ambientes de gravidade zero ou sobre efeitos de ótica, nem o ritmo de aventura, ganchos narrativos entre os capítulos e a construção de personagens foram desprezados. O autor deu tanta atenção ao lado científico quanto ao juvenil de sua ficção e se saiu muito bem em ambos.
Apesar das poucas páginas, nós, leitores, passamos por uma impressionante variedade de ambientações neste breve romance. Tudo começa com uma selva aparentemente normal, onde se encontram os principais personagens do livro, um grupo de adolescentes com idade aproximada de 15 anos. Logo percebemos que aquele é um cenário artificial, construído no interior da tal nave com o objetivo de treinar a ala jovem da tripulação, em uma espécie de acampamento, para enfrentar qualquer eventualidade no novo planeta para onde são transportados. Não demora para uma série de incidentes, gradativamente mais perigosos, deixar claro que algo de errado acontece no mundo tecnológico que envolve aquele pequeno oásis artificial. O casal de protagonistas, Peleu e Helena, são escalados para tentar descobrir o que está havendo, o porquê de eles não conseguirem mais se comunicar com os adultos ou mesmo com Nestor, a inteligência artificial que comanda a nave Nômade.
A trama de Orsi segue esse caminho clássico, com os dois jovens enfrentando várias dificuldades; demonstrando que o conhecimento de um, completa o do outro; e o consequente amadurecimento que essa jornada provoca em ambos. Assim como a própria temática da nave geracional, o escritor trabalha com elementos bastante conhecidos ao longo das páginas, mas mesmo assim consegue tirar o melhor da história que está contando. Talvez ele pudesse ter elaborado um tanto mais o clímax do livro, que tem uma resolução simples e não tão satisfatória ou plausível quanto todo o restante do desenvolvimento da aventura, mesmo assim, é um belo livro. Faz pensar nas possibilidades que teria se chegasse a um grande público que começa a descobrir o gosto pela leitura e outras formas de adaptar seu roteiro para mídias como quadrinhos, jogos ou animações.
Então, dito tudo isso, se o livro é tão bom ou ainda melhor que o esperado, por que haveria um lado mau na notícia de sua publicação, ainda mais da forma que se deu, de graça, à disposição de todos os interessados? Parte da resposta está na pergunta. Mas a resposta inteira está no posfácio que o próprio autor escreveu “Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui”. No pósfácio-nota-desabafo, Carlos Orsi faz uma narrativa tão cheia de desventuras quanto a outra, a da parte fictícia do livro. Mesmo sem citar nomes das pessoas e empresas envolvidas (e eu opto aqui por não especular, até para evitar a fulanização de um debate que deve mesmo ser mais abrangente), ele demonstra que a sobrevivência na selva ou no espaço pode ser mais simples que no mercado editorial brasileiro. Reproduzo o texto abaixo, na íntegra, desejando que algum dia esta realidade pouco hospitaleira mude.
Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui
Nômade tem uma história engraçada: o livro nasceu de uma encomenda estilo “contrato de risco” de uma importante editora do ramo de livros juvenis. Basicamente, perguntaram-me se eu topava escrever um romance para jovens sem compromisso, submeter a eles e, se gostassem, o livro saía.
Resumindo: escrevi. Submeti. Gostaram mais ou menos. Reescrevi. Gostaram pra valer. Não saiu.
Por quê? Não faço a menor idéia. O que sei é que passei a maior parte da presente década esperando que alguém na tal editora batesse o martelo, me apresentasse um contrato, fizesse alguma coisa. Depois de tanto tempo, até uma rejeição, tipo, “desculpe, mas o funcionário que deu aprovação inicial a seu livro foi diagnosticado com esquizofrenia, jamais publicaríamos um lixo desses”, teria sido bem-vinda.
Mas, bolas, para quê tratar escritores com cortesia e consideração, não é mesmo? Eles se vendem por aí, como diz o provérbio americano, por dez centavos a dúzia.
Então, o que pretendo ao lançar Nômade como um livro eletrônico grátis? Eu poderia responder dizendo que faço isso para exorcizar o fetiche do papel, que este livro representa meu grito de liberdade em relação às velhas mídias ultrapassadas que dependem de tinta e árvores mortas para subsistir.
Mas estaria mentindo.
Meu objetivo secreto, com este livro, é fazer tanto sucesso, mas tanto sucesso, que seja lá quem for o gênio que bloqueou a publicação lá naquela editora termine seus dias em desonra, opróbio e ostracismo, passando frio e fome e vendendo DVDs piratas na Praça da Sé.
Como conseguir o objetivo secreto é um pouco difícil, reconheço, meu objetivo expresso é, simplesmente, completar o parto iniciado tantos anos atrás. Cada escritor tem seu jeito, suponho, mas eu sou um maníaco da publicação: saber que tenho um texto acabado na gaveta é algo que me dói quase tanto quanto ter uma batata quente nas mãos.
Nestes quase 18 anos como escritor profissional (recebi meu primeiro cheque por uma obra de ficção em 1992) uma coisa que aprendi é que sou um péssimo vendedor: não adianta eu bancar uma tiragem e pôr a banquinha na rua, o livro vai encalhar, independentemente de seus méritos. A incapacidade psicológica de pedir dinheiro aos outros é um dos fantasmas que assombram minha vida.
Então, por que não simplesmente soltar o livro no mundo? Prece ser a solução lógica.
Outra coisa que aprendi nestes 18 anos é que os textos têm um jeito de achar seus próprios caminhos. Dia desses, dando uma busca por meus próprios títulos no Google (narcisista! narcisista!) achei o blog de uma menina que cita minha primeira coletânea de contos, Medo, Mistério e Morte, como um de seus livros favoritos. Essa moça provavelmente nem tinha nascido quando os primeiros contos daquele livro foram escritos.
Então, aqui está Nômade. Talvez um dia ele venha a ser o livro favorito de alguém que não nasceu ainda.
Não é um castelo na França, uma vaga na Academia ou um fim de semana na Ilha de Caras, mas acho que dá para o gasto.
E eu não me enganei. Li o e-book de 106 páginas no mesmo dia, naquela véspera de feriado. Já sabia que era uma história focada num tema clássico da FC: a idéia de uma nave geracional, ou seja, uma espaçonave preparada para atravessar uma distância tão longa que o percurso consumiria o espaço de gerações de seus tripulantes. Segundo os pesquisadores do gênero, o primeiro a pensar no assunto não foi um ficcionista, mas o ensaísta russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1926. Nos mais de 80 anos que se passaram, muitos escritores aproveitaram o conceito, destaco Tau Zero do americano Poul Anderson, publicado na forma de livro em 1970, com a trágica história dos tripulantes de Leonora Christine. No caso do ebook nacional, a nave leva o mesmo nome da obra, Nômade, e a grande viagem leva pouco mais de 200 anos para percorrer a distância que vai levar sua tripulação da Terra a seu novo lar.
Uma outra diferença das duas obras, é que o livro americano é uma referência no estilo hard, o tipo de FC que segue mais minuciosamente ciência e tecnologia plausíveis, extrapolando dentro de limites mais, neste contexto, realistas. Apesar de Carlos Orsi ser reconhecidamente um dos três brasileiros de maior destaque neste mesmo estilo, para seu romance ele enfatizou uma outra abordagem, Nômade é uma legítima obra voltada para o público juvenil. E isso é ótimo, a FC às vezes sofre tanto com o estigma de ser uma literatura inferior que muitos autores tentam dar tamanha densidade a seus textos, evocar tal sorte de experimentalismos formais que o prazer da leitura, o arrebatamento do sense of wonder acaba sendo sacrificado. Para uma profunda discussão sobre a vocação juvenil do gênero, recomendo este blog feito a quatro mãos.
E o ebook nacional consegue o feito de sustentar o senso de maravilhamento sem deixar de lado a apuração técnica típica do autor, jornalista especializado em divulgação científica. Provando que escrever para adolescentes não é e nunca foi sinônimo de textos mal pesquisados e implausíveis, muito menos de tratados didáticos sem sabor, o jundiaiense encontrou um equilíbrio excelente para sua narrativa. Nem os detalhes relacionados a sobrevivência na selva, ambientes de gravidade zero ou sobre efeitos de ótica, nem o ritmo de aventura, ganchos narrativos entre os capítulos e a construção de personagens foram desprezados. O autor deu tanta atenção ao lado científico quanto ao juvenil de sua ficção e se saiu muito bem em ambos.
Apesar das poucas páginas, nós, leitores, passamos por uma impressionante variedade de ambientações neste breve romance. Tudo começa com uma selva aparentemente normal, onde se encontram os principais personagens do livro, um grupo de adolescentes com idade aproximada de 15 anos. Logo percebemos que aquele é um cenário artificial, construído no interior da tal nave com o objetivo de treinar a ala jovem da tripulação, em uma espécie de acampamento, para enfrentar qualquer eventualidade no novo planeta para onde são transportados. Não demora para uma série de incidentes, gradativamente mais perigosos, deixar claro que algo de errado acontece no mundo tecnológico que envolve aquele pequeno oásis artificial. O casal de protagonistas, Peleu e Helena, são escalados para tentar descobrir o que está havendo, o porquê de eles não conseguirem mais se comunicar com os adultos ou mesmo com Nestor, a inteligência artificial que comanda a nave Nômade.
A trama de Orsi segue esse caminho clássico, com os dois jovens enfrentando várias dificuldades; demonstrando que o conhecimento de um, completa o do outro; e o consequente amadurecimento que essa jornada provoca em ambos. Assim como a própria temática da nave geracional, o escritor trabalha com elementos bastante conhecidos ao longo das páginas, mas mesmo assim consegue tirar o melhor da história que está contando. Talvez ele pudesse ter elaborado um tanto mais o clímax do livro, que tem uma resolução simples e não tão satisfatória ou plausível quanto todo o restante do desenvolvimento da aventura, mesmo assim, é um belo livro. Faz pensar nas possibilidades que teria se chegasse a um grande público que começa a descobrir o gosto pela leitura e outras formas de adaptar seu roteiro para mídias como quadrinhos, jogos ou animações.
Então, dito tudo isso, se o livro é tão bom ou ainda melhor que o esperado, por que haveria um lado mau na notícia de sua publicação, ainda mais da forma que se deu, de graça, à disposição de todos os interessados? Parte da resposta está na pergunta. Mas a resposta inteira está no posfácio que o próprio autor escreveu “Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui”. No pósfácio-nota-desabafo, Carlos Orsi faz uma narrativa tão cheia de desventuras quanto a outra, a da parte fictícia do livro. Mesmo sem citar nomes das pessoas e empresas envolvidas (e eu opto aqui por não especular, até para evitar a fulanização de um debate que deve mesmo ser mais abrangente), ele demonstra que a sobrevivência na selva ou no espaço pode ser mais simples que no mercado editorial brasileiro. Reproduzo o texto abaixo, na íntegra, desejando que algum dia esta realidade pouco hospitaleira mude.
Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui
Nômade tem uma história engraçada: o livro nasceu de uma encomenda estilo “contrato de risco” de uma importante editora do ramo de livros juvenis. Basicamente, perguntaram-me se eu topava escrever um romance para jovens sem compromisso, submeter a eles e, se gostassem, o livro saía.
Resumindo: escrevi. Submeti. Gostaram mais ou menos. Reescrevi. Gostaram pra valer. Não saiu.
Por quê? Não faço a menor idéia. O que sei é que passei a maior parte da presente década esperando que alguém na tal editora batesse o martelo, me apresentasse um contrato, fizesse alguma coisa. Depois de tanto tempo, até uma rejeição, tipo, “desculpe, mas o funcionário que deu aprovação inicial a seu livro foi diagnosticado com esquizofrenia, jamais publicaríamos um lixo desses”, teria sido bem-vinda.
Mas, bolas, para quê tratar escritores com cortesia e consideração, não é mesmo? Eles se vendem por aí, como diz o provérbio americano, por dez centavos a dúzia.
Então, o que pretendo ao lançar Nômade como um livro eletrônico grátis? Eu poderia responder dizendo que faço isso para exorcizar o fetiche do papel, que este livro representa meu grito de liberdade em relação às velhas mídias ultrapassadas que dependem de tinta e árvores mortas para subsistir.
Mas estaria mentindo.
Meu objetivo secreto, com este livro, é fazer tanto sucesso, mas tanto sucesso, que seja lá quem for o gênio que bloqueou a publicação lá naquela editora termine seus dias em desonra, opróbio e ostracismo, passando frio e fome e vendendo DVDs piratas na Praça da Sé.
Como conseguir o objetivo secreto é um pouco difícil, reconheço, meu objetivo expresso é, simplesmente, completar o parto iniciado tantos anos atrás. Cada escritor tem seu jeito, suponho, mas eu sou um maníaco da publicação: saber que tenho um texto acabado na gaveta é algo que me dói quase tanto quanto ter uma batata quente nas mãos.
Nestes quase 18 anos como escritor profissional (recebi meu primeiro cheque por uma obra de ficção em 1992) uma coisa que aprendi é que sou um péssimo vendedor: não adianta eu bancar uma tiragem e pôr a banquinha na rua, o livro vai encalhar, independentemente de seus méritos. A incapacidade psicológica de pedir dinheiro aos outros é um dos fantasmas que assombram minha vida.
Então, por que não simplesmente soltar o livro no mundo? Prece ser a solução lógica.
Outra coisa que aprendi nestes 18 anos é que os textos têm um jeito de achar seus próprios caminhos. Dia desses, dando uma busca por meus próprios títulos no Google (narcisista! narcisista!) achei o blog de uma menina que cita minha primeira coletânea de contos, Medo, Mistério e Morte, como um de seus livros favoritos. Essa moça provavelmente nem tinha nascido quando os primeiros contos daquele livro foram escritos.
Então, aqui está Nômade. Talvez um dia ele venha a ser o livro favorito de alguém que não nasceu ainda.
Não é um castelo na França, uma vaga na Academia ou um fim de semana na Ilha de Caras, mas acho que dá para o gasto.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Criação coletiva
Com o romance escrito por ele, um projeto multimídia deu oficialmente a largada em uma invasão que ocorrerá na vida de quem consome games, quadrinhos e livros com temáticas ligadas à ficção científica. Taikodom: Despertar é o segundo livro deste game designer carioca, com formação de historiador, e deve apresentar a leitores brasileiros e portugueses uma inciativa nacional que já consumiu investimentos da ordem de R$ 15 milhões. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a responsabilidade que teve em mãos, no processo de criação verdadeiramente coletiva que game e romance compartilharam e sobre o que o futuro reserva ao Taikodom, ou Domínio do Espaço, o primeiro Massive Social Game do mundo. Com vocês, o especialista em space opera deste quadrante do espaço, João Marcelo Beraldo.
Antes do lançamento de Taikodom: Despertar e de ser contratado como game designer pela empresa responsável pelo projeto, a Hoplon, você já tinha experiência tanto literária quanto com jogos, certo? Poderia falar um pouco sobre seus livros, impresso e on-line, anteriores e sobre outros games com que trabalhou?
Bom, meu primeiro livro impresso foi Véu da verdade, uma ficção Space Opera em um universo próprio. A proposta dele era criar um universo ficcional com estilo próprio, com um jeitinho brasileiro, e com espaço o suficiente para vários tipos de história não necessariamente interligadas. O Véu foi a primeira, mas longe de ser a única. Quando o livro foi publicado no final de 2005, já tinha terminado de escrever a primeira versão de Jogos de Guerra, que se passa na mesma época, mas com personagens diferentes. Em seguida tive vários contos publicados online e um na revista Scarium. De lá para cá também lancei dois ebooks sobre algumas das raças alienígenas desse UF para o mercado de RPG internacional e um RPG com sistema próprio para o mercado nacional.
Antes do Taikodom, fui um dos fundadores de um grupo chamado SomniumStudio, que pretendia lançar jogos de computador no Brasil. Chegamos a ser convidados a palestrar sobre o assunto em algumas universidades do Rio de Janeiro. Nessa época chegamos a trabalhar em alguns projetos como a Nave-Escola do Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, quando desenvolvemos um simulador espacial com física realista, além de projetos em multimídia. Nessa mesma época estávamos trabalhando no desenvolvimento de um space sim chamado Border Wars, com um Universo Ficcional desenvolvido por mim.
Mas, talvez a origem dessa relação escrita+jogos tenha sido um período de quatro anos em que desenvolvi e mestrei através da internet um RPG de sistema próprio baseado na série de jogos Wing Commander. Chegamos a ter 30 jogadores de todo o mundo. Foi apenas a falta de tempo que nos privou de continuar esse projeto. Sei que aprendi muito dessa época o que aplico hoje no desenvolvimento de Taikodom.
Sobre o processo de criação deste romance, qual a diferença entre trabalhar com um universo criado por outra pessoa e a liberdade de criar seu próprio mundo como fez em Véu da verdade? É comparável com o que você já havia feito em termos de fanfics, por exemplo, ou é uma experiência diferente?
Nunca é igual. Mesmo de um UF compartilhado para outro, de um fanfic para outro, existe muita diferença. Alguns UFs são extremamente detalhados, deixando pouco espaço para desenvolvimento, enquanto outros são propositalmente abertos.
O Véu da verdade foi um exercício e um desafio que resolvi impor a mim. No Reveillon de 2004, enquanto discutia com o pessoal da SomniumStudio sobre algumas questões do UF do Border Wars (que, mal ou bem tinha limitações técnicas e de foco, assim como o Taikodom), resolvi jogar todas as idéias mais loucas que tivesse na gênese de um novo UF. Algo totalmente sem barreiras, puxando crítica social, comédia no estilo Mochileiro das galáxias e um pacotão de ação e intriga. Um ano depois, publicava o primeiro romance da série. Foi muito divertido e extremamente gratificante. Afinal, foi meu portfólio para entrar na Hoplon.
No caso do Taikodom, por ser um universo em desenvolvimento (especialmente em 2006, quando me tornei parte do projeto), apesar de existirem certos elementos já definidos, havia muito a se criar. Parte do meu trabalho ao ser contratado pela Hoplon foi encontrar buracos e preenchê-los com detalhes que dessem pano pra manga. Foi parte do motivo pelo qual acabei trabalhando bastante no período em que o jogo se passa hoje, um período o qual ainda não havia sido trabalhado pelo Gerson [Lodi-Ribeiro] e o Roctávio [de Castro]. Enquanto no início você tem que se acostumar com certas nuances do UF, logo certas coisas se tornam naturais. Essa é a vantagem de um UF desenvolvido meticulosamente por um grupo de pessoas dedicadas ao projeto. A cada encontro (virtual ou físico), surge pelo menos uma nova idéia de como explorar esse universo.
Qual foi a responsabilidade de abrir as portas deste universo ficcional antes mesmo do criador dele, já que seu romance foi lançado primeiramente que a coletânea de contos de Gerson Lodi-Ribeiro, que assina a introdução de seu livro, aliás?
Bom, na verdade o Taikodom foi criado pelo Tarqüínio Teles e Cristóvão Buzarello, dois dos sócios da Hoplon. O Gerson é sim o principal autor e certamente sem ele não haveria muito do que se desenvolveu desde o início do projeto. Mas o que temos que lembrar é que, nesse momento inicial, o Taikodom é principalmente um jogo online. Foi por esse motivo que acabei sendo incumbido pelo Tarqüínio dessa responsabilidade. E que resposabilidade! Deu um frio na barriga quando ele disse, brincado sério, que eu deveria escrever o Hobbit [referência ao livro que antecede as obras mais conhecidas da saga de O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien] da nossa Trilogia (que está nas mãos do Gerson). A decisão foi bem pensada pela diretoria da Hoplon. Despertar tem uma visão mais pessoal do UF, diretamente relacionada ao jogo o qual o romance apresenta. O passo seguinte é dar mais detalhes sobre esse UF, com as Crônicas do Taikodom, de autoria do Gerson, e as demais obras em seqüência. O frio na barriga do lançamento veio e veio forte. Agora é o momento da alegria de ouvir e ler os comentários sobre quem se interessou e leu.
No caso deste livro, não só era um universo que já existia previamente, mas também um trabalho que envolve a parceria com outros criadores. Como foi sua interação com Gerson Lodi-Ribeiro, Roctávio de Castro e outros membros da equipe de criação? Há uma cooperação entre vocês nas diversas mídias que o projeto envolve?
Tem que ter uma cooperação. Sem ela, seria impossível desenvolver um Universo Compartilhado. Durante muito tempo, em especial do início dessa parceria, em que muito sobre o UF do Taikodom estava sendo discutido, que tínhamos reuniões via skype duas vezes por mês e trocas de emails praticamente diárias. Todo ano temos pelo menos um fim de semana prolongado de discussões sobre os detalhes mais importantes. Com o tempo, todos nos tornamos mais seguros do que criamos juntos e do entendimento dos demais. Discutimos idéias e trechos de novas obras, comentamos em cima, jogamos mais idéias e às vezes acabamos com mais idéias para novas histórias. Hoje temos personagens criados por um andando nas histórias dos outros. Isso se tornou uma diversão, ver como nossas criações aparecem pelas palavras de outro autor. Foi o que permitiu que personagens como Júlia Honoré, criada pelo Roctávio, e Antoniadis, criado pelo Gerson, ganhassem papéis importantes no jogo e no Despertar. E esse é só o início.
E o envolvimento de outros membros da equipe? Ao todo são quantas pessoas envolvidas direta e indiretamente com todo o projeto Taikodom?
