Ele é natural de Brasília, trabalha em uma empresa de Florianópolis, lançou uma minissérie em quadrinhos em parceria com um desenhista de São Paulo que se passa em um universo ficcional cujo principal autor mora no Rio de Janeiro. Esse é um resumo simplificado da empreitada transregional vivida pelo roteirista de Eterno Retorno, a estreia do game espacial Taikodom no mundo das HQs. Nesta entrevista, o quadrinista também estreante fala da experiência de trocar o jornalismo pela ficção, detalha o processo de criação de um projeto que se espalhou pelo território nacional e dá uma ideia de como é viver entre o presente e um mundo paralelo do futuro. Com vocês, Rodrigo Octavio Nogueira de Castro Santos que, felizmente, simplificou seu nome artístico para Roctavio de Castro.
Você é jornalista e nasceu em Brasília. Como veio parar em Santa Catarina e a se interessar por ficção?
Vim para Santa Catarina fazer universidade em 1997, convivia com uma turma que sempre se interessou mais por jornalismo literário, pelas grandes entrevistas e grandes reportagens do que pelo que víamos na grande imprensa. Os caras que eu gostava de ler eram tão bons repórteres quanto excelentes escritores. Comecei a faculdade lendo Fausto Wolf, Fernando Morais, José Hamilton Ribeiro. Depois vieram os caras do new journalism: Truman Capote, Tom Wolfe, Gay Talese e, do lado mais porra-louca, o Hunter Thompson. Buenas, como nunca tive paciência para a grande imprensa, e nem a coragem e o desprendimento para me jogar no mundo atrás de grandes histórias, acabei caindo na ficção. :-)
E qual sua produção nessa área e como foi sua aproximação da Hoplon, a empresa que desenvolve o game Taikodom?
Na verdade, exceto por trabalhos acadêmicos, a HQ Taikodom: Eterno Retorno é a minha primeira publicação de ficção em si. Antes, trabalhei com roteiro audiovisual, cobertura de eventos esportivos, fui editor e repórter de alguns jornais comunitários e redator web. Quando entrei na Hoplon, tinha uma empresa de comunicação. Depois de um namoro inicial em outros projetos, fui contratado para escrever o conteúdo das primeiras versões do site do Taikodom. Tive que ser uma espécie de beta-reader, junto com o Tarqüínio [Teles, fundador e presidente da Hoplon] e o Cristovão [Buzzarello, um dos fundadores da empresa], das obras de universo ficcional (UF) do Gerson Lodi-Ribeiro. De lá pra cá, já são mais de cinco anos, período em que ajudei a documentar especificações da história taikodônica, ajudei a criar personagens, cenários e algumas tramas que fizeram parte das primeiras versões do game. Quando fui contratado oficialmente para trabalhar com o Universo Taikodom, tive que começar a estudar teoria literária por conta própria. Sempre gostei de fazer entrevistas, do diálogo possível, de contar histórias. Depois que estudei um pouco sobre o diálogos, enredos e criação de personagens, percebi que dava para misturar algumas coisas que aprendi no tipo de jornalismo que gostava com a criação e a edição literária. Desenvolver um personagem é como entrevistá-lo. Existem diversas técnicas narrativas, mas sua história tem que ser bem ambientada e bem contada.
Como foi o processo de escrita do roteiro dessa minissérie? E a parceria com o desenhista Eduardo Ferrara? Você pode descrever como foram os bastidores da criação daquelas páginas? Você mandava o texto de Santa Catarina, ele recebia em São Paulo, enviava o esboço de volta, o material era aprovado... Como foi isso na prática?
Dentre todas as outras atividades pelas quais fui responsável, os cinco episódios da série foram escritos nuns quatro anos. Em algumas épocas pude trabalhar nos roteiros e acompanhamento dos processos de arte com dedicação total. Mas tivemos também grandes intervalos nas entregas. Existem vários processos de se desenvolver quadrinhos do roteiro, passando pelos rascunhos, arte-final, colorização, até a editoração eletrônica dos textos e balões. Uma premissa do Universo Taikodom é que a Hoplon deve ter o controle criativo sobre todas as obras que são publicadas. Na maioria das vezes as obras são "encomendadas" para os autores, que as desenvolvem de acordo com a estratégia da empresa. Então optamos pelo tipo de roteiro que contém a descrição de planos de fundo, câmeras, expressões dos personagens, legendas e diálogos quadro a quadro. Esse roteiro é enviado ao Ferrara e sua equipe que, muitas vezes cria em cima, modifica, dá mais ritmo, cores e mais movimento na proposta original. Aprovamos todos os estágios, com uma alteração aqui e outra ali. Nos primeiros episódios teve que ser assim, um trabalho hercúleo mesmo, inclusive com todo aquele trabalho de desenvolvimento de cenários, figurinos, naves e tecnologias do século 23. Com o passar dos tempos foi ficando mais fácil. Nesse último episódio, por exemplo, em algumas páginas eu fiz mais uma marcação de cenas e descrição de quadros tipo storyboard, com o tom dramático e o que os personagens iam dizer. Agora no final reescrevi muito do texto original dos balões até para tentar dar o mesmo tom para os cinco episódios da série, que foi escrita durante todo esse tempo.
Qual foi a participação de outros criadores do universo ficcional do Taikodom no texto final, como Tarqüínio Teles, que é o idealizador original do conceito, por exemplo?
Os outros criadores do universo ficcional acompanharam de perto os primeiros episódios, a aprovação de personagen estrutura geral da trama, com início, meio e fim. Ultimamente temos aprovado nossas obras em colóquios onde eu, Tarqüinio, João Marcelo Beraldo, Gerson Lodi-Ribeiro, Paulo de Tarso (PDT) e outros envolvidos indiretamente nos trancamos numa sala por dois dias. Depois, cada autor sai com o dever de casa de desenvolver sua obra dentro do que foi conversado. Atualmente eu assino como editor responsável no final e boa parte do meu tempo é dedicado a primeira leitura e edição das obras. Mas na prática funcionamos como um conselho editorial. O Tarqüinio dá a última palavra.
Como foi a decisão de usar na revista um visual cartunesco diferenciado do estilo dos gráficos realistas do jogo?
Essa decisão foi mais em função da escolha do Ferrara e da avaliação dos seus trabalhos e currículo na época. Seu estilo característico veio junto. Poucos ilustradores no Brasil tratariam de cada estágio da arte desenvolvida para nossos quadrinhos com tanto carinho e dedicação. Isso é complicado ao longo de trabalhos desenvolvidos em períodos longos se levarmos em conta a agenda corrida desse tipo de profissional.
O desenhista Eduardo Ferrara lista mangás e quadrinhos do braço italiano da Disney entre as influências dele nos quadrinhos. E quais são as suas, entre roteiristas e escritores, dentro e fora da ficção científica?
Roteiristas: Os hors concours: Will Eisner, Alan Moore e Neil Gaiman. Depois vem Alexandro Jodorowsky. Abaixo deles no mesmo patamar: Mark Millar, Warren Ellis, Garth Ennis, Grant Morrison. Escritores: Gerson Lodi-Ribeiro. :-) São muitos e muitos: Mas vou listar mais os fora (ou na fronteira) da ficção científica: Italo Calvino, Julio Cortázar, Edgar Allan Poe, Will Self, Chuck Palahniuk, Pedro Juan Gutierrez, Fausto Wolf, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Na Sci-fi mais "atual" posso citar três caras que me inspiraram muito no Eterno Retorno: Charles Stross, Vernor Vinge e Richard K. Morgan. Roteiristas/diretores de cinema: Oliver Stone, David Cronenberg, Martin Scorsese, James Cameron, Stanley Kubrick, e Chan-wook Park.
Vai haver novos lançamentos de quadrinhos explorando o universo Taikodom? Já existe algo planejado ou pelo menos a ideia de como vão ser os novos projetos?
Nada ainda no nosso cronograma de lançamentos, aliás temos muitas obras literárias prontas na fila. Mas, se eu pudesse escolher, pensaria em novos projetos num tom mais realista e sombrio, talvez em preto e branco ou em mangás tradicionais.
Você é o editor de conteúdo do universo ficcional de Taikodom. Como é o seu dia-a-dia na empresa e o relacionamento com os demais criadores da casa, como Gerson Lodi-Ribeiro, que mora no Rio de Janeiro, e J. M. Beraldo, seu colega de trabalho em Florianópolis? Há reuniões virtuais constantes para ajustar a sintonia fina do processo?
Quinzenalmente promovemos mini-colóquios de algumas horas via Skype. Semestralmente, ou quando surge uma necessidade urgente, nos reunimos num colóquio de dois dias aqui em Florianópolis. Temos uma lista de email interna onde trocamos referências, perguntas e respostas quase que diariamente. Também passo na sala onde o Beraldo trabalha junto com o PDT, ou intercepto eles no cafezinho ou corredor (o Beraldo está sempre de um lado pro outro devido a suas atribuições de líder de conteúdo do game e interações com outros departamentos) quase todos os dias também. E o Tarquinio, sempre que pode ou que está aqui, passa nas nossas salas para bater um papo.
Está fazendo um ano exatamente que o jogo foi aberto aos interessados e a Hoplon acaba de fechar uma parceria para levá-lo a mais de 30 países. Como estão as expectativas relacionadas aos produtos derivados, como a HQ e os livros? Eles também devem ser lançados em outros mercados?
Temos a intenção e já estamos iniciando algumas conversas. Nos mercados onde a Devir alcança vamos sair com eles e/ou parceiros. O apoio da Devir na pessoa do Douglas Quinta Reis tem sido fundamental para concretizarmos nossas publicações e já temos muitos planos para o futuro.
E quais são os seus projetos futuros? Vai fazer mais roteiros de HQs? Há algum texto literário em vista? Pretende escrever algo além das criações internas do Taikodom?
Tenho outros projetos pessoais de quadrinhos e até livros dentro e fora do UF Taikodom já pensados para a frente. Mas como já vivo 24 horas por dia num mundo paralelo do futuro, nunca consegui tempo para desenvolvê-los no presente. Um dia consigo.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
As mortes serão breves
Durante 170 anos Gao Jung esteve morto. Para desespero dele, tal período de hibernação involuntária, entre 2070 e 2240, deve ser sua experiência mais próxima daquilo que hoje em dia ainda chamamos de descanso eterno, pois, na nova realidade em que passou a viver, o rapaz está condenado a ser imortal. No máximo, ao ser abatido, Jung vai conseguir breves pausas nas missões que seus novos patrões lhe impuserem para, logo em seguida, ser despertado mais uma vez, com as memórias reimplantadas em um novo corpo, clonado e adaptado para melhor servir a interesses que não são os dele. “Se a morte é temporária, qual é o sentido da vida?” A pergunta é o mote por trás da minissérie Eterno Retorno, a primeira inclusão do universo ficcional do videogame on line Taikodom na área dos quadrinhos. História dividida em cinco capítulos e em dois volumes – o primeiro, lançado este mês nas livrarias, reúne os dois episódios iniciais; para novembro está programado o lançamento dos outros três no segundo e último álbum da série – a aventura assinada pelo roteirista Roctavio de Castro e pelo desenhista Eduardo Ferrara marca o primeiro aniversário da abertura do jogo ao público, fato que se deu no dia 27 de outubro de 2008. Além disso, é mais uma fronteira desbravada pelo projeto que conta com dois livros lançados, um romance e uma coletânea de contos, o primeiro deles já resenhado aqui.
Game, romance, contos e quadrinhos são diversas entradas para o mesmo universo, um futuro altamente tecnológico no qual a humanidade dominou o espaço – significado do termo Taikodom – mas perdeu o contato com o planeta Terra. A base do projeto é a capital catarinense, onde está localizada a Hoplon Infotainment, que desenvolve o jogo com uma equipe de aproximadamente 100 profissionais e logo deve exportá-lo, graças a uma parceria com uma empresa californiana, para mais de 30 países. Quanto ao universo ficcional expandido para além da tela dos computadores, ele é criado em conjunto com escritores e artistas de diversos estados – Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro – em outra parceria, com a editora Devir, que distribui os livros e revistas para todo o Brasil e logo deve fazer o mesmo em outros territórios. Eterno Retorno é um exemplo dessa interação à distância, uma vez que Roctavio de Castro mora há 12 anos em Florianópolis, de onde escreveu o texto da série, e Eduardo Ferrara mantém seu estúdio em São Paulo, e de lá desenhou e arte-finalizou a HQ, repassando as cores para os cuidados de sua equipe do Imaginos.
O roteiro se divide para acompanhar o protagonista em dois momentos, suas memórias de um passado terrestre no século XXI e o impacto da ressurreição dele no espaço em pleno século XXIII. O trabalho se vale da alteração dos focos narrativos e fartas elipses. Nos flashes de 2070, Gao Jung trabalha com uma parceira, bem íntima, para reaver objetos cobiçados por um grupo criminoso. Aos poucos, com vislumbres pingados ao longo das páginas, podemos perceber que as coisas se complicaram para a dupla e que o policial é acusado da morte da companheira, julgado, condenado e posto em hibernação. Depois do salto cronológico, ele é considerado útil para os interesses da casta que manda no Taikodom, os Spacers. Ao ser descongelado, ganha uma companhia indesejada. Sua mente passa a compartilhar pensamentos com uma inteligência artificial geniosa que orienta o terráqueo naquele novo mundo e faz o arquivamento de suas memórias para possibilitar o reimplante, caso o corpo do hospedeiro seja destruído. Vale comentar que essa consciência inorgânica, chamada OTTOBA7, ganha vida no Twitter com um perfil alimentado por seu criador no qual faz postagens sobre temas como o pós-humanismo e a singularidade tecnológica.
Já os dinâmicos desenhos da minissérie seguem uma proposta estética bem diferente dos gráficos do jogo, apesar de a identidade visual das várias naves espaciais estar bem preservada e os cenários hi tech apresentados serem muito convincentes. O visual dos personagens da HQ não foi trabalhado nos formatos tridimensionais de um game, mas como algo bem mais voltado para o estilo cartunesco, quase um meio termo entre o que se poderia esperar de uma obra para leitores adultos, como anunciado na capa, e gibis feitos para crianças. Com isso, mesmo em momentos de dramaticidade, o traço às vezes lembra bastante material mais voltado ao humor. A explicação pode estar nas influências reconhecidas pelo desenhista, que lista como tal os mangás e a produção italiana de quadrinhos Disney. De fato, a arte me lembrou bastante a da revista Donald Super, versão nacional que a editora Abril lançou por aqui em 2003 da PK italiana: uma publicação que mostrava o famoso pato vivendo aventuras de ação e FC. Mesmo bem sucedida no país europeu, a proposta não fez muito sucesso no Brasil.
O resultado desse esforço interestadual dos autores é a resposta para aquela pergunta filosófica que começa a ser esboçada no primeiro álbum. “Se a morte é temporária, qual é o sentido da vida?” Não apenas pelos rumos da história, mas por várias citações, algumas bem explícitas, outras menos, essa ideia e a da reiteração do conceito por trás do título da série estão espalhadas por toda a parte. Seja no trecho de um dos livros mais conhecidos de Friedrich Nietezsche escolhido para abrir o primeiro episódio; seja no título do segundo, “Sísifo”, remetendo ao mortal condenado pelos deuses gregos a repetir uma tarefa sem sentido eternamente; ou ainda no logotipo da revista que entrelaça as últimas letras das palavras eterno retorno para obter o símbolo matemático do infinito. No próximo mês, deveremos ver mais respostas para a pergunta que tanto atormenta Gao Jung.
Game, romance, contos e quadrinhos são diversas entradas para o mesmo universo, um futuro altamente tecnológico no qual a humanidade dominou o espaço – significado do termo Taikodom – mas perdeu o contato com o planeta Terra. A base do projeto é a capital catarinense, onde está localizada a Hoplon Infotainment, que desenvolve o jogo com uma equipe de aproximadamente 100 profissionais e logo deve exportá-lo, graças a uma parceria com uma empresa californiana, para mais de 30 países. Quanto ao universo ficcional expandido para além da tela dos computadores, ele é criado em conjunto com escritores e artistas de diversos estados – Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro – em outra parceria, com a editora Devir, que distribui os livros e revistas para todo o Brasil e logo deve fazer o mesmo em outros territórios. Eterno Retorno é um exemplo dessa interação à distância, uma vez que Roctavio de Castro mora há 12 anos em Florianópolis, de onde escreveu o texto da série, e Eduardo Ferrara mantém seu estúdio em São Paulo, e de lá desenhou e arte-finalizou a HQ, repassando as cores para os cuidados de sua equipe do Imaginos.
O roteiro se divide para acompanhar o protagonista em dois momentos, suas memórias de um passado terrestre no século XXI e o impacto da ressurreição dele no espaço em pleno século XXIII. O trabalho se vale da alteração dos focos narrativos e fartas elipses. Nos flashes de 2070, Gao Jung trabalha com uma parceira, bem íntima, para reaver objetos cobiçados por um grupo criminoso. Aos poucos, com vislumbres pingados ao longo das páginas, podemos perceber que as coisas se complicaram para a dupla e que o policial é acusado da morte da companheira, julgado, condenado e posto em hibernação. Depois do salto cronológico, ele é considerado útil para os interesses da casta que manda no Taikodom, os Spacers. Ao ser descongelado, ganha uma companhia indesejada. Sua mente passa a compartilhar pensamentos com uma inteligência artificial geniosa que orienta o terráqueo naquele novo mundo e faz o arquivamento de suas memórias para possibilitar o reimplante, caso o corpo do hospedeiro seja destruído. Vale comentar que essa consciência inorgânica, chamada OTTOBA7, ganha vida no Twitter com um perfil alimentado por seu criador no qual faz postagens sobre temas como o pós-humanismo e a singularidade tecnológica.
