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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Licença para pensar o impensável

Em 1992, quando a edição nacional da Isaac Asimov Magazine publicou em suas concorridas páginas um texto chamado "Aprendizado", estava sendo dada a oportunidade para a estréia de um jovem de 21 anos no ramo de escritor profissional de ficção científica, fantasia & horror. Desde então, em um cálculo aproximado, este autor publicou cerca de meia centena de histórias e conquistou a reputação, até internacional, de ser um dos melhores naquilo que faz. Diretamente de sua cidade natal, Jundiaí a 50 km da capital paulista, onde exerce a profissão de jornalista especializado em divulgação científica, ele relembra aqui os primeiros passos na literatura de gênero; comenta suas influências - incluindo aí o papel exercido por H.P. Lovecraft nos seus textos iniciais -; fala sobre as motivações atuais; e revela qual tipo de trabalho o faz se sentir, a exemplo de certo espião inglês, portador de uma licença especial. Com vocês, Orsi, Carlos Orsi.

Nestes últimos 15 anos, você se tornou um dos autores de FC mais prolíficuos do Brasil. Entre contos e novelas publicados em livros impressos e virtuais, revistas ou fanzines, dentro e fora do país, qual é o tamanho estimado de sua produção ficcional? Quantos prêmios você já recebeu ao longo da carreira? Há alguma chance de um dia vermos tudo isso reunido em um site, por exemplo?


Bom, por partes: o tamanho da obra? Não faço a menor idéia. E, várias trocas de HD depois, nem sei se ainda tenho cópias de tudo. Além disso, há os contos que eu chamo de "mutantes", que vão se transformando a cada publicação - não sei se deveria contar cada encarnação de uma mesma história como um conto independente ou juntar tudo. Fora que meus primeiros contos eram datilografados, não digitados, logo esses só existem, mesmo, nas páginas dos fanzines. Mas, supondo que de 1992 a 2003, mais ou menos, eu tenha escrito uns dez contos por ano, e achado 50% disso digno de publicação, então seriam umas 50 histórias cuja paternidade eu reconheço ou deveria reconhecer... Prêmios: tapìraì (do fanzine Megalon), Nova e um segundo lugar no Argos. Além do Prêmio Turno da Noite, de Portugal. Juntar tudo? Não sei. Há muitas histórias que, simplesmente, não me interessam mais. E nunca tive um site pessoal. Talvez tenha um dia - mas não creio que vá usá-lo como uma espécie de omnibus, não.

Você pode fazer um retrospecto de sua formação como autor? Que tipo de exercícios literários você fazia nos primeiros anos de atividade? Participou de oficinas ou foi mais em base autodidata mesmo? Como foi sua preparação antes de publicar o primeiro texto e como é seu cotidiano agora?

Publiquei meus primeiros textos ficcionais, mais puxados para a paródia e o humor escrachado, num fanzine, Anarquia, que saiu em três números aqui em Jundiaí, por volta de 1984-85. Era um fanzine meio político, animado pelo fim da ditadura, etc. Naquele tempo eu usava camiseta de Che Guevara. O zine gerou um convite para colaborar com o suplemento dominical do Jornal de Jundiaí, o que fiz, creio, de 1985 a 1990, mais ou menos. Em 87 fiz uma oficina literária com João Silvério Trevisan, no gabinete de Leitura Rui Barbosa, um clube-biblioteca aqui da cidade.

Não me lembro, realmente, de um dia ter tido alguma rotina específica para a preparação do texto. Acho que a coisa sempre foi constrangida pelos limites tecnológicos - no tempo da máquina de escrever, minha oportunidade de revisão era a fita corretora e/ou rasgar tudo e começar de novo. Hoje, com o computador dá pra "pentear" mais o texto. Hoje em dia eu escrevo, deixo o texto "de molho" alguns dias, mexo um pouco, peço pra minha mulher, a Renata, ler, presto atenção nos comentários dela, deixo o texto "de molho" mais um pouco, enquanto decido se acato (ou não) as sugestões dela, repasso mais uma vez e então dou o trabalho como pronto. Se - como geralmente acontece - passam-se meses ou anos antes de surgir uma oportunidade de publicação, reviso uma última vez imediatamente antes de submetê-lo.

Tempos de fúria, seu livro lançado há dois anos, aparenta ser um marco em termos de estilo. Seu trabalho anterior sempre foi bastante associado ao do americano H. P. Lovecraft, mas neste livro, a presença dele parece mais diluída. Houve alguma forma de ruptura com o velho mestre ou é apenas um movimento natural de busca de novos horizontes?

Olha, eu tendo a dizer que a influência de Lovecraft na minha obra foi meio que superestimada. Fiz alguns contos realmente calcados nos Mitos de Cthulhu, mas acho que a última história que consideraria lovecraftiana "puro sangue" foi "Deus dos abutres", ainda no século passado. O fato é que, quando comecei a escrever eu tinha um problema grave: meus esboços tinham clima, tinham boas ironias, eram engraçados, tinham um bom ritmo, eram inteligentes... Mas iam do nada ao lugar nenhum. Resumindo, eu tinha estilo mas não tinha competência narrativa, no sentido de, ok, os personagens entram na história na situação A e quero que saiam dela na situação B. Como ir de A para B? Eu não sabia. Não fazia a menor idéia.

Nesse aspecto, HPL foi muito importante porque ele tinha uma disciplina narrativa muito rígida - tão rígida que, em alguns contos, dava pra ver o final chegando como um trem vindo do fim do túnel. Além disso, tinha intensidade emocional, que era outra coisa que me faltava. Então, creio que o que houve foi que eu precisava aprender, e HPL - não só ele, toda aquela geração da [revista americana especializada em contos estilo pulp fiction] Weird Tales, com Howard e Ashton-Smith também - foi uma escola. Como nas artes plásticas, aprende-se imitando e, depois, desconstruindo os mestres.

O que mudou, de lá para cá, foram meus interesses temáticos. Estou migrando para a hard SF, e acho que vou ficar lá por algum tempo. Nesse sentido, ando lendo muita não-ficção (meu livro do ônibus atualmente é o Investigations, de Stuart Kauffman) e muito conto de FC hard contemporâneo. Há algumas ótimas antologias recentes, como Solaris book of new SF e uma antologia de space-operas Forbidden planets, e o Mammoth book of extreme SF. Para "limpar as papilas", como o copo de água que os enófilos tomam entre taças de vinho, encaixo um mainstream ou um policial.

Vários dos cenários e dos personagens presentes em Tempos de fúria poderiam render novas histórias, como é o caso das duas histórias em torno do planeta Vênus. Qual a sua opinião em retornar a antigos trabalhos? Você já fez isso em relação ao conto que publicou na coletânea original da Intempol, não é mesmo?

Retomar histórias para mim é meio complicado porque, geralmente, meus contos nascem de um ponto de enredo - digamos, quero escrever uma história sobre um ataque de zumbis. Aí, todo o resto nasce como estrutura de suporte, como andaimes para sustentar esse ponto. Uma vez que eu tenha desenvolvido o ponto, os andaimes simplesmente deixam de ser interessantes, para mim. Não que eu não tenha entusiasmos - por exemplo, cheguei a imaginar "Planeta dos mortos" como primeiro de uma série que culminaria com "Galáxia dos mortos", ou algo assim - mas o princípio motor da coisa toda, que era a publicação em uma revista, desapareceu antes que eu conseguisse pôr a idéia em prática, e logo outros temas chamaram minha atenção.

A Intempol, nesse aspecto, é uma coisa diferente. Em parte, pelo desafio de expandir um universo com a ajuda, e muitas vezes sob a orientação, de outras pessoas. Segundo, porque escrever para a Intempol me dá um certo senso de irresponsabilidade - eu me sinto, paradoxalmente, mais livre, talvez porque a carga da autoria fica meio que diluída: é como se escrever para a Intempol fosse uma espécie de "00" literário, "licença para pensar o impensável". Curiosamente, esse mesmo efeito faz com que meus trabalhos na série sejam alguns dos meus melhores trabalhos.

Por falar naquele conto situado no universo criado por Octávio Aragão: "A mortífera maldição da múmia" foi adaptado para uma versão em quadrinhos on line. Como foi a experiência de ter um trabalho traduzido para outra mídia? Pode haver outras novidades nessa área, seja com material já publicado, seja com roteiros inéditos? E, por fim, qual sua opinião sobre quadrinhos de um modo geral?

