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sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Estranhos em terras estranhas

Brasileiro elogiado por argentinos é tão raro que vale a pena reproduzir a opinião manifestada no site www.axxon.com.ar, referência latino-americana sobre literatura fantástica: "Carlos Orsi Martinho es periodista y, probablemente, el mayor autor del género de terror en lengua portuguesa". O comentário se deu porque um conto daquele autor foi publicado lá, "Ya no" (tradução de "Não mais") que flerta com a possibilidade de o Brasil continuar a ser uma monarquia por influência de uma substância misteriosa. O reconhecimento do personagem em questão não veio só da parte de nossos vizinhos do Sul. Nos EUA, também já apostaram no talento dele, quando o selecionaram para participar de Rehearsals for oblivion (algo como ensaios para o esquecimento), coletânea em tributo a Robert W. Chambers. Pouco conhecido no Brasil, mas considerado forte influência de H.P. Lovecraft, o americano serviu de inspiração para os participantes do livro, todos eles dos EUA ou da Inglaterra, sendo o brasileiro o único do projeto a não ter o inglês como primeiro idioma. Ele, que já podia ser considerado sucesso de crítica entre argentinos, agradou também ao público americano. Seu conto "The machine in yellow" - referência a "The king in yellow", peça teatral fictícia sempre citada nos contos de Chambers e fonte da idéia original para o igualmente fictício Necronomicon lovecraftiano -, ambientado durante a última ditadura brasileira, é o mais bem cotado entre os comentários publicados por leitores no site www.amazon.com

Sim, Carlos Orsi Martinho - ou, simplemente, Carlos Orsi, como prefere assinar os textos ficcionais - é jornalista especializado em divulgação científica, nasceu em Jundiaí, interior de São Paulo, e pode ser considerado um dos grandes escritores de nossa língua de histórias de terror. Mas não só isso, ele é também um dos maiores autores de sua geração quando o assunto é a prima-irmã do gênero: a ficção científica. Orsi estreou profissionalmente como ficcionista aos 21 anos com o conto "Aprendizado" lançado em uma das últimas edições da Isaac Asimov Magazine, publicação que a editora Record trouxe ao Brasil bem no início da década de 1990. Desde então, faz 15 anos que aproveita as chances que lhe aparecem ou que ele mesmo cria. Já publicou contos e novelas de FC e horror em praticamente todos os espaços disponíveis no país, desde fanzines como o tradicional Scarium, até a seção de ficção da revista Pesquisa Fapesp, passando pelas coletâneas de diversos autores lançadas pela antiga editora Ano-Luz - da qual ele foi um dos sócios -, como Phantastica brasiliana (onde saiu originalmente "Não mais") e Intempol. Há ainda os livros solo Medo, mistério e morte, impresso pela Didtática Paulista, em 1996, e O mal de um homem, da já citada Ano-Luz, publicado quatro anos depois.

Porém, o melhor ponto de partida talvez seja uma outra obra com material mais atualizado do jundiaiense. Tempos de fúria - Contos de aventura e terror é o nome do livro publicado em 2005 com o selo da coleção Novos talentos da literatura brasileira na qual escritores dividem despesas com a editora Novo Século. Os seis contos da coletânea são uma boa amostra de um autor que amadureceu em estilo e em influências, deixando um pouco de lado a presença quase sufocante exercida por Lovecraft nos seus primeiros textos, a exemplo, de entre outros, "Sob o signo de Xoth" (presente no livro Outras copas, outros mundos). Neste seu trabalho mais recente, o escritor explorou novas fronteiras como fica claro já pelos autores mencionados na página de agradecimentos; uma eclética lista formada por gente do nível do brasileiro Monteiro Lobato, do argentino Jorge Luis Borges e do americano Robert E. Howard. Não apenas as influências variam, também são variados elementos misturados nas 160 páginas de Tempos de fúria.

Os textos que abrem e fecham o livro, "Estes 15 minutos", com 13 páginas, e "A aventura da criança perdida", com 11, são os mais curtos e exemplificam tal diversidade. O primeiro está mais para o realismo fantástico, com a história de um traficante pé-de-chinelo no Rio de Janeiro. Em uma viagem, entre os místicos do Nepal, o personagem conhecido como magro fez uma descoberta capaz de mudar sua carreira. Ele ficou sabendo que a realidade como a conhecemos não é o fluxo linear de acontecimentos que aparenta - a cada 15 minutos, um universo novo ocupa o lugar do antigo, são pequenos flashes que dão a ilusão de continuidade num eterno liga e desliga. Uma anologia possível, é Festim diabólico, filme clássico de Alfred Hitchcock. No longa do diretor inglês, somos convencidos de que a trama foi rodada em tempo real, um plano sequência com a duração do filme. Na verdade, por questões técnicas, houve a necessidade de se filmar cenas de, no máximo, 15 ou 20 minutos. Foi na montagem que ocorreu a mágica capaz de nos enganar. Votando ao conto: magro conseguiu um truque para burlar a montagem que algum diretor invisível executa em nosso universo e faz planos para tentar levar vantagem com isso. No final, descobrimos a utilidade que pode haver em uma balinha de hortelã. O único problema do conto é que o autor não se decidiu se deveria escrever o número 15 por extenso ou se deveria usar algarismos.

Trecho: "O mundo, cara, é cheio de remendos. Quando ainda existia vitrola, o que a gente chamava de 'pulos da agulha'. Emendas malfeitas entre os pedaços de 15 minutos. Costuras ruins. Merda, tá entendendo? Como diziam os romanos, Xíti rápens".

Já o outro curta-metragem de Orsi, o que encerra o livro, tem ainda mais ingredientes. "A aventura da criança perdida" mistura elementos de space opera - aquele subgênero com cenários interplanetários cujas principais referências são Guerra nas estrelas e Jornada nas estrelas -, FC hard - no qual escritores buscam trabalhar conceitos das ciências exatas sendo o mais precisos possíveis - e histórias de detetive à Sherlock Holmes. Na ambientação criada pelo paulista, teremos um futuro em que agências de segurança oficais são formadas por grupos nada recomendáveis, tais como mafiosos italianos e guerreiros islâmicos, competindo por contratos com todo tipo de jogo sujo. Outro aspecto bizarro deste mundo é a mutação que ocorre no nome das pessoas: Ângyla e Edowardo são exemplos, sendo que este último se trata da criança do título. O local do desaparecimento é uma interessante especulação do autor, uma plataforma espacial que serve para o atraque e o lançamento de naves. O encarregado para resolver o impasse criado com o sumiço do pequeno Edowardo é o narrador Fersen Quartelmar, que para resolver o caso não precisa nem abandonar seu escritório, um asteróide com meio quilômetro de comprimento. Bastam algum conhecimento de física e malandragem para se virar com o jogo de interesses que chama a atenção de gente perigosa.