Já os dinâmicos desenhos da minissérie seguem uma proposta estética bem diferente dos gráficos do jogo, apesar de a identidade visual das várias naves espaciais estar bem preservada e os cenários hi tech apresentados serem muito convincentes. O visual dos personagens da HQ não foi trabalhado nos formatos tridimensionais de um game, mas como algo bem mais voltado para o estilo cartunesco, quase um meio termo entre o que se poderia esperar de uma obra para leitores adultos, como anunciado na capa, e gibis feitos para crianças. Com isso, mesmo em momentos de dramaticidade, o traço às vezes lembra bastante material mais voltado ao humor. A explicação pode estar nas influências reconhecidas pelo desenhista, que lista como tal os mangás e a produção italiana de quadrinhos Disney. De fato, a arte me lembrou bastante a da revista Donald Super, versão nacional que a editora Abril lançou por aqui em 2003 da PK italiana: uma publicação que mostrava o famoso pato vivendo aventuras de ação e FC. Mesmo bem sucedida no país europeu, a proposta não fez muito sucesso no Brasil.
O resultado desse esforço interestadual dos autores é a resposta para aquela pergunta filosófica que começa a ser esboçada no primeiro álbum. “Se a morte é temporária, qual é o sentido da vida?” Não apenas pelos rumos da história, mas por várias citações, algumas bem explícitas, outras menos, essa ideia e a da reiteração do conceito por trás do título da série estão espalhadas por toda a parte. Seja no trecho de um dos livros mais conhecidos de Friedrich Nietezsche escolhido para abrir o primeiro episódio; seja no título do segundo, “Sísifo”, remetendo ao mortal condenado pelos deuses gregos a repetir uma tarefa sem sentido eternamente; ou ainda no logotipo da revista que entrelaça as últimas letras das palavras eterno retorno para obter o símbolo matemático do infinito. No próximo mês, deveremos ver mais respostas para a pergunta que tanto atormenta Gao Jung.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Uma fábula sobre o medo
O ambiente é marcado por um clima instável, com enchentes, pequenas nevadas, ciclones e grandes variações na temperatura. No campo político, um novo governo pratica uma espécie de ditadura não assumida, mantendo a ordem através de altos impostos e de uma força policial fortemente armada que atua de maneira brutal. Nesse contexto, um grupo de jovens – escondendo seu rosto atrás de máscaras e atuando sob o mesmo nome – descontentes com a situação do ambiente à sua volta, planeja pequenos atos de desobediência civil. Ainda que atuando de forma pacífica, em um destes atos algo acontece de forma imprevista, causando a explosão de uma bomba. Enquanto tentam provar sua inocência e justificar suas ações, o fim parece estar cada vez mais próximo.
A descrição acima foi feita pelo próprio autor e se refere à sua cidade natal, Florianópolis, em um futuro próximo, no qual se passa seu projeto de história em quadrinhos. Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo é o nome deste projeto, de autoria de Pedro Franz, 26 anos. Programada como uma série em 12 capítulos, com tamanho variando entre 12 e 16 páginas cada um, a HQ havia sido publicamente anunciada no dia 12 de abril deste ano, quando o quadrinista inaugurou o blog Notas sobre o fim por onde ele pretende publicar o material na íntegra, deixando-o disponível para download gratuito em arquivos em .pdf. O primeiro deles, surgiu no início de julho e o segundo no final de setembro. Além disso, ele abriu um fórum para discutir a obra e suas influências com sua audiência: “O objetivo deste espaço é aprofundar uma investigação que relacione teoria e prática e funcionar como ferramenta de relação entre autor e público” escreveu no blog. “Além de utilizá-lo para apresentar o projeto – ou seja, a história em quadrinhos – pretendo postar textos sobre a produção da obra, imagens, esboços, novidades, autores que me influenciaram.”
A série atual não é a primeira experiência de Franz com os quadrinhos. Entre 2002 e 2003 ele produziu duas edições de um zine chamado Café com Leite, mas como me disse em uma conversa num bar da cidade onde se passa sua história atual, não era algo sério ou pretensioso. Naquela mesma época, também foi convidado a participar de uma mostra de quadrinhos ligada ao Salão de Humor de Piracicaba, mas com proposta diferente daquela ligada ao título do famoso evento do interior de São Paulo: os trabalhos expostos não eram humorísticos. Então veio uma pausa nessa breve relação com o meio. Em um intervalo de meia década, ele morou por dois anos na capital da Argentina; recobrou o interesse pelas historietas; descobriu publicações daquele país, como a Fierro; e quando retornou ao Brasil e a seu curso acadêmico, na UFSC, apresentou como trabalho de conclusão do curso de design uma monografia ligada ao tema. “A quarta dimensão do trabalho de Breccia” acabou sendo agraciado, agora em 2009, com o troféu HQ Mix – mais importante prêmio dedicado ao quadrinho nacional. Nesse TCC, Franz procurou fazer a ponte entre HQs, design e arte ao analisar a obra do uruguaio Alberto Breccia (1919-93), o artista que mais admira neste meio. Outros autores que ele cita como possíveis influências são o argentino José Muñoz e o japonês Taiyo Matsumoto.
Com esse retorno, Franz começou a processar as ideias que dariam origem à Promessas... vamos abreviar aqui o título quilométrico. Aliás, o gosto por longos títulos parece ser uma característica do autor, que também cursou Artes Plásticas, pois um outro projeto de HQ, paralelo, leva o nome de Uma casa construída com cascas de ovos. Apesar de ter mais páginas concluídas que o atual, o próprio quadrinista reconhece que esse ainda vai demorar mais a aparecer. “Mas é um trabalho bonito, eu acho.” Retornemos às promessas e ao fim do mundo. Vamos falar das páginas, as originais, que o autor trouxe para mostrar naquele bar, na rua que leva o nome do pintor Victor Meirelles (1832-1903), antes do anúncio do prêmio HQ Mix deste ano. A primeira surpresa possível, em se tratando de alguém que escolheu o meio digital para divulgar sua obra, é o método de trabalho do autor. Franz optou por utilizar a forma mais tradicional para produzir sua HQ: nanquim, pincel e papel.
As folhas A2 que ele exibe sobre a mesa na noite mais gelada do ano em Florianópolis foram ilustradas exatamente como fariam os quadrinistas que o inspiraram, em um mundo anterior ao das webcomics. Franz esboça a lápis e depois cobre os desenhos com a tinta negra, criando contrastes, dando a ilusão de volume, áreas de luz e sombras. Ele prevê na arte os espaços para os balões, com a fala dos personagens, e mesmo o letreiramento é feito à mão, e inserido mais tarde quando entram em ação os softwares. O InDesign ajuda no momento da diagramação. Já o Photoshop corrige a perda de contraste que às vezes ocorre com o escaneamento das imagens e é usado para aplicar o cinza, tomando o lugar das antigas retículas, material que não é tão fácil para ser encontrado pelos quadrinistas do século XXI quanto era pelos profissionais do século anterior. O processo é lento, como não poderia deixar de ser. Já houve momentos em que ele, que procura trabalhar na série todos os dias, passou duas horas dedicado a um único quadrinho.
Tudo é feito do modo mais tradicional possível até porque Promessas... foi pensada, planejada e está sendo executada como uma obra a ser impressa, publicada de modo clássico. “A Internet surge por necessidade”, ele comenta, apesar de que, com o tempo, essa mídia tenha revelado novas possibilidades a serem exploradas. Até por sugestão de um editor com quem conversou, o catarinense concordou que o melhor modo de tornar seu trabalho conhecido era a divulgação pela rede. Se existe algum lugar em que um autor iniciante pode contar com uma edição impressa de seu primeiro trabalho de fôlego, com aproximadamente 200 páginas, este não é o Brasil. Então, o catarinense escolheu esta forma para divulgar e distribuir por partes sua série, tendo a consciência de que vivemos uma nova realidade, com licença livre, ou seja, adotando o esquema copyleft. Já há um site que, no lugar de fazer um link ao blog de Franz, criou novo arquivo e deixou disponível o primeiro capítulo em seu próprio domínio, uma espécie de pirataria consentida. “Tu perde o controle daquilo”, reconhece. “Quero que pirateiem muito mais, que imprimam, xeroquem”.
Ele calcula que nas primeiras semanas de exposição do primeiro capítulo, uma média de 20 pessoas baixou o arquivo diariamente. Esta acabou se revelando uma possibilidade de democratizar o acesso à obra, ainda que a leitura no computador não seja a ideal. Afinal, ao contrário de outras mídias, como a música, em que, em última análise, não há perda na transposição para um meio digital, os quadrinhos clássicos ainda contam como um bastião do paradigma de Walter Benjamim: as páginas ainda conservam uma certa “aura” e assim vai ser, até o momento em que se encontre o modo de garantir a reprodutilibilidade técnica perfeita na tela de um leitor eletrônico portátil. Até lá, o papel e as HQs ainda vão manter seu casamento secular. Para facilitar essa materialização futura, Promessas... foi composta em preto e branco e sua dúzia de capítulos podem ser agrupados em três álbuns.
Uma amostra do que os leitores podem esperar já está disponível na rede. Pedro Franz diz que pensou em um conceito-chave para elaborar esta sua obra: o “medo”. Isso está presente desde o primeiro post naquele seu blog, quando ele esboçou o que viria a ser a série:
Autotomia é o nome dado à capacidade que alguns animais possuem de se auto-mutilar em situações de perigo como estratégia de sobrevivência. Deixar algo morrer para preservar a vida. Diante da necessidade de enfrentar um perigo, lutar ou fugir, funciona como um mecanismo de defesa para se sobreviver. Partindo destes conceitos, Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo é uma fábula sobre o “medo” funcionando como crítica à moral burguesa e à intolerância contada em formato de Peter Pan pós-moderno.
Assim como a Internet surgiu para facilitar e difundir – e está servindo para promover um rico debate sobre os quadrinhos contemporâneos na seção de comentários do blog – a ambientação futurista veio para dar mais liberdade ao autor. A característica típica de ficção científica é para permitir ao artista falar do presente usando o subterfúgio de se referir ao futuro. Ele mesmo escreveu que, em um primeiro momento, pensou em criar cenários mais elaborados, com pontes destruídas, a Ilha isolada, novas formas de governo e de autoritarismo naquele ambiente ficcional. Mas preferiu apenas potencializar o que já vê nos dias de hoje de modo a analisar as ações e reações provocadas por aquele sentimento – o medo – como ele é capaz de mover as pessoas e o que pode gerar em resposta. Um modo, com algum afastamento brechtiano, de estudar temas como terrorismo, pirataria, repressão política e policial em um cenário ao mesmo tempo conhecido e estranho, particular e universal.
Ainda é cedo para falar sobre Promessas... como uma obra integral e se ela vai ser capaz de amarrar todos os instigantes pontos que se propõe a abordar. Os primeiros capítulos, que estão disponíveis para todos lerem e julgarem, abrem com uma abordagem bem intimista, como um painel das impressões coletivas dos diversos personagens, vários pontos de vista compondo um plano geral. A arte me lembrou, de fato, o trabalho de um dos quadrinistas relacionados pelo autor, Taiyo Matsumoto: o mangá underground Preto e Branco, publicado no Brasil pela Conrad. Mas me lembrou bem mais, na construção dos personagens, o brasileiro Lourenço Mutarelli que, pelo menos conscientemente, não faz parte daquela lista já citada por Franz. Quanto aos conceitos, em um primeiro momento me fez pensar mais em material anglo-saxão que em obras latino-americanas: como DMZ – também conhecida como ZDM, de zona desmilitarizada, no Brasil – do americano Brian Wood, e Invisíveis, a série mais autoral do britânico Grant Morrison. Vou aguardar os próximos 10 capítulos da obra deste já premiado autor para ver como se desenvolve este futuro alternativo e distópico de Florianópolis.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Engrenagens aparentes
Uma espécie de nova Revolução Industrial chega ao Brasil e atrai interesse internacional. Chamada ao gosto do freguês de modismo, tendência, hype, cultura, manifesto, tribo urbana, estilo entre outras classificações a verdade é que o steampunk conquista adeptos, ganha forças na Internet, em eventos públicos e até na literatura e nos quadrinhos, como uma vertente da ficção científica. Pelo nome e pelo parentesco com a FC mesmo quem nunca ouviu falar – ou que não tenha ligado o termo à realidade prática – deve imaginar que exista semelhança estética ou filosófica com o cyberpunk, tão popular que praticamente é sinônimo do gênero como um todo para muita gente que consumiu livros, filmes, HQs e jogos de RPG nos últimos vinte anos. De fato, a semelhança é real, se o foco de uma é especular sobre a cibernética em um futuro próximo, a da outra é imaginar tecnologias possíveis, geralmente movidas a vapor (steam, em inglês), com direito a molas, engrenagens e alavancas, no século retrasado, uma espécie de retrofuturismo. Mas vamos por partes.
Para começar, um bom ponto para conhecer este mundo é o site do Conselho Steampunk, endereço que tem o objetivo manifesto de divulgar, explicar, inspirar, homenagear e produzir cultura dentro deste gênero na forma que for: nas artes, nas vestimentas, em joias, na tecnologia. “Para tanto os idealizadores lançaram mão de conceitos sofisticados que garantissem a possibilidade de qualquer um, em qualquer lugar, independente do poder aquisitivo, idade ou qualquer outro entrave costumeiro, se visse impossibilitado de fruir a cultura Steampunk do seu jeito e sem a necessidade de aderir a qualquer organização burocrática ou centralizadora”, garante o texto de apresentação do projeto criado pelo empresário Bruno Accioly. O conceito que tem apenas dois anos já se difundiu por três estados que também criaram suas representações regionais – São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul – denominadas no jargão do Conselho de Lojas, em uma citação explícita a certa Sociedade Secreta, algo que chamou a atenção de um visitante ilustre.
“Lojas. Como lojas maçônicas? Rapaz, isto é terrivelmente século XIX.” Quem fez o comentário foi um escritor fundamental para se entender tanto o punk cibernético quanto o a vapor: Bruce Sterling, autor do romance Piratas de dados e organizador da coletânea Mirrorshades, o homem que ao lado de Willian Gibson – de Neuromancer – criou os paradigmas do cyberpunk em meados dos anos 80. O comentário saiu no dia 20 de julho, no blog que o autor americano mantém no site da Wired, a revista mais respeitada em termos de cultura tecnológica. Foi, na verdade, o segundo post em que ele falou sobre a iniciativa brasileira. Dois dias antes ele havia descoberto a página do Conselho Steampunk e brincara com a ideia, batizando o conceito de “bossa steampunk”. Na outra oportunidade, Sterling divulgou uma mensagem enviada por Bruno Accioly, dando conta das atividades do grupo no Brasil, que não se restringem a discussões virtuais, pois a Loja São Paulo, por exemplo, já organizou dois encontros em que os participantes, vestidos como nossos antepassados do século retrasado, passearam em trens a vapor naquele estado. Esta postagem, o blogueiro encerrou com a frase: “O mundo é um lugar vasto e maravilhoso, damas e cavalheiros.”
Não é um apoio qualquer que as damas e os cavalheiros do Conselho Steampunk atraíram. Como já disse, Bruce Sterling é um dos criadores da parte literária do movimento cyberpunk, mas ele e seu parceiro Willian Gibson também têm muito a ver com o steampunk como subgênero da FC. Ambos, a quatro mãos, escreveram em 1990 a obra mais representativa do início desta nova vertente. É bem verdade que já existiam livros anteriores apontando para algumas das características que seriam aprofundadas mais tarde, escritos por autores como Tim Powers e K. W. Jeter – que, aliás, foi quem cunhou o termo, três anos antes, em uma troca de cartas – mas é praticamente um consenso por parte da crítica que The Difference Engine foi o marco inicial do estilo steamer. No romance, a hipótese de partida é que o cientista e matemático inglês Charles Babbage (1791-1871) teria construído uma máquina (que chegou mesmo a projetar): o primeiro computador do mundo, baseado apenas em peças mecânicas. A invenção dá um impulso muito maior ao Império Britânico, que vivia o auge do período Vitoriano, ou seja, o tempo em que a Rainha Vitória esteve no poder, de 1837 a 1901.
Muitas das convenções do gênero estavam ali, reunidas. O período histórico definido, a tecnologia capaz de mudar tudo o que conhecemos, e até mesmo a utilização de figuras reais e apropriações de criações literárias estão presentes naquele livro. Este último item é uma tentação e tanto a todos os que se aventuram a seguir os passos de Sterling e Gibson, pois as obras escritas naqueles tempos, como os romances e os personagens mais famosos dos pais da Ficção Científica, Jules Verne, H. G. Wells, por exemplo, estão em domínio público, disponíveis para quem desejar reinterpretá-los. O uso mais radical desta característica steampunk foi feito não na literatura, mas nos quadrinhos, com a série de álbuns de A Liga Extraordinária (iniciada em 1999), do inglês Alan Moore, uma combinação de praticamente tudo o que o século XIX tem a oferecer em termos de ficção fantástica ou aventureira. Boa parte do fascínio que o gênero evoca atualmente tem como origem tais HQs escritas por Moore e ilustradas por Kevin O’Neill, que podem ter dado origem a um filme desastroso, mas continuam sendo fonte inesgotável de ideias a cada novo lançamento no papel.
Porém, quando eu escrevi que o assunto tomou a Internet não me referia apenas ao diálogo entre o Conselho Steampunk e o blog de Bruce Sterling. O tema também ganhou outros espaços na rede recentemente. Um bom exemplo é o post que a escritora e historiadora Ana Cristina Rodrigues publicou em um de seus blogs no dia 16 de julho. “Ficção a vapor” é o que chamei de verdadeira aula sobre steampunk. Com muito mais propriedade que eu neste espaço e com uma riqueza de detalhes bem maior, ela analisou todo o contexto sobre o qual acabo de escrever e teceu algumas considerações sobre o cenário nacional nesta área. Cito trechos:
Outro escritor e crítico de Ficção Científica também tratou desta pauta foi Antonio Luiz M. C. Costa. Ele publicou um longo artigo na coluna que mantém no site da revista em que trabalha a CartaCapital. Datada do dia 11 de agosto, “Steampunk, saudade ou rebeldia?” é outra contribuição para o debate, que igualmente detalhou o histórico do gênero e ponderou sobre a situação em nosso país. Citando novamente:
Os dois fizeram referência ao mesmo livro ao final de seus textos, uma coletânea que também foi destaque na seção de cultura da já citada revista CartaCapital, desta semana, chamada Steampunk – Histórias de um passado extraordinário. O livro foi lançado em São Paulo no último final de semana de julho e também participo dele com um dos nove textos. Curiosamente, apesar de não ter sido um pedido expresso da editora, a maioria dos contos longos publicados no livro tratam, sim, de aspectos históricos do Brasil e usam personagens locais entre os principais destaques de suas tramas, alguns deles citados por Ana Cristina. Neste blog, em um mesmo post podemos ler duas resenhas da obra que também ganhou destaque em um respeitado blog português dedicado ao autor Jules Verne, entre outros endereços da rede que repercutiram o lançamento. Alguns desses endereços foram reunidos por mim em um blog que criei para me ajudar a planejar a noveleta escrita para a coletânea.