Trabalhar com a equipe que fez a adaptação do "MMM" foi muito legal. Eu criava uma espécie de pré-roteiro, com uma sugestão de diagramação e decupagem das cenas, além de adaptar o diálogo. Os quadrinhistas seguiam, adaptavam ou ignoravam minhas instruções, dependendo do que fosse melhor para a série (e estou certo de que eles sempre escolhiam o melhor). Fiz isso, um capítulo por semana, durante um semestre, creio. Pessoalmente, acho a versão em quadrinhos melhor que o conto. Tanto que "Melissa, a meretriz do mal" [um romance, dando continuidade a primeira história, que saiu em formato digital] segue, em detalhes, a HQ, não o conto, por exemplo.

Quanto a novidades, ei, se quiserem me adaptar, adaptem-me! Se for para um álbum de luxo franco-belga ou para uma minissérie Vertigo eu gostaria de ser pago, mas se não, só me dêem crédito e peçam educadamente.

Quadrinhos: adoro quadrinhos. Antes de querer ser escritor, quis ser quadrinhista - desisti porque não tenho paciência de aprender a desenhar. Ando lendo pouco, atualmente - acompanho a série do Conan da Dark Horse e fico de olho na obra do Warren Ellis, e quase nada além.

Você disse que a ficção científica estilo hard é, atualmente, seu principal interesse. Seus últimos trabalhos, como a maioria dos contos do livro e o texto que publicou recentemente no fanzine Scarium fazem parte do subgênero. Como jornalista especializado em divulgação científica, portanto acostumado a lidar com minúcias técnicas da área, é mais fácil passar pelo processo de pesquisa a que esse estilo obriga seus autores?

Eu tenho um profundo interesse, um grande respeito, pelo programa científico como postura filosófica - nenhuma idéia está acima de crítica, o grau e confiança numa afirmação depende da totalidade da evidência, a evidência articula-se logicamente - e traduzir isso para a literatura é um grande barato. É O grande barato, ao menos para mim, atualmente. Creio que minha atuação como divulgador ajuda, sem dúvida: as maiores fontes de idéias para boa FC estão nas páginas da Science e da Nature, que são revistas especializadas na publicação de trabalhos científicos e circulam semanalmente.

Por falar naquela edição da Scarium: nela foi publicado um artigo que gerou alguma polêmica entre fãs e críticos de FC por fazer a defesa de uma produção associada ao estilo pulp, como o da citada revista Weird Tales. Algumas pessoas associaram tal proposta a um perigo de se relaxar na qualidade literária, de ser algo ultrapassado. Qual sua opinião sobre essa controvérsia?

Pessoalmente, considero controvérsias literárias um campo meio estéril. Digo, cada um escreve o que acha melhor, e pronto. Por trás da idéia de controvérsia está a de programa - a de que existe um caminho a seguir, e a controvérsia se dá entre programas antagônicos - e eu simplesmente não acredito em programas literários com mais de um aderente. Cada escritor tem o seu, ou cada escritor tem vários ao longo da carreira, mas tentar vender um programa é meio inútil.

Reformulando: pode ser útil na medida em que os debatedores usam o debate para lançar um olhar crítico sobre seus próprios programas. Um debate vigoroso é sempre um bom estímulo à autocrítica. Mas o que geralmente acontece é um duelo entre homens de palha, com um lado atacando não o outro, mas uma caricatura do outro.

A finada Isaac Asimov Magazine foi muito importante para toda uma safra de escritores nacionais, por apresentar a eles parte do que era produzido no exterior e, obviamente, por representar um local de qualidade onde se poderia publicar. Não deve ser coincidência o fato de que dois dos mais respeitados escritores de FC do país tenham estreado naquelas páginas: Gérson Lodi-Ribeiro e você mesmo. É algo assim que está faltando hoje em dia para ajudar a popularizar o gênero entre novos leitores e novos autores?

Bom, obrigado pela parte que me toca! No meu caso específico, a IAM me ajudou a amadurecer minha visão do gênero - eu achava que FC era Lucky Starr e Jornada nas estrelas, e de repente estava lendo Kim Stanley Robinson. Isso faz falta hoje, assim como faz falta um mercado comprador de FC.

Você tem acompanhado a produção brasileira de ficção científica e de terror? Entre novatos e veteranos há alguém que tem chamado sua atenção nos últimos anos?

Acompanhar, não acompanho. Sou um escritor, não um crítico, e o que leio, basicamente, é o que me interessa ou o que acho que poderá ser útil na composição da minha obra. Autores que me cahamaram muito a atenção nos últimos anos foram Osmarco Valadão, de quem eu realmente gostaria de ler mais coisas, e uma "novata", Cristina Lasaitis, cujo conto de estréia na antologia Visões de São Paulo foi um dos melhores, se não o melhor, do livro.

Quais são seus próximos projetos em termos de ficção?

Continuar me aprofundando no lado “hard” da FC e continuar procurando onde publicar. Eu queria inverter o equilíbrio da minha produção de textos e fontes de renda - com a a ficção pesando cada vez nos dois quesitos - e sigo buscando oportunidades para conseguir isso. Quem sabe

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O escritor de Andrômeda

Entre um plantão e outro na emergência de um pronto-socorro de Belo Horizonte e visitas ocasionais a diversas localidades vizinhas um médico mineiro fez a a pesquisa para um dos mais imaginativos livros de ficção científica lançados no Brasil. Nesta entrevista, o autor de Quintessência conta histórias sobre a produção de sua obra independente, descreve coleções de quadrinhos que ocupam caixas de papelão, kombis e quartos inteiros, dá dicas sobre como interpretar uma cadeira no palco de teatro e detalha como foi a formação de um escritor de FC nascido em Andrômeda, vulgo Minas Gerais. Com vocês, o lado B do doutor Flávio Medeiros Jr.

Seu livro de estréia pegou muita gente de surpresa - mesmo entre os especialistas mais dedicados em acompanhar a produção nacional de FC, no famoso eixo Rio-São Paulo. Poderia fazer uma revisão de outros textos ficcionais seus e contar um pouco dos bastidores da publicação de seu primeiro romance?


Penso que essa "surpresa" se justifica. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que vivo em Andrômeda, pois Minas Gerais, no universo da FC nacional, fica tão distante do tal eixo Rio - São Paulo quanto outra galáxia. Na verdade sou um ávido leitor de ficção científica desde adolescente. Comecei com Perry Rhodan, depois Asimov, e daí não parei mais. Tenho toda a coleção da saudosa Isaac Asimov Magazine brasileira. No entanto, só quando já estava escrevendo o Quintessência foi que eu soube que existiam fóruns virtuais para discutir FC. Por isso as pessoas ligadas à FC nacional só souberam de minha existência quase simultaneamente à publicação do meu livro. Antes dele, só publiquei contos, crônicas e cartoons (que eu escrevi e desenhei) em jornais locais e universitários, a maioria tratando de temas cotidianos. Também escrevi algumas peças de teatro, que dirigi e encenei com grupos amadores, uma delas inclusive de ficção científica, chamada Proteu, o Protótipo.

Quanto ao Quintessência, a idéia inicial surgiu da seguinte preocupação, resultado de minha estupefação diante da crescente banalização da violência ao meu redor: até que ponto as pessoas não cometem crimes, dos mais leves aos mais hediondos, obedecendo aos próprios valores morais, e não ao temor de serem pegos e punidos? Então decidi criar o "supervilão do novo milênio", um personagem com poderes praticamente ilimitados para fazer o mal, e que comete seus atos com a certeza absoluta da impunidade. O interessante foi que eu pretendia que esse vilão fosse a encarnação do Mal absoluto, mas ao longo do texto que fui escrevendo o próprio personagem me fez entender que em termos humanos isso não existe: o ser humano que pratica o mal sempre carrega suas razões pessoais para isso, sempre busca ou fabrica justificativas para seus atos. Aprendi muito com ele.

O livro foi publicado no sistema de autopublicação, ou seja, eu mesmo banquei a edição. Ao contrário de alguns, considero esta uma forma perfeitamente válida e digna de publicar um livro, diante das dificuldades que o mercado impõe a novos autores. Esse sistema ainda tem a vantagem de dar ao autor total controle sobre sua obra, desde o conteúdo até a capa. Permite também que o autor negocie melhor o preço de capa do livro e a porcentagem da consignação, que é como a maioria das livrarias trabalha. A enorme desvantagem da autopublicação é o problema da distribuição. Enquanto você está na mídia o seu livro vende bem, mas quando param de falar dele o fantasma do encalhe aparece. Em relação ao Quintessência, após três anos da publicação ainda tenho a alegria de vender exemplares pela internet ou através de pessoas que leram, gostaram e indicam a outras pessoas. É uma venda em "conta-gotas", mas para mim isso não importa: eu vivo de medicina, escrever é o meu prazer pessoal.