Muitas! Hoje acredito que já passe dos 70 colaboradores diretos, além de tercerizados e equipes de outros projetos da Hoplon. Existe um envolvimento geral, mesmo que nem sempre oficial. Quase todo o dia alguém aparece na baia do departamento de Conteúdo do Taikodom com algumas idéias para o jogo. Pode ser um personagem, uma história, um elemento de jogo... ou às vezes só perguntar os porquês. A verdade é que, na prática, o UF do Taikodom é criado a cada dia por toda a equipe e, claro, também pelos jogadores. Dentro do próprio departamento de Conteúdo temos um envolvimento bem grande com a criação desse UF. Por exemplo, o Paulo de Tarso é meio que nosso escritor invisível. Ele tem um estilo de escrita que garantiu que eu separasse alguns personagens do jogo para serem exclusivos dele. Tanto que ele foi um dos hoplitas imortalizados no UF ganhando um personagem próprio. No caso dele, o repórter intrometido Wayne Mesquita Jr, criado pelo próprio PDT.
Há pelo menos uma citação explícita a uma outra obra do gênero space opera no livro, quando um dos protagonistas menciona os cavaleiros jedi. Os filmes da série Star wars são uma de suas influências em termos de ficção científica? Que outras poderia apontar entre literatura, cinema, seriados de TV, quadrinhos e vídeo games?
Sempre fui fascinado por combates espaciais, com caças disparando mísseis e fazendo piruetas enquanto explosões gigantescas tomam o espaço. Foi isso que me tornou fã de Guerras nas estrelas. Tanto que tenho a coleção completa de quadrinhos e romances da série X-Wing, mas tenho pouco sobre cavaleiros jedi e afins.
Acho que influências são tantas. Em especial nos jogos. Fui começar a ler romances relativamente tarde. O que me prendeu à ficção científicia foi, em primeiro lugar, os jogos de computador como a série Wing Commander e jogos da série do Guerras nas estrelas, como X-Wing e Tie Fighter, e de estratégia como Masters of Orion 2. Tanto que o primeiro romance de ficção científica que lembro ter comprado foi End Run, um dos primeiros romances da série Wing Commander.
De lá para cá, foram muitos livros. Sou fã descarado da série clássica do Battletech, desde o jogo de tabuleiro ao RPG e à coleção de pra mais de 50 romances que tenho aqui em casa. E sei que muito do meu estilo de narrativa, de combate, ação e intriga, vêm de livros dessas séries.
Na TV e no cinema menciono do que vêm à mente Cowboy Bebop, Babylon 5, Firefly, Earth above and beyond, Último guerreiro das estrelas, Quinto elemento e Eclipse mortal. Acho que até na minha infância eu pesco influências de desenhos como Transformers, Galaxy Rangers, Macross, Mask, Silverhawks e sabe-se lá mais o quê.
Taikodom: Despertar vai ser a única aparição de Jorge Santiago e de Augusto Carrera ou você e seus parceiros da Hoplon têm outros planos para a dupla e para outros personagens seus que aparecem nesta primeira trama?
Despertar é apenas o começo. Já tenho outra história esquematizada e com algumas cenas escritas que serve como uma continuação, mas ainda não tenho previsão para escrevê-la. Mas ambos poderão dar as caras em outras obras, inclusive no novo romance que comecei a trabalhar agora ou mesmo no jogo. A trilogia que o Gerson está escrevendo também inclui personagens meus e do Roctávio. Quais? Vocês vão ter que esperar mais um pouquinho para saber!
Quanto ao game, ele acaba de ser apresentado ao grande público, após mais de quatro anos de desenvolvimento. Quais são as expectativas da equipe para as próximas fases deste empreendimento que, muito provavelmente, é o maior e mais ousado da história da ficção científica brasileira?
O projeto é dividido em várias partes. E cada parte lançada é uma nova conquista para nós. Nossas expectativas são de sucesso, claro! Desde o início a Hoplon teve em mente o mundo, e será nossa grande conquista para o ano de 2009. O Taikodom tem tido uma repercussão incrível entre os entendidos da indústria no exterior. Mais do que esperávamos para nosso modesto lançamento nacional do módulo de ação. O sucesso nacional e os sinais de sucesso internacional têm nos dado um grande apoio e fôlego para a longa jornada que ainda está pela frente. Acreditamos que será uma excelente forma de colocar o Brasil em evidência lá fora no mercado dos jogos e, claro, também no mercado literário. Além do mais, os planos para o exterior não se limitam apenas ao jogo.
Taikodom é descrito como o primeiro Massive Social Game do mundo. Você poderia descrever quais são os diferenciais dele para outros games on line existentes e o porquê desse "Social" na sua denominação?
Mundos virtuais hoje, sejam jogos ou ‘vidas secundárias’, são fechados em estilos bem específicos. Mesmo no que se trata de mundos caixas de areia (aqueles em que você está livre para fazer o que quiser), existe uma limitação no que realmente é possível ser feito. Isso geralmente é relacionado ao gênero do jogo. No MSG, o que temos é mais do que um simples jogo ou ambiente virtual. É tudo isso e mais um pouco. O Taikodom alcançará um estágio em que jogadores de space sim, jogos de estratégia, jogos corporativos e os casuais que gostam apenas de interagir em um mundo virtual poderão encontrar-se em um ambiente compartilhado em que as ações de um podem afetar a vida de outros. Então você pode ter uma pessoa que entra no Taikodom apenas para administrar um bar virtual. Nesse bar, um grupo de jogadores do jogo de ação discutem um combate que foi planejado por um jogador do jogo estratégico, porque outro jogador, presidente de uma corporação virtual, promoveu um embargo econômico que, por sua vez, pode ter afetado o fornecimento de cerveja para o dono do bar. Quem sabe não foi esse dono de bar que contratou o esquadrão de mercenários para garantir que o fornecimento voltasse ao normal?
E quanto a outros projetos seus, dentro e fora do Domínio do Espaço? Há alguma novidade que você possa antecipar?
Comecei a trabalhar em um novo romance para o Taikodom. A história tem início mais ou menos no meio do Despertar e terá algumas relações com os eventos do primeiro livro, mas trata-se de outros personagens e outro conflito. Esperem encontrar algumas caras conhecidas tanto do Despertar quanto do jogo.
Fora do Taikodom, tenho trabalhado um pouco no UF do Véu da verdade, escrevendo alguns contos e voltando a investir numa publicação do Jogos de Guerra. Mas tenho me focado mais em duas novelas para o Universo Compartilhado de space opera da Fábrica dos Sonhos, um grupo online de escritores. Fiquei meio desligado do projeto uns meses, mas voltei para terminar a primeira novela durante as férias de fim de ano.
Fugindo um pouco da ficção científica, venho trabalhando há uns dois anos em um mundo de fantasia que é tão grande que dá espaço para tudo quanto é tipo de história, da fantasia infantil de fadas e gnomos ao dark estilo The Black Company, a fantasia rpgística até um New Weird alá Méville [autor do já clássico Perdido Street Station]. Tudo interligado, claro, para evitar o efeito colcha de retalhos. Tenho várias histórias estruturadas e algumas cenas escritas, mas agora estou focado no infanto-juvenil para variar um pouco. De resto, só o futuro sabe!
Antes do lançamento de Taikodom: Despertar e de ser contratado como game designer pela empresa responsável pelo projeto, a Hoplon, você já tinha experiência tanto literária quanto com jogos, certo? Poderia falar um pouco sobre seus livros, impresso e on-line, anteriores e sobre outros games com que trabalhou?
Bom, meu primeiro livro impresso foi Véu da verdade, uma ficção Space Opera em um universo próprio. A proposta dele era criar um universo ficcional com estilo próprio, com um jeitinho brasileiro, e com espaço o suficiente para vários tipos de história não necessariamente interligadas. O Véu foi a primeira, mas longe de ser a única. Quando o livro foi publicado no final de 2005, já tinha terminado de escrever a primeira versão de Jogos de Guerra, que se passa na mesma época, mas com personagens diferentes. Em seguida tive vários contos publicados online e um na revista Scarium. De lá para cá também lancei dois ebooks sobre algumas das raças alienígenas desse UF para o mercado de RPG internacional e um RPG com sistema próprio para o mercado nacional.
Antes do Taikodom, fui um dos fundadores de um grupo chamado SomniumStudio, que pretendia lançar jogos de computador no Brasil. Chegamos a ser convidados a palestrar sobre o assunto em algumas universidades do Rio de Janeiro. Nessa época chegamos a trabalhar em alguns projetos como a Nave-Escola do Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, quando desenvolvemos um simulador espacial com física realista, além de projetos em multimídia. Nessa mesma época estávamos trabalhando no desenvolvimento de um space sim chamado Border Wars, com um Universo Ficcional desenvolvido por mim.
Mas, talvez a origem dessa relação escrita+jogos tenha sido um período de quatro anos em que desenvolvi e mestrei através da internet um RPG de sistema próprio baseado na série de jogos Wing Commander. Chegamos a ter 30 jogadores de todo o mundo. Foi apenas a falta de tempo que nos privou de continuar esse projeto. Sei que aprendi muito dessa época o que aplico hoje no desenvolvimento de Taikodom.
Sobre o processo de criação deste romance, qual a diferença entre trabalhar com um universo criado por outra pessoa e a liberdade de criar seu próprio mundo como fez em Véu da verdade? É comparável com o que você já havia feito em termos de fanfics, por exemplo, ou é uma experiência diferente?
Nunca é igual. Mesmo de um UF compartilhado para outro, de um fanfic para outro, existe muita diferença. Alguns UFs são extremamente detalhados, deixando pouco espaço para desenvolvimento, enquanto outros são propositalmente abertos.
O Véu da verdade foi um exercício e um desafio que resolvi impor a mim. No Reveillon de 2004, enquanto discutia com o pessoal da SomniumStudio sobre algumas questões do UF do Border Wars (que, mal ou bem tinha limitações técnicas e de foco, assim como o Taikodom), resolvi jogar todas as idéias mais loucas que tivesse na gênese de um novo UF. Algo totalmente sem barreiras, puxando crítica social, comédia no estilo Mochileiro das galáxias e um pacotão de ação e intriga. Um ano depois, publicava o primeiro romance da série. Foi muito divertido e extremamente gratificante. Afinal, foi meu portfólio para entrar na Hoplon.
No caso do Taikodom, por ser um universo em desenvolvimento (especialmente em 2006, quando me tornei parte do projeto), apesar de existirem certos elementos já definidos, havia muito a se criar. Parte do meu trabalho ao ser contratado pela Hoplon foi encontrar buracos e preenchê-los com detalhes que dessem pano pra manga. Foi parte do motivo pelo qual acabei trabalhando bastante no período em que o jogo se passa hoje, um período o qual ainda não havia sido trabalhado pelo Gerson [Lodi-Ribeiro] e o Roctávio [de Castro]. Enquanto no início você tem que se acostumar com certas nuances do UF, logo certas coisas se tornam naturais. Essa é a vantagem de um UF desenvolvido meticulosamente por um grupo de pessoas dedicadas ao projeto. A cada encontro (virtual ou físico), surge pelo menos uma nova idéia de como explorar esse universo.
Qual foi a responsabilidade de abrir as portas deste universo ficcional antes mesmo do criador dele, já que seu romance foi lançado primeiramente que a coletânea de contos de Gerson Lodi-Ribeiro, que assina a introdução de seu livro, aliás?
Bom, na verdade o Taikodom foi criado pelo Tarqüínio Teles e Cristóvão Buzarello, dois dos sócios da Hoplon. O Gerson é sim o principal autor e certamente sem ele não haveria muito do que se desenvolveu desde o início do projeto. Mas o que temos que lembrar é que, nesse momento inicial, o Taikodom é principalmente um jogo online. Foi por esse motivo que acabei sendo incumbido pelo Tarqüínio dessa responsabilidade. E que resposabilidade! Deu um frio na barriga quando ele disse, brincado sério, que eu deveria escrever o Hobbit [referência ao livro que antecede as obras mais conhecidas da saga de O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien] da nossa Trilogia (que está nas mãos do Gerson). A decisão foi bem pensada pela diretoria da Hoplon. Despertar tem uma visão mais pessoal do UF, diretamente relacionada ao jogo o qual o romance apresenta. O passo seguinte é dar mais detalhes sobre esse UF, com as Crônicas do Taikodom, de autoria do Gerson, e as demais obras em seqüência. O frio na barriga do lançamento veio e veio forte. Agora é o momento da alegria de ouvir e ler os comentários sobre quem se interessou e leu.
No caso deste livro, não só era um universo que já existia previamente, mas também um trabalho que envolve a parceria com outros criadores. Como foi sua interação com Gerson Lodi-Ribeiro, Roctávio de Castro e outros membros da equipe de criação? Há uma cooperação entre vocês nas diversas mídias que o projeto envolve?
Tem que ter uma cooperação. Sem ela, seria impossível desenvolver um Universo Compartilhado. Durante muito tempo, em especial do início dessa parceria, em que muito sobre o UF do Taikodom estava sendo discutido, que tínhamos reuniões via skype duas vezes por mês e trocas de emails praticamente diárias. Todo ano temos pelo menos um fim de semana prolongado de discussões sobre os detalhes mais importantes. Com o tempo, todos nos tornamos mais seguros do que criamos juntos e do entendimento dos demais. Discutimos idéias e trechos de novas obras, comentamos em cima, jogamos mais idéias e às vezes acabamos com mais idéias para novas histórias. Hoje temos personagens criados por um andando nas histórias dos outros. Isso se tornou uma diversão, ver como nossas criações aparecem pelas palavras de outro autor. Foi o que permitiu que personagens como Júlia Honoré, criada pelo Roctávio, e Antoniadis, criado pelo Gerson, ganhassem papéis importantes no jogo e no Despertar. E esse é só o início.
E o envolvimento de outros membros da equipe? Ao todo são quantas pessoas envolvidas direta e indiretamente com todo o projeto Taikodom?
Muitas! Hoje acredito que já passe dos 70 colaboradores diretos, além de tercerizados e equipes de outros projetos da Hoplon. Existe um envolvimento geral, mesmo que nem sempre oficial. Quase todo o dia alguém aparece na baia do departamento de Conteúdo do Taikodom com algumas idéias para o jogo. Pode ser um personagem, uma história, um elemento de jogo... ou às vezes só perguntar os porquês. A verdade é que, na prática, o UF do Taikodom é criado a cada dia por toda a equipe e, claro, também pelos jogadores. Dentro do próprio departamento de Conteúdo temos um envolvimento bem grande com a criação desse UF. Por exemplo, o Paulo de Tarso é meio que nosso escritor invisível. Ele tem um estilo de escrita que garantiu que eu separasse alguns personagens do jogo para serem exclusivos dele. Tanto que ele foi um dos hoplitas imortalizados no UF ganhando um personagem próprio. No caso dele, o repórter intrometido Wayne Mesquita Jr, criado pelo próprio PDT.
Há pelo menos uma citação explícita a uma outra obra do gênero space opera no livro, quando um dos protagonistas menciona os cavaleiros jedi. Os filmes da série Star wars são uma de suas influências em termos de ficção científica? Que outras poderia apontar entre literatura, cinema, seriados de TV, quadrinhos e vídeo games?
Sempre fui fascinado por combates espaciais, com caças disparando mísseis e fazendo piruetas enquanto explosões gigantescas tomam o espaço. Foi isso que me tornou fã de Guerras nas estrelas. Tanto que tenho a coleção completa de quadrinhos e romances da série X-Wing, mas tenho pouco sobre cavaleiros jedi e afins.
Acho que influências são tantas. Em especial nos jogos. Fui começar a ler romances relativamente tarde. O que me prendeu à ficção científicia foi, em primeiro lugar, os jogos de computador como a série Wing Commander e jogos da série do Guerras nas estrelas, como X-Wing e Tie Fighter, e de estratégia como Masters of Orion 2. Tanto que o primeiro romance de ficção científica que lembro ter comprado foi End Run, um dos primeiros romances da série Wing Commander.
De lá para cá, foram muitos livros. Sou fã descarado da série clássica do Battletech, desde o jogo de tabuleiro ao RPG e à coleção de pra mais de 50 romances que tenho aqui em casa. E sei que muito do meu estilo de narrativa, de combate, ação e intriga, vêm de livros dessas séries.
Na TV e no cinema menciono do que vêm à mente Cowboy Bebop, Babylon 5, Firefly, Earth above and beyond, Último guerreiro das estrelas, Quinto elemento e Eclipse mortal. Acho que até na minha infância eu pesco influências de desenhos como Transformers, Galaxy Rangers, Macross, Mask, Silverhawks e sabe-se lá mais o quê.
Taikodom: Despertar vai ser a única aparição de Jorge Santiago e de Augusto Carrera ou você e seus parceiros da Hoplon têm outros planos para a dupla e para outros personagens seus que aparecem nesta primeira trama?
Despertar é apenas o começo. Já tenho outra história esquematizada e com algumas cenas escritas que serve como uma continuação, mas ainda não tenho previsão para escrevê-la. Mas ambos poderão dar as caras em outras obras, inclusive no novo romance que comecei a trabalhar agora ou mesmo no jogo. A trilogia que o Gerson está escrevendo também inclui personagens meus e do Roctávio. Quais? Vocês vão ter que esperar mais um pouquinho para saber!
Quanto ao game, ele acaba de ser apresentado ao grande público, após mais de quatro anos de desenvolvimento. Quais são as expectativas da equipe para as próximas fases deste empreendimento que, muito provavelmente, é o maior e mais ousado da história da ficção científica brasileira?
O projeto é dividido em várias partes. E cada parte lançada é uma nova conquista para nós. Nossas expectativas são de sucesso, claro! Desde o início a Hoplon teve em mente o mundo, e será nossa grande conquista para o ano de 2009. O Taikodom tem tido uma repercussão incrível entre os entendidos da indústria no exterior. Mais do que esperávamos para nosso modesto lançamento nacional do módulo de ação. O sucesso nacional e os sinais de sucesso internacional têm nos dado um grande apoio e fôlego para a longa jornada que ainda está pela frente. Acreditamos que será uma excelente forma de colocar o Brasil em evidência lá fora no mercado dos jogos e, claro, também no mercado literário. Além do mais, os planos para o exterior não se limitam apenas ao jogo.
Taikodom é descrito como o primeiro Massive Social Game do mundo. Você poderia descrever quais são os diferenciais dele para outros games on line existentes e o porquê desse "Social" na sua denominação?
Mundos virtuais hoje, sejam jogos ou ‘vidas secundárias’, são fechados em estilos bem específicos. Mesmo no que se trata de mundos caixas de areia (aqueles em que você está livre para fazer o que quiser), existe uma limitação no que realmente é possível ser feito. Isso geralmente é relacionado ao gênero do jogo. No MSG, o que temos é mais do que um simples jogo ou ambiente virtual. É tudo isso e mais um pouco. O Taikodom alcançará um estágio em que jogadores de space sim, jogos de estratégia, jogos corporativos e os casuais que gostam apenas de interagir em um mundo virtual poderão encontrar-se em um ambiente compartilhado em que as ações de um podem afetar a vida de outros. Então você pode ter uma pessoa que entra no Taikodom apenas para administrar um bar virtual. Nesse bar, um grupo de jogadores do jogo de ação discutem um combate que foi planejado por um jogador do jogo estratégico, porque outro jogador, presidente de uma corporação virtual, promoveu um embargo econômico que, por sua vez, pode ter afetado o fornecimento de cerveja para o dono do bar. Quem sabe não foi esse dono de bar que contratou o esquadrão de mercenários para garantir que o fornecimento voltasse ao normal?
E quanto a outros projetos seus, dentro e fora do Domínio do Espaço? Há alguma novidade que você possa antecipar?
Comecei a trabalhar em um novo romance para o Taikodom. A história tem início mais ou menos no meio do Despertar e terá algumas relações com os eventos do primeiro livro, mas trata-se de outros personagens e outro conflito. Esperem encontrar algumas caras conhecidas tanto do Despertar quanto do jogo.
Fora do Taikodom, tenho trabalhado um pouco no UF do Véu da verdade, escrevendo alguns contos e voltando a investir numa publicação do Jogos de Guerra. Mas tenho me focado mais em duas novelas para o Universo Compartilhado de space opera da Fábrica dos Sonhos, um grupo online de escritores. Fiquei meio desligado do projeto uns meses, mas voltei para terminar a primeira novela durante as férias de fim de ano.