E de fato ainda há mais por vir. Uma coletânea binacional, com escritores brasileiros e portugueses, está sendo organizada neste momento, com uma visão bem menos purista do gênero mas que pretende ser ainda mais focada na história destes dois países. Um romance também pode ser lançado em breve, chamado de Baronato de Shoah, de autoria de José Roberto Vieira. Fora do terreno da literatura, os quadrinhos também devem apresentar novidades com influência steampunk. O trabalho de Alexandre Lancaster com Expresso!, sua série inspirada nos mangás, pode ser acompanhado na página que o autor mantém no site DeviantART. Também inspirados nos quadrinhos japoneses, Douglas MCT e Ulisses Perez lançarão pela editora NewPop uma série com o nome Hansel&Gretel. Por último, mas não menos importante, no site dedicado a webcomics da DC, o Zuda Comics, é um brasileiro, Igor Noronha, quem desenha a HQ Sidewise que mostra as aventuras de um adolescente deslocado no tempo para um período vitoriano alternativo.
Como se vê, a agitação em torno da cultura steampunk no Brasil é grande, a ponto de chamar a atenção em outros países e dar ao leitor várias opções para participar ou ao menos experimentar esta nova versão da Revolução Industrial. O carvão queima e as engrenagens se movimentam. Boa viagem.
Para começar, um bom ponto para conhecer este mundo é o site do Conselho Steampunk, endereço que tem o objetivo manifesto de divulgar, explicar, inspirar, homenagear e produzir cultura dentro deste gênero na forma que for: nas artes, nas vestimentas, em joias, na tecnologia. “Para tanto os idealizadores lançaram mão de conceitos sofisticados que garantissem a possibilidade de qualquer um, em qualquer lugar, independente do poder aquisitivo, idade ou qualquer outro entrave costumeiro, se visse impossibilitado de fruir a cultura Steampunk do seu jeito e sem a necessidade de aderir a qualquer organização burocrática ou centralizadora”, garante o texto de apresentação do projeto criado pelo empresário Bruno Accioly. O conceito que tem apenas dois anos já se difundiu por três estados que também criaram suas representações regionais – São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul – denominadas no jargão do Conselho de Lojas, em uma citação explícita a certa Sociedade Secreta, algo que chamou a atenção de um visitante ilustre.
“Lojas. Como lojas maçônicas? Rapaz, isto é terrivelmente século XIX.” Quem fez o comentário foi um escritor fundamental para se entender tanto o punk cibernético quanto o a vapor: Bruce Sterling, autor do romance Piratas de dados e organizador da coletânea Mirrorshades, o homem que ao lado de Willian Gibson – de Neuromancer – criou os paradigmas do cyberpunk em meados dos anos 80. O comentário saiu no dia 20 de julho, no blog que o autor americano mantém no site da Wired, a revista mais respeitada em termos de cultura tecnológica. Foi, na verdade, o segundo post em que ele falou sobre a iniciativa brasileira. Dois dias antes ele havia descoberto a página do Conselho Steampunk e brincara com a ideia, batizando o conceito de “bossa steampunk”. Na outra oportunidade, Sterling divulgou uma mensagem enviada por Bruno Accioly, dando conta das atividades do grupo no Brasil, que não se restringem a discussões virtuais, pois a Loja São Paulo, por exemplo, já organizou dois encontros em que os participantes, vestidos como nossos antepassados do século retrasado, passearam em trens a vapor naquele estado. Esta postagem, o blogueiro encerrou com a frase: “O mundo é um lugar vasto e maravilhoso, damas e cavalheiros.”
Não é um apoio qualquer que as damas e os cavalheiros do Conselho Steampunk atraíram. Como já disse, Bruce Sterling é um dos criadores da parte literária do movimento cyberpunk, mas ele e seu parceiro Willian Gibson também têm muito a ver com o steampunk como subgênero da FC. Ambos, a quatro mãos, escreveram em 1990 a obra mais representativa do início desta nova vertente. É bem verdade que já existiam livros anteriores apontando para algumas das características que seriam aprofundadas mais tarde, escritos por autores como Tim Powers e K. W. Jeter – que, aliás, foi quem cunhou o termo, três anos antes, em uma troca de cartas – mas é praticamente um consenso por parte da crítica que The Difference Engine foi o marco inicial do estilo steamer. No romance, a hipótese de partida é que o cientista e matemático inglês Charles Babbage (1791-1871) teria construído uma máquina (que chegou mesmo a projetar): o primeiro computador do mundo, baseado apenas em peças mecânicas. A invenção dá um impulso muito maior ao Império Britânico, que vivia o auge do período Vitoriano, ou seja, o tempo em que a Rainha Vitória esteve no poder, de 1837 a 1901.
Muitas das convenções do gênero estavam ali, reunidas. O período histórico definido, a tecnologia capaz de mudar tudo o que conhecemos, e até mesmo a utilização de figuras reais e apropriações de criações literárias estão presentes naquele livro. Este último item é uma tentação e tanto a todos os que se aventuram a seguir os passos de Sterling e Gibson, pois as obras escritas naqueles tempos, como os romances e os personagens mais famosos dos pais da Ficção Científica, Jules Verne, H. G. Wells, por exemplo, estão em domínio público, disponíveis para quem desejar reinterpretá-los. O uso mais radical desta característica steampunk foi feito não na literatura, mas nos quadrinhos, com a série de álbuns de A Liga Extraordinária (iniciada em 1999), do inglês Alan Moore, uma combinação de praticamente tudo o que o século XIX tem a oferecer em termos de ficção fantástica ou aventureira. Boa parte do fascínio que o gênero evoca atualmente tem como origem tais HQs escritas por Moore e ilustradas por Kevin O’Neill, que podem ter dado origem a um filme desastroso, mas continuam sendo fonte inesgotável de ideias a cada novo lançamento no papel.
Porém, quando eu escrevi que o assunto tomou a Internet não me referia apenas ao diálogo entre o Conselho Steampunk e o blog de Bruce Sterling. O tema também ganhou outros espaços na rede recentemente. Um bom exemplo é o post que a escritora e historiadora Ana Cristina Rodrigues publicou em um de seus blogs no dia 16 de julho. “Ficção a vapor” é o que chamei de verdadeira aula sobre steampunk. Com muito mais propriedade que eu neste espaço e com uma riqueza de detalhes bem maior, ela analisou todo o contexto sobre o qual acabo de escrever e teceu algumas considerações sobre o cenário nacional nesta área. Cito trechos:
Agora, é de se admirar que um país que nos deu o Barão de Mauá, Augusto Zaluar, D. Pedro II, Santos Dummont… não tenha produzido obras a vapor suficientemente interessantes. Poxa, nosso imperador provavelmente foi o governante mais steampunk de sua época. Seu interesse por gadgets, ciências e novidades era/é notório.
Até esse ano, aconteceram algumas tateadas. Gerson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho e Octavio Aragão tangenciaram o gênero – os dois primeiros em contos, o último em seu romance, A mão que cria. Mas talvez a primeira obra consciente e declaradamente steampunk do Brasil sejam os quadrinhos de Expresso! de Alexandre Lancaster. O piloto da série foi publicado em um projeto online de curta duração, mas a saga continua, já que novas HQ’s estão previstas e um conto sobre o protagonista vai entrar na primeira coletânea nacional do gênero.
Outro escritor e crítico de Ficção Científica também tratou desta pauta foi Antonio Luiz M. C. Costa. Ele publicou um longo artigo na coluna que mantém no site da revista em que trabalha a CartaCapital. Datada do dia 11 de agosto, “Steampunk, saudade ou rebeldia?” é outra contribuição para o debate, que igualmente detalhou o histórico do gênero e ponderou sobre a situação em nosso país. Citando novamente:
É sempre bom fugir um pouco do famoso slogan de Margaret Thatcher e Francis Fukuyama, o TINA, There Is No Alternative – “Não há alternativa (ao status quo neoliberal dos anos 80 e 90)” e considerar como as coisas poderiam ser diferentes. O curioso é que, neste caso, trata-se geralmente de uma alternativa, em muitos aspectos, bem semelhante à realidade atual, com o Império Britânico e os financistas da City no papel dos EUA e de Wall Street.
Pode reforçar a ideia de que as roupas e maneiras podem mudar, mas a essência da sociedade foi e sempre será a mesma. Como também pode funcionar como alegoria ou caricatura de problemas atuais e mostrar o que têm de histórico e contingente, como dependem de desenvolvimentos específicos e podem vir a ser superados. É um campo no qual concepções opostas podem se expressar em um ambiente fantástico e de sabor nostálgico, mas ainda assim com uma relação bem clara com a realidade social, política e ambiental do século XXI.
O pleno desenvolvimento dessas possibilidades no Brasil depende, porém, de que o Steampunk não seja apenas consumido como moda ou como decoração de animês e aventuras hollywoodianas. Para ser criativo, precisa ser produzido e discutido como um subgênero literário e associado ao ponto de vista brasileiro ou à história (real e imaginada) de nosso país. Por enquanto, conta-se apenas com a recém-lançada antologia de contos Steampunk, da Tarja (R$ 39, 184 páginas), que inclui uma colaboração do autor desta coluna. Uma segunda antologia, a ser intitulada Vaporpunk, está sendo organizada pelo escritor Gerson Lodi-Ribeiro e é esperada para breve. Teremos então uma boa ideia de como se imagina, em terras tropicais, essa história paralela.
Os dois fizeram referência ao mesmo livro ao final de seus textos, uma coletânea que também foi destaque na seção de cultura da já citada revista CartaCapital, desta semana, chamada Steampunk – Histórias de um passado extraordinário. O livro foi lançado em São Paulo no último final de semana de julho e também participo dele com um dos nove textos. Curiosamente, apesar de não ter sido um pedido expresso da editora, a maioria dos contos longos publicados no livro tratam, sim, de aspectos históricos do Brasil e usam personagens locais entre os principais destaques de suas tramas, alguns deles citados por Ana Cristina. Neste blog, em um mesmo post podemos ler duas resenhas da obra que também ganhou destaque em um respeitado blog português dedicado ao autor Jules Verne, entre outros endereços da rede que repercutiram o lançamento. Alguns desses endereços foram reunidos por mim em um blog que criei para me ajudar a planejar a noveleta escrita para a coletânea.
E de fato ainda há mais por vir. Uma coletânea binacional, com escritores brasileiros e portugueses, está sendo organizada neste momento, com uma visão bem menos purista do gênero mas que pretende ser ainda mais focada na história destes dois países. Um romance também pode ser lançado em breve, chamado de Baronato de Shoah, de autoria de José Roberto Vieira. Fora do terreno da literatura, os quadrinhos também devem apresentar novidades com influência steampunk. O trabalho de Alexandre Lancaster com Expresso!, sua série inspirada nos mangás, pode ser acompanhado na página que o autor mantém no site DeviantART. Também inspirados nos quadrinhos japoneses, Douglas MCT e Ulisses Perez lançarão pela editora NewPop uma série com o nome Hansel&Gretel. Por último, mas não menos importante, no site dedicado a webcomics da DC, o Zuda Comics, é um brasileiro, Igor Noronha, quem desenha a HQ Sidewise que mostra as aventuras de um adolescente deslocado no tempo para um período vitoriano alternativo.
Como se vê, a agitação em torno da cultura steampunk no Brasil é grande, a ponto de chamar a atenção em outros países e dar ao leitor várias opções para participar ou ao menos experimentar esta nova versão da Revolução Industrial. O carvão queima e as engrenagens se movimentam. Boa viagem.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Catecismos científicos
Quando chegou à minha caixa de correspondência o mais recente livro de Carlos Orsi não pude deixar de pensar nos catecismos pornográficos que Alcides Caminha assinava com o pseudônimo Carlos Zéfiro durante a década de 60 no Rio de Janeiro. O saudosismo foi despertado pela forma como foi produzida a novela O que o olho vê, pela Scarium, editora mantida pelo carioca Marco Bourguingnon. Responsável pela mais longeva publicação em papel dedicada à ficção fantástica no país – um zine com o mesmo nome da editora por onde já publicaram os melhores escritores de ficção científica, horror e fantasia brasileiros que já está indo para a edição de número 26, com chamada para submissão de contos de FC – a empresa mantém sua loja virtual desde 2002. Mesmo com esse pé na tecnologia, não perde o status artesanal de seus impressos, como os livros de sua coleção Scarium Fantástica, da qual a nova obra do jundiaiense que já foi assunto do Overmundo por três vezes – primeira, segunda e terceira – é o terceiro volume.
Editada em um formato de bolso, com 13 cm por 18,5 cm, 48 páginas, encadernação grampeada e a capa, monocromática roxa, colada por cima, a novela tem o charme das primeiras publicações do gênero, na época pioneira das pulp magazine. Só faltou o papel já vir amarelado para dar ainda mais o clima de folhetim, que já começa com a citação escolhida pelo autor, de Iam Fleming, no original, na língua de James Bond: “Nunca mande um homem quando puder mandar uma bala”. Uma citação muito adequada, já que a trama é também de espionagem e de intriga internacional. Mas se fosse apenas isso que fizesse parte da receita, O que o olho vê não seria uma representante da literatura fantástica. O que a insere nesta vertente é que a novela também é uma ótima história alternativa, subgênero dos mais respeitados da ficção científica.
A história alternativa, ou HA, é um meio furtivo de levar a ficção científica a quem tem reservas com o meio. Mesmo editoras que são declaradamente restritivas à FC já publicaram este gênero que faz especulações com a História e, portanto, é, sim, conceitualmente, ficção científica. Caso da Cia. das Letras que durante muito tempo informou em sua página na Internet que não aceitava receber originais deste ramo da literatura. Felizmente, tal decisão editorial não a impediu de publicar os excelentes livros Associação Judaica de Polícia – no qual o consagrado Michael Chabon especula um mundo em que Israel foi varrido do mapa e os EUA cedem o Alasca provisoriamente como lar para os judeus do mundo –, ou Complô contra a América – do ainda mais consagrado Philip Roth, que com falsas memórias de sua infância imagina um pró-nazista Charles Lindbergh chegando à presidência dos Estados Unidos nos beligerantes anos 40.
Editoras voltadas ao gênero também lançaram sua cota de HA, como a Aleph que republicou no Brasil a obra de outro Philp, o K. Dick, autor de um dos primeiros e mais famosos romances do gênero, O homem do Castelo Alto, no qual, sempre consultando o oráculo do I Ching, escreveu sobre um mundo no qual os países do Eixo venceram a II Guerra Mundial, o que levou alemães e japoneses a dividirem o território americano entre si. Mesmo assim, o maior astro do gênero, Harry Turtledove, ainda não é muito conhecido no Brasil, mas conta com tradução para nossa língua ao menos em Portugal, onde foi lançado recentemente, pela editora Saída de Emergência, O dilema de Shakespeare, livro robusto no qual o dramaturgo é convocado a escrever uma peça que sirva de inspiração à resistência dos ingleses que tiveram seu país dominado pela Espanha católica e inquisitorial do rei Filipe e sua Armada Invencível.
O Brasil não é apenas consumidor, mas também produz história alternativa. O maior incentivador e um dos pioneiros no gênero em nosso país é o carioca Gerson Lodi-Ribeiro. Apesar de o veterano J. J. Veiga ter escrito antes uma história em que Antonio Conselheiro sobrevivera ao cerco de Canudos, é uma noveleta de Lodi-Ribeiro a mais citada como precursora das HAs em nosso país. “A ética da traição”, publicada na Isac Asimov Magazine brasileira, falava de um Brasil que havia perdido a Guerra do Paraguai, mas, em compensação, se tornara um país mais desenvolvido. Este texto e outros de uma segunda linha de especulação do autor, na qual os holandeses não foram expulsos, mas se aliaram aos quilombolas e se mantiveram em Recife, foram compilados em forma de livro: Outros Brasis, da Mercuryo, em 2006. Antes disso, quando se comemoravam os 500 anos da descoberta do Brasil, ele já havia organizado uma coletânea inteira do gênero, chamada Phantastica Brasiliana, pela editora Ano-Luz, da qual participou Carlos Orsi, como coeditor e um dos autores.
Após o intervalo explicativo, vamos voltar a O que o olho vê. Esta novela de Carlos Orsi já estava escrita há tempos, foi concluída logo após sua participação em Phantastica Brasiliana, portanto, antes dos atentados de 11 de Setembro e muito antes desta pandemia de gripe suína que preocupa o mundo. Tudo isso torna ainda mais saborosa a sinopse com que o editor Marco Bourguingnon descreve o livro: “Um estudante brasileiro de Cosmologia vivendo nos Estados Unidos da América, ou melhor, nos Estados Cristãos da América, acaba se envolvendo em uma emaranhada trama de espionagem internacional. Ele parte para uma missão importante, recuperar os códigos do vírus da gripe suína escondido artificialmente dentro de um olho.”
Este é um bom resumo da trama, narrada em primeira pessoa pelo brasileiro que nunca tem seu verdadeiro nome revelado. O que torna o livro uma história alternativa é uma diferença básica entre aquela linha do tempo e a nossa, algo que no jargão do meio é chamado de ponto de divergência. No universo elaborado por Orsi, os Estados Unidos foram atingidos por uma epidemia de gripe tão forte em 1915 que o país se viu impedido de entrar no que seria a Primeira Guerra Mundial para auxiliar a Inglaterra. Sem essa participação, o Império Britânico caiu, o mundo islâmico de alguma forma se tornou o maior produtor de tecnologia e quanto aos EUA... Como escreveu Bourguingnon eles se tornaram uma república fundamentalista e substituíram o United por Christian, em apenas um exemplo das diferenças entre este mundo e o nosso. Parte da brincadeira é ver o novo significado de siglas como MIT ou da expressão que substitui a nossa conhecida Cortina de Ferro. Fora as apropriações bíblicas e do Alcorão para explicar termos científicos da cosmologia, como a explicação para a radiação de fundo ou o novo nome do Big Bem, os melhores achados do livro, verdadeiros exemplos de catecismos científicos propriamente ditos.