A FC é sempre associada a mudanças profundas na tecnologia e no comportamento das pessoas; a dinamismo social, cultural, ambiental. Minas Gerais, por outro lado talvez seja o estado brasileiro mais ligado ao culto às tradições; um lugar em que o tempo parece correr mais lentamente. Algo que pode ser sintetizado na frase célebre do Otto Lara Resende: "Minas está onde sempre esteve". Como é lidar com este aparente paradoxo de ser um autor de ficção científica mineiro? Como seus colegas, amigos e familiares reagem a seu lado menos convencional?

Como você disse, o paradoxo é aparente. Outro dia li em um romance a crítica depreciativa de um dos personagens à ficção científica, nos seguintes termos: a tecnologia evolui, as descobertas se multiplicam, mas o ser humano continua o mesmo. Naquele momento eu me perguntei: "mas não é essa a realidade?" Observe a história da humanidade: como na Antiguidade continuamos nos matando por razões religiosas, ou por ambicionarmos o que os outros possuem. A diferença é que antigamente fazíamos isso usando pedra lascada, depois arco e flecha, e hoje empregamos alta tecnologia, armas de destruição em massa e microrganismos geneticamente alterados. Mas a atitude mudou muito pouco. Nossos tabus, crenças e preconceitos mudam de roupa e adquirem formas de expressão mais rebuscada, mas em essência não mudaram muito nos últimos milênios. Por isso, parafraseando o bom e velho Otto, eu diria que "o Homem está onde sempre esteve". Minha aposta é que isso vai persistir ainda por muito tempo no futuro, de modo que a FC, na minha concepção, precisa considerar essa possibilidade.

Quanto à segunda parte da pergunta, outro dia um colega médico me disse que eu sou um dos caras com o "lado B" mais interessante que ele conhece, entendendo-se como "lado B" aquilo que você faz quando não está tratando das trivialidades da vida, como dar atenção à família ou ganhar dinheiro. Esse lado escritor surpreendeu alguns dos amigos mais recentes, pois devido aos caminhos tortuosos que a vida toma, antes do Quintessência eu havia passado uns cinco ou seis anos sem produzir nada de substancial em termos de literatura. Mas quem me conhece há mais tempo, como os familiares e amigos mais antigos, não se surpreendeu em nada. Na verdade eu escrevo desde sempre, e as pessoas se acostumaram a me ver crescendo assim. No curso primário as professoras liam minhas redações para a classe inteira, e emprestavam para as outras professoras lerem em suas classes. Com uns oito ou nove anos pedi ao meu pai dinheiro para comprar um caderno; o dinheiro deu para dois cadernos, e comecei a escrever neles meus dois primeiros livros: As aventuras de Falangeta e Cidade submarina, ambos inacabados. Com onze ou doze anos eu e um primo escrevemos dois livros que eram fanfiction (embora na época eu acho que a palavra ainda não existia) de Planeta dos macacos e dos Smurfs, que então se chamavam Strunfs. Esses dois livros tenho em casa, foram datilografados em uma velha Remington que ganhei de minha mãe naquela época, e encadernados em uma gráfica do bairro. Infelizmente, são livros de um só exemplar. Ou seja, tirando aqueles cinco ou seis anos de hiato, sempre fui metido a escritor, e suspeito que agora não vou parar nunca mais.

Quadrinhos americanos, ingleses e italianos são uma referência mais que explícita em seu trabalho. Em certos momentos, obras como Sandman, Punisher e Dylan Dog são elementos importantes para se compreender a motivação e o universo particular de alguns dos personagens. Qual o papel dessa mídia na sua formação como escritor? Qual o tamanho de sua coleção de gibis e quão eclética ela é?

Entendo que, antes de ser escritor, você necessariamente tem que ser um leitor convicto. E eu aprendi a ler com as histórias em quadrinhos. Os adultos compravam os gibis, primeiro de Walt Disney, depois também de Mauricio de Souza, e liam para mim. Eu ficava do lado acompanhando a história e perguntava, de vez em quando, o nome de alguma letra. Um belo dia, e me lembro da cena como se houvesse sido ontem, já sabendo o nome das letrinhas, uma luz se acendeu na minha mente, e compreendi que bastava juntar o som de cada letra para ler uma palavra. Nesse dia eu li pela primeira vez, antes que a escola me ensinasse, para alvoroço dos adultos ao redor. E desde então não parei mais. Ainda criança, um dos melhores amigos do meu avô era dono de uma banca de revistas, onde ocasionalmente eu passava o dia inteiro lendo de tudo. Na adolescência me especializei nos quadrinhos de super-heróis, e nos últimos trinta anos tenho colecionado e lido tudo que foi publicado no Brasil em termos de Marvel e DC, além de brasileiros como Ziraldo (A Turma do Pererê), Laerte e Angeli. Também sou fã de Uderzo e Goscinny (Asterix), e de cartunistas, como o argentino Quino (Mafalda) e Bill Watterson (Calvin e Haroldo). Atualmente ainda leio de tudo isso, mas me dão mais prazer os chamados "quadrinhos adultos", de autores como Neil Gaiman, Alan Moore, Frank Miller, Garth Ennis, Mark Millar e Warren Ellis.

Eu não saberia te dizer o tamanho da minha coleção, mas apenas para dar uma idéia, no ano passado eu vendi parte dela para uma feira de gibis usados, promovida por uma livraria de Belo Horizonte. Um funcionário teve que vir até minha casa para separar o material, depois veio uma kombi com mais dois caras para buscar doze caixas de papelão grandes cheias de revistas. Isso me rendeu um crédito de quase oitocentos reais na livraria, e hoje o quartinho de despejo do meu apartamento ainda está cheio mais da metade com grandes caixas repletas de revistas. Aproveito a oportunidade para agradecer publicamente à minha esposa pela compreensão e pela paciência e tolerância infinitas.

Você já deve ter pensado na possibilidade de continuação para Quintessência, não? Uma adaptação do livro para HQ ou mesmo uma sequência em tal formato já estiveram em seus planos?

Na verdade, a princípio eu pretendia acabar a história ali mesmo, apesar de que o final do livro gerou reações bem diversas: alguns adoraram, outros quiseram me matar e exigiram uma continuação. Eu respondi, na época, que só escreveria uma continuação se tivesse uma idéia que realmente valesse a pena. Acontece que no último ano eu tive e já andei amadurecendo essa idéia, daí que a continuação do Quintessência deverá ser meu próximo romance. Quanto a adaptações, não penso que os quadrinhos sejam o melhor formato. Observe que o livro é contado em primeira pessoa, e tem que ser assim mesmo, para que o leitor vá fazendo as descobertas, e tendo as surpresas e sustos junto com o protagonista. Ou seja, a história é contada dentro da mente do personagem, que atua como narrador. Os quadrinhos são uma linguagem muito mais visual e dinâmica do que narrativa e reflexiva, então uma adaptação de Quintessência ia ser cheia daqueles balões cheios de falas e recordatórios intermináveis, e não gosto de HQs assim. Se você precisa falar mais do que mostrar, melhor contar a história em texto. Por outro lado, já foi iniciada uma adaptação do livro para roteiro de cinema, que a meu ver está no meio termo entre a literatura e as HQs em termos de estética narrativa. Essa adaptação está meio parada depois que a pessoa responsável começou a fazer mestrado, mas é uma adaptação que considero muito mais interessante.

Além de comics e fumetti, quais as obras e autores que influenciaram seu thriller policial-científico? Entre os escritores, há algum brasileiro na lista, como Ignácio de Loyola Brandão de Não verás país nenhum? Pergunto isso porque há alguns pontos de semelhança entre seu livro e o daquele autor, como a questão ambiental em São Paulo e a unificação de forças de segurança, sua Polícia de Elite e os civiltares de Brandão.