Trecho: "O seqüestro e, mais do que ele, a concorrência aberta entre as empreiteiras havia colocado todo o sistema Terra-Lua e respectivas estruturas orbitais em polvorosa. Não havia criminoso ou vagabundo livre que não tivesse o braço ou outro apêndice torcido, quebrado ou chutado; puta que não fosse subornada ou drogada; preso que não fosse interrogado sob rede neural ou mesmo torturado. Como o moleque não reaparecia, ficou claro que nada disso estava dando resultado".

Voltando à seqüência original dos contos, já que todos os outros se encaixam na categoria média-metragem - ou seja, textos que apresentam por volta de 30 páginas -, temos um dos pontos altos de Tempos de fúria: "Questão de sobrevivência". Seus estranhos personagens e cenário lembram um tanto as melhores obras do movimento cyberpunk, como Piratas de dados, de Bruce Sterling. A diferença é que, na criação do brasileiro, o alvo da pirataria é algo mais tangível que bytes. No elaborado pano de fundo da história, vemos São Paulo em um futuro tão apocalíptico quanto verossímil. Na capital, acompanhamos as reflexões morais de Zé Mateus, um dos líderes do Campo Fidel, dito o maior acampamento urbano do Ocidente e que ocupa a maior parte do centro histórico da cidade. Em outro ponto do Estado, a ação é comandada por Pedro Minanhanga (Diabo-feito-Homem, segundo o autor), empenhado em capturar uma preciosa carga. Ele e seus companheiros agem no meio de uma favela transformada em área contaminada após um bombardeio, autorizado pelo governo. O resultado foi o surgimento de um local tão inóspito em que basta se respirar o ar sem proteção para encurtar drasticamente a perspectiva de vida. Para piorar a situação das pessoas que tentam viver no local, outra intervenção pública - a distribuição de anticoncepcionais na água - só serviu para impedir que mães pudessem amamentar diretamente seus filhos. Leite materno, agora, apenas o processado industrialmente, como o daquele carregamento que atravessa o estado em um caminhão para embarcar no Porto de Santos e ser exportado como mercadoria de luxo.

Com a narrativa dividida entre os pontos de vista dos dois protagonistas, o líder sem-teto com dilemas de consciência e o pragmático agente de campo, o conto segue estruturado em persongens bem construídos vivendo um contexto igualmente bem delineado. Carlos Orsi conseguiu dar uma consistência ao conto que outros autores seriam incapazes de obter em um romance. Aos poucos, os leitores recebem informações históricas daquela realidade, como o fato de ter havido uma guerra nos morros cariocas em 2011; terem ocorrido grandes saques aos supermercados sete anos depois; culminando com um período de repressão marcado pela chuva bioquímica naquela favela, no início da década seguinte. Detalhes das motivações e do grau de comprometimento de cada jogador também vão clareando lentamente até os atos finais. É interessante notar que o autor, apesar de andar no fio da navalha o tempo inteiro, com uma história que poderia cair para o maniqueísmo rasteiro, consegue se livrar das tentações e manter a trama em um grau de complexidade exemplar.

Trecho: "A autoria do epíteto 'Vale da Norte' era incerta - se de inspetores de Direitos Humanos da ONU que tinham visitado o local após os bombardeios, ou se de um locutor de telejornal - mas a expressão pegou. E o conjunto de ruínas, árvores retorcidas e solo venenoso, calcinado, deixou, de uma vez por todas, de ser o 'jardim' que jamais havia sido".

Se "Questão de sobrevivência" é mesmo um dos cumes do livro, "Desígnios da noite" está mais para um vale. O conto tem muitas qualidades, sempre naquele binômio de bons e exóticos personagens e cenários. Em um período de nosso futuro, quando começam experiências de colonização no espaço, o cotidiano na Terra está bastante modificado. Para se resolver pendências jurídicas, as pessoas passaram a dispensar advogados para confiar sua honra a duelistas profissionais, agentes que se enfrentam em pelejas que podem terminar em nocaute ou com a morte de um dos contendores. É o caso do narrador do conto, veterano de duelos e ex-combatente de tropas de elite, conhecido como Marco e que tem uma questão pessoal a resolver. De positivo ainda, há inovações tecnológicas propostas, como tatuagens utilitárias; a apropriação inteligente que o autor faz de uma pseudociência, no caso, astrologia zodiacal; e, claro, o estilo do texto - para quem decora manuais, no quais sempre se condena o uso dos adjetivos, talvez seja um choque a passagem na página 115 na qual são empilhados nove deles para descrever um relacionamento. De fato, são muitos pontos positivos, tantos que, talvez, o problema seja esse mesmo. Mesmo sendo o maior texto do livro, com 34 páginas, o espaço é pouco para tamanha fartura de informações, cenas de ação e de investigação. Caso fosse um plot de uma série, "Desígnios da noite" seria excelente. Como história única e fechada, peca pelo excesso.

Trecho: "Servotatuagens são o tipo de coisa que se espera encontrar em duelistas, atores, acrobatas - e bandidos comuns. Cada pigmento abriga um conjunto de circuitos e nanóides programado para ampliar determinadas perícias físicas, acelerar a transmissão de impulsos nervosos, induzir reflexos".

Os dois outros contos de Tempos de fúria formam o que poderia ser chamado de as crônicas venusianas de Carlos Orsi. O primeiro deles, "Pressão fatal" retoma a mistura de space opera, FC hard e história de detetive, mas com ainda mais eficiência que em "A aventura da criança perdida". Uma morte suspeita ocorre em uma estação espacial em órbita de Vênus, responsável por parte do projeto de terraformização do planeta. A expressão costuma ser mais aplicada a especulações sobre Marte, nosso outro vizinho no Sistema Solar, significando o conjunto de ações necessárias para tornar um ambiente extraterrestre compatível com a vida humana. Curiosamente, quase todos os tripulantes da Eros-III têm nomes franceses - a exceção é o médico chamado Mendes, cuja personalidade irascível lembra a de seu colega McCoy de Jornada nas estrelas. Para investigar a morte, ou o assassinato?, é convocado o inspetor-gendarme Henri Bernardin, um tipo que, pelo sotaque, trejeitos e cuidados com o bigode, lembra muito o detetive mais famoso do staff de Agatha Christie, Hercule Poirot. Exatamente como ocorre com Fersen Quartelmar - que, aliás, se formos compará-lo também aos personagens da Dama do Crime inglesa, estaria mais para o estilo de investigação de Miss Marple -, Bernardin tem nos conhecimentos científicos sua maior vantagem.

Trecho: "A atmosfera do planeta era um turbilhonar constante de cores mutáveis, um entrechoque de nuvens e matizes, salamandras azuis devorando javalis esverdeados que pisoteavam dinossauros vermelhos que comiam salamandras azuis, um caos vagamente harmônico de brilho e textura causado pela combinação do clima feroz do planeta com os dispositivos automáticos de terraformização - sondas, robôs e nanóides - com que a Eros-III bombardeava a superfície venusiana".