É curioso que o autor tenha se contido para evitar falar mais, detalhar, exemplificar mostrar mais exemplos dessas novas sociedades imaginadas por ele. Como ficou, O que o lho vê é uma ótima novela, evocando conceitos de inteligência artificial, nanotecnologia, fisiologia humana, física de partículas entre outros temas que o autor, jornalista especializado em divulgação científica, sabe lidar como ninguém no Brasil. Mas dá o que pensar no que poderia ser um romance sobre este mundo em que a guerra fria se mistura à guerra santa dando origem a um mundo ao mesmo tempo novo e tão reconhecível. Resta torcer para que Carlos Orsi volte ao tema e aprofunde os detalhes dos quais só nos deixou espiar a superfície. A impressão é de que é possível trazer muito mais à tona.
E nesses tempos de crise e de vários lançamentos imperdíveis para quem acompanha a FC nacional (dê uma olhada na lista compilada por Fernando Trevisan em seu blog) uma ótima notícia é o preço deste lançamento. Na loja virtual da Scarium, a novela pode ser adquirida de qualquer parte do país por apenas oito reais. Não se pense que pelo preço ou pela produção artesanal vai se estar levando um produto mal-acabado. Apesar de a proposta de capa não ter me agradado e muito pouco ter a ver com o conteúdo da obra – há algo vagamente citado bem ao final do livro – esta novela está muito bem produzida e com um índice de erros de revisão aceitável mesmo se comparado ao de editoras maiores. Além de alguma confusão com o uso de itálico para diferenciar a fala do narrador da de uma inteligência artificial presente na história, percebi apenas cinco deslizes. Na página 18, aparece “tranaformá-la” no lugar de “transformá-la”; na 26, “quer” no lugar de “que” e “quatro” no de “quarto”; na 33, “batias” no lugar de “batia”; e a repetição da palavra “dentro”, na 36. Ou seja, o catecismo científico da Scarium é tão bom e barato e satisfaz tanto quanto os do Carlos Zéfiro.
Editada em um formato de bolso, com 13 cm por 18,5 cm, 48 páginas, encadernação grampeada e a capa, monocromática roxa, colada por cima, a novela tem o charme das primeiras publicações do gênero, na época pioneira das pulp magazine. Só faltou o papel já vir amarelado para dar ainda mais o clima de folhetim, que já começa com a citação escolhida pelo autor, de Iam Fleming, no original, na língua de James Bond: “Nunca mande um homem quando puder mandar uma bala”. Uma citação muito adequada, já que a trama é também de espionagem e de intriga internacional. Mas se fosse apenas isso que fizesse parte da receita, O que o olho vê não seria uma representante da literatura fantástica. O que a insere nesta vertente é que a novela também é uma ótima história alternativa, subgênero dos mais respeitados da ficção científica.
A história alternativa, ou HA, é um meio furtivo de levar a ficção científica a quem tem reservas com o meio. Mesmo editoras que são declaradamente restritivas à FC já publicaram este gênero que faz especulações com a História e, portanto, é, sim, conceitualmente, ficção científica. Caso da Cia. das Letras que durante muito tempo informou em sua página na Internet que não aceitava receber originais deste ramo da literatura. Felizmente, tal decisão editorial não a impediu de publicar os excelentes livros Associação Judaica de Polícia – no qual o consagrado Michael Chabon especula um mundo em que Israel foi varrido do mapa e os EUA cedem o Alasca provisoriamente como lar para os judeus do mundo –, ou Complô contra a América – do ainda mais consagrado Philip Roth, que com falsas memórias de sua infância imagina um pró-nazista Charles Lindbergh chegando à presidência dos Estados Unidos nos beligerantes anos 40.
Editoras voltadas ao gênero também lançaram sua cota de HA, como a Aleph que republicou no Brasil a obra de outro Philp, o K. Dick, autor de um dos primeiros e mais famosos romances do gênero, O homem do Castelo Alto, no qual, sempre consultando o oráculo do I Ching, escreveu sobre um mundo no qual os países do Eixo venceram a II Guerra Mundial, o que levou alemães e japoneses a dividirem o território americano entre si. Mesmo assim, o maior astro do gênero, Harry Turtledove, ainda não é muito conhecido no Brasil, mas conta com tradução para nossa língua ao menos em Portugal, onde foi lançado recentemente, pela editora Saída de Emergência, O dilema de Shakespeare, livro robusto no qual o dramaturgo é convocado a escrever uma peça que sirva de inspiração à resistência dos ingleses que tiveram seu país dominado pela Espanha católica e inquisitorial do rei Filipe e sua Armada Invencível.
O Brasil não é apenas consumidor, mas também produz história alternativa. O maior incentivador e um dos pioneiros no gênero em nosso país é o carioca Gerson Lodi-Ribeiro. Apesar de o veterano J. J. Veiga ter escrito antes uma história em que Antonio Conselheiro sobrevivera ao cerco de Canudos, é uma noveleta de Lodi-Ribeiro a mais citada como precursora das HAs em nosso país. “A ética da traição”, publicada na Isac Asimov Magazine brasileira, falava de um Brasil que havia perdido a Guerra do Paraguai, mas, em compensação, se tornara um país mais desenvolvido. Este texto e outros de uma segunda linha de especulação do autor, na qual os holandeses não foram expulsos, mas se aliaram aos quilombolas e se mantiveram em Recife, foram compilados em forma de livro: Outros Brasis, da Mercuryo, em 2006. Antes disso, quando se comemoravam os 500 anos da descoberta do Brasil, ele já havia organizado uma coletânea inteira do gênero, chamada Phantastica Brasiliana, pela editora Ano-Luz, da qual participou Carlos Orsi, como coeditor e um dos autores.
Após o intervalo explicativo, vamos voltar a O que o olho vê. Esta novela de Carlos Orsi já estava escrita há tempos, foi concluída logo após sua participação em Phantastica Brasiliana, portanto, antes dos atentados de 11 de Setembro e muito antes desta pandemia de gripe suína que preocupa o mundo. Tudo isso torna ainda mais saborosa a sinopse com que o editor Marco Bourguingnon descreve o livro: “Um estudante brasileiro de Cosmologia vivendo nos Estados Unidos da América, ou melhor, nos Estados Cristãos da América, acaba se envolvendo em uma emaranhada trama de espionagem internacional. Ele parte para uma missão importante, recuperar os códigos do vírus da gripe suína escondido artificialmente dentro de um olho.”
Este é um bom resumo da trama, narrada em primeira pessoa pelo brasileiro que nunca tem seu verdadeiro nome revelado. O que torna o livro uma história alternativa é uma diferença básica entre aquela linha do tempo e a nossa, algo que no jargão do meio é chamado de ponto de divergência. No universo elaborado por Orsi, os Estados Unidos foram atingidos por uma epidemia de gripe tão forte em 1915 que o país se viu impedido de entrar no que seria a Primeira Guerra Mundial para auxiliar a Inglaterra. Sem essa participação, o Império Britânico caiu, o mundo islâmico de alguma forma se tornou o maior produtor de tecnologia e quanto aos EUA... Como escreveu Bourguingnon eles se tornaram uma república fundamentalista e substituíram o United por Christian, em apenas um exemplo das diferenças entre este mundo e o nosso. Parte da brincadeira é ver o novo significado de siglas como MIT ou da expressão que substitui a nossa conhecida Cortina de Ferro. Fora as apropriações bíblicas e do Alcorão para explicar termos científicos da cosmologia, como a explicação para a radiação de fundo ou o novo nome do Big Bem, os melhores achados do livro, verdadeiros exemplos de catecismos científicos propriamente ditos.
É curioso que o autor tenha se contido para evitar falar mais, detalhar, exemplificar mostrar mais exemplos dessas novas sociedades imaginadas por ele. Como ficou, O que o lho vê é uma ótima novela, evocando conceitos de inteligência artificial, nanotecnologia, fisiologia humana, física de partículas entre outros temas que o autor, jornalista especializado em divulgação científica, sabe lidar como ninguém no Brasil. Mas dá o que pensar no que poderia ser um romance sobre este mundo em que a guerra fria se mistura à guerra santa dando origem a um mundo ao mesmo tempo novo e tão reconhecível. Resta torcer para que Carlos Orsi volte ao tema e aprofunde os detalhes dos quais só nos deixou espiar a superfície. A impressão é de que é possível trazer muito mais à tona.
E nesses tempos de crise e de vários lançamentos imperdíveis para quem acompanha a FC nacional (dê uma olhada na lista compilada por Fernando Trevisan em seu blog) uma ótima notícia é o preço deste lançamento. Na loja virtual da Scarium, a novela pode ser adquirida de qualquer parte do país por apenas oito reais. Não se pense que pelo preço ou pela produção artesanal vai se estar levando um produto mal-acabado. Apesar de a proposta de capa não ter me agradado e muito pouco ter a ver com o conteúdo da obra – há algo vagamente citado bem ao final do livro – esta novela está muito bem produzida e com um índice de erros de revisão aceitável mesmo se comparado ao de editoras maiores. Além de alguma confusão com o uso de itálico para diferenciar a fala do narrador da de uma inteligência artificial presente na história, percebi apenas cinco deslizes. Na página 18, aparece “tranaformá-la” no lugar de “transformá-la”; na 26, “quer” no lugar de “que” e “quatro” no de “quarto”; na 33, “batias” no lugar de “batia”; e a repetição da palavra “dentro”, na 36. Ou seja, o catecismo científico da Scarium é tão bom e barato e satisfaz tanto quanto os do Carlos Zéfiro.
sábado, 2 de maio de 2009
Sobrevivência nas selvas
Quando anunciei em meu blog a publicação de um novo romance de Carlos Orsi disse que aquela seria uma ótima e uma má notícia para quem lê ficção científica no Brasil. Eu estava especulando ainda, pois havia acabado de receber o email do autor avisando que ele utilizara o Scribd para divulgar o e-book Nômade – Uma narrativa da grande viagem. Mas era uma especulação com base sólida, pois esse jornalista paulista, de Jundiaí, é o escritor de ficção fantástica nacional do qual mais li textos com a particularidade de que gostei de todos. Já havia resenhado um livro dele e o entrevistado, aqui mesmo, para o Overmundo e publiquei três contos de sua autoria naquele meu já citado blog entre os 60 textos disponíveis lá de várias vertentes da literatura de gênero: ficção científica, fantasia, horror, policial, detetive, história alternativa, ficção alternativa, contos filosóficos. Era grande a probabilidade de eu gostar deste novo romance, portanto.
E eu não me enganei. Li o e-book de 106 páginas no mesmo dia, naquela véspera de feriado. Já sabia que era uma história focada num tema clássico da FC: a idéia de uma nave geracional, ou seja, uma espaçonave preparada para atravessar uma distância tão longa que o percurso consumiria o espaço de gerações de seus tripulantes. Segundo os pesquisadores do gênero, o primeiro a pensar no assunto não foi um ficcionista, mas o ensaísta russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1926. Nos mais de 80 anos que se passaram, muitos escritores aproveitaram o conceito, destaco Tau Zero do americano Poul Anderson, publicado na forma de livro em 1970, com a trágica história dos tripulantes de Leonora Christine. No caso do ebook nacional, a nave leva o mesmo nome da obra, Nômade, e a grande viagem leva pouco mais de 200 anos para percorrer a distância que vai levar sua tripulação da Terra a seu novo lar.
Uma outra diferença das duas obras, é que o livro americano é uma referência no estilo hard, o tipo de FC que segue mais minuciosamente ciência e tecnologia plausíveis, extrapolando dentro de limites mais, neste contexto, realistas. Apesar de Carlos Orsi ser reconhecidamente um dos três brasileiros de maior destaque neste mesmo estilo, para seu romance ele enfatizou uma outra abordagem, Nômade é uma legítima obra voltada para o público juvenil. E isso é ótimo, a FC às vezes sofre tanto com o estigma de ser uma literatura inferior que muitos autores tentam dar tamanha densidade a seus textos, evocar tal sorte de experimentalismos formais que o prazer da leitura, o arrebatamento do sense of wonder acaba sendo sacrificado. Para uma profunda discussão sobre a vocação juvenil do gênero, recomendo este blog feito a quatro mãos.
E o ebook nacional consegue o feito de sustentar o senso de maravilhamento sem deixar de lado a apuração técnica típica do autor, jornalista especializado em divulgação científica. Provando que escrever para adolescentes não é e nunca foi sinônimo de textos mal pesquisados e implausíveis, muito menos de tratados didáticos sem sabor, o jundiaiense encontrou um equilíbrio excelente para sua narrativa. Nem os detalhes relacionados a sobrevivência na selva, ambientes de gravidade zero ou sobre efeitos de ótica, nem o ritmo de aventura, ganchos narrativos entre os capítulos e a construção de personagens foram desprezados. O autor deu tanta atenção ao lado científico quanto ao juvenil de sua ficção e se saiu muito bem em ambos.
Apesar das poucas páginas, nós, leitores, passamos por uma impressionante variedade de ambientações neste breve romance. Tudo começa com uma selva aparentemente normal, onde se encontram os principais personagens do livro, um grupo de adolescentes com idade aproximada de 15 anos. Logo percebemos que aquele é um cenário artificial, construído no interior da tal nave com o objetivo de treinar a ala jovem da tripulação, em uma espécie de acampamento, para enfrentar qualquer eventualidade no novo planeta para onde são transportados. Não demora para uma série de incidentes, gradativamente mais perigosos, deixar claro que algo de errado acontece no mundo tecnológico que envolve aquele pequeno oásis artificial. O casal de protagonistas, Peleu e Helena, são escalados para tentar descobrir o que está havendo, o porquê de eles não conseguirem mais se comunicar com os adultos ou mesmo com Nestor, a inteligência artificial que comanda a nave Nômade.
A trama de Orsi segue esse caminho clássico, com os dois jovens enfrentando várias dificuldades; demonstrando que o conhecimento de um, completa o do outro; e o consequente amadurecimento que essa jornada provoca em ambos. Assim como a própria temática da nave geracional, o escritor trabalha com elementos bastante conhecidos ao longo das páginas, mas mesmo assim consegue tirar o melhor da história que está contando. Talvez ele pudesse ter elaborado um tanto mais o clímax do livro, que tem uma resolução simples e não tão satisfatória ou plausível quanto todo o restante do desenvolvimento da aventura, mesmo assim, é um belo livro. Faz pensar nas possibilidades que teria se chegasse a um grande público que começa a descobrir o gosto pela leitura e outras formas de adaptar seu roteiro para mídias como quadrinhos, jogos ou animações.
Então, dito tudo isso, se o livro é tão bom ou ainda melhor que o esperado, por que haveria um lado mau na notícia de sua publicação, ainda mais da forma que se deu, de graça, à disposição de todos os interessados? Parte da resposta está na pergunta. Mas a resposta inteira está no posfácio que o próprio autor escreveu “Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui”. No pósfácio-nota-desabafo, Carlos Orsi faz uma narrativa tão cheia de desventuras quanto a outra, a da parte fictícia do livro. Mesmo sem citar nomes das pessoas e empresas envolvidas (e eu opto aqui por não especular, até para evitar a fulanização de um debate que deve mesmo ser mais abrangente), ele demonstra que a sobrevivência na selva ou no espaço pode ser mais simples que no mercado editorial brasileiro. Reproduzo o texto abaixo, na íntegra, desejando que algum dia esta realidade pouco hospitaleira mude.
Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui
Nômade tem uma história engraçada: o livro nasceu de uma encomenda estilo “contrato de risco” de uma importante editora do ramo de livros juvenis. Basicamente, perguntaram-me se eu topava escrever um romance para jovens sem compromisso, submeter a eles e, se gostassem, o livro saía.
Resumindo: escrevi. Submeti. Gostaram mais ou menos. Reescrevi. Gostaram pra valer. Não saiu.
Por quê? Não faço a menor idéia. O que sei é que passei a maior parte da presente década esperando que alguém na tal editora batesse o martelo, me apresentasse um contrato, fizesse alguma coisa. Depois de tanto tempo, até uma rejeição, tipo, “desculpe, mas o funcionário que deu aprovação inicial a seu livro foi diagnosticado com esquizofrenia, jamais publicaríamos um lixo desses”, teria sido bem-vinda.
Mas, bolas, para quê tratar escritores com cortesia e consideração, não é mesmo? Eles se vendem por aí, como diz o provérbio americano, por dez centavos a dúzia.
Então, o que pretendo ao lançar Nômade como um livro eletrônico grátis? Eu poderia responder dizendo que faço isso para exorcizar o fetiche do papel, que este livro representa meu grito de liberdade em relação às velhas mídias ultrapassadas que dependem de tinta e árvores mortas para subsistir.
Mas estaria mentindo.
Meu objetivo secreto, com este livro, é fazer tanto sucesso, mas tanto sucesso, que seja lá quem for o gênio que bloqueou a publicação lá naquela editora termine seus dias em desonra, opróbio e ostracismo, passando frio e fome e vendendo DVDs piratas na Praça da Sé.
Como conseguir o objetivo secreto é um pouco difícil, reconheço, meu objetivo expresso é, simplesmente, completar o parto iniciado tantos anos atrás. Cada escritor tem seu jeito, suponho, mas eu sou um maníaco da publicação: saber que tenho um texto acabado na gaveta é algo que me dói quase tanto quanto ter uma batata quente nas mãos.
Nestes quase 18 anos como escritor profissional (recebi meu primeiro cheque por uma obra de ficção em 1992) uma coisa que aprendi é que sou um péssimo vendedor: não adianta eu bancar uma tiragem e pôr a banquinha na rua, o livro vai encalhar, independentemente de seus méritos. A incapacidade psicológica de pedir dinheiro aos outros é um dos fantasmas que assombram minha vida.