Confesso que não conheço a obra de Brandão, embora meu interesse por ela tenha surgido recentemente, após ler nos fóruns de discussão a opinião de outros leitores e escritores de ficção científica a respeito dela. Mas antes de começar a escrever Quintessência eu senti que precisava ler algo em termos de literatura policial de autores nacionais, então li BR 163, de Tony Bellotto, e Enquanto Seu Lobo não vem, de Aluísio Santiago Campos Jr. Meu estilo nada tem a ver com nenhum dos dois, mas após ler essas obras me senti mais tranqüilo sobre escrever um romance policial com uma ambientação e personagens brasileiros. Quanto a autores internacionais, achei divertido quando alguns leitores compararam meu estilo ao do Dan Brown, e quando li O código da Vinci entendi o motivo: ele usa alguns truquezinhos como eu também usei, de terminar cada trecho de ação num momento de suspense, como nos episódios dos antigos seriados policiais, de maneira a fazer o leitor não querer largar o livro, para saber o que virá a seguir.

Quanto a minhas preferências, em termos de estilo admiro autores como Neil Gaiman (Deuses americanos, Os filhos de Anansi) e Stephen King. Deste último destaco as obras O iluminado, na qual ele retrata de forma magistral a crise no relacionamento de um casal sob o ponto de vista de uma criança pequena, e Salem’s Lot, quando na cena do sepultamento de uma criança morta ele mistura as falas do padre, que realiza sua função de maneira protocolar e impessoal, com as do pai do garoto morto, tomado por um desespero que beira a insanidade. Recentemente também me tornei fã de Philip Roth e seu Complô contra a América, para mim um dos melhores livros de todos os tempos. Esses são os caras que eu quero ser quando crescer.

Há toda uma reflexão que os leitores testemunham no fluxo de consciência de Tom Rizzatti sobre questões de fundo moral: o bem, o mal, o livre arbítrio, a essência mais profunda e definidora disso tudo. Refletir sobre pontos como esses fizeram com que você repensasse pontos de vista? Foi possível chegar a alguma conclusão no final da jornada de 230 páginas?

Talvez essas reflexões sejam a essência do livro, ou a principal razão de sua existência. Na verdade esses questionamentos são os que ficam ali, como a pulga atrás da orelha da humanidade, há muitos séculos. E são importantes, uma vez que se referem nada menos que à própria existência. Muitos buscam as respostas na religião, e se contentam com isso. Outros preferem não pensar a respeito, embora curiosamente essas questões sempre retornem, marcadamente naquelas situações de profunda comoção humana, como mortes e doenças na família, por exemplo. Outros, mais inquietos, continuam buscando. A própria ciência começa a se enveredar nesse caminho, o que não deixa de ser uma ousadia: tratar cientificamente de questões metafísicas. As melhores e mais satisfatórias respostas que encontrei até agora estão na Logosofia, ciência que aborda essas questões e muitas outras partindo do conhecimento de si mesmo. O mais interessante é que, quanto mais respostas, ou partes delas, você encontra, mais questões surgem. Mas é um estudo muito gostoso de fazer, a partir do momento que você começa a não se frustrar sempre, como se atingisse uma barreira intransponível. E, assim como a vida, não tem fim.

Sua formação como médico e a experiência de ex-professor universitário certamente foram úteis para lidar com o lado científico do livro. Mas e os demais elementos da trama? Como foi a pesquisa a respeito dos vários locais reais descritos em detalhes ao longo das páginas, sem falar no básico em termos de técnicas investigativas para a porção policial da obra?

Quanto aos locais de Belo Horizonte, minha cidade, foi mais fácil. Fui até o BH Shopping e fiquei de pé exatamente no topo das escadas rolantes, onde ocorre o atentado da abertura do livro. Ali desenhei mentalmente toda a cena. Depois "invadi" a galeria técnica do shopping onde o terrorista vai se refugiar, e imaginei toda a cena da explosão. Para a cena do congresso de neurologia no Minascentro, onde o orador metralha a audiência, aproveitei minha presença lá em um congresso e subi ao palco, para ter a visão exata do agressor. Passei pelo Viaduto Oeste várias vezes para memorizar detalhes e escrever a cena em que Tom Rizzatti escapa de seus perseguidores subindo o viaduto pela contra-mão. Cenas como as de Lavras Novas e sua cachoeira, e também Visconde de Mauá, também não foram difíceis, pois conheço bem as duas localidades. Fiz mais de um passeio ao lado oposto da Serra do Curral, caminho para Macacos, onde no meu livro vai ser construído o Memorial Leôncio Lamas, para verificar a viabilidade de minhas "teorias".

Para a cena ambientada em Paris, no final do livro, entrevistei brevemente uma amiga que morou lá: "você está de pé sobre a Pont Neuf; olha para um lado, e o que vê? E do lado oposto?" Com um mapa da cidade obtido na internet e uma foto da ponte, foi como se eu tivesse mesmo estado lá. Coisas "futuristas" como o domo sobre a região da Savassi e uma rede de autovias passando pelos subterrâneos da Praça da Liberdade, são projetos que talvez jamais se tornem realidade, mas que existem, de verdade: alguma imaginação insana pensou nisso antes de mim. Quanto à parte policial, aproveitei que trabalho em um pronto-socorro para onde convergem todos os casos de violência urbana de BH, e sempre que chegava uma turma de policiais trazendo alguma vítima ou bandido, eu "colava" nos caras e começava a fazer perguntas. Olha, ouvi coisas que você não acreditaria, nem se eu escrevesse em um livro de ficção.

Passado algum tempo de sua estréia no ramo da literatura de gênero já deve ser possível fazer um retrospecto. Entre perdas, ganhos e empates qual é o saldo destes primeiros três anos?

O saldo é totalmente positivo, já que correspondeu exatamente às minhas expectativas. Escrever para mim é um prazer, não um meio de vida. Quando você escreve por gosto, sem pressões, a chance de ter um bom resultado é melhor. Minha maior alegria é o retorno, geralmente positivo, de quem leu e gostou. Já tive comentários curiosíssimos de leitores de todas as idades, que para mim servem de sinal de que, apesar do trabalho que dá e do tempo que consome o ato de escrever, a recompensa é sempre superior. Não pretendo parar tão cedo.

Em uma perspectiva mais geral: em sua opinião, o que está faltando para a literatura de entretenimento ganhar mais espaço entre os brasileiros? Quando falamos de ficção científica nacional, especificamente, há algo que se possa fazer para popularizar o gênero e atrair novos leitores e escritores?

Um de meus leitores fez um dos comentários mais significativos, após acabar a leitura do Quintessência: "gostei muito do seu livro, apesar de ser ficção científica". Observo que a maioria das pessoas que afirmam não gostar de ficção científica nunca leu um livro do gênero, e baseia sua opinião na mídia do cinema ou da TV. Então minha proposta é: vamos escrever boas histórias! Coisas com conteúdo, mesmo que não seja nada filosófico, mas um texto inteligente e bem escrito. Ser FC, ou horror, ou policial, ou fantasia, é secundário desde que a história seja boa. De preferência com idéias originais, próprias. Se minha história de FC não passar da descrição de uma perseguição espacial, se meu texto de fantasia não for mais que a descrição da luta entre um príncipe e um dragão, talvez a mídia certa seja mesmo a TV ou o cinema.

A pista que dou, porque é a que tento seguir, é: boas histórias têm que ter um conteúdo humano. Uma vez perguntaram a Stanislawski, um dos gênios do teatro, se ele seria capaz de representar uma cadeira no palco. A resposta dele foi: "Se essa cadeira tiver o sonho de virar uma poltrona, ou se tiver o medo de morrer em um incêndio, eu represento. Se não tiver nada disso, você não precisa de um ator: use uma cadeira". Penso que na literatura seja a mesma coisa. Tenho lido muita coisa boa de gente nova na literatura de gênero, e se tivermos mais oportunidades de mostrar esses trabalhos para mais pessoas, através da divulgação e da melhoria do acesso das pessoas à literatura, esse panorama vai mudar. E esse trabalho tem que começar junto à juventude, que tenho encontrado sem muitas motivações e incentivos que transcendam a superficialidade.

"O futuro é uma página em branco dentro de um quarto escuro em uma noite de neblina". Foi assim que, à altura da página 90 de Quintessência, você definiu o porvir. Mesmo com toda a nebulosidade e escuridão para atrapalhar a vista, o que o futuro lhe reserva como escritor?