Para encerrar, o segundo conto ambientado em Vênus e, para dizer o mínimo, um dos melhores textos de FC já criados por brasileiros. "Planeta dos mortos" começa no clima de um dos grandes clássicos do gênero, Tropas estelares, do americano Robert Heinlein, uma vez que o personagem que narra a trama é um soldado, cujo nome desconhecemos, lotado no segundo Batalhão de Batedores de Florestas, Esquadrão de Caça, equipado para enfrentar qualquer ameaça. A terraformização, iniciada no conto anterior, está completa. O planeta conta com dois continentes, Afrodite e Ishtar, separados pelo Mar de Níobe, e com pelo menos um conjunto de ilhas, o Arquipélago de Têmis. Para ajudar na tarefa, o autor concebeu um mundo em que ocorreu uma formidável descoberta, ou melhor, redescoberta. Carlos Orsi faz novamente uso de um recurso pseudocientífico aqui, no caso, as teorias do psiquiatra Wilhelm Reich sobre o orgônio. Na reinterpretação do brasileiro, os polêmicos estudos do austríaco foram reabilitados no início do século XXII como parte de um novo campo de estudos: a neoquântica. Descobriu-se que existem partículas - bíons - que formam a energia que torna a vida possível. Elas fazem a diferença, "o salto quântico", entre algo apenas orgânico e o que é de fato vivo.

Este é por si mesmo um dos melhores conceitos já trabalhados na ficção científica nacional, tanto que já foi utilizado por outro autor em seu romance de estréia: A mão que cria de Octávio Aragão - não por coincidência, é ele quem assina a apresentação de Tempos de fúria. Orsi vai além, explorando a idéia até as últimas conseqüências, dando uma explicação que soa plausível para um dos maiores fetiches dos filmes B de terror. No meio das divagações dos personagens, há espaço na trama para muitas e ótimas cenas de ação, as quais o autor parece dever a um daqueles escritores citados nos agradecimentos. Afinal, quantas vezes Robert E. Howard fez seus personagens se perguntarem - o cimério Conan à frente - como matar algo que já está morto? A prosa do jundiaiense está em grande forma neste conto, principalmente nas linhas finais. Entre suas qualidades, podemos dizer que Carlos Orsi é um mestre no desfecho das histórias, mas em "Planeta dos mortos" ele se esmerou. O final é lírico. Atroz, mas lírico.

Trecho: "Torsos. Tiros! Cabeças. Tiros! Membros. Não pessoas, mas partes - movendo-se (ou seria a luz?). Bocas sangrentas. Olhos sangrentos. Tiros! Unhas. Órbitas vazias.

Tiros!

Escuridão".

Da leitura da meia dúzia de textos que formam Tempos de fúria - Contos de aventura e terror ficamos com uma impressão inusitada. Afinal não é sempre que encontra um escritor de gênero capaz de trabalhar tão no limite quanto este. Há algo de iconoclasta em todas as histórias, um distanciamento de autocrítica em cada uma delas. Porém, ele não cai nunca nas armadilhas mais fáceis, nas paródias, na carnavalização dos temas. Há desconstrução, mas ao mesmo tempo há também uma disciplina por trás disso tudo, de quem sabe valorizar as particularidades da ficção científica, do terror, do mistério... Isso é raro. As aventuras vividas pelo traficante magro, pelo detetive Fersen Quartelmar, pelos revolucionários Zé Mateus e Pedro Minanhanga, pelo duelista Marco, pelo inspetor-gendarme Henri Bernardin e pelo soldado sem nome acabam sendo uma amostra pequena da produção de um dos mais prolíficos de nossos autores. Porém, como já foi dito, é um bom ponto de partida para os interessados em julgar se críticos argentinos e leitores americanos estão certos a respeito de Carlos Orsi.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O domínio do mal

Nova Iorque, Londres, Tóquio. Quem acompanha obras de ficção científica em seus diversos formatos - seja em livros, quadrinhos, filmes, seriados de TV, animações, videogames ou jogos de RPG - está sempre sendo apresentado a visões futurísticas daquelas metrópoles mundiais. Menos usual é acompanhar especulações do tipo em lugares célebres por apresentar forte resistência a mudanças, mais afeitos às tradições que ao ritmo adrenalizado das revoluções tecnológicas. Lugares assim como a infinidade de pontos pretos que sinalizam nos mapas os municípios de Minas Gerais, o estado-símbolo do tradicionalismo quando se pensa no Brasil, algo que pode ser resumido em uma frase famosa de um filho da terra, Otto Lara Resende: "Minas está onde sempre esteve". Por isso mesmo, pelo fato de usar Belo Horizonte e outras cidades mineiras ainda lutando para preservar suas características históricas em um futuro não tão distante - ou "no outono do século XXI" - é que Quintessência já começa surpreendendo os leitores.

O livro representou a estréia de um novo escritor brasileiro de FC: Flávio Medeiros Jr., médico especializado em oftalmologia nascido, criado e formado na capital mineira, que em 2004, mesma época de seu aniversário de 40 anos, resolveu se lançar na nova atividade pelas mãos da conterrânea editora Monções. A segunda surpresa da obra é a constatação de que seu autor levou bastante a sério a novidade, muito mais que a média dos iniciantes neste mundo complicado da literatura de entretenimento nacional. Na criação da intrincada trama de Quintessência, ele demonstrou que décadas acumuladas de leitura - principalmente de quadrinhos, já que as referências a eles são onipresentes na obra - acabaram servindo de formação para um contador de histórias muito bom.

Nas primeiras 20 páginas do livro, a impressão que pode passar é a de que estamos diante de um Robin Cook made in Brazil. Flávio Medeiros Jr. tem muitas semelhanças com aquele escritor americano que não só é médico, como também conta com especialização em oftalmologia e tem um passado de professor universitário. Cook é considerado o responsável pela introdução de temáticas ligadas à medicina na literatura popular, sempre as misturando com outros gêneros: suspense, horror e até ficção científica. Para completar, tal e qual o brasileiro novato fez em seu primeiro livro, o veterano é conhecido por dar títulos com apenas uma palavra a suas obras, alguns exemplos são Febre, Coma, Cérebro, Invasão. A impressão é reforçada por algo a mais que tais coincidências. Naquele trecho inicial, o detetive Tomaz Rizzatti, personagem narrador do livro, passa por uma longa - e realista - consulta em que é diagnosticado como portador de epilepsia do lobo temporal, condição muito rara por atingir duas áreas distintas do cérebro e provocar súbitos apagões de consciência.

Mas esse é só o início da história. Ao longo de 232 páginas, Medeiros vai bem além da sessão Plantão Médico, há muitas outras referências, diretas ou indiretas, em seu trabalho. O caso em que o protagonista está envolvido - a serviço de uma força policial que unificou agentes civis e militares - é a investigação de uma série de ataques terroristas em sua cidade. O atentado que abre o livro é cometido em um shopping de Belo Horizonte: um homem não-identificado abre fogo contra visitantes do local e, quando parece que vai ser capturado pela segurança, comete suicídio graças a um poderoso material bélico de uso controlado. Pistas vão aparecendo e tudo indica que há uma bizarra ligação com outros casos de assassinos suicidas, um deles investigado anos antes pelo próprio Rizzatti, o de um franco-atirador em ação na Lagoa da Pampulha, e ainda muitos outros, espalhados entre Europa e EUA. Há motivos para se supor que todos estes crimes tenham sido cometidos por uma mesma pessoa, apesar desse detalhe inquietante levar a se pensar na existência de um suicida serial.