Então, por que não simplesmente soltar o livro no mundo? Prece ser a solução lógica.
Outra coisa que aprendi nestes 18 anos é que os textos têm um jeito de achar seus próprios caminhos. Dia desses, dando uma busca por meus próprios títulos no Google (narcisista! narcisista!) achei o blog de uma menina que cita minha primeira coletânea de contos, Medo, Mistério e Morte, como um de seus livros favoritos. Essa moça provavelmente nem tinha nascido quando os primeiros contos daquele livro foram escritos.
Então, aqui está Nômade. Talvez um dia ele venha a ser o livro favorito de alguém que não nasceu ainda.
Não é um castelo na França, uma vaga na Academia ou um fim de semana na Ilha de Caras, mas acho que dá para o gasto.
E eu não me enganei. Li o e-book de 106 páginas no mesmo dia, naquela véspera de feriado. Já sabia que era uma história focada num tema clássico da FC: a idéia de uma nave geracional, ou seja, uma espaçonave preparada para atravessar uma distância tão longa que o percurso consumiria o espaço de gerações de seus tripulantes. Segundo os pesquisadores do gênero, o primeiro a pensar no assunto não foi um ficcionista, mas o ensaísta russo Konstantin Tsiolkovsky, em 1926. Nos mais de 80 anos que se passaram, muitos escritores aproveitaram o conceito, destaco Tau Zero do americano Poul Anderson, publicado na forma de livro em 1970, com a trágica história dos tripulantes de Leonora Christine. No caso do ebook nacional, a nave leva o mesmo nome da obra, Nômade, e a grande viagem leva pouco mais de 200 anos para percorrer a distância que vai levar sua tripulação da Terra a seu novo lar.
Uma outra diferença das duas obras, é que o livro americano é uma referência no estilo hard, o tipo de FC que segue mais minuciosamente ciência e tecnologia plausíveis, extrapolando dentro de limites mais, neste contexto, realistas. Apesar de Carlos Orsi ser reconhecidamente um dos três brasileiros de maior destaque neste mesmo estilo, para seu romance ele enfatizou uma outra abordagem, Nômade é uma legítima obra voltada para o público juvenil. E isso é ótimo, a FC às vezes sofre tanto com o estigma de ser uma literatura inferior que muitos autores tentam dar tamanha densidade a seus textos, evocar tal sorte de experimentalismos formais que o prazer da leitura, o arrebatamento do sense of wonder acaba sendo sacrificado. Para uma profunda discussão sobre a vocação juvenil do gênero, recomendo este blog feito a quatro mãos.
E o ebook nacional consegue o feito de sustentar o senso de maravilhamento sem deixar de lado a apuração técnica típica do autor, jornalista especializado em divulgação científica. Provando que escrever para adolescentes não é e nunca foi sinônimo de textos mal pesquisados e implausíveis, muito menos de tratados didáticos sem sabor, o jundiaiense encontrou um equilíbrio excelente para sua narrativa. Nem os detalhes relacionados a sobrevivência na selva, ambientes de gravidade zero ou sobre efeitos de ótica, nem o ritmo de aventura, ganchos narrativos entre os capítulos e a construção de personagens foram desprezados. O autor deu tanta atenção ao lado científico quanto ao juvenil de sua ficção e se saiu muito bem em ambos.
Apesar das poucas páginas, nós, leitores, passamos por uma impressionante variedade de ambientações neste breve romance. Tudo começa com uma selva aparentemente normal, onde se encontram os principais personagens do livro, um grupo de adolescentes com idade aproximada de 15 anos. Logo percebemos que aquele é um cenário artificial, construído no interior da tal nave com o objetivo de treinar a ala jovem da tripulação, em uma espécie de acampamento, para enfrentar qualquer eventualidade no novo planeta para onde são transportados. Não demora para uma série de incidentes, gradativamente mais perigosos, deixar claro que algo de errado acontece no mundo tecnológico que envolve aquele pequeno oásis artificial. O casal de protagonistas, Peleu e Helena, são escalados para tentar descobrir o que está havendo, o porquê de eles não conseguirem mais se comunicar com os adultos ou mesmo com Nestor, a inteligência artificial que comanda a nave Nômade.
A trama de Orsi segue esse caminho clássico, com os dois jovens enfrentando várias dificuldades; demonstrando que o conhecimento de um, completa o do outro; e o consequente amadurecimento que essa jornada provoca em ambos. Assim como a própria temática da nave geracional, o escritor trabalha com elementos bastante conhecidos ao longo das páginas, mas mesmo assim consegue tirar o melhor da história que está contando. Talvez ele pudesse ter elaborado um tanto mais o clímax do livro, que tem uma resolução simples e não tão satisfatória ou plausível quanto todo o restante do desenvolvimento da aventura, mesmo assim, é um belo livro. Faz pensar nas possibilidades que teria se chegasse a um grande público que começa a descobrir o gosto pela leitura e outras formas de adaptar seu roteiro para mídias como quadrinhos, jogos ou animações.
Então, dito tudo isso, se o livro é tão bom ou ainda melhor que o esperado, por que haveria um lado mau na notícia de sua publicação, ainda mais da forma que se deu, de graça, à disposição de todos os interessados? Parte da resposta está na pergunta. Mas a resposta inteira está no posfácio que o próprio autor escreveu “Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui”. No pósfácio-nota-desabafo, Carlos Orsi faz uma narrativa tão cheia de desventuras quanto a outra, a da parte fictícia do livro. Mesmo sem citar nomes das pessoas e empresas envolvidas (e eu opto aqui por não especular, até para evitar a fulanização de um debate que deve mesmo ser mais abrangente), ele demonstra que a sobrevivência na selva ou no espaço pode ser mais simples que no mercado editorial brasileiro. Reproduzo o texto abaixo, na íntegra, desejando que algum dia esta realidade pouco hospitaleira mude.
Nota à edição free ebook – ou, por que este livro está aqui
Nômade tem uma história engraçada: o livro nasceu de uma encomenda estilo “contrato de risco” de uma importante editora do ramo de livros juvenis. Basicamente, perguntaram-me se eu topava escrever um romance para jovens sem compromisso, submeter a eles e, se gostassem, o livro saía.
Resumindo: escrevi. Submeti. Gostaram mais ou menos. Reescrevi. Gostaram pra valer. Não saiu.
Por quê? Não faço a menor idéia. O que sei é que passei a maior parte da presente década esperando que alguém na tal editora batesse o martelo, me apresentasse um contrato, fizesse alguma coisa. Depois de tanto tempo, até uma rejeição, tipo, “desculpe, mas o funcionário que deu aprovação inicial a seu livro foi diagnosticado com esquizofrenia, jamais publicaríamos um lixo desses”, teria sido bem-vinda.
Mas, bolas, para quê tratar escritores com cortesia e consideração, não é mesmo? Eles se vendem por aí, como diz o provérbio americano, por dez centavos a dúzia.
Então, o que pretendo ao lançar Nômade como um livro eletrônico grátis? Eu poderia responder dizendo que faço isso para exorcizar o fetiche do papel, que este livro representa meu grito de liberdade em relação às velhas mídias ultrapassadas que dependem de tinta e árvores mortas para subsistir.
Mas estaria mentindo.
Meu objetivo secreto, com este livro, é fazer tanto sucesso, mas tanto sucesso, que seja lá quem for o gênio que bloqueou a publicação lá naquela editora termine seus dias em desonra, opróbio e ostracismo, passando frio e fome e vendendo DVDs piratas na Praça da Sé.
Como conseguir o objetivo secreto é um pouco difícil, reconheço, meu objetivo expresso é, simplesmente, completar o parto iniciado tantos anos atrás. Cada escritor tem seu jeito, suponho, mas eu sou um maníaco da publicação: saber que tenho um texto acabado na gaveta é algo que me dói quase tanto quanto ter uma batata quente nas mãos.
Nestes quase 18 anos como escritor profissional (recebi meu primeiro cheque por uma obra de ficção em 1992) uma coisa que aprendi é que sou um péssimo vendedor: não adianta eu bancar uma tiragem e pôr a banquinha na rua, o livro vai encalhar, independentemente de seus méritos. A incapacidade psicológica de pedir dinheiro aos outros é um dos fantasmas que assombram minha vida.
Então, por que não simplesmente soltar o livro no mundo? Prece ser a solução lógica.
Outra coisa que aprendi nestes 18 anos é que os textos têm um jeito de achar seus próprios caminhos. Dia desses, dando uma busca por meus próprios títulos no Google (narcisista! narcisista!) achei o blog de uma menina que cita minha primeira coletânea de contos, Medo, Mistério e Morte, como um de seus livros favoritos. Essa moça provavelmente nem tinha nascido quando os primeiros contos daquele livro foram escritos.
Então, aqui está Nômade. Talvez um dia ele venha a ser o livro favorito de alguém que não nasceu ainda.
Não é um castelo na França, uma vaga na Academia ou um fim de semana na Ilha de Caras, mas acho que dá para o gasto.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Criação coletiva
Com o romance escrito por ele, um projeto multimídia deu oficialmente a largada em uma invasão que ocorrerá na vida de quem consome games, quadrinhos e livros com temáticas ligadas à ficção científica. Taikodom: Despertar é o segundo livro deste game designer carioca, com formação de historiador, e deve apresentar a leitores brasileiros e portugueses uma inciativa nacional que já consumiu investimentos da ordem de R$ 15 milhões. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a responsabilidade que teve em mãos, no processo de criação verdadeiramente coletiva que game e romance compartilharam e sobre o que o futuro reserva ao Taikodom, ou Domínio do Espaço, o primeiro Massive Social Game do mundo. Com vocês, o especialista em space opera deste quadrante do espaço, João Marcelo Beraldo.
Antes do lançamento de Taikodom: Despertar e de ser contratado como game designer pela empresa responsável pelo projeto, a Hoplon, você já tinha experiência tanto literária quanto com jogos, certo? Poderia falar um pouco sobre seus livros, impresso e on-line, anteriores e sobre outros games com que trabalhou?
Bom, meu primeiro livro impresso foi Véu da verdade, uma ficção Space Opera em um universo próprio. A proposta dele era criar um universo ficcional com estilo próprio, com um jeitinho brasileiro, e com espaço o suficiente para vários tipos de história não necessariamente interligadas. O Véu foi a primeira, mas longe de ser a única. Quando o livro foi publicado no final de 2005, já tinha terminado de escrever a primeira versão de Jogos de Guerra, que se passa na mesma época, mas com personagens diferentes. Em seguida tive vários contos publicados online e um na revista Scarium. De lá para cá também lancei dois ebooks sobre algumas das raças alienígenas desse UF para o mercado de RPG internacional e um RPG com sistema próprio para o mercado nacional.
Antes do Taikodom, fui um dos fundadores de um grupo chamado SomniumStudio, que pretendia lançar jogos de computador no Brasil. Chegamos a ser convidados a palestrar sobre o assunto em algumas universidades do Rio de Janeiro. Nessa época chegamos a trabalhar em alguns projetos como a Nave-Escola do Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, quando desenvolvemos um simulador espacial com física realista, além de projetos em multimídia. Nessa mesma época estávamos trabalhando no desenvolvimento de um space sim chamado Border Wars, com um Universo Ficcional desenvolvido por mim.
Mas, talvez a origem dessa relação escrita+jogos tenha sido um período de quatro anos em que desenvolvi e mestrei através da internet um RPG de sistema próprio baseado na série de jogos Wing Commander. Chegamos a ter 30 jogadores de todo o mundo. Foi apenas a falta de tempo que nos privou de continuar esse projeto. Sei que aprendi muito dessa época o que aplico hoje no desenvolvimento de Taikodom.
Sobre o processo de criação deste romance, qual a diferença entre trabalhar com um universo criado por outra pessoa e a liberdade de criar seu próprio mundo como fez em Véu da verdade? É comparável com o que você já havia feito em termos de fanfics, por exemplo, ou é uma experiência diferente?
Nunca é igual. Mesmo de um UF compartilhado para outro, de um fanfic para outro, existe muita diferença. Alguns UFs são extremamente detalhados, deixando pouco espaço para desenvolvimento, enquanto outros são propositalmente abertos.
O Véu da verdade foi um exercício e um desafio que resolvi impor a mim. No Reveillon de 2004, enquanto discutia com o pessoal da SomniumStudio sobre algumas questões do UF do Border Wars (que, mal ou bem tinha limitações técnicas e de foco, assim como o Taikodom), resolvi jogar todas as idéias mais loucas que tivesse na gênese de um novo UF. Algo totalmente sem barreiras, puxando crítica social, comédia no estilo Mochileiro das galáxias e um pacotão de ação e intriga. Um ano depois, publicava o primeiro romance da série. Foi muito divertido e extremamente gratificante. Afinal, foi meu portfólio para entrar na Hoplon.
No caso do Taikodom, por ser um universo em desenvolvimento (especialmente em 2006, quando me tornei parte do projeto), apesar de existirem certos elementos já definidos, havia muito a se criar. Parte do meu trabalho ao ser contratado pela Hoplon foi encontrar buracos e preenchê-los com detalhes que dessem pano pra manga. Foi parte do motivo pelo qual acabei trabalhando bastante no período em que o jogo se passa hoje, um período o qual ainda não havia sido trabalhado pelo Gerson [Lodi-Ribeiro] e o Roctávio [de Castro]. Enquanto no início você tem que se acostumar com certas nuances do UF, logo certas coisas se tornam naturais. Essa é a vantagem de um UF desenvolvido meticulosamente por um grupo de pessoas dedicadas ao projeto. A cada encontro (virtual ou físico), surge pelo menos uma nova idéia de como explorar esse universo.
Qual foi a responsabilidade de abrir as portas deste universo ficcional antes mesmo do criador dele, já que seu romance foi lançado primeiramente que a coletânea de contos de Gerson Lodi-Ribeiro, que assina a introdução de seu livro, aliás?
Bom, na verdade o Taikodom foi criado pelo Tarqüínio Teles e Cristóvão Buzarello, dois dos sócios da Hoplon. O Gerson é sim o principal autor e certamente sem ele não haveria muito do que se desenvolveu desde o início do projeto. Mas o que temos que lembrar é que, nesse momento inicial, o Taikodom é principalmente um jogo online. Foi por esse motivo que acabei sendo incumbido pelo Tarqüínio dessa responsabilidade. E que resposabilidade! Deu um frio na barriga quando ele disse, brincado sério, que eu deveria escrever o Hobbit [referência ao livro que antecede as obras mais conhecidas da saga de O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien] da nossa Trilogia (que está nas mãos do Gerson). A decisão foi bem pensada pela diretoria da Hoplon. Despertar tem uma visão mais pessoal do UF, diretamente relacionada ao jogo o qual o romance apresenta. O passo seguinte é dar mais detalhes sobre esse UF, com as Crônicas do Taikodom, de autoria do Gerson, e as demais obras em seqüência. O frio na barriga do lançamento veio e veio forte. Agora é o momento da alegria de ouvir e ler os comentários sobre quem se interessou e leu.
No caso deste livro, não só era um universo que já existia previamente, mas também um trabalho que envolve a parceria com outros criadores. Como foi sua interação com Gerson Lodi-Ribeiro, Roctávio de Castro e outros membros da equipe de criação? Há uma cooperação entre vocês nas diversas mídias que o projeto envolve?
Tem que ter uma cooperação. Sem ela, seria impossível desenvolver um Universo Compartilhado. Durante muito tempo, em especial do início dessa parceria, em que muito sobre o UF do Taikodom estava sendo discutido, que tínhamos reuniões via skype duas vezes por mês e trocas de emails praticamente diárias. Todo ano temos pelo menos um fim de semana prolongado de discussões sobre os detalhes mais importantes. Com o tempo, todos nos tornamos mais seguros do que criamos juntos e do entendimento dos demais. Discutimos idéias e trechos de novas obras, comentamos em cima, jogamos mais idéias e às vezes acabamos com mais idéias para novas histórias. Hoje temos personagens criados por um andando nas histórias dos outros. Isso se tornou uma diversão, ver como nossas criações aparecem pelas palavras de outro autor. Foi o que permitiu que personagens como Júlia Honoré, criada pelo Roctávio, e Antoniadis, criado pelo Gerson, ganhassem papéis importantes no jogo e no Despertar. E esse é só o início.
E o envolvimento de outros membros da equipe? Ao todo são quantas pessoas envolvidas direta e indiretamente com todo o projeto Taikodom?
Muitas! Hoje acredito que já passe dos 70 colaboradores diretos, além de tercerizados e equipes de outros projetos da Hoplon. Existe um envolvimento geral, mesmo que nem sempre oficial. Quase todo o dia alguém aparece na baia do departamento de Conteúdo do Taikodom com algumas idéias para o jogo. Pode ser um personagem, uma história, um elemento de jogo... ou às vezes só perguntar os porquês. A verdade é que, na prática, o UF do Taikodom é criado a cada dia por toda a equipe e, claro, também pelos jogadores. Dentro do próprio departamento de Conteúdo temos um envolvimento bem grande com a criação desse UF. Por exemplo, o Paulo de Tarso é meio que nosso escritor invisível. Ele tem um estilo de escrita que garantiu que eu separasse alguns personagens do jogo para serem exclusivos dele. Tanto que ele foi um dos hoplitas imortalizados no UF ganhando um personagem próprio. No caso dele, o repórter intrometido Wayne Mesquita Jr, criado pelo próprio PDT.
Há pelo menos uma citação explícita a uma outra obra do gênero space opera no livro, quando um dos protagonistas menciona os cavaleiros jedi. Os filmes da série Star wars são uma de suas influências em termos de ficção científica? Que outras poderia apontar entre literatura, cinema, seriados de TV, quadrinhos e vídeo games?
Sempre fui fascinado por combates espaciais, com caças disparando mísseis e fazendo piruetas enquanto explosões gigantescas tomam o espaço. Foi isso que me tornou fã de Guerras nas estrelas. Tanto que tenho a coleção completa de quadrinhos e romances da série X-Wing, mas tenho pouco sobre cavaleiros jedi e afins.