Idéias é o que não me falta. Estou com um novo romance pronto para publicação, chamado Casas de vampiro. Enquanto Quintessência é uma mescla dos gêneros ficção científica e policial, no novo livro misturo FC e horror. Tenho também pronta uma coletânea de contos leves, de humor e temas cotidianos, chamada Leia e fique rico. Acabo de terminar um conto de FC inspirado por uma música da cantora Tanita Tikaram, que deverá sair publicado em uma antologia de vários autores de ficção científica, horror e fantasia. Além disso estou fazendo as pesquisas para um conto no universo da Intempol, e para o romance que será a continuação do Quintessência. E já tenho algum material guardado para o romance que virá logo depois dele, uma ficção científica mais "pura", sem muita mistura de gêneros, para variar. Ah, nos horários vagos eu cuido do "lado A": trabalho, família e saúde.

sábado, 4 de agosto de 2007

O homem que matou Paolo Rossi

Mesmo tendo que dividir o tempo entre as capitais do Rio de janeiro, onde nasceu, e a do Espírito Santo, onde leciona na universidade federal local, o autor de A mão que cria segue pesquisando e escrevendo histórias de ficção científica. Nesta entrevista, publicada originalmente no site omelete.com.br, ele comenta as influências literárias e quadrinhísticas de seu primeiro romance; faz um balanço sobre os quase dez anos da carreira iniciada com "Eu matei Paolo Rossi", texto que deu origem ao universo da Polícia Internacional do Tempo, ou Intempol - atualmente, enquanto o site do projeto está fora do ar, ele se mantém ocupado publicando em capítulos Reis de todos os mundos possíveis em um endereço alternativo. -; e também dá pistas sobre os próximos projetos, entre eles, a continuação para o seu primeiro romance (de quebra, chutamos e acertamos o provável título do segundo livro da série). Com vocês, a mão que escreve, Octávio Aragão.

Lembrando que no próximo ano completa uma década de seu lançamento como escritor profissional, com a noveleta "Eu matei Paolo Rossi". Você poderia fazer um rápido balanço destes primeiros dez anos como autor? Quantos textos já foram criados, quantos foram publicados em livros ou em outras mídias, como a Internet?


Pois é, quase dez anos de "carreira".

Não, dez, não. Nove. Comecei em 1998, na antologia Outras copas, outros mundos, da extinta editora Ano-Luz.

Não me considero um autor "literário", pois ainda tenho muito arroz com feijão para comer, e, talvez por causa disso, não tenho muitas histórias rolando por aí. Até tomar uma decisão e escrever algo, deixo o conceito amadurecer muito - às vezes anos - antes de pegar no papel.

O número de textos publicados é consideravelmente pequeno. Não lembro de todos, mas acho que passaram de vinte. Ou seja, uma média de dois por ano. Em livros, antologias de contos com vários autores, que são os que levo mais em consideração, foram cinco, desde a estréia, em 1998. No ano passado, fui publicado no site da revista Cult e, fora isso, alguns fanzines, prozines e e-zines. Este ano deve ocorrer uma estréia internacional. Vamos esperar para ver.

Com todo o potencial do cenário que você criou e com o final inesperado e em aberto do livro, a pergunta é inevitável: vai haver uma continuação para A mão que cria (talvez A mão que pune, para completar a citação a A ilha do Dr. Moreau?)

Meu editor, Fábio Barreto, quer uma continuação desde que leu a história pela primeira vez. E o título deve ser mesmo A mão que pune. Não sei como vou me virar, pois tenho de defender meu doutorado em junho de 2007 e o Fábio gostaria de ter o manuscrito de A mão que pune em outubro.

Vai ser um trabalho do cão, mas será divertido... tenho algumas idéias aqui na manga e acho que vão dar outras possibiidades à história. Posso adiantar que será um livro maior, um pouco mais denso, mas sem perder a ação.

Na mesma linha: o seu projeto mais conhecido é o Universo Intempol, totalmente colaborativo e multimídia, que reúne mais de uma dezena de autores do Brasil e até de Portugal para contar histórias com um núcleo ficcional em comum. A mão que cria pode seguir esse mesmo caminho ou neste caso você pretende manter a exclusividade autoral?

Não, A mão que cria é um playground particular. A Intempol é legal, porém creio que já pode andar sozinha.

Veja bem, isso não quer dizer que eu não possa voltar ao universo eventualmente. Ainda tenho uma ou duas histórias que gostaria de contar, apenas não pretendo repetir o que já fiz antes. Um shared universe é o suficiente e fico feliz em ter dado oportunidade a autores tão diversos como Hidemberg Frota, Paulo Elache, Jorge Nunes e Osmarco Valladão. Todos são excelentes contadores de histórias que estrearam profissionalmente com os contos da Intempol.

Você pode comentar algumas das obras do gênero ficção alternativa que influenciaram seu livro? O que os brasileiros estão perdendo com a ausência de títulos como Anno Dracula e Tarzan alive nas livrarias locais? Você diria que há chances desses livros serem publicados por aqui?

Tarzan alive e Doc Savage: His apocalyptic life são dois livros ótimos de autoria de Philip José Farmer, autor de bons romances de ficção científica como Mundo do Rio e Dayworld. Eles estabelecem que os dois personagens eram pessoas reais cujas aventuras foram contadas de maneira "disfarçada". Isso promoveu Edgar Rice Burroughs e Lester Dent de ficcionistas a biógrafos, e a ginástica mental de Farmer para encaixar cada um dos romances produzidos pelos dois autores - e olha, não foram poucos - dentro da história do mundo "real", ou seja, o nosso, é apaixonante, hipnótica.

Anno Dracula, do escritor e crítico de cinema Kim Newman, é divertido, uma verdadeira homenagem ao subgênero do horror. Não é tão bom quanto os livros de Farmer, por quem ele confessa ter sido influenciado. Mas tem valor próprio, por estabelecer um universo coeso, detalhado, cheio de filigranas e referências. Se Farmer foi a base de Newman, ele, sem dúvida, foi a mola-mestra por trás da concepção de A mão que cria.

Quanto ao sucesso dos livros no Brasil, eu arrisco dizer que, graças à paixão que o tema vampiresco desperta nos leitores daqui, Anno Dracula seria um tiro certeiro. Tarzan alive talvez vendesse um pouco menos, mas o personagem é forte o bastante para alavancar o produto, apesar de apelar a um público mais velho.

Quanto às chances de publicação, só Deus sabe. Nosso mercado é surpreendente no bom e no mau sentido.

Sem dúvida, para os leitores ligados aos quadrinhos, a maior referência desse gênero é a obra de Alan Moore e Kevin O'Neill: A Liga Extraordinária. Por terem produzido quadrinhos, os autores puderem ser ainda mais ousados na série e o clima de ficção alternativa não se se restringiu só a protagonistas e coadjuvantes: até a figuração e a cenografia são formadas por citações literárias do século XIX. Qual sua opinião sobre essa série e a respeito do filme que ela inspirou?

Eu fiquei um pouco decepcionado quando a primeira série saiu nos EUA. Estava esperando uma revolução, uma coisa de outro mundo. E, bem, não foi exatamente isso que eu vi. Até porque The League lança mão de algumas idéias antes ventiladas por Newman, como o confronto entre Fu Manchu e Moriarty (em Anno Dracula eles são rivais que estabelecem uma trégua para unificar o submundo de Londres contra o poderio da aristocracia vampírica) ou o desaparecimento de Sherlock Holmes (no romance de Newman, o maior detetive de todos os tempos está preso na Torre de Londres e, portanto, fora da ação do livro).

Sem falar que a tal "fidelidade" aos originais do século XIX, propalada pelos autores na época do lançamento, é discutível. O Capitão Nemo como guerreiro Sikh remete à Ilha misteriosa, mas é uma tremenda liberdade em relação a Vinte mil léguas submarinas (no primeiro romance, Nemo é descrito com características de um eslavo, provavelmente polonês. Usa botas de couro de foca e uniforme bastante condizente com um marinheiro e não aquele turbante e o modelito "hindu chic").

Outra que foge bastante à descrição do romance original é Mina Harker. Ao final de Dracula, ela não apenas está casada com Jonathan Harker, como é mãe de um menino, batizado como Quincy Harker, em homenagem ao companheiro morto na cruzada contra o vampiro. Onde foi parar esse filho, que sequer é citado na série? Não que Mina não pudesse se separar de Jonathan, ok, mas abandonar o filho seria muito fora da personalidade dela.