Fugindo um pouco da ficção científica, venho trabalhando há uns dois anos em um mundo de fantasia que é tão grande que dá espaço para tudo quanto é tipo de história, da fantasia infantil de fadas e gnomos ao dark estilo The Black Company, a fantasia rpgística até um New Weird alá Méville [autor do já clássico Perdido Street Station]. Tudo interligado, claro, para evitar o efeito colcha de retalhos. Tenho várias histórias estruturadas e algumas cenas escritas, mas agora estou focado no infanto-juvenil para variar um pouco. De resto, só o futuro sabe!
sábado, 13 de dezembro de 2008
A prática dos jogos
No dia 15 de outubro de 2003 uma nova palavra entrou de vez para o vocabulário e para o imaginário dos que se interessam por temáticas espaciais. Naquela data, ao orbitar a Terra a bordo da nave Shenzhou 5 Yang Liwei, um chinês de 38 anos, se tornou o primeiro taikonauta da história, o nome que as autoridades de seu país escolheram para o mesmo profissional que, em tempos de guerra fria, foi chamado de astronauta pelos americanos e de cosmonauta pelos russos. O prefixo utilizado para diferenciar a conquista chinesa daquela feita pelos rivais históricos décadas atrás – derivado de “taikong”, espaço em mandarim – serviu de inspiração para batizar a mais ousada e ambiciosa iniciativa multimídia ligada à ficção científica no Brasil. Seu lançamento oficial ocorreu exatamente meia década depois da longa marcha espacial de Yang Liwei: foi em 27 de outubro deste ano que a empresa catarinense Hoplon Infotainment apresentou ao público o game on-line Taikodom, um produto que passou justamente os últimos quatro anos e meio em desenvolvimento, consumiu investimentos na ordem de R$ 15 milhões e será o mote de vários outros meios nos quais se contarão histórias sobre o Domínio do Espaço. O primeiro deles foi lançado em outubro em São Paulo, juntamente com o game, e também no início de dezembro, em Florianópolis, e é o motivo desta resenha, o romance Taikodom: Despertar, editado pela Devir e escrito por João Marcelo Beraldo.
O autor é um game designer carioca, com formação em história e desenho industrial, que já havia publicado um outro livro com abordagem futurística e espacial – Véu da verdade – e foi contratado pela Hoplon para cuidar do enredo do jogo, dos personagens, das missões e de todo material escrito. Para tanto, Beraldo segue as regras criadas pelo seu conterrâneo Gerson Lodi-Ribeiro, o responsável pelo contexto histórico do universo Taikodom, aquilo que no jargão dos games e séries do cinema e da TV é chamado de Bíblia. Neste mundo ficcional, a iniciativa privada começa levar seus projetos para o espaço a partir do ano de 2013, pouco mais de meio século depois, algumas colônias em torno da Lua e do Cinturão de Asteróides conseguem a autonomia em relação à Terra.
O evento mais traumático, e que muda por completo o rumo dos acontecimentos, ocorre em 2073. É quando um campo de origem desconhecida cerca o planeta, impedindo o retorno de qualquer um ao local, mas não a fuga em massa que acabaria por evacuar um planeta que em poucos anos se tornou quase inabitável. O surgimento desse campo demarcou uma nova era, os fatos passaram a ser considerados Antes da Restrição ou sendo da Era da Restrição. Os acontecimentos narrados neste primeiro livro se dão no ano 153 ER, ou seja, em 2226, pelo nosso calendário, quando duas das pessoas que tiveram que fugir às pressas daquele mundo condenado são despertadas, após passarem um século e meio em animação suspensa, e tentam se adaptar à vida em um tempo pouco amistoso a elas.
Jorge Santiago e Augusto Carrera são os protagonistas da história, brasileiros que eram respectivamente piloto e co-piloto na Terra nos tempos pré-Restrição. Os dois colegas voltam à vida porque foram selecionados, entre os incontáveis terrestres hibernantes, pelo conglomerado privado que dita as regras naquele universo. Na ausência de governos ou mesmo de estados, é o Consortium quem provê a segurança e o bem-estar dos habitantes do chamado Taikodom, porém a iniciativa é alvo de ataques de diversos grupos: sejam eles piratas, mercenários ou mesmo fanáticos religiosos. Por isso, de tempos em tempos, de acordo com a demanda do momento, alguns daqueles fugitivos do campo de restrição recebem a chance de voltar à vida, passar por um período de adaptação em estações que levam nomes como Jules Verne e tentar a sorte, por exemplo, como piloto em alguma das forças de segurança existentes. O problema está nessa adaptação.
Vindos com a mentalidade do século XXI, os ressurectos, como são chamados, formam a classe mais baixa em um mundo dominado por três castas de humanos mais bem adaptadas ao século XXIII. Os mais presentes no livro são os spacers, aqueles que vivem em estações espaciais; os mais misteriosos são os worms, habitantes dos subterrâneos de satélites como a Lua; há ainda os belters, presentes em asteróides. Neste contexto, Santiago e Carrera podem ser vistos como fornecedores de mão-de-obra barata em uma distopia com cara de utopia.
Mesmo entre esse grupo com tão poucas perspectivas, há variáveis nos caminhos a se seguir. E aquela dupla representa bem isso. Ironicamente, é Carrera, o antigo co-piloto, quem se adapta melhor ao novo mundo, passa a subir posições e ganhar a confiança dos seus superiores na esquadrilha em que passa a servir. Dono de um temperamento genioso, muito apegado à antiga existência na Terra e resistente às novas tecnologias, Santiago se mostra um ressurecto bem mais difícil de se lidar e sobrevive à base de bicos. Apesar das diferenças quase irreconciliáveis, ambos, cada um a seu modo, vão se envolver diretamente em uma trama de espionagem e conspirações que vai tomar proporções de uma guerra sem precedentes naquele novo mundo.
Beraldo lida muito bem tanto com o lado mais humano da trama – com os jogos de interesses políticos, as investigações feitas em botecos suspeitos e os momentos de confraternização de companheiros de batalha – quanto, e principalmente, com a parte puramente bélica – caças são abatidos por naves bem maiores, dróides explodem como buchas de canhão e enormes frotas espaciais são posicionadas de acordo com as estratégias de seus comandantes. Apesar de faltar alguma consistência, por exemplo, nas motivações de Santiago – a relação dele com outra personagem fica muito rasa para explicar o porquê das tomadas de decisões tão arriscadas – o autor é bastante hábil em um gênero controvertido da ficção científica, a space opera, que tem seus fãs e seus detratores. Ele até fez uma divertida e nada sutil homenagem a um dos expoentes do estilo, em uma fala de Augusto Carrera, na página 254: “Santiago, eu sou um piloto de caça, não um cavaleiro Jedi”.
É importante que o leitor tenha em mente que Taikodom: Despertar é uma aventura que põe um jogo em prática. Isso quer dizer que várias das soluções em suas páginas foram criadas originalmente para tornar o game atrativo e não com finalidades literárias. Gerson Lodi-Ribeiro, o criador deste universo, é reconhecido por sua afinidade com a ficção científica hard, aquela em que as extrapolações científico-tecnológicas são mais plausíveis. Apesar disso, para se ajustar às necessidades típicas de um game, ele teve que fazer concessões. Um exemplo bem básico diz respeito à virtual imortalidade dos personagens.
Como eles representam jogadores, foi necessário encontrar uma solução que garantisse o seu retorno mesmo após serem mortos em combate. Era isso ou cada jogador teria que recomeçar sempre do zero a cada derrota. A saída foi dotar os pilotos desta realidade com uma espécie de computador pessoal no cérebro; além de municiá-lo com informações, o recurso ainda faz uma espécie de backup da personalidade do usuário o que permite cloná-lo mais tarde, resultando em uma nova vida para o gamer. Outra questão diz respeito aos avanços tecnológicos que permitem itens como campos de força, geradores de gravidade artificial e atalhos por regiões do espaço. Tudo isso é explicado pela ação de misteriosos alienígenas (provavelmente os mesmos responsáveis por aquele campo de restrição) que desapareceram de vista não sem deixar para trás artefatos cuja tecnologia está mais próxima da fantasia que da ciência.
Felizmente para o leitor, João Marcelo (ou J.M. como assina o livro)Beraldo consegue utilizar tais recursos, que poderiam significar uma camisa-de-força na história, em benefício da trama. Um exemplo é o uso inteligente que um personagem faz do seu computador cerebral – na verdade, Organizador Neural Intracraniano – para driblar a própria morte e proteger informações valiosas no processo. Ou ainda, nos momentos da estratégia de guerra, aqueles atalhos espaciais se mostram um trunfo importante para um dos lados da batalha. O envolvimento com o romance garante a necessária suspensão de descrédito para que se possa apreciar a aventura sem tropeçar em impropriedades científicas. O texto direto e agradável do autor contribuí para tanto. Contribuiria ainda mais se, com uma revisão um pouco mais criteriosa, fossem eliminados certos erros e algumas palavras repetidas que surgem poluindo muitas frases.
Outro bom achado da edição lançada pela Devir – que inclui ainda um CD de instalação do game – é a bela capa de autoria do jornalista e artista gráfico Ivan Jerônimo, também funcionário da Hoplon. Apesar de um dos principais diferenciais do jogo ser os gráficos 3D, foi bastante agradável a escolha de uma ilustração mais, digamos, orgânica – apesar de ser uma pintura eletrônica – para a obra impressa. Mesmo assim, para instigar a curiosidade dos leitores e potenciais jogadores, além de aproveitar o material desenvolvido por um batalhão de designers, uma falha da edição foi a de não incluir no interior do livro algumas imagens disponíveis do game. Um apanhado das incontáveis naves, de todas as classes e modelos, citadas ao longo do romance poderia ilustrar a abertura dos 41 capítulos espalhados por 320 páginas, por exemplo.
Taikodom: Despertar é uma boa amostra do que se pode esperar dos próximos lançamentos editoriais que devem expandir o universo do jogo. Há histórias em quadrinhos sendo produzidas e novos livros previstos. O próximo lançamento deve ser uma coletânea de contos de autoria de Gerson Lodi-Ribeiro, alguns disponíveis no site, que se passam antes e depois da história contada neste primeiro romance. A previsão é de que os lançamentos cruzem fronteiras e sejam exportados para outros países, em um primeiro momento, para Portugal. Isso tudo fora as perspectivas de Taikodom, o game, propriamente dito. Nada mal para um projeto que começou quase simultaneamente com o primeiro passo dado pelo chinês Yang Liwei no espaço.
O autor é um game designer carioca, com formação em história e desenho industrial, que já havia publicado um outro livro com abordagem futurística e espacial – Véu da verdade – e foi contratado pela Hoplon para cuidar do enredo do jogo, dos personagens, das missões e de todo material escrito. Para tanto, Beraldo segue as regras criadas pelo seu conterrâneo Gerson Lodi-Ribeiro, o responsável pelo contexto histórico do universo Taikodom, aquilo que no jargão dos games e séries do cinema e da TV é chamado de Bíblia. Neste mundo ficcional, a iniciativa privada começa levar seus projetos para o espaço a partir do ano de 2013, pouco mais de meio século depois, algumas colônias em torno da Lua e do Cinturão de Asteróides conseguem a autonomia em relação à Terra.
O evento mais traumático, e que muda por completo o rumo dos acontecimentos, ocorre em 2073. É quando um campo de origem desconhecida cerca o planeta, impedindo o retorno de qualquer um ao local, mas não a fuga em massa que acabaria por evacuar um planeta que em poucos anos se tornou quase inabitável. O surgimento desse campo demarcou uma nova era, os fatos passaram a ser considerados Antes da Restrição ou sendo da Era da Restrição. Os acontecimentos narrados neste primeiro livro se dão no ano 153 ER, ou seja, em 2226, pelo nosso calendário, quando duas das pessoas que tiveram que fugir às pressas daquele mundo condenado são despertadas, após passarem um século e meio em animação suspensa, e tentam se adaptar à vida em um tempo pouco amistoso a elas.
Jorge Santiago e Augusto Carrera são os protagonistas da história, brasileiros que eram respectivamente piloto e co-piloto na Terra nos tempos pré-Restrição. Os dois colegas voltam à vida porque foram selecionados, entre os incontáveis terrestres hibernantes, pelo conglomerado privado que dita as regras naquele universo. Na ausência de governos ou mesmo de estados, é o Consortium quem provê a segurança e o bem-estar dos habitantes do chamado Taikodom, porém a iniciativa é alvo de ataques de diversos grupos: sejam eles piratas, mercenários ou mesmo fanáticos religiosos. Por isso, de tempos em tempos, de acordo com a demanda do momento, alguns daqueles fugitivos do campo de restrição recebem a chance de voltar à vida, passar por um período de adaptação em estações que levam nomes como Jules Verne e tentar a sorte, por exemplo, como piloto em alguma das forças de segurança existentes. O problema está nessa adaptação.
Vindos com a mentalidade do século XXI, os ressurectos, como são chamados, formam a classe mais baixa em um mundo dominado por três castas de humanos mais bem adaptadas ao século XXIII. Os mais presentes no livro são os spacers, aqueles que vivem em estações espaciais; os mais misteriosos são os worms, habitantes dos subterrâneos de satélites como a Lua; há ainda os belters, presentes em asteróides. Neste contexto, Santiago e Carrera podem ser vistos como fornecedores de mão-de-obra barata em uma distopia com cara de utopia.
Mesmo entre esse grupo com tão poucas perspectivas, há variáveis nos caminhos a se seguir. E aquela dupla representa bem isso. Ironicamente, é Carrera, o antigo co-piloto, quem se adapta melhor ao novo mundo, passa a subir posições e ganhar a confiança dos seus superiores na esquadrilha em que passa a servir. Dono de um temperamento genioso, muito apegado à antiga existência na Terra e resistente às novas tecnologias, Santiago se mostra um ressurecto bem mais difícil de se lidar e sobrevive à base de bicos. Apesar das diferenças quase irreconciliáveis, ambos, cada um a seu modo, vão se envolver diretamente em uma trama de espionagem e conspirações que vai tomar proporções de uma guerra sem precedentes naquele novo mundo.
Beraldo lida muito bem tanto com o lado mais humano da trama – com os jogos de interesses políticos, as investigações feitas em botecos suspeitos e os momentos de confraternização de companheiros de batalha – quanto, e principalmente, com a parte puramente bélica – caças são abatidos por naves bem maiores, dróides explodem como buchas de canhão e enormes frotas espaciais são posicionadas de acordo com as estratégias de seus comandantes. Apesar de faltar alguma consistência, por exemplo, nas motivações de Santiago – a relação dele com outra personagem fica muito rasa para explicar o porquê das tomadas de decisões tão arriscadas – o autor é bastante hábil em um gênero controvertido da ficção científica, a space opera, que tem seus fãs e seus detratores. Ele até fez uma divertida e nada sutil homenagem a um dos expoentes do estilo, em uma fala de Augusto Carrera, na página 254: “Santiago, eu sou um piloto de caça, não um cavaleiro Jedi”.
É importante que o leitor tenha em mente que Taikodom: Despertar é uma aventura que põe um jogo em prática. Isso quer dizer que várias das soluções em suas páginas foram criadas originalmente para tornar o game atrativo e não com finalidades literárias. Gerson Lodi-Ribeiro, o criador deste universo, é reconhecido por sua afinidade com a ficção científica hard, aquela em que as extrapolações científico-tecnológicas são mais plausíveis. Apesar disso, para se ajustar às necessidades típicas de um game, ele teve que fazer concessões. Um exemplo bem básico diz respeito à virtual imortalidade dos personagens.
Como eles representam jogadores, foi necessário encontrar uma solução que garantisse o seu retorno mesmo após serem mortos em combate. Era isso ou cada jogador teria que recomeçar sempre do zero a cada derrota. A saída foi dotar os pilotos desta realidade com uma espécie de computador pessoal no cérebro; além de municiá-lo com informações, o recurso ainda faz uma espécie de backup da personalidade do usuário o que permite cloná-lo mais tarde, resultando em uma nova vida para o gamer. Outra questão diz respeito aos avanços tecnológicos que permitem itens como campos de força, geradores de gravidade artificial e atalhos por regiões do espaço. Tudo isso é explicado pela ação de misteriosos alienígenas (provavelmente os mesmos responsáveis por aquele campo de restrição) que desapareceram de vista não sem deixar para trás artefatos cuja tecnologia está mais próxima da fantasia que da ciência.
Felizmente para o leitor, João Marcelo (ou J.M. como assina o livro)Beraldo consegue utilizar tais recursos, que poderiam significar uma camisa-de-força na história, em benefício da trama. Um exemplo é o uso inteligente que um personagem faz do seu computador cerebral – na verdade, Organizador Neural Intracraniano – para driblar a própria morte e proteger informações valiosas no processo. Ou ainda, nos momentos da estratégia de guerra, aqueles atalhos espaciais se mostram um trunfo importante para um dos lados da batalha. O envolvimento com o romance garante a necessária suspensão de descrédito para que se possa apreciar a aventura sem tropeçar em impropriedades científicas. O texto direto e agradável do autor contribuí para tanto. Contribuiria ainda mais se, com uma revisão um pouco mais criteriosa, fossem eliminados certos erros e algumas palavras repetidas que surgem poluindo muitas frases.
Outro bom achado da edição lançada pela Devir – que inclui ainda um CD de instalação do game – é a bela capa de autoria do jornalista e artista gráfico Ivan Jerônimo, também funcionário da Hoplon. Apesar de um dos principais diferenciais do jogo ser os gráficos 3D, foi bastante agradável a escolha de uma ilustração mais, digamos, orgânica – apesar de ser uma pintura eletrônica – para a obra impressa. Mesmo assim, para instigar a curiosidade dos leitores e potenciais jogadores, além de aproveitar o material desenvolvido por um batalhão de designers, uma falha da edição foi a de não incluir no interior do livro algumas imagens disponíveis do game. Um apanhado das incontáveis naves, de todas as classes e modelos, citadas ao longo do romance poderia ilustrar a abertura dos 41 capítulos espalhados por 320 páginas, por exemplo.
Taikodom: Despertar é uma boa amostra do que se pode esperar dos próximos lançamentos editoriais que devem expandir o universo do jogo. Há histórias em quadrinhos sendo produzidas e novos livros previstos. O próximo lançamento deve ser uma coletânea de contos de autoria de Gerson Lodi-Ribeiro, alguns disponíveis no site, que se passam antes e depois da história contada neste primeiro romance. A previsão é de que os lançamentos cruzem fronteiras e sejam exportados para outros países, em um primeiro momento, para Portugal. Isso tudo fora as perspectivas de Taikodom, o game, propriamente dito. Nada mal para um projeto que começou quase simultaneamente com o primeiro passo dado pelo chinês Yang Liwei no espaço.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Uma distopia nada ambígua
O texto abaixo é a introdução escrita por mim para o livro Fome, de Tibor Moricz, lançado pela editora Tarja:
Nas páginas seguintes, você terá a oportunidade de testemunhar a morte de, pelo menos, dois mitos. Um deles é a tradição bem-comportada da Ficção Científica brasileira, uma vez que o bom-mocismo desse gênero da literatura nacional raramente encontrou quem o desafiasse ao longo dos anos. Já nas linhas iniciais do primeiro dos quinze contos, Tibor Moricz trucida tal padrão estabelecido ao ir muito além do que fez, por exemplo, lá no início da década de noventa, o pioneiro e decano André Carneiro em sua singular utopia sexual Amorquia.
O paulistano descendente de húngaros (mais especificamente, sobrinho-neto de um dos maiores escritores e dramaturgos daquele país, Zsigmond Móricz) criou nesta coletânea uma distopia nada ambígua. Se em seu romance de estréia, Síndrome de Cérbero, ele fez uso de um tema clássico da FC mundial – a viagem no tempo – para analisar a angustiada relação de um filho com o pai ausente, aqui o autor volta a trabalhar com um cenário bastante conhecido, o do futuro pós-apocalíptico, mas com resultados bem mais cruentos.
Em Fome, o Caos e o Abismo de Nietzsche abusam, torturam e canibalizam um segundo mito, o do Bom Selvagem de Rousseau. A civilização acabou, os governos não existem mais, as relações familiares e as religiões ou se extinguiram ou surgem apenas como caricaturas farsescas. O que move os poucos sobreviventes é a urgência em atender àquela necessidade física que dá nome à obra. A fome, em suas diferentes e variadas manifestações, é a protagonista onipresente.
“Não eram tempos para analogias”. Dessa maneira se define o mundo descrito a seguir, em um dos primeiros contos. Mais à frente, em outro texto, retoma-se o assunto. “Um tempo onde a comida não existia. Um tempo onde a água pura não existia. Onde a sobrevivência suplantava tudo. Mas um tempo, sobretudo, onde todos, sejam caça ou caçador, sabiam que a vida é uma questão de sonho e decepção”. É nesse tempo e nesse lugar que você está entrando agora, no espaço da Entropia. Não é bem o caso de dar as boas vindas, mas a verdade é que você está prestes a conhecer a distópica entropia de Tibor Moricz.
Vire a página por vontade própria.
Nas páginas seguintes, você terá a oportunidade de testemunhar a morte de, pelo menos, dois mitos. Um deles é a tradição bem-comportada da Ficção Científica brasileira, uma vez que o bom-mocismo desse gênero da literatura nacional raramente encontrou quem o desafiasse ao longo dos anos. Já nas linhas iniciais do primeiro dos quinze contos, Tibor Moricz trucida tal padrão estabelecido ao ir muito além do que fez, por exemplo, lá no início da década de noventa, o pioneiro e decano André Carneiro em sua singular utopia sexual Amorquia.
O paulistano descendente de húngaros (mais especificamente, sobrinho-neto de um dos maiores escritores e dramaturgos daquele país, Zsigmond Móricz) criou nesta coletânea uma distopia nada ambígua. Se em seu romance de estréia, Síndrome de Cérbero, ele fez uso de um tema clássico da FC mundial – a viagem no tempo – para analisar a angustiada relação de um filho com o pai ausente, aqui o autor volta a trabalhar com um cenário bastante conhecido, o do futuro pós-apocalíptico, mas com resultados bem mais cruentos.