Acho que influências são tantas. Em especial nos jogos. Fui começar a ler romances relativamente tarde. O que me prendeu à ficção científicia foi, em primeiro lugar, os jogos de computador como a série Wing Commander e jogos da série do Guerras nas estrelas, como X-Wing e Tie Fighter, e de estratégia como Masters of Orion 2. Tanto que o primeiro romance de ficção científica que lembro ter comprado foi End Run, um dos primeiros romances da série Wing Commander.
De lá para cá, foram muitos livros. Sou fã descarado da série clássica do Battletech, desde o jogo de tabuleiro ao RPG e à coleção de pra mais de 50 romances que tenho aqui em casa. E sei que muito do meu estilo de narrativa, de combate, ação e intriga, vêm de livros dessas séries.
Na TV e no cinema menciono do que vêm à mente Cowboy Bebop, Babylon 5, Firefly, Earth above and beyond, Último guerreiro das estrelas, Quinto elemento e Eclipse mortal. Acho que até na minha infância eu pesco influências de desenhos como Transformers, Galaxy Rangers, Macross, Mask, Silverhawks e sabe-se lá mais o quê.
Taikodom: Despertar vai ser a única aparição de Jorge Santiago e de Augusto Carrera ou você e seus parceiros da Hoplon têm outros planos para a dupla e para outros personagens seus que aparecem nesta primeira trama?
Despertar é apenas o começo. Já tenho outra história esquematizada e com algumas cenas escritas que serve como uma continuação, mas ainda não tenho previsão para escrevê-la. Mas ambos poderão dar as caras em outras obras, inclusive no novo romance que comecei a trabalhar agora ou mesmo no jogo. A trilogia que o Gerson está escrevendo também inclui personagens meus e do Roctávio. Quais? Vocês vão ter que esperar mais um pouquinho para saber!
Quanto ao game, ele acaba de ser apresentado ao grande público, após mais de quatro anos de desenvolvimento. Quais são as expectativas da equipe para as próximas fases deste empreendimento que, muito provavelmente, é o maior e mais ousado da história da ficção científica brasileira?
O projeto é dividido em várias partes. E cada parte lançada é uma nova conquista para nós. Nossas expectativas são de sucesso, claro! Desde o início a Hoplon teve em mente o mundo, e será nossa grande conquista para o ano de 2009. O Taikodom tem tido uma repercussão incrível entre os entendidos da indústria no exterior. Mais do que esperávamos para nosso modesto lançamento nacional do módulo de ação. O sucesso nacional e os sinais de sucesso internacional têm nos dado um grande apoio e fôlego para a longa jornada que ainda está pela frente. Acreditamos que será uma excelente forma de colocar o Brasil em evidência lá fora no mercado dos jogos e, claro, também no mercado literário. Além do mais, os planos para o exterior não se limitam apenas ao jogo.
Taikodom é descrito como o primeiro Massive Social Game do mundo. Você poderia descrever quais são os diferenciais dele para outros games on line existentes e o porquê desse "Social" na sua denominação?
Mundos virtuais hoje, sejam jogos ou ‘vidas secundárias’, são fechados em estilos bem específicos. Mesmo no que se trata de mundos caixas de areia (aqueles em que você está livre para fazer o que quiser), existe uma limitação no que realmente é possível ser feito. Isso geralmente é relacionado ao gênero do jogo. No MSG, o que temos é mais do que um simples jogo ou ambiente virtual. É tudo isso e mais um pouco. O Taikodom alcançará um estágio em que jogadores de space sim, jogos de estratégia, jogos corporativos e os casuais que gostam apenas de interagir em um mundo virtual poderão encontrar-se em um ambiente compartilhado em que as ações de um podem afetar a vida de outros. Então você pode ter uma pessoa que entra no Taikodom apenas para administrar um bar virtual. Nesse bar, um grupo de jogadores do jogo de ação discutem um combate que foi planejado por um jogador do jogo estratégico, porque outro jogador, presidente de uma corporação virtual, promoveu um embargo econômico que, por sua vez, pode ter afetado o fornecimento de cerveja para o dono do bar. Quem sabe não foi esse dono de bar que contratou o esquadrão de mercenários para garantir que o fornecimento voltasse ao normal?
E quanto a outros projetos seus, dentro e fora do Domínio do Espaço? Há alguma novidade que você possa antecipar?
Comecei a trabalhar em um novo romance para o Taikodom. A história tem início mais ou menos no meio do Despertar e terá algumas relações com os eventos do primeiro livro, mas trata-se de outros personagens e outro conflito. Esperem encontrar algumas caras conhecidas tanto do Despertar quanto do jogo.
Fora do Taikodom, tenho trabalhado um pouco no UF do Véu da verdade, escrevendo alguns contos e voltando a investir numa publicação do Jogos de Guerra. Mas tenho me focado mais em duas novelas para o Universo Compartilhado de space opera da Fábrica dos Sonhos, um grupo online de escritores. Fiquei meio desligado do projeto uns meses, mas voltei para terminar a primeira novela durante as férias de fim de ano.
Fugindo um pouco da ficção científica, venho trabalhando há uns dois anos em um mundo de fantasia que é tão grande que dá espaço para tudo quanto é tipo de história, da fantasia infantil de fadas e gnomos ao dark estilo The Black Company, a fantasia rpgística até um New Weird alá Méville [autor do já clássico Perdido Street Station]. Tudo interligado, claro, para evitar o efeito colcha de retalhos. Tenho várias histórias estruturadas e algumas cenas escritas, mas agora estou focado no infanto-juvenil para variar um pouco. De resto, só o futuro sabe!
Antes do lançamento de Taikodom: Despertar e de ser contratado como game designer pela empresa responsável pelo projeto, a Hoplon, você já tinha experiência tanto literária quanto com jogos, certo? Poderia falar um pouco sobre seus livros, impresso e on-line, anteriores e sobre outros games com que trabalhou?
Bom, meu primeiro livro impresso foi Véu da verdade, uma ficção Space Opera em um universo próprio. A proposta dele era criar um universo ficcional com estilo próprio, com um jeitinho brasileiro, e com espaço o suficiente para vários tipos de história não necessariamente interligadas. O Véu foi a primeira, mas longe de ser a única. Quando o livro foi publicado no final de 2005, já tinha terminado de escrever a primeira versão de Jogos de Guerra, que se passa na mesma época, mas com personagens diferentes. Em seguida tive vários contos publicados online e um na revista Scarium. De lá para cá também lancei dois ebooks sobre algumas das raças alienígenas desse UF para o mercado de RPG internacional e um RPG com sistema próprio para o mercado nacional.
Antes do Taikodom, fui um dos fundadores de um grupo chamado SomniumStudio, que pretendia lançar jogos de computador no Brasil. Chegamos a ser convidados a palestrar sobre o assunto em algumas universidades do Rio de Janeiro. Nessa época chegamos a trabalhar em alguns projetos como a Nave-Escola do Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, quando desenvolvemos um simulador espacial com física realista, além de projetos em multimídia. Nessa mesma época estávamos trabalhando no desenvolvimento de um space sim chamado Border Wars, com um Universo Ficcional desenvolvido por mim.
Mas, talvez a origem dessa relação escrita+jogos tenha sido um período de quatro anos em que desenvolvi e mestrei através da internet um RPG de sistema próprio baseado na série de jogos Wing Commander. Chegamos a ter 30 jogadores de todo o mundo. Foi apenas a falta de tempo que nos privou de continuar esse projeto. Sei que aprendi muito dessa época o que aplico hoje no desenvolvimento de Taikodom.
Sobre o processo de criação deste romance, qual a diferença entre trabalhar com um universo criado por outra pessoa e a liberdade de criar seu próprio mundo como fez em Véu da verdade? É comparável com o que você já havia feito em termos de fanfics, por exemplo, ou é uma experiência diferente?
Nunca é igual. Mesmo de um UF compartilhado para outro, de um fanfic para outro, existe muita diferença. Alguns UFs são extremamente detalhados, deixando pouco espaço para desenvolvimento, enquanto outros são propositalmente abertos.
O Véu da verdade foi um exercício e um desafio que resolvi impor a mim. No Reveillon de 2004, enquanto discutia com o pessoal da SomniumStudio sobre algumas questões do UF do Border Wars (que, mal ou bem tinha limitações técnicas e de foco, assim como o Taikodom), resolvi jogar todas as idéias mais loucas que tivesse na gênese de um novo UF. Algo totalmente sem barreiras, puxando crítica social, comédia no estilo Mochileiro das galáxias e um pacotão de ação e intriga. Um ano depois, publicava o primeiro romance da série. Foi muito divertido e extremamente gratificante. Afinal, foi meu portfólio para entrar na Hoplon.
No caso do Taikodom, por ser um universo em desenvolvimento (especialmente em 2006, quando me tornei parte do projeto), apesar de existirem certos elementos já definidos, havia muito a se criar. Parte do meu trabalho ao ser contratado pela Hoplon foi encontrar buracos e preenchê-los com detalhes que dessem pano pra manga. Foi parte do motivo pelo qual acabei trabalhando bastante no período em que o jogo se passa hoje, um período o qual ainda não havia sido trabalhado pelo Gerson [Lodi-Ribeiro] e o Roctávio [de Castro]. Enquanto no início você tem que se acostumar com certas nuances do UF, logo certas coisas se tornam naturais. Essa é a vantagem de um UF desenvolvido meticulosamente por um grupo de pessoas dedicadas ao projeto. A cada encontro (virtual ou físico), surge pelo menos uma nova idéia de como explorar esse universo.
Qual foi a responsabilidade de abrir as portas deste universo ficcional antes mesmo do criador dele, já que seu romance foi lançado primeiramente que a coletânea de contos de Gerson Lodi-Ribeiro, que assina a introdução de seu livro, aliás?
Bom, na verdade o Taikodom foi criado pelo Tarqüínio Teles e Cristóvão Buzarello, dois dos sócios da Hoplon. O Gerson é sim o principal autor e certamente sem ele não haveria muito do que se desenvolveu desde o início do projeto. Mas o que temos que lembrar é que, nesse momento inicial, o Taikodom é principalmente um jogo online. Foi por esse motivo que acabei sendo incumbido pelo Tarqüínio dessa responsabilidade. E que resposabilidade! Deu um frio na barriga quando ele disse, brincado sério, que eu deveria escrever o Hobbit [referência ao livro que antecede as obras mais conhecidas da saga de O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien] da nossa Trilogia (que está nas mãos do Gerson). A decisão foi bem pensada pela diretoria da Hoplon. Despertar tem uma visão mais pessoal do UF, diretamente relacionada ao jogo o qual o romance apresenta. O passo seguinte é dar mais detalhes sobre esse UF, com as Crônicas do Taikodom, de autoria do Gerson, e as demais obras em seqüência. O frio na barriga do lançamento veio e veio forte. Agora é o momento da alegria de ouvir e ler os comentários sobre quem se interessou e leu.
No caso deste livro, não só era um universo que já existia previamente, mas também um trabalho que envolve a parceria com outros criadores. Como foi sua interação com Gerson Lodi-Ribeiro, Roctávio de Castro e outros membros da equipe de criação? Há uma cooperação entre vocês nas diversas mídias que o projeto envolve?
Tem que ter uma cooperação. Sem ela, seria impossível desenvolver um Universo Compartilhado. Durante muito tempo, em especial do início dessa parceria, em que muito sobre o UF do Taikodom estava sendo discutido, que tínhamos reuniões via skype duas vezes por mês e trocas de emails praticamente diárias. Todo ano temos pelo menos um fim de semana prolongado de discussões sobre os detalhes mais importantes. Com o tempo, todos nos tornamos mais seguros do que criamos juntos e do entendimento dos demais. Discutimos idéias e trechos de novas obras, comentamos em cima, jogamos mais idéias e às vezes acabamos com mais idéias para novas histórias. Hoje temos personagens criados por um andando nas histórias dos outros. Isso se tornou uma diversão, ver como nossas criações aparecem pelas palavras de outro autor. Foi o que permitiu que personagens como Júlia Honoré, criada pelo Roctávio, e Antoniadis, criado pelo Gerson, ganhassem papéis importantes no jogo e no Despertar. E esse é só o início.
E o envolvimento de outros membros da equipe? Ao todo são quantas pessoas envolvidas direta e indiretamente com todo o projeto Taikodom?
Muitas! Hoje acredito que já passe dos 70 colaboradores diretos, além de tercerizados e equipes de outros projetos da Hoplon. Existe um envolvimento geral, mesmo que nem sempre oficial. Quase todo o dia alguém aparece na baia do departamento de Conteúdo do Taikodom com algumas idéias para o jogo. Pode ser um personagem, uma história, um elemento de jogo... ou às vezes só perguntar os porquês. A verdade é que, na prática, o UF do Taikodom é criado a cada dia por toda a equipe e, claro, também pelos jogadores. Dentro do próprio departamento de Conteúdo temos um envolvimento bem grande com a criação desse UF. Por exemplo, o Paulo de Tarso é meio que nosso escritor invisível. Ele tem um estilo de escrita que garantiu que eu separasse alguns personagens do jogo para serem exclusivos dele. Tanto que ele foi um dos hoplitas imortalizados no UF ganhando um personagem próprio. No caso dele, o repórter intrometido Wayne Mesquita Jr, criado pelo próprio PDT.
Há pelo menos uma citação explícita a uma outra obra do gênero space opera no livro, quando um dos protagonistas menciona os cavaleiros jedi. Os filmes da série Star wars são uma de suas influências em termos de ficção científica? Que outras poderia apontar entre literatura, cinema, seriados de TV, quadrinhos e vídeo games?
Sempre fui fascinado por combates espaciais, com caças disparando mísseis e fazendo piruetas enquanto explosões gigantescas tomam o espaço. Foi isso que me tornou fã de Guerras nas estrelas. Tanto que tenho a coleção completa de quadrinhos e romances da série X-Wing, mas tenho pouco sobre cavaleiros jedi e afins.
Acho que influências são tantas. Em especial nos jogos. Fui começar a ler romances relativamente tarde. O que me prendeu à ficção científicia foi, em primeiro lugar, os jogos de computador como a série Wing Commander e jogos da série do Guerras nas estrelas, como X-Wing e Tie Fighter, e de estratégia como Masters of Orion 2. Tanto que o primeiro romance de ficção científica que lembro ter comprado foi End Run, um dos primeiros romances da série Wing Commander.
De lá para cá, foram muitos livros. Sou fã descarado da série clássica do Battletech, desde o jogo de tabuleiro ao RPG e à coleção de pra mais de 50 romances que tenho aqui em casa. E sei que muito do meu estilo de narrativa, de combate, ação e intriga, vêm de livros dessas séries.
Na TV e no cinema menciono do que vêm à mente Cowboy Bebop, Babylon 5, Firefly, Earth above and beyond, Último guerreiro das estrelas, Quinto elemento e Eclipse mortal. Acho que até na minha infância eu pesco influências de desenhos como Transformers, Galaxy Rangers, Macross, Mask, Silverhawks e sabe-se lá mais o quê.
Taikodom: Despertar vai ser a única aparição de Jorge Santiago e de Augusto Carrera ou você e seus parceiros da Hoplon têm outros planos para a dupla e para outros personagens seus que aparecem nesta primeira trama?
Despertar é apenas o começo. Já tenho outra história esquematizada e com algumas cenas escritas que serve como uma continuação, mas ainda não tenho previsão para escrevê-la. Mas ambos poderão dar as caras em outras obras, inclusive no novo romance que comecei a trabalhar agora ou mesmo no jogo. A trilogia que o Gerson está escrevendo também inclui personagens meus e do Roctávio. Quais? Vocês vão ter que esperar mais um pouquinho para saber!
Quanto ao game, ele acaba de ser apresentado ao grande público, após mais de quatro anos de desenvolvimento. Quais são as expectativas da equipe para as próximas fases deste empreendimento que, muito provavelmente, é o maior e mais ousado da história da ficção científica brasileira?
O projeto é dividido em várias partes. E cada parte lançada é uma nova conquista para nós. Nossas expectativas são de sucesso, claro! Desde o início a Hoplon teve em mente o mundo, e será nossa grande conquista para o ano de 2009. O Taikodom tem tido uma repercussão incrível entre os entendidos da indústria no exterior. Mais do que esperávamos para nosso modesto lançamento nacional do módulo de ação. O sucesso nacional e os sinais de sucesso internacional têm nos dado um grande apoio e fôlego para a longa jornada que ainda está pela frente. Acreditamos que será uma excelente forma de colocar o Brasil em evidência lá fora no mercado dos jogos e, claro, também no mercado literário. Além do mais, os planos para o exterior não se limitam apenas ao jogo.
Taikodom é descrito como o primeiro Massive Social Game do mundo. Você poderia descrever quais são os diferenciais dele para outros games on line existentes e o porquê desse "Social" na sua denominação?
Mundos virtuais hoje, sejam jogos ou ‘vidas secundárias’, são fechados em estilos bem específicos. Mesmo no que se trata de mundos caixas de areia (aqueles em que você está livre para fazer o que quiser), existe uma limitação no que realmente é possível ser feito. Isso geralmente é relacionado ao gênero do jogo. No MSG, o que temos é mais do que um simples jogo ou ambiente virtual. É tudo isso e mais um pouco. O Taikodom alcançará um estágio em que jogadores de space sim, jogos de estratégia, jogos corporativos e os casuais que gostam apenas de interagir em um mundo virtual poderão encontrar-se em um ambiente compartilhado em que as ações de um podem afetar a vida de outros. Então você pode ter uma pessoa que entra no Taikodom apenas para administrar um bar virtual. Nesse bar, um grupo de jogadores do jogo de ação discutem um combate que foi planejado por um jogador do jogo estratégico, porque outro jogador, presidente de uma corporação virtual, promoveu um embargo econômico que, por sua vez, pode ter afetado o fornecimento de cerveja para o dono do bar. Quem sabe não foi esse dono de bar que contratou o esquadrão de mercenários para garantir que o fornecimento voltasse ao normal?
E quanto a outros projetos seus, dentro e fora do Domínio do Espaço? Há alguma novidade que você possa antecipar?
Comecei a trabalhar em um novo romance para o Taikodom. A história tem início mais ou menos no meio do Despertar e terá algumas relações com os eventos do primeiro livro, mas trata-se de outros personagens e outro conflito. Esperem encontrar algumas caras conhecidas tanto do Despertar quanto do jogo.