Curti muito mais o segundo volume, que tem idéias mais radicais envolvendo Moreau e o Homem Invisível, sem necessariamente ferir os conceitos originais dos personagens. Além do mais, aquela descrição de Marte, envolvendo personagens e fatos de diversas vertentes, é sensacional. Lembro que, quando descobri num quadrinho o Ovo de Cristal, do conto homônimo de H.G. Wells, pensei: "Aaah! Agora sim! Os caras estão mesmo botando para quebrar!".

Quanto ao filme, claro que não se trata de uma grande peça cinematográfica, mas tem lá seus maus e bons momentos. Adorei, por exemplo, o Dorian Gray, apesar de ter achado aquele Tom Sawyer uma bobagem. Adorei o design do Nautilus como um sabre - apesar de fugir léguas da descrição original de Verne, mas perdoe minha deformação profissional. Afinal, ainda sou designer e isso é o que paga minhas contas. Detestei o Homem Invisível andando pelado pelo ártico ou sendo queimado vivo (e sobrevivendo). Por outro lado o conceito de industrialização dos poderes dos personagens - graças a um hilariante "Kit Extraordinário" - é muito divertido.

Ficção alternativa, por empregar personagens alheios, é um gênero muito dependente das leis de direitos autorais em vigor em vários países. Para voltar a lembrar de Alan Moore, é só citar o sufoco que ele passou na Inglaterra para poder usar uma personagem ligada a Peter Pan em seu trabalho quase pornográfico Lost girls. Existe algum personagem que você gostaria de trabalhar em um livro mas que fica limitado pelas restrições existentes?

Não foi só com Peter Pan que o Moore teve problemas. Fu Manchu também não é citado nominalmente na League, mas pela alcunha genérica de "O Doutor". Farmer teve problemas com seu romance The adventure of the Peerless Peer - um crossover entre Tarzan e Sherlock Holmes -, em que teve de trocar o velho Lord Greystoke por Mowgli. Isso acontece com qualquer um que esteja bulindo com marcas registradas.

Exemplo bom é o da Isabel Allende e seu romance Zorro - Começa a lenda. O mascarado criado pelo escritor Johnston McCullen é uma das marcas mais bem guardadas do showbiz, mas isso não impediu que a autora fosse contratada para recontar sua origem com toda liberdade possível. Mas veja bem, ela foi contratada para o serviço...

Quanto a um personagem sobre o qual eu gostaria de trabalhar, ah, são tantos, mas tantos que dói pensar.

Houve um dia em que o escritor e compositor Bráulio Tavares fez um convite conclamando autores amigos a escrever contos novos de Sherlock Holmes, mas totalmente dentro do cânone, sem inventar nada, sem desconstruir nada, sem ridicularizar ou fazer pastiche. Na época, amarelei. Hoje, acho que toparia o desafio de participar de uma antologia sherlockiana.

Uma maneira ao menos parcial de driblar a questão dos direitos autorais são as fanfictions e os fanfilms, que normalmente são tolerados (e em alguns casos até incentivados) pelos titulares dos personagens desde que não tenham finalidades comerciais. Lembrando que A mão que cria teve uma origem fanfic, quais na sua opinião são as diferenças marcantes entre esse gênero e a ficção alternativa?

Não muitas. Acho que alguns autores de fanfics se auto-impõem rédeas curtas ou então, ao contrário, resolvem contar histórias que são o que eles queriam ver, mas que no fundo descaracterizam os personagens originais e suas premissas.

Por exemplo: li um fanfic de Arquivo X em que, ao final, Mulder e Scully iam para a cama depois de um beijo apaixonado. Bolas, aquilo era o que a autora "sonhava" que eles fizessem, mas não seria como eles, os personagens, fariam. A tensão sexual entre a dupla sempre foi óbvia, mas não era assim que os dois funcionavam. Era totalmente fora do formato e, em conseqüência, anticlimático, falso.

No extremo oposto, há vários fanfics de super-heróis que sofrem por não arriscar nada, enquanto autores profissionais, como Grant Morrison ou Garth Ennis, fazem exatamente o caminho contrário, com resultados bastante interessantes. Eu sempre penso que há pontas soltas nas origens de alguns desses personagens que nunca foram bem exploradas e que dariam muito pano para manga... tenho umas idéias e, algum dia, ainda escrevo algo a respeito.

O segredo, enfim, é o equilíbrio. Tem de ousar, mas fazer isso com conhecimento de causa dos personagens e de toda sua mitologia.

Por falar em fanfic, não há referências no livro sobre esse passado da obra. Foi uma decisão sua ou da editora não mencionar a questão? E do mesmo modo, na lista de anotações não existem citações aos vários personagens inspirados nos quadrinhos. Por que isso acontece se até obras com direitos ativos (caso dos filmes da série Alien e Sexta-Feira 13) foram listadas?

É diferente. As referências a Alien e Sexta-Feira 13 são tangenciais, mais homenagens mesmo. As outras, não.

A decisão a respeito de não se tocar nas encarnações anteriores da história foi editorial, mas eu sempre falo a respeito disso quando perguntado ou não. Nunca fugi das origens "fanfiqueiras" de A mão que cria.

Outra coisa, achei por bem não mastigar tudo para o leitor. Para você ter uma idéia, todos - eu disse "todos" - os personagens são referenciais, com duas exceções. No entanto, a maioria não está creditada nos anexos. Penso que os leitores têm de fazer uma forcinha também. Faz parte da brincadeira.

Tem quem ache que eu "esqueci" de citar alguns homenageados. Não foi o caso, homens de pouca fé... Eu apenas deixei a bola quicando na grande área. Cabe ao leitor chutar.

Houve alguma reação na comunidade ligada à ficção científica nacional por sua editora apresentar A mão que cria como o primeiro romance de ficção alternativa do Brasil. Lembrando que autores como Monteiro Lobato, Raimundo Caruso, J. J. Veiga e até Jô Soares lançaram livros que podem ser encaixados tranqüilamente no gênero, qual sua posição sobre o assunto?

Houve quem chiasse, mas isso não me incomoda, muito pelo contrário. Quero mais é que falem a respeito.

Eu mesmo cito Lobato e Veiga como precursores de peso, mas creio que a diferença crucial é que usei o termo cunhado pelo teórico francês Eric Henriet, Ficção Alternativa, e os outros nem sabiam que isso existia quando pensaram suas histórias. Ou seja, fiz de caso pensado, os outros talvez não. Ao menos, que eu saiba.

Mas honestamente, discutir isso me parece mais um caso de procurar cabelo em ovo. Por outro lado, repito: em termos comerciais, qualquer polêmica é positiva.

Voltando a falar sobre o Intempol e seus outros projetos: depois de um portal, livro de coletânea de contos e história em quadrinhos, vai vir mais alguma ação multimídia por aí? Qual a opinião predominante dos autores de ficção científica brasileiros para projetos como esse, que abrange tantos meios distintos?

As opiniões, como em tudo mais, se dividem. Há quem goste muito; existem aqueles que pensam saber como deveria ser feito, sem jamais ter tido ou a disposição ou a coragem ou a grana para desenvolver um projeto desses. E há quem simplesmente ignore (mesmo que tenham proposto vários contos e tenham sido repetidamente rejeitados).

Pretendo retomar a Intempol em 2007, se tiver tempo, e não o contrário. Mas encarei alguns problemas contratuais referentes à publicação da graphic novel [The long yesterday], que foi um bom passo, mas não o "elemento definidor", como querem alguns. Explico: o Projeto Intempol já existia antes da graphic novel e existirá depois. Se The long yesterday foi indicada a prêmios, teve muito mais a ver com a qualidade do material que com o fato de ter sido efetivamente publicado. Postular o contrário é inverter a realidade. Foi publicado porque é um bom material, não é um bom material porque foi publicado.

Acredito na força da marca e creio que ainda podemos alcançar outros públicos neste segmentado mundo do entretenimento brasileiro.

O mais engraçado é que o público de HQs ignora solenemente a versão literária, enquanto o leitor de ficção científica não ligou muito para a graphic novel e a pequena história publicada na revista Wizard. Isso tudo, porém, em lugar de ser uma complicação, pode ser mais uma vantagem. Segmentação é uma saída viável para esse tipo de produto.

O fato é que tenho uma verdadeira coleção de idéias que dependem apenas de mim, entre elas um romance de hard science fiction, que vai me tomar um tempão de pesquisa, e outras coisas que devem estar pipocando em alguns meses.