Em Fome, o Caos e o Abismo de Nietzsche abusam, torturam e canibalizam um segundo mito, o do Bom Selvagem de Rousseau. A civilização acabou, os governos não existem mais, as relações familiares e as religiões ou se extinguiram ou surgem apenas como caricaturas farsescas. O que move os poucos sobreviventes é a urgência em atender àquela necessidade física que dá nome à obra. A fome, em suas diferentes e variadas manifestações, é a protagonista onipresente.
“Não eram tempos para analogias”. Dessa maneira se define o mundo descrito a seguir, em um dos primeiros contos. Mais à frente, em outro texto, retoma-se o assunto. “Um tempo onde a comida não existia. Um tempo onde a água pura não existia. Onde a sobrevivência suplantava tudo. Mas um tempo, sobretudo, onde todos, sejam caça ou caçador, sabiam que a vida é uma questão de sonho e decepção”. É nesse tempo e nesse lugar que você está entrando agora, no espaço da Entropia. Não é bem o caso de dar as boas vindas, mas a verdade é que você está prestes a conhecer a distópica entropia de Tibor Moricz.
Vire a página por vontade própria.
sábado, 11 de outubro de 2008
Viagem ao centro da FC
A ficção científica costuma ter uma relação curiosa com público e crítica. Nos países em que o gênero literário conta com uma maior carga de tradição, como os EUA ou a Inglaterra, alguns escritores se tornam fenômeno de venda, mas tamanha popularidade costuma gerar desconfiança entre os críticos. Por outro lado, existem países em que a literatura, falemos na de gênero ou não, desconhece o que seja atingir uma massa de leitores. Nem é preciso dizer que este é o caso do Brasil. Por aqui, mesmo sem fazer valer o adjetivo de “popular”, com livros nacionais ou mesmo traduções de material estrangeiro raramente chegando à casa dos milhares de exemplares, a FC é relegada a segundo, terceiro ou último plano pela crítica. Todavia, se a interação com público e crítica não tem sido das mais profícuas, há um terceiro território em que os textos fictícios sobre especulações científicas recebem cada vez mais atenção: o ambiente universitário.
Pode não chegar a ser um avanço que inspire otimismo, mas não deixa de ser uma evolução o que vem ocorrendo. Entre 1967 e 1987, foram publicadas seis obras nacionais dispostas a analisar o tema. Meia dúzia de títulos em duas décadas. Nos anos 2000, mais exatamente de 2002 a 2006, já havia se conseguido igualar aquele número. Em 2007, um sétimo livro foi lançado, o mesmo de onde foram retirados os dados para este parágrafo, e com isso se renova a esperança de que a FC possa entrar cada vez mais na agenda do público, da crítica e da academia. Volta ao mundo da ficção científica presta uma contribuição e tanto neste sentido ao abrir espaço para discutir, sob vários ângulos, este gênero da literatura fantástica, irmão mais novo da fantasia e do terror.
De início, o interesse da dupla de organizadores, Edgar Nolasco e Rodolfo Londero, era se restringir a estudos sobre a produção brasileira. Com o tempo de elaboração, o escopo do livro lançado pela editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) se ampliou: dos nove artigos, dois terços realmente tratam de temas locais; o restante traz visões de brasileiros a respeito de obras e de autores de outros países. Uma outra contribuição, muito bem-vinda, foi a inclusão de um conto inédito na coletânea. Vamos ver neste texto um apanhado do que Volta ao mundo da ficção científica oferece a seus leitores ao longo de 168 páginas.
O livro abre com textos de seus organizadores. Em “Clarice e a ficção científica”, Edgar Nolasco analisa as ligações de uma de nossas mais consagradas escritoras com o gênero. Doutor em literatura comparada e professor da UFMS, Nolasco é um pesquisador com mais de um trabalho em elaboração a respeito da obra de Clarice Lispector. Neste paper, ele foca tanto em algumas das traduções que a escritora fez para textos de Edgar Allan Poe e Jules Verne, quanto em um conto de FC criado por ela para o livro A via crúcis do corpo, de 1984, “Miss Algrave”, que conta com a participação importante de um alienígena na trama.
Rodolfo Londero, jornalista e mestre em letras pela UFMS, além de co-organizador da obra, contribui com um estudo sobre tema mais amplo em “Níveis de recepção do cyberpunk no Brasil: um estudo de casos exemplares”. Para tratar do impacto do subgênero (e movimento) criado nos EUA por William Gibson, em meados dos anos 80, o pesquisador dividiu os casos em três níveis. No primeiro, o “direto”, ele enquadra autores brasileiros que dialogam frontalmente com as obras inaugurais do cyberpunk, caso de Fábio Fernandes e de alguns contos de sua coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, do ano 2000. No que chamou de “recepção análoga”, Londero se refere a material nacional que captou o espírito do tempo que marcou a obra de Gibson, mesmo sem seguir o cânone daquele e de outros escritores americanos. Um exemplo citado é o livro Piritas siderais, cujo autor, Guilherme Kujawski afirmou em entrevista ao pesquisador que desconhecia o próprio termo cyberpunk, apesar das semelhanças entre sua obra, de 1994, e as temáticas do movimento criado uma década antes.
O nível a que o artigo dedica mais espaço levou o nome de “indireto” e seria o de obras brasileiras que dialogam com trabalhos precursores da ficção cyber. Neste conjunto de textos que compartilham um repertório semelhante ao dos americanos – por exemplo, a influência do filme Blade Runner, do diretor Ridley Scott – estão as criações do cantor e performer Fausto Fawcett, como o livro Santa Clara Poltergeist, de 1991.
“Ficção científica e o despertar do interesse científico: o fator eureka” é o nome da contribuição mais atípica da coletânea. De autoria do jornalista especializado em divulgação científica e em letras e literatura Alfredo Suppia, o texto é o único que prioriza exemplos vindos do cinema no lugar da literatura, para demonstrar como este gênero é capaz de despertar o interesse do público pela ciência. São vários os filmes que o autor analisa para comprovar sua tese, entre eles duas películas nacionais, Parada 88: limite de alerta, dirigido em 1988 por José de Anchieta, e Abrigo nuclear, feito em 1981 com a direção de Roberto Pires. Ambas as histórias são distopias ecológicas, retratando futuros próximos em que o meio ambiente se encontra irremediavelmente modificado pela ação humana. Seja nas citações locais ou nas internacionais, o artigo busca apresentar exemplos daquilo que o autor denominou de “fator eureka”, ou seja, o elemento sedutor capaz de familiarizar a audiência com temáticas da ciência real.
Talvez o artigo com interesse menos universal do conjunto seja o que vem a seguir. “História e representação: o jogo de memória e realidade em O homem do castelo alto, de Philip K. Dick” tem como objeto de pesquisa um dos romances mais conhecidos do consagrado autor americano. A obra de 1962, recentemente republicada no Brasil pela editora Aleph, imaginou uma história alternativa em que os vencedores da II Guerra Mundial foram os japoneses e os alemães, povos que dividiram entre si os Estados Unidos. O paper foi escrito pelo então doutorando Anderson Gomes e trata dos vários modos com que o “passado real” se relaciona com a “narrativa imaginada” naquela obra. Este é o texto que mais exige um conhecimento prévio do leitor nos temas abordados em suas páginas.
O quinto artigo foi escrito por um autor que teve sua obra na ficção analisada em outro texto do mesmo livro, traduziu o romance que foi tema do capítulo anterior e que também escreveu um dos já citados livros teóricos sobre FC lançados na última década. Fábio Fernandes, doutor formado na área de comunicação e semiótica da PUC-SP, produziu a coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, foi o tradutor da edição mais recente de O homem do castelo alto e lançou em 2006 A construção do imaginário cyber: William Gibson, criador da cibercultura. No texto “Para ver os homens invisíveis: a Intempol e sua influência na literatura de ficção científica brasileira”, ele faz um estudo de caso do universo compartilhado criado pelo escritor Octavio Aragão, baseado em uma polícia internacional do tempo, que mobilizou dezenas de outros escritores nacionais em um projeto comum que abrange várias mídias. O autor do texto aponta o projeto Intempol como um exemplo possível para vencer aquilo que o jornalista e editor catarinense Dorva Rezende definira como sendo a invisibilidade cultural que atinge a FC nacional.
Um artigo que bem poderia render livro à parte é “A ficção científica no cordel”. Seu autor é outro escritor cuja obra serviu de tema para alguns dos outros colegas da coletânea e que também já havia contribuído com duas obras teóricas sobre a FC, uma lançada em 1985, O que é ficção científica?, e outra publicada 20 anos depois, O rasgão no real: metalinguagem e simulacros na narrativa de ficção científica. Braulio Tavares faz a inusitada comparação entre a literatura de cordel e os formatos em que foram publicadas várias das histórias de FC no exterior, como as dime novels ou as pulp magazines. Para isso examina duas obras representativas, uma escrita em Portugal e outra no nordeste brasileiro.
A contribuição lusitana é O balão aos habitantes da lua, um livreto em verso escrito em 1819 por José Daniel Rodrigues da Costa. Nele, se narra a aventura do personagem Robertson, um aventureiro que conseguiu chegar à lua e contatar seus habitantes viajando a bordo de um balão. Um exemplo equivalente encontrado no Brasil foi o folheto História do homem que subiu em aeroplano até a lua, de João Martins de Athayde, publicado no Recife em 1923. O protagonista desta segunda história, tembém narrada em versos, levou o nome de Baratão e foi outro que travou contato com selenitas. O artigo é uma rica e bem documentada análise que termina com esta conclusão: “cordel e FC são hoje primos em terceiro grau, mas sua acestralidade em comum não pode ser ignorada”.
Outro escritor de ficção e pesquisador da área assina o sexto artigo do livro. Roberto Causo escreveu Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950 em 2003 e o romance A corrida do rinoceronte, três anos depois, além de manter atualmente uma coluna sobre FC no site Terra Magazine. Com o artigo “O poeta que viu o disco voador”, o bacharel em letras português/inglês pela USP faz a análise da noveleta O 31º peregrino, publicada em forma de livro em 1993, pelo premiado escritor Rubens Teixeira Scavone. Aquele texto foi uma espécie de continuação informal de uma das obras mais significativas da história literária inglesa, os Contos da Cantuária, escrita pelo poeta inglês do século XIV Geoffrey Chaucer. A obra original contava como 30 peregrinos a caminho de Canterbury, para visitar o jazigo do arcebispo Thomas Beckett, faziam uma parada em uma hospedagem para compartilhar suas histórias. O brasileiro Scavone inseriu um novo personagem àquela narrativa, 650 anos depois, e com ele acrescentou uma carga de ficção científica e horror fantásticos ao cenário medieval, feitos esses analisados por Causo em seu paper.
O penúltimo artigo da coletânea guarda a particularidade de ter sido escrito com uma visão estrangeira sobre a produção de FC do Brasil. Sua autora é a americana M. Elizabeth Ginway, que já havia publicado um livro sobre o assunto em 2005, Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidades no país do futuro, e é professora adjunta de literatura portuguesa e brasileira na Universidade da Flórida. Em “A cidade pós-moderna na ficção científica brasileira”, a brasilianista enfatiza a importância dos aglomerados urbanos em várias histórias de FC produzidas no país. Como não poderia deixar de ser, as metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo assumem um papel de destaque nos exemplos dados. Seja em contos, como “Jogo rápido”, do já citado Braulio Tavares, texto incluído na coletânea A espinha dorsal da memória, de 1989, ou “Feliz Natal, vinte bilhões”, de Henrique Flory, publicado no livro A pedra que canta e outras histórias, de 1991, que mostram respectivamente a capital fluminense e a paulista como ambientes superpopulosos e ultraviolentos. A pesquisadora também analisa romances do cyberpunk nacional, alguns já citados anteriormente. Curiosamente, como ela chama a atenção, todos protagonizados por personagens negros: os dois ambientados no Rio, Silicone XXI, de Alfredo Sirkis, escrito em 1985, e o já mencionado Santa Clara Poltergeist; além do paulistano Piritas siderais, também já comentado.
Quem fecha a parte ensaistíca do livro é Ramiro Giroldo, por sinal o tradutor para o português do artigo da professora Ginway. A segunda contribuição de Giroldo na coletânea é o texto “Outra utopia”, um adiantamento do tema de sua dissertação de mestrado em estudos da linguagem na UFMS: a análise do romance Amorquia, publicado em 1991 e de autoria de um dos mais prestigiados escritores de ficção científica do Brasil, André Carneiro. O estudo do mestrando propõe uma interpretação daquele livro, sobre um mundo futurista em que a entrega de seus cidadãos aos prazeres sexuais são amplamente incentivados pela sociedade. A discussão segue sobre os limites e as diferenças entre utopias e distopias.
Quanto ao já anunciado conto que encerra Volta ao mundo da ficção científica, o autor é justamente André Carneiro. Precursor nos estudos sobre o gênero no Brasil, é dele o livro que os organizadores desta coletânea apontam como sendo o pioneiro no país, Introdução ao estudo da “science fiction”, de 1967. Carneiro teve seu trabalho publicado em mais de uma dezena de países e escreveu a noveleta “A escuridão”, que lidera a maioria das listas sobre qual é o melhor texto de FC nacional de todos os tempos. O conto que aparece no livro se chama “Pensamento”, e conta a história de um casal de pesquisadores envolvidos em uma experiência considerada proibida pelas autoridades: a clonagem de um cérebro.
Pode não chegar a ser um avanço que inspire otimismo, mas não deixa de ser uma evolução o que vem ocorrendo. Entre 1967 e 1987, foram publicadas seis obras nacionais dispostas a analisar o tema. Meia dúzia de títulos em duas décadas. Nos anos 2000, mais exatamente de 2002 a 2006, já havia se conseguido igualar aquele número. Em 2007, um sétimo livro foi lançado, o mesmo de onde foram retirados os dados para este parágrafo, e com isso se renova a esperança de que a FC possa entrar cada vez mais na agenda do público, da crítica e da academia. Volta ao mundo da ficção científica presta uma contribuição e tanto neste sentido ao abrir espaço para discutir, sob vários ângulos, este gênero da literatura fantástica, irmão mais novo da fantasia e do terror.
De início, o interesse da dupla de organizadores, Edgar Nolasco e Rodolfo Londero, era se restringir a estudos sobre a produção brasileira. Com o tempo de elaboração, o escopo do livro lançado pela editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) se ampliou: dos nove artigos, dois terços realmente tratam de temas locais; o restante traz visões de brasileiros a respeito de obras e de autores de outros países. Uma outra contribuição, muito bem-vinda, foi a inclusão de um conto inédito na coletânea. Vamos ver neste texto um apanhado do que Volta ao mundo da ficção científica oferece a seus leitores ao longo de 168 páginas.
O livro abre com textos de seus organizadores. Em “Clarice e a ficção científica”, Edgar Nolasco analisa as ligações de uma de nossas mais consagradas escritoras com o gênero. Doutor em literatura comparada e professor da UFMS, Nolasco é um pesquisador com mais de um trabalho em elaboração a respeito da obra de Clarice Lispector. Neste paper, ele foca tanto em algumas das traduções que a escritora fez para textos de Edgar Allan Poe e Jules Verne, quanto em um conto de FC criado por ela para o livro A via crúcis do corpo, de 1984, “Miss Algrave”, que conta com a participação importante de um alienígena na trama.
Rodolfo Londero, jornalista e mestre em letras pela UFMS, além de co-organizador da obra, contribui com um estudo sobre tema mais amplo em “Níveis de recepção do cyberpunk no Brasil: um estudo de casos exemplares”. Para tratar do impacto do subgênero (e movimento) criado nos EUA por William Gibson, em meados dos anos 80, o pesquisador dividiu os casos em três níveis. No primeiro, o “direto”, ele enquadra autores brasileiros que dialogam frontalmente com as obras inaugurais do cyberpunk, caso de Fábio Fernandes e de alguns contos de sua coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, do ano 2000. No que chamou de “recepção análoga”, Londero se refere a material nacional que captou o espírito do tempo que marcou a obra de Gibson, mesmo sem seguir o cânone daquele e de outros escritores americanos. Um exemplo citado é o livro Piritas siderais, cujo autor, Guilherme Kujawski afirmou em entrevista ao pesquisador que desconhecia o próprio termo cyberpunk, apesar das semelhanças entre sua obra, de 1994, e as temáticas do movimento criado uma década antes.
O nível a que o artigo dedica mais espaço levou o nome de “indireto” e seria o de obras brasileiras que dialogam com trabalhos precursores da ficção cyber. Neste conjunto de textos que compartilham um repertório semelhante ao dos americanos – por exemplo, a influência do filme Blade Runner, do diretor Ridley Scott – estão as criações do cantor e performer Fausto Fawcett, como o livro Santa Clara Poltergeist, de 1991.
“Ficção científica e o despertar do interesse científico: o fator eureka” é o nome da contribuição mais atípica da coletânea. De autoria do jornalista especializado em divulgação científica e em letras e literatura Alfredo Suppia, o texto é o único que prioriza exemplos vindos do cinema no lugar da literatura, para demonstrar como este gênero é capaz de despertar o interesse do público pela ciência. São vários os filmes que o autor analisa para comprovar sua tese, entre eles duas películas nacionais, Parada 88: limite de alerta, dirigido em 1988 por José de Anchieta, e Abrigo nuclear, feito em 1981 com a direção de Roberto Pires. Ambas as histórias são distopias ecológicas, retratando futuros próximos em que o meio ambiente se encontra irremediavelmente modificado pela ação humana. Seja nas citações locais ou nas internacionais, o artigo busca apresentar exemplos daquilo que o autor denominou de “fator eureka”, ou seja, o elemento sedutor capaz de familiarizar a audiência com temáticas da ciência real.
Talvez o artigo com interesse menos universal do conjunto seja o que vem a seguir. “História e representação: o jogo de memória e realidade em O homem do castelo alto, de Philip K. Dick” tem como objeto de pesquisa um dos romances mais conhecidos do consagrado autor americano. A obra de 1962, recentemente republicada no Brasil pela editora Aleph, imaginou uma história alternativa em que os vencedores da II Guerra Mundial foram os japoneses e os alemães, povos que dividiram entre si os Estados Unidos. O paper foi escrito pelo então doutorando Anderson Gomes e trata dos vários modos com que o “passado real” se relaciona com a “narrativa imaginada” naquela obra. Este é o texto que mais exige um conhecimento prévio do leitor nos temas abordados em suas páginas.
O quinto artigo foi escrito por um autor que teve sua obra na ficção analisada em outro texto do mesmo livro, traduziu o romance que foi tema do capítulo anterior e que também escreveu um dos já citados livros teóricos sobre FC lançados na última década. Fábio Fernandes, doutor formado na área de comunicação e semiótica da PUC-SP, produziu a coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, foi o tradutor da edição mais recente de O homem do castelo alto e lançou em 2006 A construção do imaginário cyber: William Gibson, criador da cibercultura. No texto “Para ver os homens invisíveis: a Intempol e sua influência na literatura de ficção científica brasileira”, ele faz um estudo de caso do universo compartilhado criado pelo escritor Octavio Aragão, baseado em uma polícia internacional do tempo, que mobilizou dezenas de outros escritores nacionais em um projeto comum que abrange várias mídias. O autor do texto aponta o projeto Intempol como um exemplo possível para vencer aquilo que o jornalista e editor catarinense Dorva Rezende definira como sendo a invisibilidade cultural que atinge a FC nacional.
Um artigo que bem poderia render livro à parte é “A ficção científica no cordel”. Seu autor é outro escritor cuja obra serviu de tema para alguns dos outros colegas da coletânea e que também já havia contribuído com duas obras teóricas sobre a FC, uma lançada em 1985, O que é ficção científica?, e outra publicada 20 anos depois, O rasgão no real: metalinguagem e simulacros na narrativa de ficção científica. Braulio Tavares faz a inusitada comparação entre a literatura de cordel e os formatos em que foram publicadas várias das histórias de FC no exterior, como as dime novels ou as pulp magazines. Para isso examina duas obras representativas, uma escrita em Portugal e outra no nordeste brasileiro.
A contribuição lusitana é O balão aos habitantes da lua, um livreto em verso escrito em 1819 por José Daniel Rodrigues da Costa. Nele, se narra a aventura do personagem Robertson, um aventureiro que conseguiu chegar à lua e contatar seus habitantes viajando a bordo de um balão. Um exemplo equivalente encontrado no Brasil foi o folheto História do homem que subiu em aeroplano até a lua, de João Martins de Athayde, publicado no Recife em 1923. O protagonista desta segunda história, tembém narrada em versos, levou o nome de Baratão e foi outro que travou contato com selenitas. O artigo é uma rica e bem documentada análise que termina com esta conclusão: “cordel e FC são hoje primos em terceiro grau, mas sua acestralidade em comum não pode ser ignorada”.
Outro escritor de ficção e pesquisador da área assina o sexto artigo do livro. Roberto Causo escreveu Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950 em 2003 e o romance A corrida do rinoceronte, três anos depois, além de manter atualmente uma coluna sobre FC no site Terra Magazine. Com o artigo “O poeta que viu o disco voador”, o bacharel em letras português/inglês pela USP faz a análise da noveleta O 31º peregrino, publicada em forma de livro em 1993, pelo premiado escritor Rubens Teixeira Scavone. Aquele texto foi uma espécie de continuação informal de uma das obras mais significativas da história literária inglesa, os Contos da Cantuária, escrita pelo poeta inglês do século XIV Geoffrey Chaucer. A obra original contava como 30 peregrinos a caminho de Canterbury, para visitar o jazigo do arcebispo Thomas Beckett, faziam uma parada em uma hospedagem para compartilhar suas histórias. O brasileiro Scavone inseriu um novo personagem àquela narrativa, 650 anos depois, e com ele acrescentou uma carga de ficção científica e horror fantásticos ao cenário medieval, feitos esses analisados por Causo em seu paper.