Fora do Taikodom, tenho trabalhado um pouco no UF do Véu da verdade, escrevendo alguns contos e voltando a investir numa publicação do Jogos de Guerra. Mas tenho me focado mais em duas novelas para o Universo Compartilhado de space opera da Fábrica dos Sonhos, um grupo online de escritores. Fiquei meio desligado do projeto uns meses, mas voltei para terminar a primeira novela durante as férias de fim de ano.
Fugindo um pouco da ficção científica, venho trabalhando há uns dois anos em um mundo de fantasia que é tão grande que dá espaço para tudo quanto é tipo de história, da fantasia infantil de fadas e gnomos ao dark estilo The Black Company, a fantasia rpgística até um New Weird alá Méville [autor do já clássico Perdido Street Station]. Tudo interligado, claro, para evitar o efeito colcha de retalhos. Tenho várias histórias estruturadas e algumas cenas escritas, mas agora estou focado no infanto-juvenil para variar um pouco. De resto, só o futuro sabe!
sábado, 13 de dezembro de 2008
A prática dos jogos
No dia 15 de outubro de 2003 uma nova palavra entrou de vez para o vocabulário e para o imaginário dos que se interessam por temáticas espaciais. Naquela data, ao orbitar a Terra a bordo da nave Shenzhou 5 Yang Liwei, um chinês de 38 anos, se tornou o primeiro taikonauta da história, o nome que as autoridades de seu país escolheram para o mesmo profissional que, em tempos de guerra fria, foi chamado de astronauta pelos americanos e de cosmonauta pelos russos. O prefixo utilizado para diferenciar a conquista chinesa daquela feita pelos rivais históricos décadas atrás – derivado de “taikong”, espaço em mandarim – serviu de inspiração para batizar a mais ousada e ambiciosa iniciativa multimídia ligada à ficção científica no Brasil. Seu lançamento oficial ocorreu exatamente meia década depois da longa marcha espacial de Yang Liwei: foi em 27 de outubro deste ano que a empresa catarinense Hoplon Infotainment apresentou ao público o game on-line Taikodom, um produto que passou justamente os últimos quatro anos e meio em desenvolvimento, consumiu investimentos na ordem de R$ 15 milhões e será o mote de vários outros meios nos quais se contarão histórias sobre o Domínio do Espaço. O primeiro deles foi lançado em outubro em São Paulo, juntamente com o game, e também no início de dezembro, em Florianópolis, e é o motivo desta resenha, o romance Taikodom: Despertar, editado pela Devir e escrito por João Marcelo Beraldo.
O autor é um game designer carioca, com formação em história e desenho industrial, que já havia publicado um outro livro com abordagem futurística e espacial – Véu da verdade – e foi contratado pela Hoplon para cuidar do enredo do jogo, dos personagens, das missões e de todo material escrito. Para tanto, Beraldo segue as regras criadas pelo seu conterrâneo Gerson Lodi-Ribeiro, o responsável pelo contexto histórico do universo Taikodom, aquilo que no jargão dos games e séries do cinema e da TV é chamado de Bíblia. Neste mundo ficcional, a iniciativa privada começa levar seus projetos para o espaço a partir do ano de 2013, pouco mais de meio século depois, algumas colônias em torno da Lua e do Cinturão de Asteróides conseguem a autonomia em relação à Terra.
O evento mais traumático, e que muda por completo o rumo dos acontecimentos, ocorre em 2073. É quando um campo de origem desconhecida cerca o planeta, impedindo o retorno de qualquer um ao local, mas não a fuga em massa que acabaria por evacuar um planeta que em poucos anos se tornou quase inabitável. O surgimento desse campo demarcou uma nova era, os fatos passaram a ser considerados Antes da Restrição ou sendo da Era da Restrição. Os acontecimentos narrados neste primeiro livro se dão no ano 153 ER, ou seja, em 2226, pelo nosso calendário, quando duas das pessoas que tiveram que fugir às pressas daquele mundo condenado são despertadas, após passarem um século e meio em animação suspensa, e tentam se adaptar à vida em um tempo pouco amistoso a elas.
Jorge Santiago e Augusto Carrera são os protagonistas da história, brasileiros que eram respectivamente piloto e co-piloto na Terra nos tempos pré-Restrição. Os dois colegas voltam à vida porque foram selecionados, entre os incontáveis terrestres hibernantes, pelo conglomerado privado que dita as regras naquele universo. Na ausência de governos ou mesmo de estados, é o Consortium quem provê a segurança e o bem-estar dos habitantes do chamado Taikodom, porém a iniciativa é alvo de ataques de diversos grupos: sejam eles piratas, mercenários ou mesmo fanáticos religiosos. Por isso, de tempos em tempos, de acordo com a demanda do momento, alguns daqueles fugitivos do campo de restrição recebem a chance de voltar à vida, passar por um período de adaptação em estações que levam nomes como Jules Verne e tentar a sorte, por exemplo, como piloto em alguma das forças de segurança existentes. O problema está nessa adaptação.
Vindos com a mentalidade do século XXI, os ressurectos, como são chamados, formam a classe mais baixa em um mundo dominado por três castas de humanos mais bem adaptadas ao século XXIII. Os mais presentes no livro são os spacers, aqueles que vivem em estações espaciais; os mais misteriosos são os worms, habitantes dos subterrâneos de satélites como a Lua; há ainda os belters, presentes em asteróides. Neste contexto, Santiago e Carrera podem ser vistos como fornecedores de mão-de-obra barata em uma distopia com cara de utopia.
Mesmo entre esse grupo com tão poucas perspectivas, há variáveis nos caminhos a se seguir. E aquela dupla representa bem isso. Ironicamente, é Carrera, o antigo co-piloto, quem se adapta melhor ao novo mundo, passa a subir posições e ganhar a confiança dos seus superiores na esquadrilha em que passa a servir. Dono de um temperamento genioso, muito apegado à antiga existência na Terra e resistente às novas tecnologias, Santiago se mostra um ressurecto bem mais difícil de se lidar e sobrevive à base de bicos. Apesar das diferenças quase irreconciliáveis, ambos, cada um a seu modo, vão se envolver diretamente em uma trama de espionagem e conspirações que vai tomar proporções de uma guerra sem precedentes naquele novo mundo.
Beraldo lida muito bem tanto com o lado mais humano da trama – com os jogos de interesses políticos, as investigações feitas em botecos suspeitos e os momentos de confraternização de companheiros de batalha – quanto, e principalmente, com a parte puramente bélica – caças são abatidos por naves bem maiores, dróides explodem como buchas de canhão e enormes frotas espaciais são posicionadas de acordo com as estratégias de seus comandantes. Apesar de faltar alguma consistência, por exemplo, nas motivações de Santiago – a relação dele com outra personagem fica muito rasa para explicar o porquê das tomadas de decisões tão arriscadas – o autor é bastante hábil em um gênero controvertido da ficção científica, a space opera, que tem seus fãs e seus detratores. Ele até fez uma divertida e nada sutil homenagem a um dos expoentes do estilo, em uma fala de Augusto Carrera, na página 254: “Santiago, eu sou um piloto de caça, não um cavaleiro Jedi”.
É importante que o leitor tenha em mente que Taikodom: Despertar é uma aventura que põe um jogo em prática. Isso quer dizer que várias das soluções em suas páginas foram criadas originalmente para tornar o game atrativo e não com finalidades literárias. Gerson Lodi-Ribeiro, o criador deste universo, é reconhecido por sua afinidade com a ficção científica hard, aquela em que as extrapolações científico-tecnológicas são mais plausíveis. Apesar disso, para se ajustar às necessidades típicas de um game, ele teve que fazer concessões. Um exemplo bem básico diz respeito à virtual imortalidade dos personagens.
Como eles representam jogadores, foi necessário encontrar uma solução que garantisse o seu retorno mesmo após serem mortos em combate. Era isso ou cada jogador teria que recomeçar sempre do zero a cada derrota. A saída foi dotar os pilotos desta realidade com uma espécie de computador pessoal no cérebro; além de municiá-lo com informações, o recurso ainda faz uma espécie de backup da personalidade do usuário o que permite cloná-lo mais tarde, resultando em uma nova vida para o gamer. Outra questão diz respeito aos avanços tecnológicos que permitem itens como campos de força, geradores de gravidade artificial e atalhos por regiões do espaço. Tudo isso é explicado pela ação de misteriosos alienígenas (provavelmente os mesmos responsáveis por aquele campo de restrição) que desapareceram de vista não sem deixar para trás artefatos cuja tecnologia está mais próxima da fantasia que da ciência.
Felizmente para o leitor, João Marcelo (ou J.M. como assina o livro)Beraldo consegue utilizar tais recursos, que poderiam significar uma camisa-de-força na história, em benefício da trama. Um exemplo é o uso inteligente que um personagem faz do seu computador cerebral – na verdade, Organizador Neural Intracraniano – para driblar a própria morte e proteger informações valiosas no processo. Ou ainda, nos momentos da estratégia de guerra, aqueles atalhos espaciais se mostram um trunfo importante para um dos lados da batalha. O envolvimento com o romance garante a necessária suspensão de descrédito para que se possa apreciar a aventura sem tropeçar em impropriedades científicas. O texto direto e agradável do autor contribuí para tanto. Contribuiria ainda mais se, com uma revisão um pouco mais criteriosa, fossem eliminados certos erros e algumas palavras repetidas que surgem poluindo muitas frases.
Outro bom achado da edição lançada pela Devir – que inclui ainda um CD de instalação do game – é a bela capa de autoria do jornalista e artista gráfico Ivan Jerônimo, também funcionário da Hoplon. Apesar de um dos principais diferenciais do jogo ser os gráficos 3D, foi bastante agradável a escolha de uma ilustração mais, digamos, orgânica – apesar de ser uma pintura eletrônica – para a obra impressa. Mesmo assim, para instigar a curiosidade dos leitores e potenciais jogadores, além de aproveitar o material desenvolvido por um batalhão de designers, uma falha da edição foi a de não incluir no interior do livro algumas imagens disponíveis do game. Um apanhado das incontáveis naves, de todas as classes e modelos, citadas ao longo do romance poderia ilustrar a abertura dos 41 capítulos espalhados por 320 páginas, por exemplo.
Taikodom: Despertar é uma boa amostra do que se pode esperar dos próximos lançamentos editoriais que devem expandir o universo do jogo. Há histórias em quadrinhos sendo produzidas e novos livros previstos. O próximo lançamento deve ser uma coletânea de contos de autoria de Gerson Lodi-Ribeiro, alguns disponíveis no site, que se passam antes e depois da história contada neste primeiro romance. A previsão é de que os lançamentos cruzem fronteiras e sejam exportados para outros países, em um primeiro momento, para Portugal. Isso tudo fora as perspectivas de Taikodom, o game, propriamente dito. Nada mal para um projeto que começou quase simultaneamente com o primeiro passo dado pelo chinês Yang Liwei no espaço.
O autor é um game designer carioca, com formação em história e desenho industrial, que já havia publicado um outro livro com abordagem futurística e espacial – Véu da verdade – e foi contratado pela Hoplon para cuidar do enredo do jogo, dos personagens, das missões e de todo material escrito. Para tanto, Beraldo segue as regras criadas pelo seu conterrâneo Gerson Lodi-Ribeiro, o responsável pelo contexto histórico do universo Taikodom, aquilo que no jargão dos games e séries do cinema e da TV é chamado de Bíblia. Neste mundo ficcional, a iniciativa privada começa levar seus projetos para o espaço a partir do ano de 2013, pouco mais de meio século depois, algumas colônias em torno da Lua e do Cinturão de Asteróides conseguem a autonomia em relação à Terra.
O evento mais traumático, e que muda por completo o rumo dos acontecimentos, ocorre em 2073. É quando um campo de origem desconhecida cerca o planeta, impedindo o retorno de qualquer um ao local, mas não a fuga em massa que acabaria por evacuar um planeta que em poucos anos se tornou quase inabitável. O surgimento desse campo demarcou uma nova era, os fatos passaram a ser considerados Antes da Restrição ou sendo da Era da Restrição. Os acontecimentos narrados neste primeiro livro se dão no ano 153 ER, ou seja, em 2226, pelo nosso calendário, quando duas das pessoas que tiveram que fugir às pressas daquele mundo condenado são despertadas, após passarem um século e meio em animação suspensa, e tentam se adaptar à vida em um tempo pouco amistoso a elas.
Jorge Santiago e Augusto Carrera são os protagonistas da história, brasileiros que eram respectivamente piloto e co-piloto na Terra nos tempos pré-Restrição. Os dois colegas voltam à vida porque foram selecionados, entre os incontáveis terrestres hibernantes, pelo conglomerado privado que dita as regras naquele universo. Na ausência de governos ou mesmo de estados, é o Consortium quem provê a segurança e o bem-estar dos habitantes do chamado Taikodom, porém a iniciativa é alvo de ataques de diversos grupos: sejam eles piratas, mercenários ou mesmo fanáticos religiosos. Por isso, de tempos em tempos, de acordo com a demanda do momento, alguns daqueles fugitivos do campo de restrição recebem a chance de voltar à vida, passar por um período de adaptação em estações que levam nomes como Jules Verne e tentar a sorte, por exemplo, como piloto em alguma das forças de segurança existentes. O problema está nessa adaptação.
Vindos com a mentalidade do século XXI, os ressurectos, como são chamados, formam a classe mais baixa em um mundo dominado por três castas de humanos mais bem adaptadas ao século XXIII. Os mais presentes no livro são os spacers, aqueles que vivem em estações espaciais; os mais misteriosos são os worms, habitantes dos subterrâneos de satélites como a Lua; há ainda os belters, presentes em asteróides. Neste contexto, Santiago e Carrera podem ser vistos como fornecedores de mão-de-obra barata em uma distopia com cara de utopia.
Mesmo entre esse grupo com tão poucas perspectivas, há variáveis nos caminhos a se seguir. E aquela dupla representa bem isso. Ironicamente, é Carrera, o antigo co-piloto, quem se adapta melhor ao novo mundo, passa a subir posições e ganhar a confiança dos seus superiores na esquadrilha em que passa a servir. Dono de um temperamento genioso, muito apegado à antiga existência na Terra e resistente às novas tecnologias, Santiago se mostra um ressurecto bem mais difícil de se lidar e sobrevive à base de bicos. Apesar das diferenças quase irreconciliáveis, ambos, cada um a seu modo, vão se envolver diretamente em uma trama de espionagem e conspirações que vai tomar proporções de uma guerra sem precedentes naquele novo mundo.
Beraldo lida muito bem tanto com o lado mais humano da trama – com os jogos de interesses políticos, as investigações feitas em botecos suspeitos e os momentos de confraternização de companheiros de batalha – quanto, e principalmente, com a parte puramente bélica – caças são abatidos por naves bem maiores, dróides explodem como buchas de canhão e enormes frotas espaciais são posicionadas de acordo com as estratégias de seus comandantes. Apesar de faltar alguma consistência, por exemplo, nas motivações de Santiago – a relação dele com outra personagem fica muito rasa para explicar o porquê das tomadas de decisões tão arriscadas – o autor é bastante hábil em um gênero controvertido da ficção científica, a space opera, que tem seus fãs e seus detratores. Ele até fez uma divertida e nada sutil homenagem a um dos expoentes do estilo, em uma fala de Augusto Carrera, na página 254: “Santiago, eu sou um piloto de caça, não um cavaleiro Jedi”.
É importante que o leitor tenha em mente que Taikodom: Despertar é uma aventura que põe um jogo em prática. Isso quer dizer que várias das soluções em suas páginas foram criadas originalmente para tornar o game atrativo e não com finalidades literárias. Gerson Lodi-Ribeiro, o criador deste universo, é reconhecido por sua afinidade com a ficção científica hard, aquela em que as extrapolações científico-tecnológicas são mais plausíveis. Apesar disso, para se ajustar às necessidades típicas de um game, ele teve que fazer concessões. Um exemplo bem básico diz respeito à virtual imortalidade dos personagens.
Como eles representam jogadores, foi necessário encontrar uma solução que garantisse o seu retorno mesmo após serem mortos em combate. Era isso ou cada jogador teria que recomeçar sempre do zero a cada derrota. A saída foi dotar os pilotos desta realidade com uma espécie de computador pessoal no cérebro; além de municiá-lo com informações, o recurso ainda faz uma espécie de backup da personalidade do usuário o que permite cloná-lo mais tarde, resultando em uma nova vida para o gamer. Outra questão diz respeito aos avanços tecnológicos que permitem itens como campos de força, geradores de gravidade artificial e atalhos por regiões do espaço. Tudo isso é explicado pela ação de misteriosos alienígenas (provavelmente os mesmos responsáveis por aquele campo de restrição) que desapareceram de vista não sem deixar para trás artefatos cuja tecnologia está mais próxima da fantasia que da ciência.
Felizmente para o leitor, João Marcelo (ou J.M. como assina o livro)Beraldo consegue utilizar tais recursos, que poderiam significar uma camisa-de-força na história, em benefício da trama. Um exemplo é o uso inteligente que um personagem faz do seu computador cerebral – na verdade, Organizador Neural Intracraniano – para driblar a própria morte e proteger informações valiosas no processo. Ou ainda, nos momentos da estratégia de guerra, aqueles atalhos espaciais se mostram um trunfo importante para um dos lados da batalha. O envolvimento com o romance garante a necessária suspensão de descrédito para que se possa apreciar a aventura sem tropeçar em impropriedades científicas. O texto direto e agradável do autor contribuí para tanto. Contribuiria ainda mais se, com uma revisão um pouco mais criteriosa, fossem eliminados certos erros e algumas palavras repetidas que surgem poluindo muitas frases.