Diante do alcance globalizado dos atentados, que podem estar sendo coordenados por um terrorista internacional, igualmente dado como morto, Tom Rizzatti carrega uma sombra em suas andanças pelos municípios mineiros: um agente paulista da Interpol. O que começa como rivalidade profissional - e aquele sentimento arisco bem mineiro - vai se degenerando em desconfianças mútuas, perseguições automobilísticas, tiroteios, trocas de identidades e todos os componentes que tornam um thriller apto a receber a classificação chavão de "cinematográfico". Essa porção do romance é marcada por descrições rápidas e precisas das paisagens reais, ainda que em suas versões futurísticas. Lembra um tanto os pontos fortes do inglês Frederick Forsyth, velho mestre dos livros de espionagem pé-no-chão, como O dia do Chacal, O Manipulador, Dossiê Odessa, Ícone e longa lista.

O clima policial do livro continua mesmo após a grande virada que ocorre pouco antes da metade de suas páginas. É uma descoberta feita pelo detetive narrador que faz a trama levar suas características de FC a outro nível, para além da descrição de traquitanas tecnológicas e previsões futebolísticas. Tentar comentar, neste ponto, alguma referência da literatura ou do cinema seria entregar surpresas que aguardam os futuros leitores. Porém, mesmo a reviravolta não muda o rumo de película impressa de Quintessência. Antes pelo contrário, a velocidade da história aumenta, o número de personagens que se alternam e deixam escapar mais algum detalhe do enredo se amplia, sem perder o foco geral. Na verdade, o autor só altera mesmo o ritmo no clímax, nas aproximadamente 40 páginas finais, nas quais o livro deixa de lado o teor cinematográfico. Com um longo, muito longo, quase interminável diálogo - praticamente um monólogo - o mais correto seria dizer que, ao final, o andamento está mais para o do teatro que para o da tela de cinema.

Por sorte, Medeiros é hábil na construção das falas de seus personagens e, com isso, o texto continua fluindo nas revelações finais de sua obra. Para ser mais exato, nesse ponto o autor dedicou especial atenção a detalhes que costumam ser ignorados por muitos escritores de ficção científica, tanto brasileiros quanto estrangeiros. É o caso da especulação sobre como evoluiria a linguagem oral nos quase cem anos que separam nossa realidade e o período em que se passa a história. O escritor soube ser sutil quando necessário para se esbaldar quando há oportunidades. Nas conversas do dia-a-dia, entre adultos, pouco mudou, com apenas o acréscimo de um ou outro neologismo. O mais utilizado é um enigmático "bandjo" que parece ter substituído completamente expressões como "cara", "malaco" ou "malandro". Já nos momentos em que surge algum adolescente no enredo, começa um verdadeiro dilúvio de gírias, felizmente traduzidas pelo contexto. Detalhes pequenos mas que tornam uma trama de FC bem mais plausível.

Outro fator que ajuda a garantir a credibilidade do texto é a construção dos personagens, principalmente do protagonista. Tomaz Rizzatti não é só o detetive com um problema grave de saúde, recém-divorciado - ele se recusa a pronunciar o nome da ex-mulher, prefere chamá-la pela alcunha de Desgraçada - e fã de todo gênero de quadrinhos antigos imaginável. Já que somos testemunhas de seus pensamentos, flagramos suas reflexões sobre o assunto que dá título ao romance: qual a quintessência, a natureza mais profunda do mal? Qual o papel do livre arbítrio, do poder de decisão, nas nossas escolhas morais? Diante das atrocidades que é obrigado a investigar, algumas tão chocantes quanto o massacre das dezenas de pessoas na abertura do livro, esse é o tipo de questionamento a martelar o cérebro já atingido pela tal epilepsia do lobo temporal. Acaba sendo um contraponto interessante ao cinismo canalha da maioria de seus colegas da ficção o comportamento deste detetive tão preocupado com o real alcance do domínio do mal.

É bom avisar: tais questionamentos são sempre feitos a partir de um ponto de vista laico, não religioso. Até para caracterizar tal visão de mundo agnóstica, o autor reitera constantemente que em seu universo as religiões são coisa do passado. Em diferentes trechos da obra, referências bastante óbvias a mitologias greco-romana e indiana, além do próprio Cristianismo, passariam despercebidas aos personagens caso eles não as pesquisassem na ultranet, o próximo passo evolutivo de nossa internet contemporânea. Tudo bem, mas em um ponto isso fica pouco crível, quando uma das referências está ligada à identidade do já citado terrorista internacional. Que a população comum não perceba a ligação seria bem razoável de se acreditar, mas quando falamos de um agente que está na caçada há anos e que, obrigatoriamente, já teria trabalhado na formulação do perfil psicológico de sua presa, isso não soa muito lógico. Este, porém, é um dos raros deslizes de uma trama muito bem trabalhada, funcionando dentro das melhores tradições dos gêneros a que está afiliada.

Com Quintessência a literatura especulativa nacional somou alguns ganhos. O Brasil foi apresentado a Flávio Medeiros Jr. um novo autor de ficção científica que garante ainda ter novas histórias para contar quando surgirem as oportunidades. Aquele clube de detetives que existe entre as ruas Morgue e Baker recebeu Tom Rizzatti como um novo embaixador brasileiro. E os mineiros ganharam um romance de FC que, mesmo com todas as influências internacionais, é tipicamente seu, no mesmo sentido que o distópico Não verás país nenhum, de Ignácio Loyola Brandão, é tipicamente paulista e o lascivo O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro, é tipicamente baiano, isso para citar apenas dois clássicos do gênero produzidos no país. Vale a pena conferir, nem que seja para tirar a limpo se, no futuro próximo, Minas vai continuar onde sempre esteve.

Serviço: Para entrar em contato com o autor utilize o email livro.quintessencia@terra.com.br

sábado, 4 de agosto de 2007

A guerra dos homens-peixe

O que aconteceria se ao invés de se tornar escritor de livros de aventura um dos pais da ficção científica entrasse para o mundo da política? Mais que isso, e se Jules Verne - ou Júlio Verne, para quem prefere aportuguesar o nome de vultos históricos - chegasse ao topo dessa outra carreira e fosse eleito, em 1886, o primeiro presidente da França? Caso continuasse apenas com tal linha de pensamento, o escritor, designer e professor universitário carioca Octavio Aragão teria escrito um livro de um subgênero daquela mesma ficção científica que Verne ajudou a dar à luz: a história alternativa, que é marcado por descrever como seria o mundo se alguns eventos históricos ocorressem de modo diferente do que aprendemos na escola. Porém, o autor foi além e em seu primeiro romance solo, A mão que cria, ele não trata apenas do criador de personagens como o Capitão Nemo e Phileas Fogg. Aragão também deu nova vida às criaturas, e, com isso, o gênero explorado foi outro; foi a chamada ficção alternativa, a verdadeira arte de domar os personagens alheios.