Adoro a Intempol e não vou abandoná-la, mas a vida é curta e tenho muita coisa para fazer nos próximos dez anos.

Poltergeist cibernético

Após longo período sabático, no qual concluiu sua pós-graduação tendo como tema a ficção científica, um dos melhores escritores brasileiros deste gênero literário volta aos poucos à ativa. Prova disso é o fato de ele ter tornado disponível no banco de obras do Overmundo o livro Interface com o vampiro, premiada coletânea de contos que pode ser considerada uma das mais importantes contribuições à literatura fantástica já lançadas no país. Nesta entrevista, o carioca radicado há alguns anos em São Paulo faz um retrospecto geral da carreira; revela detalhes sobre trabalhos que estão por vir nas diversas áreas artísticas em que atua; comenta alguns aspectos do seu livro originalmente lançado no ano 2000 e revela os detalhes por trás do apelido que ganhou de um colega escritor de FC: cybergeist. Com vocês, uma interface com Fábio Fernandes:

Você está na ativa produzindo textos literários – tanto em prosa quanto em verso - e teatrais, desde meados da década de 1980. Em um balanço rápido: já foram quantas peças escritas e encenadas; quantos livros lançados; quantas traduções de romances e de contos publicadas e de quantos autores diferentes; quantos prêmios recebidos nestas primeiras duas décadas?


Nunca parei para fazer uma contagem exata: crashes em discos rígidos de vários computadores e a perda lamentável de impressos de alguns textos foram em parte responsáveis por isso. Mas creio que é mais ou menos o seguinte: tenho três peças de teatro (Polêmicas, de 1985, peça de três esquetes que ganhou um prêmio em 1986 e que teve um de seus esquetes reescrito em 1998, tornando-se a peça Vestidos brancos, encenada no Rio de Janeiro sob a direção de Luiz Armando Queiroz; Com açúcar, sem afeto, monólogo cômico encenado por mim mesmo e dirigido por Anja Bittencourt; e Ao fim do longo inverno, ainda inédita. Esta última peça é a única que tem uma temática de ficção científica (inverno nuclear), e foi adaptada para o cinema por mim, Anselmo Vasconcellos e Marco Schiavon, para ser dirigida por Emiliano Ribeiro (As meninas). Esse filme está na fase de captação de recursos.

Livros: apenas o Interface com o vampiro, em 2000 e, mais recentemente, minha dissertação de mestrado, A construção do imaginário cyber (2006). Tenho uma coletânea de microcontos completa, o Pequeno dicionário de arquétipos de massa, composto de contos escritos entre 1998 e 2003, e que, embora tenha tido vários contos publicados em várias revistas (inclusive as brasileiras Cult, Et Cetera e Ficções e a portuguesa Periférica) e sites (inclusive o Overmundo), tem sido sistematicamente recusada por editoras. Publiquei vários contos em coletâneas e uma novela meio em formato fanzine, A revanche da ampulheta. Interface e Revanche ganharam dois prêmios Argos, concedidos pela Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.

Traduções: algo entre 60 e 70, mas realmente não tenho a conta, até porque alguns desses livros (como Bird lives, uma biografia de Charlie Parker) nunca foram publicados. Contos, entre 20 e 30, todos para a extinta Isaac Asimov Magazine, entre 1989 e 1991. Autores, muitos e variados, de Kurt Vonnegut e Gore Vidal até William Gibson e Philip K. Dick, passando por nomes menos conhecidos dos brasileiros como George R. R. Martin e Frederik Pohl. Neste momento, estou terminando a tradução de Snow crash, de Neal Stephenson, um autor pós-cyber que ainda não é conhecido do grande público, mas que é o responsável pela introdução do termo "avatar" no jargão internético e cujo Metaverso ficcional serviu de inspiração para o Second Life.

Interface com o vampiro segue o caminho de flexibilização dos direitos autorais do copyleft. No ano 2000, a obra teve uma encarnação anterior, também eletrônica, porém o acesso era cobrado e intermediado por uma antiga editora virtual. Mas, antes disso ainda, alguns dos contos já haviam saído impressos na década de 90, em fanzines. Ou seja, seu livro passou por praticamente todas as fases de uma revolução no acesso ao conhecimento. Qual é o futuro que você imagina para a indústria editorial e para os escritores, principalmente os ligados à literatura de gênero, como fantasia e FC?

Toda previsão em termos de tecnologia é perigosa, e não pode ser levada a sério - talvez por isso gostemos tanto da ficção científica, que é um território de experimentações onde podemos deixar a imaginação correr solta. A experiência com a editora digital não foi boa, porque acho que esse sistema já nasceu falho: se todo mundo pode baixar uma imensa quantidade de conteúdo de graça, por que é que vai se dar ao trabalho de pagar o que seja (e lembro que, na época, o livro custava 18 ou 20 reais, o que ainda é muito caro) por um PDF? Por melhor que seja o conteúdo, não vale tanto. O interessante é que, pouco depois do lançamento do livro, entrei no mundo dos blogs - e percebi que a maioria dos blogueiros queria era, no fundo, publicar livros de papel! Ou seja, ainda não nos libertamos do papel.

Mas eu não acho isso ruim, porque a literatura é uma mídia cujo melhor suporte ainda é o papel. Quando ela sai do papel, ou vira hipermídia ou game – até porque, se não virar, fica muito chata e malfeita – dá a sensação de que foi subaproveitada. Cheguei a pensar em fazer hipermídia há algum tempo, mas sei que ainda não explorei todas as possibilidades que as palavras têm para oferecer no simples suporte bidimensional do papel. Basta vermos o que tem sido lançado em literatura brasileira. O que tivemos de realmente revolucionário depois de Guimarães Rosa e de Paulo Leminski? Ainda existe muito chão, e, como disse Antero de Quental, é ideal ocupar estes espaços.

Em oportunidades anteriores, você já disse que pensou em voltar ao universo de alguns dos contos que formam a coletânea, especificamente o de "Um diário dos dias da peste" e "Interface com o vampiro". Tal retorno chegou a ser escrito? Existe a possibilidade de outros temas da coletânea serem revisitados, como o do conto "Em camadas"?

Esse retorno chegou a ser escrito em parte - um conto com o título provisório de "File not found" -, mas não cheguei a terminá-lo. Tive recentemente uma proposta para publicar um livro, e ofereci uma revisitação desse universo, onde eu reescreveria os dois primeiros contos e finalizaria o terceiro, mas a idéia não agradou. Quanto a outros temas da coletânea, ainda é muito cedo para falar, mas tenho pensado seriamente num livro que explore caminhos abertos não por "Em camadas" (que é um dos meus contos favoritos) mas por "M.U.A." Algumas idéias têm surgido na minha cabeça e acho que alguma coisa interessante pode surgir daí.

Há uma certa semelhança na situação vivida por seu personagem Ivan, do conto “Em camadas”, e na que vitima o protagonista de "A escuridão" de André Carneiro. Essa foi uma referência real ou a influência para o texto partiu de outras fontes? E ainda: em um comentário você chegou a dizer que a idéia para o conto partiu de uma experiência real. Poderia detalhar como foi esse ponto de partida?

Quando escrevi "Em camadas", eu tinha em mente as histórias de Robert Sheckley e os episódios de Além da Imaginação, mas não o conto do André Carneiro, apesar de eu gostar muito de "A escuridão". E o que deflagrou todo esse processo foi uma situação vivida por mim em meados da década de 1990, quando tinha acabado de me mudar para um apartamento em Botafogo, no Rio, e instalado minha primeira TV a cabo. Numa madrugada, eu estava assistindo a um filme (A vida segundo Garp) e, pouco antes do fim, a imagem simplesmente sumiu e foi substituída por outro filme (Asas do desejo, de Wim Wenders). A troca dos filmes e dos temas foi tão súbita que me deu um susto. Claro que tudo não passou de um erro da operadora, mas me deu o que pensar. Naquela semana lembro que havia acabado de escrever o conto “O artista da carne”, e tinha lido pouco antes um conto muito bom chamado "In numbers", do escritor australiano de FC Greg Egan. Todos esses fatores conjugados acabaram gerando "Em camadas".