O penúltimo artigo da coletânea guarda a particularidade de ter sido escrito com uma visão estrangeira sobre a produção de FC do Brasil. Sua autora é a americana M. Elizabeth Ginway, que já havia publicado um livro sobre o assunto em 2005, Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidades no país do futuro, e é professora adjunta de literatura portuguesa e brasileira na Universidade da Flórida. Em “A cidade pós-moderna na ficção científica brasileira”, a brasilianista enfatiza a importância dos aglomerados urbanos em várias histórias de FC produzidas no país. Como não poderia deixar de ser, as metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo assumem um papel de destaque nos exemplos dados. Seja em contos, como “Jogo rápido”, do já citado Braulio Tavares, texto incluído na coletânea A espinha dorsal da memória, de 1989, ou “Feliz Natal, vinte bilhões”, de Henrique Flory, publicado no livro A pedra que canta e outras histórias, de 1991, que mostram respectivamente a capital fluminense e a paulista como ambientes superpopulosos e ultraviolentos. A pesquisadora também analisa romances do cyberpunk nacional, alguns já citados anteriormente. Curiosamente, como ela chama a atenção, todos protagonizados por personagens negros: os dois ambientados no Rio, Silicone XXI, de Alfredo Sirkis, escrito em 1985, e o já mencionado Santa Clara Poltergeist; além do paulistano Piritas siderais, também já comentado.
Quem fecha a parte ensaistíca do livro é Ramiro Giroldo, por sinal o tradutor para o português do artigo da professora Ginway. A segunda contribuição de Giroldo na coletânea é o texto “Outra utopia”, um adiantamento do tema de sua dissertação de mestrado em estudos da linguagem na UFMS: a análise do romance Amorquia, publicado em 1991 e de autoria de um dos mais prestigiados escritores de ficção científica do Brasil, André Carneiro. O estudo do mestrando propõe uma interpretação daquele livro, sobre um mundo futurista em que a entrega de seus cidadãos aos prazeres sexuais são amplamente incentivados pela sociedade. A discussão segue sobre os limites e as diferenças entre utopias e distopias.
Quanto ao já anunciado conto que encerra Volta ao mundo da ficção científica, o autor é justamente André Carneiro. Precursor nos estudos sobre o gênero no Brasil, é dele o livro que os organizadores desta coletânea apontam como sendo o pioneiro no país, Introdução ao estudo da “science fiction”, de 1967. Carneiro teve seu trabalho publicado em mais de uma dezena de países e escreveu a noveleta “A escuridão”, que lidera a maioria das listas sobre qual é o melhor texto de FC nacional de todos os tempos. O conto que aparece no livro se chama “Pensamento”, e conta a história de um casal de pesquisadores envolvidos em uma experiência considerada proibida pelas autoridades: a clonagem de um cérebro.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Ficção científica semestral
No início da década de 90, durante pouco mais de dois anos, leitores brasileiros de ficção científica viram nascer, prosperar e morrer a mais importante iniciativa para difundir por aqui o que de melhor se produz neste gênero. Enquanto durou, a edição nacional da Isaac Asimov Magazine trouxe todos os meses a preço acessível e com distribuição ampla alguns dos mais importantes escritores de FC de todos os tempos: além do senhor que emprestava o nome à publicação, invadiram as bancas gente do nível de Orson Scott Card, Frederik Pohl, Geoffrey Landis, David Brin, Octavia Butler entre muitos outros. Mais que isso, a revista também abriu espaço para talentos locais que não fizeram feio ao dividir páginas com estrangeiros já consagrados, como Gérson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho, Jorge Luiz Calife, André Carneiro e Maria Helena Bandeira. Apesar de não chegar a dar prejuízo, os resultados comerciais não foram o esperado pela editora responsável, a Record, uma das grandes do mercado brazuca. Com o seu fim, toda uma geração de órfãos da IAM passou a se lamentar pela falta de projetos semelhantes.
Em 15 anos o quadro mudou muito pouco, apenas com alguns fanzines impressos e sites tentando manter atualizada a produção de escritores que ainda não haviam realizado o sonho do livro próprio. Porém, 2008 parece querer se firmar como um ano em que ao menos parte do vácuo deixado pelo fim daquele importante marco editorial pode ser preenchido. Neste segundo semestre, começam a se consolidar iniciativas neste sentido, com projetos coerentes que podem dar novo fôlego à ficção especulativa nacional. Talvez a proposta mais ambiciosa desta nova fase seja uma revista de título mutante que pretende apresentar, a cada seis meses, uma nova leva de autores, mesclando nomes conhecidos neste meio com outros mais identificados com a chamada literatura mainstream. Quem está capitaneando o empreendimento é o escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, conhecido por organizar coletâneas de qualidade dentro do gênero fantástico – e que está preparando uma nova para ser lançada ano que vem pela mesma Record da falecida IAM, cujo título será Futuro presente: dezoito ficções sobre o futuro.
Na edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem. Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica; pela ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado: o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita em uma fase posterior. Neste primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil. Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.
“Cada portal é um organismo cibernético multidimensional, sem forma ou conteúdo definidos, acionado pela fantasia e pelos desejos de quem o utiliza”, escreveu Oliveira no texto de apresentação do número de estréia do projeto. “Juntos, os seis portais funcionam como o aleph do célebre conto de Borges. Juntos, os seis portais formam o ponto de onde é possível enxergar todos os pontos do uiverso. Ou ser por eles enxergado”. A forma com que este primeiro Portal se manifestou é a de uma revista em preto e branco, com 106 páginas e dimensão de 16 por 23 centímetros. O requinte gráfico se manifesta no belo projeto gráfico, de sobriedade elogiável, e na excelente capa, um estudo caligráfico do título da publicação, assinado Teo Adorno. Até a revisão, feita por Mirtes Leal, está muito acima da média dos lançamentos nacionais, aí incluídos livros e revistas.
Quanto ao conteúdo, Oliveira reuniu 14 contos de dez autores de nada menos que sete estados do país, dando uma ótima amostra contemporânea, e em escala verdadeiramente nacional, do que se produz em termos de ficção fantástica. A escolha dos convidados contemplou alguns nomes conhecidos de quem acompanha a FC nacional e outros que se mostram uma boa novidade na área. O mais veterano, sem dúvida, é Roberto de Sousa Causo, um dos escritores nacionais premiados e publicados pela já citada IAM (a noveleta “Patrulha para o desconhecido” foi impressa no número 14). Em sua contribuição para o Portal Solaris, o paulista, autor de A corrida do rinoceronte e responsável por uma coluna semanal sobre FC para uma página da internet, apresentou o conto “Rosas brancas” – dedicado ao americano Philip K. Dick – cuja temática bélica futurista faz parte de suas marcas registradas.
Ataíde Tartari, morador de Santos, já participou da coletânea de contos de um subgênero da FC, a história alternativa, chamada Phantástica brasiliana e publicou livros originalmente escritos em inglês, como Tropical shade. Para a revista, ele escreveu um texto que presta homenagem ao clássico Um estranho numa terra estranha, do também americano Robert Heinlein, a começar pelo título, que cita quase literalmente o protagonista daquele romance, “Valentim”. O outro paulista do time, Ivan Hegenberg, divide a coordenação do projeto com seu conterrâneo Nelson de Oliveira. Ele estreou na área da FC com seu segundo livro, a distopia futurista Será, já resenhado aqui no Overmundo, de onde extraiu os dois contos publicados em Portal Solaris. “Dia qualquer” e “Mastch” deixam claro, respectivamente, a influência que Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche exerceram sobre o jovem escritor.
Os demais colaboradores vieram de todas as regiões do Brasil e de além mar. Carlos Emílio C. Lima, autor de O romance que explodiu, é do Ceará; Carlos Ribeiro (Lunaris), da Bahia; Geraldo Lima (A noite dos vagalumes), de Brasília; Homero Gomes (Sísifo desatento), do Paraná; Luiz Bras (A última guerra), mora em Portugal; Mayrant Gallo (O inédito de Kafka), da Bahia e Rogers Silva (Manicômio, livro ainda inédito), de Minas Gerais. Porém, como deixou claro naquele editorial, Nelson de Oliveira pretende mudar não só o título a cada edição, mas também variar forma e conteúdo de sua série de portais. Interessados em participar de alguma maneira desta iniciativa, podem contatar o coordenador editorial pelo e-mail oliveira.e.cia@uol.com.br
Em 15 anos o quadro mudou muito pouco, apenas com alguns fanzines impressos e sites tentando manter atualizada a produção de escritores que ainda não haviam realizado o sonho do livro próprio. Porém, 2008 parece querer se firmar como um ano em que ao menos parte do vácuo deixado pelo fim daquele importante marco editorial pode ser preenchido. Neste segundo semestre, começam a se consolidar iniciativas neste sentido, com projetos coerentes que podem dar novo fôlego à ficção especulativa nacional. Talvez a proposta mais ambiciosa desta nova fase seja uma revista de título mutante que pretende apresentar, a cada seis meses, uma nova leva de autores, mesclando nomes conhecidos neste meio com outros mais identificados com a chamada literatura mainstream. Quem está capitaneando o empreendimento é o escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, conhecido por organizar coletâneas de qualidade dentro do gênero fantástico – e que está preparando uma nova para ser lançada ano que vem pela mesma Record da falecida IAM, cujo título será Futuro presente: dezoito ficções sobre o futuro.
Na edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem. Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica; pela ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado: o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita em uma fase posterior. Neste primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil. Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.
“Cada portal é um organismo cibernético multidimensional, sem forma ou conteúdo definidos, acionado pela fantasia e pelos desejos de quem o utiliza”, escreveu Oliveira no texto de apresentação do número de estréia do projeto. “Juntos, os seis portais funcionam como o aleph do célebre conto de Borges. Juntos, os seis portais formam o ponto de onde é possível enxergar todos os pontos do uiverso. Ou ser por eles enxergado”. A forma com que este primeiro Portal se manifestou é a de uma revista em preto e branco, com 106 páginas e dimensão de 16 por 23 centímetros. O requinte gráfico se manifesta no belo projeto gráfico, de sobriedade elogiável, e na excelente capa, um estudo caligráfico do título da publicação, assinado Teo Adorno. Até a revisão, feita por Mirtes Leal, está muito acima da média dos lançamentos nacionais, aí incluídos livros e revistas.
Quanto ao conteúdo, Oliveira reuniu 14 contos de dez autores de nada menos que sete estados do país, dando uma ótima amostra contemporânea, e em escala verdadeiramente nacional, do que se produz em termos de ficção fantástica. A escolha dos convidados contemplou alguns nomes conhecidos de quem acompanha a FC nacional e outros que se mostram uma boa novidade na área. O mais veterano, sem dúvida, é Roberto de Sousa Causo, um dos escritores nacionais premiados e publicados pela já citada IAM (a noveleta “Patrulha para o desconhecido” foi impressa no número 14). Em sua contribuição para o Portal Solaris, o paulista, autor de A corrida do rinoceronte e responsável por uma coluna semanal sobre FC para uma página da internet, apresentou o conto “Rosas brancas” – dedicado ao americano Philip K. Dick – cuja temática bélica futurista faz parte de suas marcas registradas.
Ataíde Tartari, morador de Santos, já participou da coletânea de contos de um subgênero da FC, a história alternativa, chamada Phantástica brasiliana e publicou livros originalmente escritos em inglês, como Tropical shade. Para a revista, ele escreveu um texto que presta homenagem ao clássico Um estranho numa terra estranha, do também americano Robert Heinlein, a começar pelo título, que cita quase literalmente o protagonista daquele romance, “Valentim”. O outro paulista do time, Ivan Hegenberg, divide a coordenação do projeto com seu conterrâneo Nelson de Oliveira. Ele estreou na área da FC com seu segundo livro, a distopia futurista Será, já resenhado aqui no Overmundo, de onde extraiu os dois contos publicados em Portal Solaris. “Dia qualquer” e “Mastch” deixam claro, respectivamente, a influência que Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche exerceram sobre o jovem escritor.
Os demais colaboradores vieram de todas as regiões do Brasil e de além mar. Carlos Emílio C. Lima, autor de O romance que explodiu, é do Ceará; Carlos Ribeiro (Lunaris), da Bahia; Geraldo Lima (A noite dos vagalumes), de Brasília; Homero Gomes (Sísifo desatento), do Paraná; Luiz Bras (A última guerra), mora em Portugal; Mayrant Gallo (O inédito de Kafka), da Bahia e Rogers Silva (Manicômio, livro ainda inédito), de Minas Gerais. Porém, como deixou claro naquele editorial, Nelson de Oliveira pretende mudar não só o título a cada edição, mas também variar forma e conteúdo de sua série de portais. Interessados em participar de alguma maneira desta iniciativa, podem contatar o coordenador editorial pelo e-mail oliveira.e.cia@uol.com.br
sábado, 3 de maio de 2008
Complexo de Chronos
Milênios antes de o engenho humano tê-lo tornado possível, nosso velho sonho de voar como os pássaros ganhou a forma de uma lenda, na Grécia antiga. Histórias como a de Ícaro anteciparam e mobilizaram a vontade de um número incontável de pessoas ao longo das eras, servindo ora como fonte de inspiração ora como alerta. De certa maneira, a ficção científica pode ser considerada sucessora dessa linhagem de narrativas mitológicas, com o diferencial de ter substituido a intervenção dos deuses por uma dose – em alguns casos, ligeira pitada – de empreendedorismo humano e de conhecimento aplicado. Um exemplo prático desse moderno cânone mitológico foi o primeiro livro de um dos desbravadores do gênero literário: A máquina do tempo, de H. G. Wells. O escritor inglês fundou um novo mito quando fez seu Ícaro anônimo desafiar não os céus mas aquilo que chamou de quarta dimensão, em uma viagem ao futuro. A idéia por trás da obra de 1895 permanece como referência a gerações de escritores do mundo inteiro e, no Brasil, curiosamente, tem servido como porta de entrada para debutantes da FC. O Universo Intempol é um caso exemplar, pois surgiu no conto de estréia de seu criador, Octavio Aragão, e logo se tornou a oportunidade para lançar vários iniciantes, como Jorge Nunes. Fora daquele ambiente, time travel também vem sendo o mote dos romances de outros viajantes. Assim foi com Osíris Reis e o capítulo inicial de sua saga, Treze milênios, e é assim com o objeto de atenção deste texto, o primeiro romance do paulistano filho de húngaros Tibor Moricz.
O título do livro, lançado na primeira metade de 2007, já remete àquela idéia da ancestralidade das antigas mitologias na árvore genealógica da ficção científica: Síndrome de Cérbero. Esse é o nome do cão monstruoso que vigia a saída de Hades, a terra dos mortos, nas lendas gregas, um ser que enfrentou o herói Orfeu e o semideus Héracles – ou, Hércules, para os latinos. Na capa da obra, em uma pintura de William Blake – curiosamente não creditada em parte alguma da publicação – a criatura aparece na forma mais conhecida, com as três cabeças prontas para destroçar quem tentasse fugir do destino pós-vida. A explicação para se evocar a besta-fera só vai chegar ao leitor na página 280, quando faltam pouco mais de 50 para o fim do texto. O protagonista da obra, narrador da trama, queixa-se de seus azares: “Por que eu? Estou mergulhado nessa sopa de impressões até o pescoço. Vivo às portas do inferno, enlouquecido pela inconstância e pela dúvida. Nem dentro nem fora. Sinto-me como Cérbero. Não serei eu a viver deslocado da realidade? Uma pessoa à margem da história? Afastado da verdade, uma sombra?”. Só que não é ao reino de Hades que esse Cérbero involuntário está subordinado. Pode-se dizer que o destino dele se perdeu nos domínios de Chronos, aquele que, na mitologia grega, personifica o tempo, um ente que já existia antes mesmo de surgirem os primeiros titãs, deuses ou humanos.
Vamos ao enredo para tentar entender o porquê daquele desabafo shakespeareano feito pelo protagonista quase ao fim da jornada. Antes de mais nada, o nome do personagem em questão é Leonard Cameron e não, ele não é brasileiro. A história contada em Síndrome de Cérbero, apesar de começar em uma data de forte simbologia para o Brasil – em “algum dia de abril de 1964”, coincidindo, portanto, com o primeiro sinal da última ditadura que vivemos neste país – se passa inteiramente nos Estados Unidos. O início ocorre, mais precisamente, no dia 18 de abril de 1964, em uma pequena cidade do estado de Massachussets, chamada Greenville. Durante um piquenique em família, quando ele contava com dez anos de idade, um acontecimento marca o fim da infância de Leonard. O rapaz presencia o assassinato do pai, Robert Cameron, um político progressista com boas chances de se tornar senador, morto com um tiro na testa desferido por um criminoso nunca descoberto. Além de político em ascensão, Robert era o ídolo máximo do filho. Testemunhar o crime marca de tal forma o garoto que o mundo dele começa a perder o sentido na mesma hora. Ao longo de toda a narrativa, de modo obsessivo, a mente dele sempre divaga e retorna ao mesmo ponto, àquela primeira década de vida feliz ao lado da figura paterna.
Leonard Cameron tem uma chance de realmente voltar fisicamente àquele período do tempo, muitos anos depois do atentado. Em fevereiro de 2004, já com 50 anos, leva uma existência banal, sem amigos, sem amantes, sem parentes. Depois de se formar de modo não muito brilhante em física pela Universidade de Yale, conseguiu emprego em uma instalação particular de pesquisa no estado de Connecticut. Como superintendente de Operações da Fundação Leicester, surge a oportunidade de acompanhar e de favorecer com relatórios positivos – algo que representa verbas mais generosas e maior liberdade de ação – certo experimento de um dos cientistas da instituição, Barnard Caldwell. Trata-se de um equipamento que, aparentemente, permite deslocamentos no tempo com o vetor oposto ao da máquina imaginada por Wells no século XIX, sempre para o passado. Uma rápida explicação para o funcionamento do maquinário é dada na página 29. “Para facilitar, a descoberta final foi a seguinte: o tempo não é linear. Ele se comporta como uma corda com suaves ondulações. Barnard chamou cada ondulação de arco”, simplifica Leonard e complementa a seguir: “Imagine uma reta imaginária cortando essa corda no meio. Teremos vários arcos, cada qual com uma extensão de tempo definida. Cada extensão de tempo exatamente igual a 28h17m06s. Ou seja, qualquer coisa que volte ao passado, ocupará um dos arcos na corda de tempo de milhões de anos de nosso planeta”.
Com isso, foram abertas as portas para o atormentado Cérbero desafiar a lógica paradoxal de Chronos em sucessivas viagens com o objetivo de salvar Robert Cameron e mudar o próprio destino. Os efeitos colaterais não demoram a surgir. Alguns são puramente fisiológicos e, relativamente, fáceis de se contornar: após cada deslocamento, a cobaia humana perde grande quantidade de líquidos corporais, sofre de sensibilidade à luz e fica bastante desorientada. Outras implicações são mais complicadas de se descrever e bem mais graves. Além de emprestar certo ar sobrenatural a várias passagens do livro – mesmo que existam explicações racionais, ligadas à física de partículas – elas conseguem tornar a existência de Leonard cada vez mais miserável. Porém, por mais bem conduzidas que sejam as jornadas físicas ao passado, as mesmas que fazem a alegria dos fãs de FC, o grande curinga do livro está nas reminiscências do protagonista. A todo momento, mesmo em meio à mais fantástica experiência científica já realizada, a consciência do homem sempre volta a divagar por aquele período de seus primeiros 10 anos de vida, juntando peças e dando pistas falsas sobre acontecimentos dos quais os leitores acompanham desdobramentos cada vez mais complicados.
O autor se revela muito competente neste jogo de idas e vindas na narrativa e no tempo. Talvez o melhor exemplo esteja na abertura, no prólogo que antecede os curtos capítulos da obra. Naquelas 30 primeiras páginas, os momentos em que o narrador descreve pequenos detalhes de sua infância são carregados de impressões táteis, olfativas, gustativas, visuais e auditivas: a travessura com uma bicicleta, a última pescaria com o pai, os primeiros momentos do piquenique trágico, a posição do vento, a altura da grama. O contraste fica evidente com o desdém insensível, inodoro, insípido, translúcido e taciturno com que são comentados os eventos após a morte de Robert: a adolescência solitária, a primeira transa, a vida universitária, o emprego aborrecido e mesmo a dinâmica por trás da viagem no tempo. Ao longo das páginas, há outros bons exemplos desse controle narrativo seguro e eficiente que ajudou a dar forma a um dos mais bem construídos personagens da ficção científica nacional, dono de uma série de camadas de vida interior e de mudanças de humor que o tornam excepcionalmente crível.