Para os leitores habituais de quadrinhos, o mais famoso exemplo desse outro ramo da ficção científica é a série As aventuras da Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O´Neil. Contudo, de maneira diferente da dupla de quadrinistas ingleses, o escritor brasileiro deixou de lado os protagonistas mais espalhafatosos dos livros clássicos e optou por personagens mais discretos. Por isso mesmo, em uma primeira leitura, eles podem passar despercebidos por quem não conhece tão profundamente a literatura fantástica do século XIX (sabiamente, o autor acrescentou como extra uma muito útil lista de anotações ao final do livro, esclarecendo algumas das referências mais obscuras).

Um exemplo vem do livro Vinte mil léguas submarinas: ao invés de se apropriar do bizarro comandante do Nautilus, como fizeram Moore e O'Neil, Aragão tomou emprestado de Verne o pesquisador Pierre Aronnax. Trata-se do estudioso que sobreviveu ao trágico fim do submarino e que, na versão do brasileiro, conseguiu preservar alguns dos segredos da embarcação pioneira e ainda foi o responsável pelo ingresso de Verne na política. Da mesma forma, em A mão que cria vamos sendo apresentados a diversos outros personagens literários - ou a seus antepassados e descendentes - criados não apenas pelo presidente alternativo da França mas também por diversos de seus colegas. No portfólio estão escritores como H.G. Wells, o outro pai da ficção científica, H.P. Lovecraft, Herman Melville. Isso para não falar em outras personalidades reais, como os alemães Adolph Hitler e Rudolph Hess e os brasileiros Dom Pedro II e Oswaldo Aranha, todos compartilhando uma narrativa que cruza aproximadamente um século e meio de história.

Com um cenário tão imaginativo, a situação nessa linha temporal alternativa não demora a se complicar e uma guerra entre duas novas raças passa a pôr em risco todo o mundo. De um lado, o incentivo que o governo francês empreende em nome de novas tecnologias, passa rapidamente do estágio de submarinos e metralhadoras para a fase de implantação de um exército de supersoldados anfíbios (para quem gosta de academicismos, o gênero baseado em avanços científicos imaginários no século retrasado também recebeu alcunha própria: é o steampunk). Do mesmo modo que um sobrevivente deu prosseguimento às criações náuticas de Nemo, um segundo conseguiu resgatar os segredos de manipulação genética descritos por H.G. Wells em A ilha do Dr. Moreau (aliás, vem deste livro a citação que dá nome ao trabalho de Aragão).

O resultado é uma dinastia de seres híbridos de homens com golfinhos que, em um primeiro momento, foi muito útil à humanidade ao arriscar a vida em duas guerras mundiais. O problema veio com os tempos de paz, quando aqueles experimentos, mais fortes e longevos que os seres humanos normais, passam a representar séria concorrência em um mercado de trabalho escasso. Com isso, os anfíbios viram alvo de manifestações violentas. Um paliativo foi, tal como ocorreu na história real com o povo judaico, a criação de um Estado dedicado aos híbridos. A nação de Lemúria - parte submersa, parte formada pela ilha onde Paul Alphonse Moreau realizava suas experiências - se tornou o refúgio de aproximadamente 50 mil habitantes. Toda esta parte do livro guarda notáveis coincidências com um livro lançado exatamente 70 anos da obra do brasileiro: A guerra das salamandras, do escritor tcheco Karel Capek - autor, entre outras coisas, do termo robô. Digo coincidências porque Octávio Aragão afirma não ter utilizado as criações de Capek em sua mistura ficcional.

Do outro lado do front, o segundo exército conseguiu se manter com mais discrição mas também seguiu influenciando de forma decisiva os acontecimentos daquele mundo, servindo de inspiração para os piores momentos da história do século 20. Formado por uma legião de mortos vivos, a origem dessa outra potência alternativa está ligada a um evento real: a queda de um asteróide na região da Rússia conhecida como Tunguska, em 1908. Um dos maiores achados do livro de Octavio Aragão é a real identidade do general desses zumbis, um misterioso gigante de quase três metros que se denomina Ariano. O escritor brasileiro conseguiu recriar com maestria uma das maiores vítimas de descaracterização ao longo de décadas de adaptações e novas versões da obra em que surgiu originalmente. Com isso, o segundo capítulo de A mão que cria, "Olhos amarelos", no qual o clima de ficção científica predominante é deixado de lado em nome de uma ambientação mais típica da literatura de horror, pode ombrear com as melhores criações do gênero.

Esse feito é a prova do amadurecimento de um autor que estreou profissionalmente há quase 10 anos, com a noveleta "Eu matei Paolo Rossi", na coletânea de ficção científica Outras copas, outros mundos, lançada pela finada editora Ano-Luz, em 1998. Centrada na idéia de viagens no tempo, aquela primeira história deu origem ao projeto mais ambicioso do escritor: o universo Intempol, uma polícia temporal corrupta e formada basicamente por brasileiros. A idéia gerou um portal (no momento fora do ar), também deu origem a outro livro de coletânea com vários autores explorando aquele conceito e até um álbum em quadrinhos, The long yesterday, criada pelos colaboradores Osmarco Valladão e Manoel Magalhães (mesma dupla responsável pelo mais recente O Instituto).

Com maturidade autoral ou não, todo aquele cenário de A mão que cria não passaria apenas de um pano de fundo engenhoso se não houvesse uma trama para amarrar tantos fatores inusitados. Para desempenhar esse papel, o escritor imaginou um drama de vingança, inveja, traição e atentados políticos que, sem pieguice nem soluções fáceis, se arrasta por três gerações da dinastia que governa Lemúria, os Currie McKenzie. Aqui, os já mencionados leitores de quadrinhos podem fazer associações com monarcas anfíbios das maiores editoras americanas: Namor McKenzie, o Príncipe Submarino da Marvel, e Arthur Curry, o Aquaman da DC, além de longa lista de seus respectivos coadjuvantes.

Isso, em parte, se explica por originalmente A mão que cria ter sido elaborado como uma fanfic - ou seja, uma ficção de fã, espécie de irmã caçula da ficção alternativa, em que admiradores imaginam aventuras de personagens do cinema, quadrinhos, cinema ou TV. Infelizmente, o livro não faz nenhum comentário sobre o fato de uma versão preliminar do texto ter sido publicada no site Hyperfan no formato de uma minissérie do Aquaman. Nem mesmo naquela lista de anotações se mencionam as várias referências quadrinísticas, ao contrário do que ocorre com as citações literárias, cinematográficas e até históricas.

Mais grave que tal omissão, foram alguns deslizes editoriais que resistiram às revisões do texto. Nem é o caso de mencionar alguns poucos erros de digitação e vícios de linguagem - mas, convenhamos, a redundância "sair de dentro" bem que poderia ter sido evitada nas duas vezes em que aparece no livro -, afinal eles não comprometem em nada o andamento da história. Grave mesmo foi a desatenção com vários dos textos introdutórios que deveriam ajudar o leitor a se localizar no tempo e no espaço em que se passam certos trechos do livro. Tais erros, devido à estrutura extremamente complexa, com múltiplos narradores e não-linear da obra, fatalmente podem prejudicar a compreensão mesmo do leitor mais atento.