Ainda sobre experiências de vida aproveitadas para a produção literária: quem lê "Um diário dos dias de peste" e "Interface com o vampiro" pode imaginar que se deparou com um expert em informática. A impressão se fortalece pelo fato de você ter se formado como técnico em eletrônica antes de cursar Jornalismo. Mas consta que sua experiência real com hardware não é bem assim, tanto que chegou a receber um apelido de um colega escritor de FC, Braúlio Tavares, para expressar a falta de jeito: cybergeist (literalmente, cyberespírito, mas também pode ser compreendido como "poltergeist cibernético"). O resultado prático dos textos citados são a prova da importância da pesquisa para todo escritor de FC que pretenda publicar algo mais hard, mais ligado ao mundo das ciências exatas e da tecnologia aplicada?

Na verdade, hoje eu até que aprendi um pouquinho de informática, o suficiente para não fazer mais jus ao grande e elogioso apelido do Bráulio. Mas na época, eu realmente pouco entendia do assunto: inclusive me identifiquei muito com o Gibson quando ele descreve suas reações ao usar seu primeiro computador para escrever Count zero (porque Neuromancer foi escrito em máquina de escrever).

Como tradutor, aprendi uma coisa que me ajudou e me ajuda muito na hora de escrever meus próprios textos: é muito importante pesquisar e aprender os termos corretos do que você vai traduzir - mas tão importante quanto, ou talvez mais, é conhecer bem seu próprio idioma, para que o texto pareça ter sido escrito por um brasileiro. Ao escrever uma história que exija pesquisa, mais importante que entender os mínimos detalhes do assunto é trabalhar bem a história, a linguagem e os personagens, para que a narrativa flua como se você estivesse, por exemplo, ouvindo alguém contar uma história que aconteceu de verdade. Quando você está numa roda de amigos ouvindo uma história verídica, os detalhes podem até ser fundamentais para você entender o que se passou, mas a maneira de contar é mais importante, porque se a história for boa mas o narrador for chato, não rola, não dá liga. Acho que, primeiro, o escritor de FC precisa ler muita literatura brasileira, de todo tipo, de Machado de Assis a Ana Maria Gonçalves, passando por Clarice, Jorge Amado, Paulo Leminski, Nelson Rodrigues, enfim, é um universo incrível e maravilhoso. Agora, se esse candidato a escritor for daquele que só curte ler FC, então é bom nem começar, porque não vai sair um bom trabalho.

Para encerrar o assunto sobre esses contos: em um deles aparece uma referência à companhia fictícia que se tornou marca registrada de seus textos: a Wells-Kodama. De onde veio a idéia para a concepção dela? A junção dos nomes remete mesmo ao fundador da FC moderna, H. G. Wells, e à viúva de Borges, Maria Kodama, ou há algo mais?

É exatamente o que você falou. A idéia foi um trocadilho, uma homenagem-brincadeira. Que pretendo utilizar ainda mais algumas vezes.

Por falar em Borges, ele parece ser uma referência clara em seus textos mais voltados ao fantástico. Que outros autores fizeram e fazem parte da sua lista de influências assumidas? Entre eles todos, qual a importância de William Gibson, o criador da cultura cyberpunk e que chegou a ser tema de sua pesquisa na pós-graduação?

São muitos autores. Sempre gostei de ler de tudo. Uma lista rápida, pensada de cabeça, sem ordem de importância: Borges, Cortázar, Thomas Pynchon, Donald Barthelme, William Gibson, Alastair Reynolds, David Zindell, Gene Wolfe, Machado, José de Alencar, Martins Pena, Marçal Aquino, Clarice, Jorge Amado, Osman Lins, Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, Luis Fernando Veríssimo, e.e.cummings, Sylvia Plath, John Donne, Paulo Leminski, Yeats, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Martins Pena, Campos de Carvalho, Patricia Melo, Rubem Fonseca.

Sobre Gibson: a leitura dele, em 1989, foi um divisor de águas na minha cabeça. Eu já gostava muito de FC, mas até então eu era meio que um nerd, um legítimo nerd que, apesar de já ler bastante coisa em inglês e de curtir muita coisa que não era lida no Brasil, não entendia a FC como algo que pudesse ser realmente revolucionário. Claro, já existia a New Wave britânica, mas eu só fui ler esse pessoal depois de ler os cyberpunks. Eu me identifiquei de cara com a atitude punk sem deixar de ser inteligentes: era possível ser um nerd punk sem ser um geek, era possível fazer algo que não se limitasse a robôs e espaçonaves (coisa que, aliás, a leitura dos cyberpunks me travou para fazer; confesso que sempre quis escrever uma space opera ambientada no futuro distante, mas nunca vi futuro para isso no Brasil e não sei se vou conseguir escrever isso algum dia).

Quanto ao seu relacionamento com a academia, como a produção de escritores de FC, nacionais e internacionais, é encarada hoje no mundo acadêmico brasileiro? Você teve alguma dificuldade em propor seu tema para dissertação de mestrado na universidade e, principalmente, em encontrar outros pesquisadores para orientá-lo e para participar de sua banca?

Felizmente, não tive nenhuma dificuldade. Gibson e Stephenson são escritores lidos na academia, pelo menos no círculo de acadêmicos que estuda novas tecnologias. Minha orientadora de mestrado, a net artist Giselle Beiguelman, me deu muito apoio para escrever sobre Gibson. Não encontrei nenhuma dificuldade, pelo contrário: antes de mim, já trilharam essa seara pesquisadores incríveis, como Gilbertto Prado, André Lemos e Adriana Amaral, com os quais tenho o prazer de travar ótimos diálogos. E, pelo que pude conferir a partir da publicação da minha dissertação, vem mais gente por aí com material interessante para discutir FC. Na minha tese de doutorado, que devo defender até o final de 2007, continuo um pouco desse diálogo com a FC, mas não tratando especificamente do Gibson, e sim autores que exploraram a questão do pós-humano no futuro de diferentes maneiras, como Arthur C. Clarke, Stanislaw Lem, Richard K. Morgan, H.G. Wells e mais alguns.

Você acompanha o que vem sendo escrito atualmente em termos de FC no Brasil?

Infelizmente, não tenho acompanhado a produção atual. Parei na época da Intempol, porque foi justamente quando optei conscientemente por fazer uma espécie de "sabático" de ficção científica brasileira, basicamente porque eu precisava me aprofundar nos cyberpunks e em William Gibson para o mestrado.

Praticamente não escrevi FC nesse período: o que fiz foi terminar o Pequeno dicionário e batalhar pela sua publicação em revistas e como livro em editoras. Depois me formei no mestrado e atualmente estou dando aulas e traduzindo. E tive de mudar o eixo das minhas leituras de forma radical, o que inviabilizou um contato com publicações independentes.

Para finalizar: quais são seus projetos para o futuro nessas áreas todas em que atua?

Traduções: acabo de terminar uma tradução de ficção científica mas não estou autorizado a dar o nome do livro; deverá sair no segundo semestre. Agora estou traduzindo Snow crash e até o ano que vem tenho programada uma nova trilogia de fantasia de Shannara, de Terry Brooks, a sair pela Bertrand Brasil. Traduzi uma trilogia do mesmo autor há alguns anos e parece que ela está fazendo sucesso entre os fãs brasileiros.

Livros: uma editora me encomendou um livro de ficção científica, e comecei a escrever uma história que está com cerca de 120 páginas, mas ainda não fechamos contrato, por isso não posso falar mais a respeito. Os projetos mais concretos que tenho no momento são uma noveleta de 30 páginas que escrevi para o site mojobooks baseada em Charlotte Sometimes, uma história a la Neil Gaiman que publiquei no ano passado num número especial de ficção científica da revista Ficções. A noveleta tem a ver com um dos álbuns da minha vida, Staring at the sea, da banda The Cure (mas não tem nada a ver com ficção científica, apesar de Charlotte Sometimes ser ambientada num universo fantástico). Essa noveleta ainda não recebeu a aprovação dos editores, mas se eles toparem, pode ser que saia (em PDF gratuito) até o final do ano. Se não toparem, tudo bem; o original tem mais de 100 laudas e tenho a intenção de batalhar publicação assim que terminar a história.

Por outro lado, estou finalizando um livro de não-ficção para a Editora José Olympio: trata-se de um pequeno dicionário de verbetes sobre personagens marcantes da literatura brasileira. É um projeto que durou dois anos e me deu muito prazer - e me fez voltar a ler literatura brasileira em profusão, algo de que eu estava sentindo saudades (aliás, foi por isso que acabei criando o blog O Viajante Imóvel para o Overmundo). Além disso, estou finalizando minha tese de doutorado, que tratará do modo de ser na cibercultura, com um foco sobre o pós-humano.