Contudo, se o destaque fica para o lado psicológico de Leonard, a parte mais dinâmica também é uma atração e tanto. Por força das circunstâncias, no vaivém cronológico, ele é forçado a entrar em ação a todo instante, a se meter em lutas corporais, perseguições, fugas e afins, apesar de ser uma pessoa reconhecidamente fora de forma depois de meio século de ócio improdutivo. A sequência em que ele invade uma propriedade murada é especialmente digna de atenção e, provavelmente, carrega algo de auto-ironia, uma vez que a criatura é apenas cinco anos mais velha que seu criador, nascido em 1959. Tibor Moricz se mostra um ótimo escritor nessas pequenas partes que formam o seu romance de estréia. Não é de se estranhar que ele, um publicitário na metade profissional de sua vida, tem recebido prêmios por narrativas mais curtas. Dois de seus contos de temática FC já levaram honrarias que prestam homenagem a autores consagrados do gênero. No XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, “Ordem Crepuscular” – história de ambientação espacial à Jornada nas estrelas – foi uma das vencedoras. Da mesma forma, um exercício de estilo também sobre questões temporais, “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, ganhou o I Prêmio Braulio Tavares, promovido pela maior comunidade em língua portuguesa dedicada à ficção científica do Orkut.
No conjunto de capítulos que formam o romance de 332 páginas, o autor também se sai bem, já que mantém um domínio da trama que, em mãos menos habilidosas, poderia fazer daqueles arcos e cordas temporais um verdadeiro nó cego. Pelo menos na maior parte do tempo. Quase ao final da obra, quando chega o momento de aparar as pontas dos paradoxos cronais e da parte policial, algo acaba sobrando. Apesar de um personagem prometer que “nada ficará sem justificação”, pelo menos uma pergunta se mantém sem resposta e dá a impressão de que este mesmo personagem, pelas regras do jogo, sabe mais do que deveria. É como um gol de mão em nosso time aos 44 do segundo tempo. A rigor, poderia ser uma deixa e tanto para um próximo livro e o enredo de Síndrome de Cérbero se prestaria perfeitamente a uma obra derivada, contada sob um outro ponto de vista, resultando em algo ao mesmo tempo complementar e com vida própria. Material assim já foi feito na literatura de FC pelo americano Orson Scott Card, em sua saga de Ender; ou ainda, para ficar no subgênero da viagem no tempo, em certos momentos da trilogia cinematográfica De volta para o futuro. Resta saber se esta é mesmo a intenção do autor e, claro, se o mercado nacional estaria maduro o suficiente para esse tipo de franquia.
Fora isso, escaparam alguns deslizes no texto que não resistiriam a uma revisão mais rigorosa. A maioria dos casos é de redundâncias, como aquele “imagine uma reta imaginária” do trecho citado páragrafos atrás. Mas há mais, há olhos que olham, pilhas de coisas empilhadas, elos que fazem ligação, pessoas certas de suas certezas, quem encara algo de frente e sobe em cima de algum objeto. Nada que comprometa o prazer de se ler uma boa trama bem contada, todavia são detalhes que poderiam ser resolvidos facilmente na edição. Mas a editora responsável pelo lançamento – JR, mais conhecida por trabalhar com publicações espíritas – também tem seus méritos por publicar uma obra muito bem acabada, com diagramação e tipologia agradáveis. Ficam registradas a ausência do crédito da pintura de capa e uma sugestão para aumentar a gramatura das páginas: em um livro repleto de paradoxos e de pistas espalhadas pelo texto, virar e revirar as folhas é uma necessidade constante. Quando elas são muito finas, como neste caso, acidentes tendem a acontecer...
Tibor Moricz, apesar de ter se lançado tardiamente ao mercado – nos textos de apoio do livro, informa-se que ele escreve desde a adolescência, mas vinha resistindo a publicar seu material –, mostrou-se uma ótima contribuição à FC nacional e ainda promete outras obras para breve. A mistura de viagem no tempo, aventura policial e romance psicológico tornam Síndrome de Cérbero um dos livros de literatura fantástica mais interessantes lançados nesta última, e produtiva, década no país. Quanto aos apaixonados por aquela neomitologia fundada por H. G. Wells, há pouco mais de 110 anos, esses ganharam uma nova obra para influenciar mais sonhos que envolvam desafios aos limites impostos por Chronos. Sonhos que vão continuar enquanto ciência e tecnologia não os tornarem realidade, como elas fizeram com nosso desejo de voar. A vantagem é que isso até pode demorar outros tantos milênios, a exemplo dos que separaram a lenda de Ícaro da invenção do avião; afinal, no caso das viagens no tempo, alguns milênios a mais ou a menos não representam nada no fim.
Serviço: O livro pode ser comprado virtualmente na Saraiva, Cultura, Fnac e Cia dos Livros. O preço normal é R$ 38 reais, mas ele está em promoção por R$ 24,50 no www.submarino.com.br
O título do livro, lançado na primeira metade de 2007, já remete àquela idéia da ancestralidade das antigas mitologias na árvore genealógica da ficção científica: Síndrome de Cérbero. Esse é o nome do cão monstruoso que vigia a saída de Hades, a terra dos mortos, nas lendas gregas, um ser que enfrentou o herói Orfeu e o semideus Héracles – ou, Hércules, para os latinos. Na capa da obra, em uma pintura de William Blake – curiosamente não creditada em parte alguma da publicação – a criatura aparece na forma mais conhecida, com as três cabeças prontas para destroçar quem tentasse fugir do destino pós-vida. A explicação para se evocar a besta-fera só vai chegar ao leitor na página 280, quando faltam pouco mais de 50 para o fim do texto. O protagonista da obra, narrador da trama, queixa-se de seus azares: “Por que eu? Estou mergulhado nessa sopa de impressões até o pescoço. Vivo às portas do inferno, enlouquecido pela inconstância e pela dúvida. Nem dentro nem fora. Sinto-me como Cérbero. Não serei eu a viver deslocado da realidade? Uma pessoa à margem da história? Afastado da verdade, uma sombra?”. Só que não é ao reino de Hades que esse Cérbero involuntário está subordinado. Pode-se dizer que o destino dele se perdeu nos domínios de Chronos, aquele que, na mitologia grega, personifica o tempo, um ente que já existia antes mesmo de surgirem os primeiros titãs, deuses ou humanos.
Vamos ao enredo para tentar entender o porquê daquele desabafo shakespeareano feito pelo protagonista quase ao fim da jornada. Antes de mais nada, o nome do personagem em questão é Leonard Cameron e não, ele não é brasileiro. A história contada em Síndrome de Cérbero, apesar de começar em uma data de forte simbologia para o Brasil – em “algum dia de abril de 1964”, coincidindo, portanto, com o primeiro sinal da última ditadura que vivemos neste país – se passa inteiramente nos Estados Unidos. O início ocorre, mais precisamente, no dia 18 de abril de 1964, em uma pequena cidade do estado de Massachussets, chamada Greenville. Durante um piquenique em família, quando ele contava com dez anos de idade, um acontecimento marca o fim da infância de Leonard. O rapaz presencia o assassinato do pai, Robert Cameron, um político progressista com boas chances de se tornar senador, morto com um tiro na testa desferido por um criminoso nunca descoberto. Além de político em ascensão, Robert era o ídolo máximo do filho. Testemunhar o crime marca de tal forma o garoto que o mundo dele começa a perder o sentido na mesma hora. Ao longo de toda a narrativa, de modo obsessivo, a mente dele sempre divaga e retorna ao mesmo ponto, àquela primeira década de vida feliz ao lado da figura paterna.
Leonard Cameron tem uma chance de realmente voltar fisicamente àquele período do tempo, muitos anos depois do atentado. Em fevereiro de 2004, já com 50 anos, leva uma existência banal, sem amigos, sem amantes, sem parentes. Depois de se formar de modo não muito brilhante em física pela Universidade de Yale, conseguiu emprego em uma instalação particular de pesquisa no estado de Connecticut. Como superintendente de Operações da Fundação Leicester, surge a oportunidade de acompanhar e de favorecer com relatórios positivos – algo que representa verbas mais generosas e maior liberdade de ação – certo experimento de um dos cientistas da instituição, Barnard Caldwell. Trata-se de um equipamento que, aparentemente, permite deslocamentos no tempo com o vetor oposto ao da máquina imaginada por Wells no século XIX, sempre para o passado. Uma rápida explicação para o funcionamento do maquinário é dada na página 29. “Para facilitar, a descoberta final foi a seguinte: o tempo não é linear. Ele se comporta como uma corda com suaves ondulações. Barnard chamou cada ondulação de arco”, simplifica Leonard e complementa a seguir: “Imagine uma reta imaginária cortando essa corda no meio. Teremos vários arcos, cada qual com uma extensão de tempo definida. Cada extensão de tempo exatamente igual a 28h17m06s. Ou seja, qualquer coisa que volte ao passado, ocupará um dos arcos na corda de tempo de milhões de anos de nosso planeta”.
Com isso, foram abertas as portas para o atormentado Cérbero desafiar a lógica paradoxal de Chronos em sucessivas viagens com o objetivo de salvar Robert Cameron e mudar o próprio destino. Os efeitos colaterais não demoram a surgir. Alguns são puramente fisiológicos e, relativamente, fáceis de se contornar: após cada deslocamento, a cobaia humana perde grande quantidade de líquidos corporais, sofre de sensibilidade à luz e fica bastante desorientada. Outras implicações são mais complicadas de se descrever e bem mais graves. Além de emprestar certo ar sobrenatural a várias passagens do livro – mesmo que existam explicações racionais, ligadas à física de partículas – elas conseguem tornar a existência de Leonard cada vez mais miserável. Porém, por mais bem conduzidas que sejam as jornadas físicas ao passado, as mesmas que fazem a alegria dos fãs de FC, o grande curinga do livro está nas reminiscências do protagonista. A todo momento, mesmo em meio à mais fantástica experiência científica já realizada, a consciência do homem sempre volta a divagar por aquele período de seus primeiros 10 anos de vida, juntando peças e dando pistas falsas sobre acontecimentos dos quais os leitores acompanham desdobramentos cada vez mais complicados.
O autor se revela muito competente neste jogo de idas e vindas na narrativa e no tempo. Talvez o melhor exemplo esteja na abertura, no prólogo que antecede os curtos capítulos da obra. Naquelas 30 primeiras páginas, os momentos em que o narrador descreve pequenos detalhes de sua infância são carregados de impressões táteis, olfativas, gustativas, visuais e auditivas: a travessura com uma bicicleta, a última pescaria com o pai, os primeiros momentos do piquenique trágico, a posição do vento, a altura da grama. O contraste fica evidente com o desdém insensível, inodoro, insípido, translúcido e taciturno com que são comentados os eventos após a morte de Robert: a adolescência solitária, a primeira transa, a vida universitária, o emprego aborrecido e mesmo a dinâmica por trás da viagem no tempo. Ao longo das páginas, há outros bons exemplos desse controle narrativo seguro e eficiente que ajudou a dar forma a um dos mais bem construídos personagens da ficção científica nacional, dono de uma série de camadas de vida interior e de mudanças de humor que o tornam excepcionalmente crível.
Contudo, se o destaque fica para o lado psicológico de Leonard, a parte mais dinâmica também é uma atração e tanto. Por força das circunstâncias, no vaivém cronológico, ele é forçado a entrar em ação a todo instante, a se meter em lutas corporais, perseguições, fugas e afins, apesar de ser uma pessoa reconhecidamente fora de forma depois de meio século de ócio improdutivo. A sequência em que ele invade uma propriedade murada é especialmente digna de atenção e, provavelmente, carrega algo de auto-ironia, uma vez que a criatura é apenas cinco anos mais velha que seu criador, nascido em 1959. Tibor Moricz se mostra um ótimo escritor nessas pequenas partes que formam o seu romance de estréia. Não é de se estranhar que ele, um publicitário na metade profissional de sua vida, tem recebido prêmios por narrativas mais curtas. Dois de seus contos de temática FC já levaram honrarias que prestam homenagem a autores consagrados do gênero. No XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, “Ordem Crepuscular” – história de ambientação espacial à Jornada nas estrelas – foi uma das vencedoras. Da mesma forma, um exercício de estilo também sobre questões temporais, “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, ganhou o I Prêmio Braulio Tavares, promovido pela maior comunidade em língua portuguesa dedicada à ficção científica do Orkut.
No conjunto de capítulos que formam o romance de 332 páginas, o autor também se sai bem, já que mantém um domínio da trama que, em mãos menos habilidosas, poderia fazer daqueles arcos e cordas temporais um verdadeiro nó cego. Pelo menos na maior parte do tempo. Quase ao final da obra, quando chega o momento de aparar as pontas dos paradoxos cronais e da parte policial, algo acaba sobrando. Apesar de um personagem prometer que “nada ficará sem justificação”, pelo menos uma pergunta se mantém sem resposta e dá a impressão de que este mesmo personagem, pelas regras do jogo, sabe mais do que deveria. É como um gol de mão em nosso time aos 44 do segundo tempo. A rigor, poderia ser uma deixa e tanto para um próximo livro e o enredo de Síndrome de Cérbero se prestaria perfeitamente a uma obra derivada, contada sob um outro ponto de vista, resultando em algo ao mesmo tempo complementar e com vida própria. Material assim já foi feito na literatura de FC pelo americano Orson Scott Card, em sua saga de Ender; ou ainda, para ficar no subgênero da viagem no tempo, em certos momentos da trilogia cinematográfica De volta para o futuro. Resta saber se esta é mesmo a intenção do autor e, claro, se o mercado nacional estaria maduro o suficiente para esse tipo de franquia.
Fora isso, escaparam alguns deslizes no texto que não resistiriam a uma revisão mais rigorosa. A maioria dos casos é de redundâncias, como aquele “imagine uma reta imaginária” do trecho citado páragrafos atrás. Mas há mais, há olhos que olham, pilhas de coisas empilhadas, elos que fazem ligação, pessoas certas de suas certezas, quem encara algo de frente e sobe em cima de algum objeto. Nada que comprometa o prazer de se ler uma boa trama bem contada, todavia são detalhes que poderiam ser resolvidos facilmente na edição. Mas a editora responsável pelo lançamento – JR, mais conhecida por trabalhar com publicações espíritas – também tem seus méritos por publicar uma obra muito bem acabada, com diagramação e tipologia agradáveis. Ficam registradas a ausência do crédito da pintura de capa e uma sugestão para aumentar a gramatura das páginas: em um livro repleto de paradoxos e de pistas espalhadas pelo texto, virar e revirar as folhas é uma necessidade constante. Quando elas são muito finas, como neste caso, acidentes tendem a acontecer...
Tibor Moricz, apesar de ter se lançado tardiamente ao mercado – nos textos de apoio do livro, informa-se que ele escreve desde a adolescência, mas vinha resistindo a publicar seu material –, mostrou-se uma ótima contribuição à FC nacional e ainda promete outras obras para breve. A mistura de viagem no tempo, aventura policial e romance psicológico tornam Síndrome de Cérbero um dos livros de literatura fantástica mais interessantes lançados nesta última, e produtiva, década no país. Quanto aos apaixonados por aquela neomitologia fundada por H. G. Wells, há pouco mais de 110 anos, esses ganharam uma nova obra para influenciar mais sonhos que envolvam desafios aos limites impostos por Chronos. Sonhos que vão continuar enquanto ciência e tecnologia não os tornarem realidade, como elas fizeram com nosso desejo de voar. A vantagem é que isso até pode demorar outros tantos milênios, a exemplo dos que separaram a lenda de Ícaro da invenção do avião; afinal, no caso das viagens no tempo, alguns milênios a mais ou a menos não representam nada no fim.
Serviço: O livro pode ser comprado virtualmente na Saraiva, Cultura, Fnac e Cia dos Livros. O preço normal é R$ 38 reais, mas ele está em promoção por R$ 24,50 no www.submarino.com.br
Acidental feito pedra no caminho
Romancista estreante e contista premiado, como leitor ele se define atípico e como escritor de ficção científica diz que o gênero surgiu em sua vida feito uma topada numa pedra. O primeiro romance dele, Síndrome de Cérbero - no qual um homem de meia idade viaja 40 anos ao passado para tentar salvar o idolatrado pai de ser assassinado - é uma amostra de seus objetivos literários: um autor que pretende utilizar ferramentas do gênero para tratar das angústias humanas, dos dilemas do indivíduo. Na entrevista a seguir, o paulistano comenta os motivos para ter situado o livro em um cenário estrangeiro, descreve um pouco do método quase mediúnico de escrita e aproveita a experiência como publicitário para analisar as estratégias possíveis para se popularizar a FC no Brasil. Com vocês, o sobrinho-neto do escritor e dramaturgo húngaro Zsigmond Moricz (1879-1942), Tibor Moricz.
Você lançou seu primeiro livro com praticamente a mesma idade do protagonista da obra, às vésperas de completar 50 anos. Mas, nos textos de apresentação de Síndrome de Cérbero, é dito que você escreve desde a adolescência. Há muitos outros textos seus, quer sejam ou não de ficção científica ou de literatura fantástica em geral, já elaborados e aguardando publicação?
Devo ter escrito ao longo da minha vida centenas de contos. Todos eles perdidos nas mudanças que realizei ou devorados pelas baratas. Tenho dois romances prontos. Mas a editora cometeu um exagero quando disse que eles estavam no prelo. Na verdade não tenho nenhuma intenção de publicá-los. Um deles é uma fantasia medieval que cheguei a reescrever quatro vezes procurando aprimorá-lo; o outro, um livro de aventura e sobrenatural que, embora seja relativamente bom, está longe de me agradar inteiramente. E quando não me sinto seguro com algum escrito, não o torno público. Jamais. Há um terceiro, mas este foi escrito recentemente, tem o título de Fome e se encontra nas mãos de alguns editores conhecidos. Acredito muito na sua publicação. O conto que abre o livro está disponível na internet e já foi lido por muitos. Chama-se “O caçador”.
Depois de tanto tempo escrevendo antes de se lançar às livrarias, por que você escolheu a FC como tema do romance de estréia? De onde veio seu interesse pelo gênero e que autores você costuma ler e lhe servem de referência?
Uma vez eu disse que a FC aconteceu na minha vida da mesma maneira que uma pedra acontece na vida de algum passante distraído. Foi uma topada acidental. Ocorreu de elaborar uma história cuja temática central era de viagem no tempo. Resisti muito a aceitá-lo como ficção científica porque meu objetivo era – e sempre será – o homem. O indivíduo. Suas incertezas, seus medos, suas imperfeições. Utilizei a poderosa máquina de Barnard Caldwell apenas para dar uma base segura ao argumento principal que era o amor de um filho pelo pai. Com o passar do tempo fui me ajeitando dentro desse novo contexto e comecei a aceitar o fato de ter escrito uma obra de ficção científica. Justamente por ter sido um evento acidental não posso dizer que fui influenciado por esse ou aquele autor do gênero. Sou um leitor diferente. Em muitos aspectos, atípico. Desde a pré-adolescência venho lendo quase tudo o que me cai nas mãos. Muito mais literatura mainstream que de gênero, embora tenha lido Isaac Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, Robert Silverberg e outros. Considero-me atípico porque não lembro os livros que li, a não ser uma meia dúzia que por essa ou aquela razão me marcaram. Nesses, incluo Sexus, Nexus e Plexus de Arthur Miller, A insustentável leveza do ser de Milan Kundera, Complexo de Portnoy de Philip Roth, Fome de Knut Hamsun, Os sete minutos de Irving Wallace e outros mais recentes que ainda não foram removidos para o arquivo morto da minha memória (rsrs). Minha maior influência veio mesmo da TV e do cinema. Fui um entusiasta de Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Viagem ao fundo do mar, Star wars e quaisquer outros filmes ou séries nessa temática. Assim, posso dizer que minhas referências literárias vêm de uma imensa sopa de impressões obtidas com a leitura de livros dos mais diversos gêneros, a esmagadora maioria completamente esquecida por mim atualmente.
Foi feita muita pesquisa para compor a trama de Síndrome de Cérbero, tanto nos aspectos técnicos da viagem no tempo, envolvendo algumas teorias de física; quanto na construção psicológica do personagem principal, Leonard Cameron; ou ainda no cenário do livro, que se passa inteiramente em cidades de porte médio dos EUA?
Média. A construção psicológica do personagem não exigiu pesquisa nenhuma. Saiu tudo da minha cabeça. Os detalhes técnicos sobre a viagem no tempo mereceram uma pesquisa básica já que não mergulhei de cabeça no aspecto hard da ciência. Quanto ao cenário, tive que pesquisar o cotidiano e a geografia dos EUA, mas nada muito exaustivo.
Por falar na ambientação do livro, por que você optou por criar uma história que não tenha nenhum elemento, ou mesmo citação, ao Brasil ou à terra natal de seus pais, a Hungria? Em relação ao primeiro caso, foi para fugir do mito do Capitão Barbosa, como é apelidado o temor de que soe ridículo o uso de personagens e de temáticas brasileiras em um enredo de ficção científica?
Na ocasião eu não conhecia o mito do Capitão Barbosa, embora tivesse sido exatamente por isso que resolvi ambientar a história do livro num país estrangeiro. Não conseguia (nem consigo agora) imaginar um cientista chamado Benedito ou um “da Silva”. O cenário brasileiro contemporâneo me remete a outros argumentos ficcionais, todos eles realistas e mais condizentes com a literatura mainstream. Pobreza, crime e corrupção (vividas tão de perto e intensamente) são referências desestimulantes para quem quer escrever uma boa história de FC. Pelo menos pra mim.