Logo na página 22, um atentado ocorre no que é descrito pela legenda como sendo "Londres, 11 de abril de 1992". Pelas próprias notas do autor, descobrimos que o mais exato seria situar a data em 30 de março de 2002, que vem a ser o suposto tempo presente da ficção. Mais à frente, na página 96, a legenda introdutória assinala: "Lemúria, 1940". Aqui fica impossível determinar a data com exatidão, entretanto, certamente não pode ser aquela. Afinal, a cena em questão mostra um certo persongem tomando decisões maduras; personagem este que só veio a nascer oito anos após 1940. Por fim, todas as legendas do capítulo 7 que remetem a 1946 devem ser desconsideradas e substituídas por um simples "Hoje". Do contrário, quem tentar seguir a linha temporária alternativa proposta tem boas chances de sofrer um colapso mental. Uma segunda edição poderia resolver com facilidade esses lapsos.

Curiosas também são as várias pontas soltas que foram deixadas ao longo da história e os persongens que são apenas delineados mas não têm uma participação ativa na trama. Isso pode ser explicado pela origem fanfic da obra, quando o autor fez referência obrigatória aos coadjuvantes dos quadrinhos. Já um otimista, diria que o plano desde o início era dar seqüência ao livro, algo que pode ser baseado nas últimas linhas da obra, indicando que o Brasil deverá vir a ter uma maior importância naquele mundo fictício. Essa hipótese seria a ideal, até porque de tal forma seria possível desenvolver temáticas que foram apenas esboçadas. Para falar de um caso específico, temos uma interessantíssima visão da religiosidade dos homens-peixe, porta aberta para novas possibilidades a serem exploradas (e que poderiam justificar a inteligente sacada da capa do livro, que conseguiu tornar a foto do detalhe de um submarino em algo similar a um templo pagão).

Se houver mesmo a continuação, é provável que ela amplie ainda mais suas semelhanças com um clássico da ficção científica nacional que também foi escrito por um carioca, misturou Dr. Moreau com elementos brasileiros e que contou com uma forte ligação com os quadrinhos. O detalhe é que o livro em questão foi escrito em 1925. A Amazônia misteriosa, do médico Gastão Cruls (1888-1959), é tão devedor da obra de Wells quanto A mão que cria. No lugar de Moreau, propriamente dito, encontramos na selva amazônica um alemão chamado Hartmann, que vive em uma tribo só de mulheres índias com sua esposa francesa, Rosina. Longe do controle das autoridades, o médico germânico fictício realizava experiências bizarras que o mundo mais tarde associaria a um médico germânico real, o notório Josef Mengele - que também teve passagem por nosso país e acabou protagonizando um livro de FC, Os meninos do Brasil, de Ira Levin. Mas além de, por exemplo, retirar as glândulas tireóides e do timo de recém-nascidos, Hartmann buscava "acabar com a teoria da fixação das espécies": ou seja, através, de enxertos, transplantes e cruzamentos, ele estava criando no Brasil da década de 20 seres híbridos entre mamíferos, aves e répteis. Entre eles, um garoto-macaco denominado Hominido, muito semelhante aos personagens que veríamos em O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro. Trinta anos depois de seu lançamento e quatro antes da morte do autor, em novembro de 1955, o livro foi adaptado para os quadrinhos na revista Edição Maravilhosa, da editora Ebal, com desenhos a cargo do versátil André Le Blanc.

Passado o interlúdio, voltemos à obra de Octávio Aragão. Outra questão, essa mais presa ao tal detalhismo acadêmico, diz respeito a classificação que A mão que cria vem recebendo. Classificação que aparece tanto na propaganda de seus editores quanto no prefácio, assinado pelo escritor Gérson Lodi-Ribeiro, maior autoridade - na teoria e na prática - do gênero história alternativa do Brasil. Nesses casos, A mão que cria vem sendo denominado de primeira experiência de ficção alternativa brasileira. A afirmação já provocou ligeira polêmica entre a pequena, mas ativa, comunidade ligada à ficção científica no país. O caso é que, mesmo descontando histórias curtas mais recentes, existem exemplos de narrativas longas que se enquadram perfeitamente naquele gênero. Caso das várias histórias em que Monteiro Lobato levou personagens da literatura e da mitologia ao Sítio do Picapau Amarelo. Além disso, para citar um único personagem universalmente conhecido, Sherlock Holmes já veio ao nosso país pelas mãos de, pelo menos, três autores. Nos anos 80, o jornalista e escritor catarinense Raimundo Caruso se apropriou da criação de Arthur Conan Doyle em seu Noturno, 1894. Já na década seguinte, primeiro J.J. Veiga, célebre autor do cada vez mais atual A hora dos ruminantes, e em seguida o apresentador e humorista Jô Soares também escreveram histórias alternativas com o detetive inglês, respectivamente em O Relógio Belisário e O xangô de Baker Street.

De qualquer forma, mesmo sem poder ostentar o título de desbravador desse território, Octavio Aragão deve, sem favor algum, ser considerado o autor que encarou com mais fôlego e de modo mais radical o universo da ficção alternativa. Antes dele, nenhum outro autor nacional havia apresentado uma obra em que fossem empregadas tantas ferramentas desenvolvidas pelos maiores especialistas dessa área. Gente como o britânico Kim Newman, de Anno Dracula, e o americano Phillip José Farmer, Tarzan alive, que escreveram elaboradas versões para o vampiro da Transilvânia e para o homem-macaco das selvas. Isso para nem voltar a citar aquela dupla dos quadrinhos. Com sua engenharia capaz de entrecruzar distintas criações literárias em um mesmo cenário, o escritor carioca pode popularizar o gênero no país, colaborar com a difusão dos autores clássicos e ainda inspirar novos experimentos brasileiros. Afinal, com A mão que cria ele já foi responsável por pelo menos um milagre, ao garantir a ressurreição do selo Unicórnio Azul, da editora Mercuryo. O mesmo que, na década passada, levou às livrarias histórias originais do criador de Conan, Robert E. Howard, e livros baseados na série Arquivo X. Infelizmente, brigas entre os sócios daquela editora abortaram a sequência de novos livros de ficção científica pelo selo, mas Octávio Aragão já trabalha na segunda parte de sua ficção alternativa, apesar de não revelar por qual editora pretende publicá-la.

Sangue e silício

No mundinho dos leitores brasileiros de literatura fantástica em geral, e de ficção científica no particular, certos livros escritos por seus compatriotas carregam um status mitológico semelhante ao do misterioso Necronomicon. Alguns privilegiados juram que já os leram, citam trechos cifrados em conversas ou em trocas de e-mails e até deixam escapar detalhes da trama. Só que não emprestam, nem dizem como seus interlocutores poderiam adquirir algum exemplar, mesmo que seja de terceira ou quarta mão, rasurado, sem capa, com manchas de café espalhadas pelas páginas. Com isso, o mito em torno do objeto de culto cresce e divide o mundo entre os que, mesmo sem provas, crêem em sua existência e aqueles que, meio desdenhosamente, classificam tudo de delírio coletivo ou de teoria conspiratória. Pelo menos, agora, desde junho de 2007, uma dessas lendas urbanas passou a ter sua existência comprovada e se tornou acessível a todos os interessados - sejam crentes ou céticos -, graças à intervenção tecnológica do site Overmundo.

Interface com o vampiro e outras histórias havia sido publicado e comercializado, em formato eletrônico, pelo Writers, um projeto colaborativo para a produção de obras literárias. O problema é que, logo após o seu lançamento, no ano 2000, a editora virtual fechou, prejudicando tanto a divulgação quanto a disseminação daquele título. Somente um seleto grupo de pessoas ligadas ao meio da FC teve acesso ao e-book na época, o que lhe emprestou a mesma aura de inatingível de alguns dos livros clássicos desse gênero lançados no país em meados do século passado. O mistério só acabou porque seu autor, após ter recuperado a totalidade dos direitos autorais da obra, resolveu torná-la disponível na íntegra no Overmundo. O mérito pela iniciativa, portanto, cabe ao escritor e poeta e tradutor e dramaturgo e ator e jornalista e teórico professor e blogueiro Fábio Fernandes.

O livro é um apanhado de histórias curtas escritas entre 1989 e o ano da primeira publicação, ao todo são 11 jogadores, tal e qual nas melhores seleções. Apesar do longo tempo de produção entre um e outro desses textos, o leitor tem mais a ganhar se optar por acompanhá-los na mesma ordem com que foram dispostos nas páginas virtuais ao invés de praticar uma leitura aleatória. Interface com o vampiro tem algo em comum com discos conceituais, a exemplo do aniversariante Sergeant Pepper: a justaposição de suas faixas - ou, no caso, capítulos - empresta sentidos novos à fruição do conjunto. Em alguns casos de maneira explícita, em outros, insinuada, a ordem com que o autor organizou as peças de sua obra sugere relações entre as diversas histórias, fortalecendo o livro como um todo, mais que a simples soma randômica de suas partes. Outro ponto em comum com o famoso álbum dos Beatles, é o gosto por harmonizar cultura erudita e biscoito fino para as massas, terreno pantanoso que costuma engolir muitos de seus exploradores.

Já que a ordem escolhida para a apresentação foi aqui elogiada, não sejamos contraditórios; façamos alguns comentários a respeito dos contos na mesma sequência com que eles entram em campo.

"O artista da carne (uma párabola)" - Interface com o vampiro começa com a história de um... vampiro. Daqueles clássicos, com caninos proeminentes e gosto por sangue. Mas estamos no século XXII, a existência desses seres é reconhecida e até tolerada. O protagonista, sem nome, por exemplo, só se alimenta em bancos de sangue autorizados. Cansado da solidão de uma vida que se estendeu por mais de 200 anos, ele faz uma encomenda ao personagem que dá título ao texto: quer que o Artista da carne providencie o clone de uma mulher que conheceu no passado, antes da opção pelo vampirismo. Narrativa econômica e minimalista ao extremo.

Trecho: "Os meses passam, e tudo continuou perfeito. O vampiro desconfiou: a experiência lhe ensinara que nada continuava perfeito".

"Em camadas" - Existe um texto que é praticamente unanimidade entre os críticos quando perguntados a respeito do que existe de melhor em termos de ficção científica no Brasil. Com justiça, o escolhido é "A escuridão", noveleta escrita em 1963 pelo poeta e decano da FC nacional André Carneiro. Trata de um mundo em que todas as fontes de luz - do sol ao fogo, das lâmpadas às estrelas - vão lentamente se extinguindo, deixando a humanidade, simbolizada por um homem solitário chamado Wladas, totalmente entregue às trevas. O segundo conto da coletânea de Fernandes guarda semelhanças e qualidades que permitem a comparação com o clássico do gênero nacional. O protagonista aqui recebeu o nome de Ivan, aparentemente em homenagem a outro escritor brasileiro de ficção científica Ivan Carlos Regina (um paulista cujos textos também podem ser lidos em alguns sites), a quem a história é dedicada, ao lado do americano Philip K. Dick (autor que já foi traduzido no Brasil por Fernandes, exemplo mais recente, o livro Valis). Aos poucos, Ivan percebe uma série de estranhos fenômenos: primeiro são estações de rádio que aparentemente começam a sofrer interferências, como se as frequências estivessem sobrepostas, e em seguida, fitas de vídeo e de aúdio também dão sinais do mesmo tipo de problema. Em um crescendo rápido, as falas e os idiomas das pessoas, textos de livros, o sabor dos alimentos, os sonhos, as imagens, as impressões táteis, tudo enfim, vira um absurdo sinestésico, se misturando em um amálgama de realidades. O efeito do conto é pertubador. Apesar do ritmo e andamento serem perfeitos, faz o leitor imaginar o que aconteceria se o autor o trabalhasse na forma de um romance à parte.

Trecho: "É como se tudo no universo existisse em camadas, e agora elas estão se interpondo umas no meio das outras, invadindo os espaços alheios, acelerando a entropia, antecipando um novo Big Bang".

"A conta, por favor (ou Salvador almoça no Antiquarius)" - Basicamente, uma piada corriqueira ganha ares de conto fantástico. Escrito com estilo, o texto narra, em primeira pessoa, a refeição que um homem de tapa-olho faz em um restaurante caríssimo. O conto é dedicado a outro escritor brasileiro, Victor Giudice (1934-1997).

Trecho: "Os mais endinheirados sempre trazem um enfermeiro a tiracolo para servir a comida na boca. Pelo menos foi o que vi há um ano, da primeira vez em que vim. Este é o meu segundo jantar aqui. E provavelmente o último. É tudo muito caro hoje em dia. Por isso saboreio o quanto posso".

"Falange vermelha" - Este é um caso em que a justaposição dos contos provoca uma sensação de que tudo pode fazer parte de um contexto mais amplo. Lido isoladamente, o quarto texto de Interface com o vampiro e outras histórias, bastante curto, aparentemente não faz parte de nenhum gênero da literatura fantástica. Parece mais um pequeno tratado naturalista sobre um homem que teve um dedo decepado (ou ainda, um homem que decepou o próprio dedo). Mas quando lido em conjunto com aquele que o antecede, o efeito é de algo bem maior.

Trecho: "No instante do corte, é como quando você corta uma fatia de queijo, só que o queijo é você. Você sente a faca deslizar pela carne, e é tão palpável essa sensação que a impressão é de que você também sente os nervos sendo cortados. Mas é só impressão: você só conseguiria sentir um corte a esse ponto se a faca estivesse muito cega. Porque se estiver bem afiada você não sente quase nada".