Sua escolha por utilizar personagens e cenários americanos provocou alguma reação perceptível entre os leitores? Houve alguma crítica positiva ou negativa por ter feito tal opção?
Poucas reações. O Fábio Fernandes comentou que perdi uma excelente oportunidade em ambientá-lo no Brasil do golpe militar. Li alguns comentários sobre o fato em algumas comunidades do Orkut. Alguns puristas reclamando da “imbecilidade” de um brasileiro ambientar sua história noutro lugar, num país estrangeiro, como se isso fosse um crime de lesa-pátria. Tudo bobagem. Mas as reações negativas foram realmente pequenas. Graças a Deus os elogios suplantam em muito as críticas.
Síndrome de Cérbero pretende ter alguma forma de continuação, seja na forma de uma seqüência da história, seja com uma adaptação para outra mídia, ou você já explorou tudo o que tinha a dizer sobre aqueles personagens?
Na minha cabeça não há a menor chance de escrever uma continuação para Síndrome de Cérbero. Quanto a adaptações para outras mídias, acho-as pertinentes. Mas nem sei como poderia fazer isso. Gosto de pensar que o livro renderia um bom filme, mas sei que isso é fantasia e estamos falando de ficção científica (rsrs).
Seu livro foi publicado por uma empresa que é conhecida pelo lançamento de títulos ligados ao espiritismo – JR Editora – que nunca mostrou interesse anterior pela ficção especulativa. Como foram os bastidores dessa negociação e há possibilidade de a editora voltar a lançar outras obras do gênero, de suas ou de outros autores?
As coisas com a JR Editora aconteceram de forma completamente inusual. Estava batalhando uma editora há dois anos sem nenhum resultado positivo. Um amigo, escritor do gênero de auto-ajuda, me convidou para uma noite de autógrafos numa livraria Siciliano próxima de casa. Fui. Lá conheci o editor, para quem enderecei todas as minhas reclamações quanto à capa abominável do livro que se homenageava naquela noite. Propuseram-me então que apresentasse uma capa melhor, que desenvolvesse um projeto. Aceitei com a condição de que o editor me auxiliasse na procura de uma outra editora para Síndrome, já que ele estava fora da linha editorial da JR. Condição aceita, iniciei o trabalho a que me propus. Duas semanas depois, numa reunião onde apresentei as opções de capa, entreguei ao editor o original de Síndrome de Cérbero. Ele leu a sinopse e declarou interesse em publicá-lo. Coisa que acabou acontecendo um ano e meio depois. Tive muita sorte, na verdade. Quanto a possibilidade da JR Editora vir a publicar outras obras do gênero, desconheço. Mas acho que nada impede um bom argumento de ser aceito.
Apesar de se lançar como escritor já com um romance, você tem sido premiado por textos mais curtos que também tratam de temas de FC. Foi assim com “Ordem Crepuscular” e com “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, respectivamente vencedores dos prêmios Ignácio de Loyola Brandão, no XI Concurso de Contos de Araraquara, e Braulio Tavares, em uma competição promovida no Orkut que em breve deverá dar origem a uma coletânea. Qual a importância desse tipo de incentivo para um autor iniciante?
Acho que para chegar ao ponto de um autor iniciante ser premiado num concurso de contos qualquer que se pretenda sério, é necessário que ele já tenha queimado uma série de etapas anteriores. Ter escrito bastante para evoluir tecnicamente, poder dizer que desenvolveu um estilo próprio. Ter sublimado aquilo a que chamamos de talento (desde que ele exista nessa pessoa) e tê-lo transformado em ferramenta constante e não apenas efêmera e ocasional. Depois de tudo isso, um prêmio num concurso de contos é apenas a ratificação de um trabalho árduo. O verdadeiro incentivo não está nos prêmios nem nos concursos. Ele está à nossa volta. Em nós mesmos. Naquilo em que acreditamos. Naquilo que queremos para nós e para as pessoas que amamos.
Há alguma diferença marcante entre seu processo de elaboração de um romance e o de um conto? Poderia descrever como é sua preparação no momento em que resolve criar alguma história?
Meu processo criativo é, de certa forma, entrópico. Não há, na maioria das vezes, uma elaboração antecipada. Quanto muito uma idéia básica. Eu me sento para escrever e deixo o texto fluir. É quase mediúnico. Síndrome de Cérbero recebeu de mim uma atenção rasteira quanto à linha geral de raciocínio que nortearia o trabalho. Resolvi o nome dos personagens, decidi que o filho tentaria salvar o pai sucessivas vezes de um assassinato e o resto foi acontecendo na medida em que escrevia. Eu era um escritor/leitor privilegiado. Conto ou romance, ambos sofrem o mesmo processo. Posso sentar, respirar fundo diante do editor de texto e começar a batucar o teclado. Colocar palavras a esmo, deixar que elas se sucedam e formem linhas, orações, páginas inteiras. Em 90% das vezes fico satisfeito com o trabalho. Ultimamente tenho permitido que a inspiração me atinja, em vez de simplesmente sentar e escrever. Deixo a mente aberta até que uma idéia surja e brilhe. Devo ter um anjo da guarda literato que me sopra as idéias, talvez até um anjo familiar já que meu tio-avô Zsigmond Moricz foi um dos escritores mais importantes da Hungria no século passado (rsrs).
Aproveitando da sua experiência profissional como publicitário, você poderia sugerir alguma estratégia para popularizar a ficção científica entre o público brasileiro? O que está faltando para atingir maiores mercados consumidores para o gênero?
Essa questão me lembra um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou a cobra Ouroboros. Não há jornalismo literário especializado no país, o que dizer então em relação à literatura de gênero. Por outro lado, não temos um gênero especializado no país, que dirá um jornalismo que o respeite. O que quero dizer é que faltam obras verdadeiramente respeitáveis, que chamem a atenção pela inequívoca qualidade. Trabalhos que, pela virtude técnica, poderiam lutar ombro a ombro com a literatura mainstream. Trabalhos que valorizem não apenas uma boa idéia, mas também o poder narrativo.
Indo direto ao ponto, precisamos primeiro produzir obras de inegável qualidade para depois reclamar a falta de atenção da mídia. Claro que campanhas publicitárias ajudariam, mas qual editora investiria num autor brasileiro de futuro ignorado? Já é uma luta conseguir uma que aceite nos publicar, convencê-las a nos bancar publicitariamente é quase uma alucinação. Não resta alternativa senão usar e abusar dos recursos que a internet nos fornece. Divulgar nossos trabalhos e nomes em blogs, comunidades, sites diversos, explorar ferramentas como o Youtube. E contar com a sorte. Ela às vezes dá as caras. Temos que estar atentos para agarrá-la nessa hora.
Você lançou seu primeiro livro com praticamente a mesma idade do protagonista da obra, às vésperas de completar 50 anos. Mas, nos textos de apresentação de Síndrome de Cérbero, é dito que você escreve desde a adolescência. Há muitos outros textos seus, quer sejam ou não de ficção científica ou de literatura fantástica em geral, já elaborados e aguardando publicação?
Devo ter escrito ao longo da minha vida centenas de contos. Todos eles perdidos nas mudanças que realizei ou devorados pelas baratas. Tenho dois romances prontos. Mas a editora cometeu um exagero quando disse que eles estavam no prelo. Na verdade não tenho nenhuma intenção de publicá-los. Um deles é uma fantasia medieval que cheguei a reescrever quatro vezes procurando aprimorá-lo; o outro, um livro de aventura e sobrenatural que, embora seja relativamente bom, está longe de me agradar inteiramente. E quando não me sinto seguro com algum escrito, não o torno público. Jamais. Há um terceiro, mas este foi escrito recentemente, tem o título de Fome e se encontra nas mãos de alguns editores conhecidos. Acredito muito na sua publicação. O conto que abre o livro está disponível na internet e já foi lido por muitos. Chama-se “O caçador”.
Depois de tanto tempo escrevendo antes de se lançar às livrarias, por que você escolheu a FC como tema do romance de estréia? De onde veio seu interesse pelo gênero e que autores você costuma ler e lhe servem de referência?
Uma vez eu disse que a FC aconteceu na minha vida da mesma maneira que uma pedra acontece na vida de algum passante distraído. Foi uma topada acidental. Ocorreu de elaborar uma história cuja temática central era de viagem no tempo. Resisti muito a aceitá-lo como ficção científica porque meu objetivo era – e sempre será – o homem. O indivíduo. Suas incertezas, seus medos, suas imperfeições. Utilizei a poderosa máquina de Barnard Caldwell apenas para dar uma base segura ao argumento principal que era o amor de um filho pelo pai. Com o passar do tempo fui me ajeitando dentro desse novo contexto e comecei a aceitar o fato de ter escrito uma obra de ficção científica. Justamente por ter sido um evento acidental não posso dizer que fui influenciado por esse ou aquele autor do gênero. Sou um leitor diferente. Em muitos aspectos, atípico. Desde a pré-adolescência venho lendo quase tudo o que me cai nas mãos. Muito mais literatura mainstream que de gênero, embora tenha lido Isaac Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, Robert Silverberg e outros. Considero-me atípico porque não lembro os livros que li, a não ser uma meia dúzia que por essa ou aquela razão me marcaram. Nesses, incluo Sexus, Nexus e Plexus de Arthur Miller, A insustentável leveza do ser de Milan Kundera, Complexo de Portnoy de Philip Roth, Fome de Knut Hamsun, Os sete minutos de Irving Wallace e outros mais recentes que ainda não foram removidos para o arquivo morto da minha memória (rsrs). Minha maior influência veio mesmo da TV e do cinema. Fui um entusiasta de Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Viagem ao fundo do mar, Star wars e quaisquer outros filmes ou séries nessa temática. Assim, posso dizer que minhas referências literárias vêm de uma imensa sopa de impressões obtidas com a leitura de livros dos mais diversos gêneros, a esmagadora maioria completamente esquecida por mim atualmente.
Foi feita muita pesquisa para compor a trama de Síndrome de Cérbero, tanto nos aspectos técnicos da viagem no tempo, envolvendo algumas teorias de física; quanto na construção psicológica do personagem principal, Leonard Cameron; ou ainda no cenário do livro, que se passa inteiramente em cidades de porte médio dos EUA?
Média. A construção psicológica do personagem não exigiu pesquisa nenhuma. Saiu tudo da minha cabeça. Os detalhes técnicos sobre a viagem no tempo mereceram uma pesquisa básica já que não mergulhei de cabeça no aspecto hard da ciência. Quanto ao cenário, tive que pesquisar o cotidiano e a geografia dos EUA, mas nada muito exaustivo.
Por falar na ambientação do livro, por que você optou por criar uma história que não tenha nenhum elemento, ou mesmo citação, ao Brasil ou à terra natal de seus pais, a Hungria? Em relação ao primeiro caso, foi para fugir do mito do Capitão Barbosa, como é apelidado o temor de que soe ridículo o uso de personagens e de temáticas brasileiras em um enredo de ficção científica?
Na ocasião eu não conhecia o mito do Capitão Barbosa, embora tivesse sido exatamente por isso que resolvi ambientar a história do livro num país estrangeiro. Não conseguia (nem consigo agora) imaginar um cientista chamado Benedito ou um “da Silva”. O cenário brasileiro contemporâneo me remete a outros argumentos ficcionais, todos eles realistas e mais condizentes com a literatura mainstream. Pobreza, crime e corrupção (vividas tão de perto e intensamente) são referências desestimulantes para quem quer escrever uma boa história de FC. Pelo menos pra mim.
Sua escolha por utilizar personagens e cenários americanos provocou alguma reação perceptível entre os leitores? Houve alguma crítica positiva ou negativa por ter feito tal opção?
Poucas reações. O Fábio Fernandes comentou que perdi uma excelente oportunidade em ambientá-lo no Brasil do golpe militar. Li alguns comentários sobre o fato em algumas comunidades do Orkut. Alguns puristas reclamando da “imbecilidade” de um brasileiro ambientar sua história noutro lugar, num país estrangeiro, como se isso fosse um crime de lesa-pátria. Tudo bobagem. Mas as reações negativas foram realmente pequenas. Graças a Deus os elogios suplantam em muito as críticas.
Síndrome de Cérbero pretende ter alguma forma de continuação, seja na forma de uma seqüência da história, seja com uma adaptação para outra mídia, ou você já explorou tudo o que tinha a dizer sobre aqueles personagens?
Na minha cabeça não há a menor chance de escrever uma continuação para Síndrome de Cérbero. Quanto a adaptações para outras mídias, acho-as pertinentes. Mas nem sei como poderia fazer isso. Gosto de pensar que o livro renderia um bom filme, mas sei que isso é fantasia e estamos falando de ficção científica (rsrs).
Seu livro foi publicado por uma empresa que é conhecida pelo lançamento de títulos ligados ao espiritismo – JR Editora – que nunca mostrou interesse anterior pela ficção especulativa. Como foram os bastidores dessa negociação e há possibilidade de a editora voltar a lançar outras obras do gênero, de suas ou de outros autores?
As coisas com a JR Editora aconteceram de forma completamente inusual. Estava batalhando uma editora há dois anos sem nenhum resultado positivo. Um amigo, escritor do gênero de auto-ajuda, me convidou para uma noite de autógrafos numa livraria Siciliano próxima de casa. Fui. Lá conheci o editor, para quem enderecei todas as minhas reclamações quanto à capa abominável do livro que se homenageava naquela noite. Propuseram-me então que apresentasse uma capa melhor, que desenvolvesse um projeto. Aceitei com a condição de que o editor me auxiliasse na procura de uma outra editora para Síndrome, já que ele estava fora da linha editorial da JR. Condição aceita, iniciei o trabalho a que me propus. Duas semanas depois, numa reunião onde apresentei as opções de capa, entreguei ao editor o original de Síndrome de Cérbero. Ele leu a sinopse e declarou interesse em publicá-lo. Coisa que acabou acontecendo um ano e meio depois. Tive muita sorte, na verdade. Quanto a possibilidade da JR Editora vir a publicar outras obras do gênero, desconheço. Mas acho que nada impede um bom argumento de ser aceito.
Apesar de se lançar como escritor já com um romance, você tem sido premiado por textos mais curtos que também tratam de temas de FC. Foi assim com “Ordem Crepuscular” e com “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, respectivamente vencedores dos prêmios Ignácio de Loyola Brandão, no XI Concurso de Contos de Araraquara, e Braulio Tavares, em uma competição promovida no Orkut que em breve deverá dar origem a uma coletânea. Qual a importância desse tipo de incentivo para um autor iniciante?
Acho que para chegar ao ponto de um autor iniciante ser premiado num concurso de contos qualquer que se pretenda sério, é necessário que ele já tenha queimado uma série de etapas anteriores. Ter escrito bastante para evoluir tecnicamente, poder dizer que desenvolveu um estilo próprio. Ter sublimado aquilo a que chamamos de talento (desde que ele exista nessa pessoa) e tê-lo transformado em ferramenta constante e não apenas efêmera e ocasional. Depois de tudo isso, um prêmio num concurso de contos é apenas a ratificação de um trabalho árduo. O verdadeiro incentivo não está nos prêmios nem nos concursos. Ele está à nossa volta. Em nós mesmos. Naquilo em que acreditamos. Naquilo que queremos para nós e para as pessoas que amamos.
Há alguma diferença marcante entre seu processo de elaboração de um romance e o de um conto? Poderia descrever como é sua preparação no momento em que resolve criar alguma história?
Meu processo criativo é, de certa forma, entrópico. Não há, na maioria das vezes, uma elaboração antecipada. Quanto muito uma idéia básica. Eu me sento para escrever e deixo o texto fluir. É quase mediúnico. Síndrome de Cérbero recebeu de mim uma atenção rasteira quanto à linha geral de raciocínio que nortearia o trabalho. Resolvi o nome dos personagens, decidi que o filho tentaria salvar o pai sucessivas vezes de um assassinato e o resto foi acontecendo na medida em que escrevia. Eu era um escritor/leitor privilegiado. Conto ou romance, ambos sofrem o mesmo processo. Posso sentar, respirar fundo diante do editor de texto e começar a batucar o teclado. Colocar palavras a esmo, deixar que elas se sucedam e formem linhas, orações, páginas inteiras. Em 90% das vezes fico satisfeito com o trabalho. Ultimamente tenho permitido que a inspiração me atinja, em vez de simplesmente sentar e escrever. Deixo a mente aberta até que uma idéia surja e brilhe. Devo ter um anjo da guarda literato que me sopra as idéias, talvez até um anjo familiar já que meu tio-avô Zsigmond Moricz foi um dos escritores mais importantes da Hungria no século passado (rsrs).
Aproveitando da sua experiência profissional como publicitário, você poderia sugerir alguma estratégia para popularizar a ficção científica entre o público brasileiro? O que está faltando para atingir maiores mercados consumidores para o gênero?
Essa questão me lembra um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou a cobra Ouroboros. Não há jornalismo literário especializado no país, o que dizer então em relação à literatura de gênero. Por outro lado, não temos um gênero especializado no país, que dirá um jornalismo que o respeite. O que quero dizer é que faltam obras verdadeiramente respeitáveis, que chamem a atenção pela inequívoca qualidade. Trabalhos que, pela virtude técnica, poderiam lutar ombro a ombro com a literatura mainstream. Trabalhos que valorizem não apenas uma boa idéia, mas também o poder narrativo.
Indo direto ao ponto, precisamos primeiro produzir obras de inegável qualidade para depois reclamar a falta de atenção da mídia. Claro que campanhas publicitárias ajudariam, mas qual editora investiria num autor brasileiro de futuro ignorado? Já é uma luta conseguir uma que aceite nos publicar, convencê-las a nos bancar publicitariamente é quase uma alucinação. Não resta alternativa senão usar e abusar dos recursos que a internet nos fornece. Divulgar nossos trabalhos e nomes em blogs, comunidades, sites diversos, explorar ferramentas como o Youtube. E contar com a sorte. Ela às vezes dá as caras. Temos que estar atentos para agarrá-la nessa hora.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
O retorno do príncipe
Pode parecer bizarro para a maioria das pessoas dizer que uma das séries cinematográficas mais identificadas com a ficção científica não é classificada como tal pelos críticos mais puristas. Para boa parte dos especialistas, faltaria às duas trilogias de Guerra nas estrelas especifidades para inclui-las naquela classificação. Faltaria, basicamente, ciência, a busca pelo conhecimento para sustentar as proezas tecnológicas imaginadas nos anos 70. O argumento é que todo o cenário espacial pode ser substituído por equivalentes low tech sem causar prejuízo à epopéia dos Skywalker. Algo que a série de livros iniciada com Eragon – que até já foi adaptado para o cinema – de autoria do jovem Christopher Paolini, parece tentar provar, ao trocar os sabres de luz por espadas comuns, naves por dragões e ainda assim manter quase intocado o núcleo da saga jedi. Segundo esse ponto de vista, mesmo sendo sinônimo de FC para milhões de fãs, a obra mais famosa de George Lucas deveria ser etiquetada como fantasia tecnológica, e seria mais aparentada dos escritos de J.R.R Tolkien que dos textos de H.G. Wells. Sempre que a questão é levantada na presença, física ou virtual, de cultuadores de FC, mobiliza opiniões entusiasmadas. Desde o final de 2007, esse tão controverso gênero fronteiriço ganhou um novo representante literário para alimentar mais discussões: Hegemonia – O herdeiro de Basten, livro escrito por Clinton Davisson e lançado pela editora Arte e Cultura.
Apesar de o nome do autor não dar pistas – ele foi batizado em homenagem a um físico americano vencendor do prêmio Nobel –, trata-se, sim, de uma obra nacional. Davisson nasceu em Volta Redonda, formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, de Minas Gerais, e voltou ao estado do Rio de Janeiro, mais exatamente à cidade de Macaé, onde trabalha como jornalista e cartunista. Ele já havia se aventurado na FC em 1999, ao lançar um livro que misturava futebol e futurismo, Fáfia – A copa do mundo de 2022, mesma proposta da coletânea Outras copas, outros mundos publicada um ano antes. Mas Hegemonia é uma aposta mais ambiciosa. A idéia básica acompanha o autor há mais de 30 anos, desde que tinha apenas cinco anos de idade, e, segundo informaçõe nos textos de apresentação da obra, a produção do texto consumiu sete anos: no ano 2000, uma versão prévia da trama ficou em terceiro lugar no concurso promovido por uma revista especializada no gênero, a Sci Fi News. Todo esse trabalho foi feito para estruturar o livro que se pretende o primeiro não de uma, mas de duas trilogias – e essa é apenas mais uma semelhança com aquela história ocorrida há muito tempo, em uma galáxia muito distante.
Já que estamos voltando no tempo, vamos dar uma recuada de meio milênio para entender o título da obra. A história começou com o filósfo italiano Nicolau Maquiavel, em 1513. Após ter servido como secretário de estado em uma experiência republicana em sua cidade natal, Florença, o pensador foi expulso da região quando os Médici retomaram o governo. No exílio, ele escreveu sua obra mais famosa, O príncipe, um texto marcado pelo pragmatismo que dá conselhos a um soberano hipotético sobre as reais condições por trás da conquista e da manutenção do poder. Mesmo país, quatro séculos depois, alguns dos conceitos maquiavélicos foram atualizados por outro filósofo, Antonio Gramsci, nascido na Sardenha. Fundador do Partido Comunista Italiano em 1921, apenas cinco anos mais tarde ele acabou sendo encarcerado pelo governo fascista que tomou conta da Itália. Na cadeia, foram produzidas suas teses mais conhecidas, postumamente reunidas nos Cadernos do cárcere, entre elas as que davam a receita para um novo ente alcançar o poder: o “moderno príncipe”. A diferença básica entre as idéias de um pensador e outro é que o florentino falava a uma pessoa física; já o sardo imaginava um organismo coletivo que deveria garantir as condições ideais de controle social, ou seja, da conquista da hegemonia. “A hegemonia é a capacidade de um grupo social de assumir a direção intelectual e moral sobre a sociedade, sua capacidade de construir em torno de seu projeto um novo sistema de alianças sociais, um novo bloco hitórico”, esse é um conceito gramsciano citado logo no início do livro nacional.
O escritor fluminense criou sua obra entre esses dois pólos, o dos soberanos de fato e o de uma estrutura coletiva, ambos buscando manter a direção intelectual e moral de suas sociedades. O ente coletivo, o “novo príncipe”, é representado por nada menos que um planeta inteiro, Dison, um mundo cercado por uma concha que o torna inexpugnável. Seus habitantes se denominam simplesmente de a Hegemonia e, de fato, assumem o controle de toda uma galáxia. O poderio bélico e cultural dos disonianos é fortíssimo, porém é possível perceber que se trata de um império atravessando o período de decadência, com vários de seus cidadãos se alienando da vida real em busca fugas na realidade virtual, por exemplo. Apesar de toda a influência que possui, a Hegemonia atual parece ser apenas uma sombra do que foi a geração que fundou tal império em tempos antigos; uma casta de seres que, literalmente, tinha o poder de criar mundos. Não apenas Dison como os outros quatro planetas do sistema solar em que se passa a história foram construídos por esses misteriosos fundadores. Isso inclui Elôh, o mundo do protagonista do livro, Ron Ger Schowlen, um príncipe na tradição maquiavélica do termo.
Ron, o herdeiro do subtítulo do livro, passou dez anos naquela capital do império se preparando para se tornar um verdadeiro cidadão de Dison. Uma grande frustação o afasta desses planos e o faz voltar àquele planeta periférico, mais especificamente ao reino de Basten, governado por seu irmão bem mais velho, Shodan. A história do livro é narrada pelos pensamentos do príncipe, gravados em um equipamento acoplado a uma poderosa armadura de combate que é o equipamento padrão entre os disonianos, a derma. Desde o início percebemos que isso não é sinônimo de uma versão isenta dos fatos, já que o rapaz tem a possibilidade de editar a gravação de tais memórias, cortando trechos indesejados, por exemplo. Mesmo assim, o registro pessoal, e um tanto improvisado, se torna a base para historiadores de um futuro distante analisarem os fatos que estariam por provocar uma verdadeira revolução no sistema da Hegemonia.
De início, os registros dão conta do tédio do herdeiro na volta ao lar – uma cidade gelada habitada por humanóides, assim como ele próprio, totalmente albinos – e de uma confusa e mal resolvida relação com o seu casal de irmãos. A situação muda quando surge em Basten um grupo de gelfos, pequenos seres marsupiais, pedindo auxílio para defender sua distante vila do cerco de dragões. Sim, dragões, do tipo que voam, cospem fogo e ainda por cima falam – existe até mesmo um dicionário do dialeto das criaturas nos apêndices do livro. A partir daí, Hegemonia torna-se uma história clássica de jornada e de como ela vai modificar o protagonista, jogando por terra vários de suas idéias pré-concebidas. Como a tecnologia dos planetas periféricos é muito inferior à de Dison, as enormes distâncias do planeto Elôh são vencidas lentamente, com o auxílio de enormes, mas comparativamente rudimentares, barcos e carros de combate. Ron tem assim a oportunidade de analisar com ceticismo científico a bizarra geografia de seu mundo natal e os costumes dos vários seres que o habitam, desde guerreiros anfíbios até burocráticos insetóides. Essa lenta construção de cenário e de personagens é o melhor do livro. A narrativa de Davisson deixa o leitor tão envolvido nos diferentes aspectos sociais, religiosos e culturais daqueles povos a ponto de mal se perceber que é apenas na metade da obra, mais precisamente na página 129, em que ocorre a primeira cena de ação da história. É quando Ron Ger faz uso das lâminas de prótons, armamento embutido nos antebraços de sua armadura, um cruzamento entre os sabres de luz dos cavaleiros jedis e as garras de adamantium do mutante Wolverine.
Deste ponto em diante, acaba a fase picaresca e o modo aventureiro passa a ser dominante. O embate entre os gelfos, auxiliados pelos guerreiros comandados por Ron e Shodan, contra a raça dos beligerantes dragões é sangrenta e acarreta várias baixas de ambos os lados do front. Na maior parte das vezes, esta segunda metade do livro consegue manter qualidade semelhante à primeira, pois as descrições dos armamentos e as estratégias adotadas são vívidas o suficiente para manter o interesse. É só na última missão, algo anunciado como sendo uma tarefa muito mais difícil que todas as desventuras anteriores, em que o ritmo cai. Em pouco mais de 20 páginas, está tudo solucionado, com um desfecho um tanto deus ex machina que pode deixar um sabor anticlimático. Ainda mais se o trecho comprimido entre as páginas 247 e 259 for comparado com o cuidado com que o escritor vinha conduzindo a trama até aquele momento.
Como não poderia deixar de ocorrer numa publicação de forte inspiração maquiavélico-gramsciana, antes de chegar ao fim dos combates, vamos perceber que há muito de manipulação e dissimulação no conflito. O melhor é que o autor não força a mão em didatismo ou pedantismo ao se utilizar de tais conceitos. Clinton Davisson consegue em Hegemonia o raro feito de produzir uma obra que, ao mesmo, tempo diverte o leitor, com uma história honesta e eficiente, e ainda explora temas profundos, que, infelizmente, não costumam ser matéria-prima para o entretenimento de massa. E ele prova que só não o é por falta de vontade de outros criadores, o casamento pode ser feito, sim, de maneira muito mais simples que sonha nossa vã filosofia. Não é preciso, e talvez nem mesmo seja desejável, que o leitor seja um especialista em ciências políticas ou um físico teórico para se divertir com a linguagem simples e com todas as subtramas do livro. É bem verdade que de um cartunista seria de se esperar uma dose maior de humor no texto, o que aproximaria o livro nacional de obras como as séries Discworld e O guia do mochileiro da galáxia, respectivamente de Terry Pratchett e de Douglas Adams. Talvez, passado o peso da estréia da saga com Hegemonia – O herdeiro de Bastem, o autor se solte mais nos próximos cinco volumes previstos.
Mas há outros detalhes ainda mais urgentes para se resolver nos próximos capítulos. A edição do primeiro livro certamente merece elogios, a capa, por exemplo, de autoria do ilustrador, quadrinista e escritor Osmarco Valladão, deve ser a mais bonita já produzida para uma obra nacional de FC. Vai ser muito bom ver outros trabalhos dele estampando as demais edições da série. Porém, na parte de revisão de texto, a Editora Arte e Cultura precisa melhorar bastante. Ao longo do texto há vários lapsos que poderiam ser evitados, como hífens ausentes, como em “bem vindo” na página 38, ou sobrando, “anti-matéria”, página 248; e expressões truncadas e redundantes, a exemplo de “teorias variadas variando”, da página 205, ou “a resposta para a pergunta (...) não foi respondida”, na página 249. Substituir a fonte do texto também poderia ser uma boa idéia, a utilizada neste livro é bastante carregada, parece que todas as páginas foram escritas em negrito, o que, às vezes, torna a leitura um tanto desagradável.
Nos apêndices do livro, além daquele já comentado dicionário da língua dos dragões existe um interessante glossário para ajudar o leitor a entender vários dos termos exóticos empregados ao longo do texto. A questão é que se pode notar algumas ausências nos verbetes. Um deles é referente à raça de uma das personagens mais interessantes do livro, a falastrona capitã Marla Trillina: não aparece naqueles textos detalhes sobre os merfolks, seres anfíbios de grande importância para os eventos narrados neste primeiro volume. Por outro lado, há entradas que dizem respeito a acontecimentos que só serão vistos com o desenrolar da dupla trilogia. Curiosamente, isso torna parte do texto perigosa para quem não gosta de ter contato com spoilers. Caso você se enquadre neste grupo, faria bem em evitar os termos “Brubraker”, “Brian Brubraker” e “Drallak”. Considere-se avisado.
E é só com o desenrolar da saga que poderemos avaliar se o autor vai dar conta de desenvolver todas as pontas deixadas soltas no capítulo inicial. Ainda há muito o que se responder, como a origem de alguns nomes de personagens, de deuses, de regiões, de conceitos teóricos e até de objetos que são muito próximos a nós para surgirem, sem explicação, em um universo aparentemente tão distante e futurista. Será nesses livros também que veremos se o escritor fluminense vencerá o desafio de cruzar a fronteira dos gêneros da FC e da fantasia, da ciência e da magia, e assim fazer justiça às palavras do veterano escritor Jorge Luiz Calife, que assina o prefácio da obra: “Clinton Davisson consegue uma união perfeita entre a ficção científica hard e a espada e magia. Se fosse a obra de um autor norte-americano ou europeu, Hegemonia – O herdeiro de Bastem já seria uma realização notável. Aqui entre nós, enfrentando as dificuldades que todo autor brasileiro enfrenta, esta obra é quase um milagre a ser celebrado”. A se conferir.
Serviço: O livro custa R$ 42,90 nas livrarias Cultura e Saraiva, tanto nas respectivas lojas de todo o Brasil, quanto on-line. Mas a livraria Antígona on-line ( www.antigonalivraria.com.br )está com preço promocional a R$ 30.
Um trailer do livro pode ser visto em
http://www.youtube.com/watch?v=cZUKEkn9avg
Apesar de o nome do autor não dar pistas – ele foi batizado em homenagem a um físico americano vencendor do prêmio Nobel –, trata-se, sim, de uma obra nacional. Davisson nasceu em Volta Redonda, formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, de Minas Gerais, e voltou ao estado do Rio de Janeiro, mais exatamente à cidade de Macaé, onde trabalha como jornalista e cartunista. Ele já havia se aventurado na FC em 1999, ao lançar um livro que misturava futebol e futurismo, Fáfia – A copa do mundo de 2022, mesma proposta da coletânea Outras copas, outros mundos publicada um ano antes. Mas Hegemonia é uma aposta mais ambiciosa. A idéia básica acompanha o autor há mais de 30 anos, desde que tinha apenas cinco anos de idade, e, segundo informaçõe nos textos de apresentação da obra, a produção do texto consumiu sete anos: no ano 2000, uma versão prévia da trama ficou em terceiro lugar no concurso promovido por uma revista especializada no gênero, a Sci Fi News. Todo esse trabalho foi feito para estruturar o livro que se pretende o primeiro não de uma, mas de duas trilogias – e essa é apenas mais uma semelhança com aquela história ocorrida há muito tempo, em uma galáxia muito distante.
Já que estamos voltando no tempo, vamos dar uma recuada de meio milênio para entender o título da obra. A história começou com o filósfo italiano Nicolau Maquiavel, em 1513. Após ter servido como secretário de estado em uma experiência republicana em sua cidade natal, Florença, o pensador foi expulso da região quando os Médici retomaram o governo. No exílio, ele escreveu sua obra mais famosa, O príncipe, um texto marcado pelo pragmatismo que dá conselhos a um soberano hipotético sobre as reais condições por trás da conquista e da manutenção do poder. Mesmo país, quatro séculos depois, alguns dos conceitos maquiavélicos foram atualizados por outro filósofo, Antonio Gramsci, nascido na Sardenha. Fundador do Partido Comunista Italiano em 1921, apenas cinco anos mais tarde ele acabou sendo encarcerado pelo governo fascista que tomou conta da Itália. Na cadeia, foram produzidas suas teses mais conhecidas, postumamente reunidas nos Cadernos do cárcere, entre elas as que davam a receita para um novo ente alcançar o poder: o “moderno príncipe”. A diferença básica entre as idéias de um pensador e outro é que o florentino falava a uma pessoa física; já o sardo imaginava um organismo coletivo que deveria garantir as condições ideais de controle social, ou seja, da conquista da hegemonia. “A hegemonia é a capacidade de um grupo social de assumir a direção intelectual e moral sobre a sociedade, sua capacidade de construir em torno de seu projeto um novo sistema de alianças sociais, um novo bloco hitórico”, esse é um conceito gramsciano citado logo no início do livro nacional.
O escritor fluminense criou sua obra entre esses dois pólos, o dos soberanos de fato e o de uma estrutura coletiva, ambos buscando manter a direção intelectual e moral de suas sociedades. O ente coletivo, o “novo príncipe”, é representado por nada menos que um planeta inteiro, Dison, um mundo cercado por uma concha que o torna inexpugnável. Seus habitantes se denominam simplesmente de a Hegemonia e, de fato, assumem o controle de toda uma galáxia. O poderio bélico e cultural dos disonianos é fortíssimo, porém é possível perceber que se trata de um império atravessando o período de decadência, com vários de seus cidadãos se alienando da vida real em busca fugas na realidade virtual, por exemplo. Apesar de toda a influência que possui, a Hegemonia atual parece ser apenas uma sombra do que foi a geração que fundou tal império em tempos antigos; uma casta de seres que, literalmente, tinha o poder de criar mundos. Não apenas Dison como os outros quatro planetas do sistema solar em que se passa a história foram construídos por esses misteriosos fundadores. Isso inclui Elôh, o mundo do protagonista do livro, Ron Ger Schowlen, um príncipe na tradição maquiavélica do termo.
Ron, o herdeiro do subtítulo do livro, passou dez anos naquela capital do império se preparando para se tornar um verdadeiro cidadão de Dison. Uma grande frustação o afasta desses planos e o faz voltar àquele planeta periférico, mais especificamente ao reino de Basten, governado por seu irmão bem mais velho, Shodan. A história do livro é narrada pelos pensamentos do príncipe, gravados em um equipamento acoplado a uma poderosa armadura de combate que é o equipamento padrão entre os disonianos, a derma. Desde o início percebemos que isso não é sinônimo de uma versão isenta dos fatos, já que o rapaz tem a possibilidade de editar a gravação de tais memórias, cortando trechos indesejados, por exemplo. Mesmo assim, o registro pessoal, e um tanto improvisado, se torna a base para historiadores de um futuro distante analisarem os fatos que estariam por provocar uma verdadeira revolução no sistema da Hegemonia.
De início, os registros dão conta do tédio do herdeiro na volta ao lar – uma cidade gelada habitada por humanóides, assim como ele próprio, totalmente albinos – e de uma confusa e mal resolvida relação com o seu casal de irmãos. A situação muda quando surge em Basten um grupo de gelfos, pequenos seres marsupiais, pedindo auxílio para defender sua distante vila do cerco de dragões. Sim, dragões, do tipo que voam, cospem fogo e ainda por cima falam – existe até mesmo um dicionário do dialeto das criaturas nos apêndices do livro. A partir daí, Hegemonia torna-se uma história clássica de jornada e de como ela vai modificar o protagonista, jogando por terra vários de suas idéias pré-concebidas. Como a tecnologia dos planetas periféricos é muito inferior à de Dison, as enormes distâncias do planeto Elôh são vencidas lentamente, com o auxílio de enormes, mas comparativamente rudimentares, barcos e carros de combate. Ron tem assim a oportunidade de analisar com ceticismo científico a bizarra geografia de seu mundo natal e os costumes dos vários seres que o habitam, desde guerreiros anfíbios até burocráticos insetóides. Essa lenta construção de cenário e de personagens é o melhor do livro. A narrativa de Davisson deixa o leitor tão envolvido nos diferentes aspectos sociais, religiosos e culturais daqueles povos a ponto de mal se perceber que é apenas na metade da obra, mais precisamente na página 129, em que ocorre a primeira cena de ação da história. É quando Ron Ger faz uso das lâminas de prótons, armamento embutido nos antebraços de sua armadura, um cruzamento entre os sabres de luz dos cavaleiros jedis e as garras de adamantium do mutante Wolverine.
Deste ponto em diante, acaba a fase picaresca e o modo aventureiro passa a ser dominante. O embate entre os gelfos, auxiliados pelos guerreiros comandados por Ron e Shodan, contra a raça dos beligerantes dragões é sangrenta e acarreta várias baixas de ambos os lados do front. Na maior parte das vezes, esta segunda metade do livro consegue manter qualidade semelhante à primeira, pois as descrições dos armamentos e as estratégias adotadas são vívidas o suficiente para manter o interesse. É só na última missão, algo anunciado como sendo uma tarefa muito mais difícil que todas as desventuras anteriores, em que o ritmo cai. Em pouco mais de 20 páginas, está tudo solucionado, com um desfecho um tanto deus ex machina que pode deixar um sabor anticlimático. Ainda mais se o trecho comprimido entre as páginas 247 e 259 for comparado com o cuidado com que o escritor vinha conduzindo a trama até aquele momento.
Como não poderia deixar de ocorrer numa publicação de forte inspiração maquiavélico-gramsciana, antes de chegar ao fim dos combates, vamos perceber que há muito de manipulação e dissimulação no conflito. O melhor é que o autor não força a mão em didatismo ou pedantismo ao se utilizar de tais conceitos. Clinton Davisson consegue em Hegemonia o raro feito de produzir uma obra que, ao mesmo, tempo diverte o leitor, com uma história honesta e eficiente, e ainda explora temas profundos, que, infelizmente, não costumam ser matéria-prima para o entretenimento de massa. E ele prova que só não o é por falta de vontade de outros criadores, o casamento pode ser feito, sim, de maneira muito mais simples que sonha nossa vã filosofia. Não é preciso, e talvez nem mesmo seja desejável, que o leitor seja um especialista em ciências políticas ou um físico teórico para se divertir com a linguagem simples e com todas as subtramas do livro. É bem verdade que de um cartunista seria de se esperar uma dose maior de humor no texto, o que aproximaria o livro nacional de obras como as séries Discworld e O guia do mochileiro da galáxia, respectivamente de Terry Pratchett e de Douglas Adams. Talvez, passado o peso da estréia da saga com Hegemonia – O herdeiro de Bastem, o autor se solte mais nos próximos cinco volumes previstos.
Mas há outros detalhes ainda mais urgentes para se resolver nos próximos capítulos. A edição do primeiro livro certamente merece elogios, a capa, por exemplo, de autoria do ilustrador, quadrinista e escritor Osmarco Valladão, deve ser a mais bonita já produzida para uma obra nacional de FC. Vai ser muito bom ver outros trabalhos dele estampando as demais edições da série. Porém, na parte de revisão de texto, a Editora Arte e Cultura precisa melhorar bastante. Ao longo do texto há vários lapsos que poderiam ser evitados, como hífens ausentes, como em “bem vindo” na página 38, ou sobrando, “anti-matéria”, página 248; e expressões truncadas e redundantes, a exemplo de “teorias variadas variando”, da página 205, ou “a resposta para a pergunta (...) não foi respondida”, na página 249. Substituir a fonte do texto também poderia ser uma boa idéia, a utilizada neste livro é bastante carregada, parece que todas as páginas foram escritas em negrito, o que, às vezes, torna a leitura um tanto desagradável.
Nos apêndices do livro, além daquele já comentado dicionário da língua dos dragões existe um interessante glossário para ajudar o leitor a entender vários dos termos exóticos empregados ao longo do texto. A questão é que se pode notar algumas ausências nos verbetes. Um deles é referente à raça de uma das personagens mais interessantes do livro, a falastrona capitã Marla Trillina: não aparece naqueles textos detalhes sobre os merfolks, seres anfíbios de grande importância para os eventos narrados neste primeiro volume. Por outro lado, há entradas que dizem respeito a acontecimentos que só serão vistos com o desenrolar da dupla trilogia. Curiosamente, isso torna parte do texto perigosa para quem não gosta de ter contato com spoilers. Caso você se enquadre neste grupo, faria bem em evitar os termos “Brubraker”, “Brian Brubraker” e “Drallak”. Considere-se avisado.
E é só com o desenrolar da saga que poderemos avaliar se o autor vai dar conta de desenvolver todas as pontas deixadas soltas no capítulo inicial. Ainda há muito o que se responder, como a origem de alguns nomes de personagens, de deuses, de regiões, de conceitos teóricos e até de objetos que são muito próximos a nós para surgirem, sem explicação, em um universo aparentemente tão distante e futurista. Será nesses livros também que veremos se o escritor fluminense vencerá o desafio de cruzar a fronteira dos gêneros da FC e da fantasia, da ciência e da magia, e assim fazer justiça às palavras do veterano escritor Jorge Luiz Calife, que assina o prefácio da obra: “Clinton Davisson consegue uma união perfeita entre a ficção científica hard e a espada e magia. Se fosse a obra de um autor norte-americano ou europeu, Hegemonia – O herdeiro de Bastem já seria uma realização notável. Aqui entre nós, enfrentando as dificuldades que todo autor brasileiro enfrenta, esta obra é quase um milagre a ser celebrado”. A se conferir.
Serviço: O livro custa R$ 42,90 nas livrarias Cultura e Saraiva, tanto nas respectivas lojas de todo o Brasil, quanto on-line. Mas a livraria Antígona on-line ( www.antigonalivraria.com.br )está com preço promocional a R$ 30.
Um trailer do livro pode ser visto em
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