"M.U.A." - Início dos anos 80, Ramón e Renata são dois jovens que estão prestes a se casar no Rio de Janeiro quando o rapaz simplemente desaparece. Ele só volta a dar sinal de vida seis anos depois, reaparecendo de súbito na frente de sua ex-noiva para lhe contar uma história absurda. Com uma engenhosa incursão pelas Leis de Newton (as letras do título são a sigla de movimento uniformemente acelerado) usadas para explicar fenômenos da quarta dimensão, Fábio Fernandes criou uma bela história de personagens palpáveis envolvidos em uma situação surreal. Digno dos melhores momentos de um Além da Imaginação, até pela reviravolta do final.

Trecho: "Isso começou a acontecer uns seis meses antes do dia do casamento. Eu comecei a ter brancos estranhos. Atravessava uma rua de manhã, e chegava do outro lado à tarde. Entrava na cozinha à noite e voltava para a sala ao meio-dia".

"Se um viajante a bordo de um disco..." - Outro exemplo de texto curto que parece ter tido origem em uma piada ampliada. Exercício de estilo em narrativa de segunda pessoa sobre uma vítima de rapto espacial. O que os alienígenas poderiam querer com uma cobaia quase cega de tão míope? A dedicatória, desta vez, foi para dois autores internacionais: Ítalo Calvino, nascido em Cuba mas considerado um dos maiores escritores italianos (de quem Fernandes tomou emprestado o título do conto), e H. G. Wells, o inglês que é um dos fundadores da moderna FC.

Trecho: "O medo que você esperava sentir não é tão grande. Tantos filmes de ficção científica tinham que servir para alguma coisa, afinal".

"Declínio e queda" - Sucessão aparentemente interminável de desgraças na vida de Guilherme, por certo o mais azarado jornalista carioca de todos os tempos. Entre um ônibus e outro, ele tem que enfrentar funcionários burocratas e grevistas, sofrer com múltiplos assaltos e arrastões, levar tiros, facadas e pancadas, aguentar chuva, fome e dor. Crueldade autoral na última potência.

Trecho: "Quando salta no ponto final, está chapado, anestesiado, cansado de tudo, os nervos esticados como cordas finíssimas, prontas para se romper com a menor tensão".

"Não temos tempo" - Mudança de cenário: sai o Rio de Janeiro, terra natal do autor que atualmente mora em São Paulo, e entra Itabirito, cidadezinha mineira, entre Belo Horizonte e Ouro Preto, como lembra o narrador do conto. O narrador em questão é um adolescente, cheio de citações cinematográficas na ponta da língua, que escolhe o dia de um baile para escapar com sua namorada. Só sabemos que a dupla foge do que o rapaz identifica simplesmente como eles.

Trecho: "Torci o braço dela e respondi: isto não é cinema mesmo não, sua tonta, é pior, é a realidade".

"O poder e a glória" - Novamente, um texto reforça o que veio antes, aparentando ligação de causa e efeito. Neste conto, um personagem não identificado está sozinho, elaborando teses cada vez mais complexas sobre o mundo que o cerca. A impressão é a de uma resposta ao texto anterior, "Não temos tempo" e, talvez, até mesmo a "Em camadas".

Trecho: "O todo é como um número infinitesimal de folhas transparentes superpostas. Unidas elas se tornam opacas. Obstáculos".

"Um diário dos dias da peste" - Fábio Fernandes entra aqui em um cenário típico da ficção científica, computadores adquirindo consciência, formando o princípio de uma inteligência artificial (IA). Voltamos ao Rio de Janeiro. Paulo é formado em Administração, mas já há quatro anos trabalha como técnico de informática e passa a enfrentar uma crise sem precedentes relacionada às máquinas que ganha a vida consertando. Computadores começam a apresentar um comportamento bizarro, comportando-se como se estivessem vivos, xingando seus proprietários com mensagens nos monitores, se recusando a serem desligados. Em seu diário, digitado quando viável, manuscrito quando não é mais possível controlar os PCs, o personagem relata os efeitos do que a imprensa apelidou de Infodemia, uma doença espalhada pela rede a todos os processadores do mundo.

Trecho: "Meus olhos estavam colados no botão da CPU. Apertei-o e só então levantei a cabeça. As letras continuavam na tela. Desliguei o monitor, o estabilizador de tensão e puxei o fio da tomada. Abri a pasta e peguei um par de luvas de látex e a chave Phillips. Às vezes é preciso destruir o coração do monstro".

"Interface com o vampiro" - No conto que dá nome ao livro, a relação direta com o antecessor é a mais explícita. Na realidade, somando ambos, "Um diário dos dias da peste" e "Interface com o vampiro" representam quase a metade das 124 páginas do livro digital e formam aquela que, muito provavelmente, é a melhor história cyberpunk já escrita no Brasil. E é bom lembrar que o autor é um especialista no assunto, tendo lançado neste ano um ensaio teórico sobre o assunto: A construção do imaginário cyber – William Gibson, criador da cibercultura. Oito anos após o evento que levou o nome de Despertar, ou seja, do surgimento das primeiras IAs (ou Inteligências Construídas, como preferiu o autor), Paulo, auxiliado por seu computador consciente Anjo 45, tem que enfrentar as consequências dos novos relacionamentos entre homens e máquinas.

Agora ele é um importante agente de segurança neste novo mundo tecnológico, trabalha para a multinacional Wells-Kodama, corporação fictícia que surge em vários textos de Fábio Fernandes, desde suas colaborações para o projeto Intempol até uma fanfic que o autor criou para o site Hyperfan sobre Grimjack, personagem dos quadrinistas John Ostrander e Timothy Truman. Se a ameaça anterior era a Infodemia, agora o problema é ainda maior: a humanidade está sendo contaminada por vírus cuja origem vem a ser as cada vez mais necessárias máquinas sapientes. Progredindo em um estilo de escrita cada vez mais minimalista (que ecoa o utilizado na abertura do livro), o conto chega ao fim abrindo várias pontas. O diálogo final entre Paulo e Anjo 45 tanto pode lembrar os leitores da obra mais famosa da escritora de horror Anne Rice (cuja paródia no título do livro de Fernandes é evidente), quanto das cenas clássicas de Hal 9000 e Dave Bowman em 2001 – Uma odisséia no espaço. De quebra, ainda é possível se especular a respeito de uma ligação maior entre este conto e aquele que abre a coletânea, "O artista da carne", o que nos dá um looping narrativo e tanto.

Trecho: "Cogito ergo sum é muito limitador, Paulo. Queremos sair da teoria e entrar na prática. Queremos sentir".

Assim sendo, é desta forma que chegamos ao fim - e podemos até voltar ao começo - deste clássico recente da ficção científica nacional, finalmente disponível a todos os leitores potenciais nele interessados. O fato de que tal acontecimento tenha se dado em junho de 2007, a mesma data em que se encerra o último conto da coletânea, deve ser apenas coincidência. Para nós, leitores, o mais importante é que Interface com o vampiro e outras histórias esteja acessível a qualquer hora e em qualquer lugar, com a capa intacta e sem rasuras nem manchas de café espalhadas por suas páginas. Agora já posso voltar a procurar por uma edição do Necronomicon.