Outro bom achado da edição lançada pela Devir – que inclui ainda um CD de instalação do game – é a bela capa de autoria do jornalista e artista gráfico Ivan Jerônimo, também funcionário da Hoplon. Apesar de um dos principais diferenciais do jogo ser os gráficos 3D, foi bastante agradável a escolha de uma ilustração mais, digamos, orgânica – apesar de ser uma pintura eletrônica – para a obra impressa. Mesmo assim, para instigar a curiosidade dos leitores e potenciais jogadores, além de aproveitar o material desenvolvido por um batalhão de designers, uma falha da edição foi a de não incluir no interior do livro algumas imagens disponíveis do game. Um apanhado das incontáveis naves, de todas as classes e modelos, citadas ao longo do romance poderia ilustrar a abertura dos 41 capítulos espalhados por 320 páginas, por exemplo.
Taikodom: Despertar é uma boa amostra do que se pode esperar dos próximos lançamentos editoriais que devem expandir o universo do jogo. Há histórias em quadrinhos sendo produzidas e novos livros previstos. O próximo lançamento deve ser uma coletânea de contos de autoria de Gerson Lodi-Ribeiro, alguns disponíveis no site, que se passam antes e depois da história contada neste primeiro romance. A previsão é de que os lançamentos cruzem fronteiras e sejam exportados para outros países, em um primeiro momento, para Portugal. Isso tudo fora as perspectivas de Taikodom, o game, propriamente dito. Nada mal para um projeto que começou quase simultaneamente com o primeiro passo dado pelo chinês Yang Liwei no espaço.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Uma distopia nada ambígua
O texto abaixo é a introdução escrita por mim para o livro Fome, de Tibor Moricz, lançado pela editora Tarja:
Nas páginas seguintes, você terá a oportunidade de testemunhar a morte de, pelo menos, dois mitos. Um deles é a tradição bem-comportada da Ficção Científica brasileira, uma vez que o bom-mocismo desse gênero da literatura nacional raramente encontrou quem o desafiasse ao longo dos anos. Já nas linhas iniciais do primeiro dos quinze contos, Tibor Moricz trucida tal padrão estabelecido ao ir muito além do que fez, por exemplo, lá no início da década de noventa, o pioneiro e decano André Carneiro em sua singular utopia sexual Amorquia.
O paulistano descendente de húngaros (mais especificamente, sobrinho-neto de um dos maiores escritores e dramaturgos daquele país, Zsigmond Móricz) criou nesta coletânea uma distopia nada ambígua. Se em seu romance de estréia, Síndrome de Cérbero, ele fez uso de um tema clássico da FC mundial – a viagem no tempo – para analisar a angustiada relação de um filho com o pai ausente, aqui o autor volta a trabalhar com um cenário bastante conhecido, o do futuro pós-apocalíptico, mas com resultados bem mais cruentos.
Em Fome, o Caos e o Abismo de Nietzsche abusam, torturam e canibalizam um segundo mito, o do Bom Selvagem de Rousseau. A civilização acabou, os governos não existem mais, as relações familiares e as religiões ou se extinguiram ou surgem apenas como caricaturas farsescas. O que move os poucos sobreviventes é a urgência em atender àquela necessidade física que dá nome à obra. A fome, em suas diferentes e variadas manifestações, é a protagonista onipresente.
“Não eram tempos para analogias”. Dessa maneira se define o mundo descrito a seguir, em um dos primeiros contos. Mais à frente, em outro texto, retoma-se o assunto. “Um tempo onde a comida não existia. Um tempo onde a água pura não existia. Onde a sobrevivência suplantava tudo. Mas um tempo, sobretudo, onde todos, sejam caça ou caçador, sabiam que a vida é uma questão de sonho e decepção”. É nesse tempo e nesse lugar que você está entrando agora, no espaço da Entropia. Não é bem o caso de dar as boas vindas, mas a verdade é que você está prestes a conhecer a distópica entropia de Tibor Moricz.
Vire a página por vontade própria.
Nas páginas seguintes, você terá a oportunidade de testemunhar a morte de, pelo menos, dois mitos. Um deles é a tradição bem-comportada da Ficção Científica brasileira, uma vez que o bom-mocismo desse gênero da literatura nacional raramente encontrou quem o desafiasse ao longo dos anos. Já nas linhas iniciais do primeiro dos quinze contos, Tibor Moricz trucida tal padrão estabelecido ao ir muito além do que fez, por exemplo, lá no início da década de noventa, o pioneiro e decano André Carneiro em sua singular utopia sexual Amorquia.
O paulistano descendente de húngaros (mais especificamente, sobrinho-neto de um dos maiores escritores e dramaturgos daquele país, Zsigmond Móricz) criou nesta coletânea uma distopia nada ambígua. Se em seu romance de estréia, Síndrome de Cérbero, ele fez uso de um tema clássico da FC mundial – a viagem no tempo – para analisar a angustiada relação de um filho com o pai ausente, aqui o autor volta a trabalhar com um cenário bastante conhecido, o do futuro pós-apocalíptico, mas com resultados bem mais cruentos.
Em Fome, o Caos e o Abismo de Nietzsche abusam, torturam e canibalizam um segundo mito, o do Bom Selvagem de Rousseau. A civilização acabou, os governos não existem mais, as relações familiares e as religiões ou se extinguiram ou surgem apenas como caricaturas farsescas. O que move os poucos sobreviventes é a urgência em atender àquela necessidade física que dá nome à obra. A fome, em suas diferentes e variadas manifestações, é a protagonista onipresente.
“Não eram tempos para analogias”. Dessa maneira se define o mundo descrito a seguir, em um dos primeiros contos. Mais à frente, em outro texto, retoma-se o assunto. “Um tempo onde a comida não existia. Um tempo onde a água pura não existia. Onde a sobrevivência suplantava tudo. Mas um tempo, sobretudo, onde todos, sejam caça ou caçador, sabiam que a vida é uma questão de sonho e decepção”. É nesse tempo e nesse lugar que você está entrando agora, no espaço da Entropia. Não é bem o caso de dar as boas vindas, mas a verdade é que você está prestes a conhecer a distópica entropia de Tibor Moricz.
Vire a página por vontade própria.
sábado, 11 de outubro de 2008
Viagem ao centro da FC
A ficção científica costuma ter uma relação curiosa com público e crítica. Nos países em que o gênero literário conta com uma maior carga de tradição, como os EUA ou a Inglaterra, alguns escritores se tornam fenômeno de venda, mas tamanha popularidade costuma gerar desconfiança entre os críticos. Por outro lado, existem países em que a literatura, falemos na de gênero ou não, desconhece o que seja atingir uma massa de leitores. Nem é preciso dizer que este é o caso do Brasil. Por aqui, mesmo sem fazer valer o adjetivo de “popular”, com livros nacionais ou mesmo traduções de material estrangeiro raramente chegando à casa dos milhares de exemplares, a FC é relegada a segundo, terceiro ou último plano pela crítica. Todavia, se a interação com público e crítica não tem sido das mais profícuas, há um terceiro território em que os textos fictícios sobre especulações científicas recebem cada vez mais atenção: o ambiente universitário.
Pode não chegar a ser um avanço que inspire otimismo, mas não deixa de ser uma evolução o que vem ocorrendo. Entre 1967 e 1987, foram publicadas seis obras nacionais dispostas a analisar o tema. Meia dúzia de títulos em duas décadas. Nos anos 2000, mais exatamente de 2002 a 2006, já havia se conseguido igualar aquele número. Em 2007, um sétimo livro foi lançado, o mesmo de onde foram retirados os dados para este parágrafo, e com isso se renova a esperança de que a FC possa entrar cada vez mais na agenda do público, da crítica e da academia. Volta ao mundo da ficção científica presta uma contribuição e tanto neste sentido ao abrir espaço para discutir, sob vários ângulos, este gênero da literatura fantástica, irmão mais novo da fantasia e do terror.
De início, o interesse da dupla de organizadores, Edgar Nolasco e Rodolfo Londero, era se restringir a estudos sobre a produção brasileira. Com o tempo de elaboração, o escopo do livro lançado pela editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) se ampliou: dos nove artigos, dois terços realmente tratam de temas locais; o restante traz visões de brasileiros a respeito de obras e de autores de outros países. Uma outra contribuição, muito bem-vinda, foi a inclusão de um conto inédito na coletânea. Vamos ver neste texto um apanhado do que Volta ao mundo da ficção científica oferece a seus leitores ao longo de 168 páginas.
O livro abre com textos de seus organizadores. Em “Clarice e a ficção científica”, Edgar Nolasco analisa as ligações de uma de nossas mais consagradas escritoras com o gênero. Doutor em literatura comparada e professor da UFMS, Nolasco é um pesquisador com mais de um trabalho em elaboração a respeito da obra de Clarice Lispector. Neste paper, ele foca tanto em algumas das traduções que a escritora fez para textos de Edgar Allan Poe e Jules Verne, quanto em um conto de FC criado por ela para o livro A via crúcis do corpo, de 1984, “Miss Algrave”, que conta com a participação importante de um alienígena na trama.
Rodolfo Londero, jornalista e mestre em letras pela UFMS, além de co-organizador da obra, contribui com um estudo sobre tema mais amplo em “Níveis de recepção do cyberpunk no Brasil: um estudo de casos exemplares”. Para tratar do impacto do subgênero (e movimento) criado nos EUA por William Gibson, em meados dos anos 80, o pesquisador dividiu os casos em três níveis. No primeiro, o “direto”, ele enquadra autores brasileiros que dialogam frontalmente com as obras inaugurais do cyberpunk, caso de Fábio Fernandes e de alguns contos de sua coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, do ano 2000. No que chamou de “recepção análoga”, Londero se refere a material nacional que captou o espírito do tempo que marcou a obra de Gibson, mesmo sem seguir o cânone daquele e de outros escritores americanos. Um exemplo citado é o livro Piritas siderais, cujo autor, Guilherme Kujawski afirmou em entrevista ao pesquisador que desconhecia o próprio termo cyberpunk, apesar das semelhanças entre sua obra, de 1994, e as temáticas do movimento criado uma década antes.
O nível a que o artigo dedica mais espaço levou o nome de “indireto” e seria o de obras brasileiras que dialogam com trabalhos precursores da ficção cyber. Neste conjunto de textos que compartilham um repertório semelhante ao dos americanos – por exemplo, a influência do filme Blade Runner, do diretor Ridley Scott – estão as criações do cantor e performer Fausto Fawcett, como o livro Santa Clara Poltergeist, de 1991.
“Ficção científica e o despertar do interesse científico: o fator eureka” é o nome da contribuição mais atípica da coletânea. De autoria do jornalista especializado em divulgação científica e em letras e literatura Alfredo Suppia, o texto é o único que prioriza exemplos vindos do cinema no lugar da literatura, para demonstrar como este gênero é capaz de despertar o interesse do público pela ciência. São vários os filmes que o autor analisa para comprovar sua tese, entre eles duas películas nacionais, Parada 88: limite de alerta, dirigido em 1988 por José de Anchieta, e Abrigo nuclear, feito em 1981 com a direção de Roberto Pires. Ambas as histórias são distopias ecológicas, retratando futuros próximos em que o meio ambiente se encontra irremediavelmente modificado pela ação humana. Seja nas citações locais ou nas internacionais, o artigo busca apresentar exemplos daquilo que o autor denominou de “fator eureka”, ou seja, o elemento sedutor capaz de familiarizar a audiência com temáticas da ciência real.
Talvez o artigo com interesse menos universal do conjunto seja o que vem a seguir. “História e representação: o jogo de memória e realidade em O homem do castelo alto, de Philip K. Dick” tem como objeto de pesquisa um dos romances mais conhecidos do consagrado autor americano. A obra de 1962, recentemente republicada no Brasil pela editora Aleph, imaginou uma história alternativa em que os vencedores da II Guerra Mundial foram os japoneses e os alemães, povos que dividiram entre si os Estados Unidos. O paper foi escrito pelo então doutorando Anderson Gomes e trata dos vários modos com que o “passado real” se relaciona com a “narrativa imaginada” naquela obra. Este é o texto que mais exige um conhecimento prévio do leitor nos temas abordados em suas páginas.
O quinto artigo foi escrito por um autor que teve sua obra na ficção analisada em outro texto do mesmo livro, traduziu o romance que foi tema do capítulo anterior e que também escreveu um dos já citados livros teóricos sobre FC lançados na última década. Fábio Fernandes, doutor formado na área de comunicação e semiótica da PUC-SP, produziu a coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, foi o tradutor da edição mais recente de O homem do castelo alto e lançou em 2006 A construção do imaginário cyber: William Gibson, criador da cibercultura. No texto “Para ver os homens invisíveis: a Intempol e sua influência na literatura de ficção científica brasileira”, ele faz um estudo de caso do universo compartilhado criado pelo escritor Octavio Aragão, baseado em uma polícia internacional do tempo, que mobilizou dezenas de outros escritores nacionais em um projeto comum que abrange várias mídias. O autor do texto aponta o projeto Intempol como um exemplo possível para vencer aquilo que o jornalista e editor catarinense Dorva Rezende definira como sendo a invisibilidade cultural que atinge a FC nacional.
Um artigo que bem poderia render livro à parte é “A ficção científica no cordel”. Seu autor é outro escritor cuja obra serviu de tema para alguns dos outros colegas da coletânea e que também já havia contribuído com duas obras teóricas sobre a FC, uma lançada em 1985, O que é ficção científica?, e outra publicada 20 anos depois, O rasgão no real: metalinguagem e simulacros na narrativa de ficção científica. Braulio Tavares faz a inusitada comparação entre a literatura de cordel e os formatos em que foram publicadas várias das histórias de FC no exterior, como as dime novels ou as pulp magazines. Para isso examina duas obras representativas, uma escrita em Portugal e outra no nordeste brasileiro.
A contribuição lusitana é O balão aos habitantes da lua, um livreto em verso escrito em 1819 por José Daniel Rodrigues da Costa. Nele, se narra a aventura do personagem Robertson, um aventureiro que conseguiu chegar à lua e contatar seus habitantes viajando a bordo de um balão. Um exemplo equivalente encontrado no Brasil foi o folheto História do homem que subiu em aeroplano até a lua, de João Martins de Athayde, publicado no Recife em 1923. O protagonista desta segunda história, tembém narrada em versos, levou o nome de Baratão e foi outro que travou contato com selenitas. O artigo é uma rica e bem documentada análise que termina com esta conclusão: “cordel e FC são hoje primos em terceiro grau, mas sua acestralidade em comum não pode ser ignorada”.
Outro escritor de ficção e pesquisador da área assina o sexto artigo do livro. Roberto Causo escreveu Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950 em 2003 e o romance A corrida do rinoceronte, três anos depois, além de manter atualmente uma coluna sobre FC no site Terra Magazine. Com o artigo “O poeta que viu o disco voador”, o bacharel em letras português/inglês pela USP faz a análise da noveleta O 31º peregrino, publicada em forma de livro em 1993, pelo premiado escritor Rubens Teixeira Scavone. Aquele texto foi uma espécie de continuação informal de uma das obras mais significativas da história literária inglesa, os Contos da Cantuária, escrita pelo poeta inglês do século XIV Geoffrey Chaucer. A obra original contava como 30 peregrinos a caminho de Canterbury, para visitar o jazigo do arcebispo Thomas Beckett, faziam uma parada em uma hospedagem para compartilhar suas histórias. O brasileiro Scavone inseriu um novo personagem àquela narrativa, 650 anos depois, e com ele acrescentou uma carga de ficção científica e horror fantásticos ao cenário medieval, feitos esses analisados por Causo em seu paper.
O penúltimo artigo da coletânea guarda a particularidade de ter sido escrito com uma visão estrangeira sobre a produção de FC do Brasil. Sua autora é a americana M. Elizabeth Ginway, que já havia publicado um livro sobre o assunto em 2005, Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidades no país do futuro, e é professora adjunta de literatura portuguesa e brasileira na Universidade da Flórida. Em “A cidade pós-moderna na ficção científica brasileira”, a brasilianista enfatiza a importância dos aglomerados urbanos em várias histórias de FC produzidas no país. Como não poderia deixar de ser, as metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo assumem um papel de destaque nos exemplos dados. Seja em contos, como “Jogo rápido”, do já citado Braulio Tavares, texto incluído na coletânea A espinha dorsal da memória, de 1989, ou “Feliz Natal, vinte bilhões”, de Henrique Flory, publicado no livro A pedra que canta e outras histórias, de 1991, que mostram respectivamente a capital fluminense e a paulista como ambientes superpopulosos e ultraviolentos. A pesquisadora também analisa romances do cyberpunk nacional, alguns já citados anteriormente. Curiosamente, como ela chama a atenção, todos protagonizados por personagens negros: os dois ambientados no Rio, Silicone XXI, de Alfredo Sirkis, escrito em 1985, e o já mencionado Santa Clara Poltergeist; além do paulistano Piritas siderais, também já comentado.
Quem fecha a parte ensaistíca do livro é Ramiro Giroldo, por sinal o tradutor para o português do artigo da professora Ginway. A segunda contribuição de Giroldo na coletânea é o texto “Outra utopia”, um adiantamento do tema de sua dissertação de mestrado em estudos da linguagem na UFMS: a análise do romance Amorquia, publicado em 1991 e de autoria de um dos mais prestigiados escritores de ficção científica do Brasil, André Carneiro. O estudo do mestrando propõe uma interpretação daquele livro, sobre um mundo futurista em que a entrega de seus cidadãos aos prazeres sexuais são amplamente incentivados pela sociedade. A discussão segue sobre os limites e as diferenças entre utopias e distopias.
Quanto ao já anunciado conto que encerra Volta ao mundo da ficção científica, o autor é justamente André Carneiro. Precursor nos estudos sobre o gênero no Brasil, é dele o livro que os organizadores desta coletânea apontam como sendo o pioneiro no país, Introdução ao estudo da “science fiction”, de 1967. Carneiro teve seu trabalho publicado em mais de uma dezena de países e escreveu a noveleta “A escuridão”, que lidera a maioria das listas sobre qual é o melhor texto de FC nacional de todos os tempos. O conto que aparece no livro se chama “Pensamento”, e conta a história de um casal de pesquisadores envolvidos em uma experiência considerada proibida pelas autoridades: a clonagem de um cérebro.
Pode não chegar a ser um avanço que inspire otimismo, mas não deixa de ser uma evolução o que vem ocorrendo. Entre 1967 e 1987, foram publicadas seis obras nacionais dispostas a analisar o tema. Meia dúzia de títulos em duas décadas. Nos anos 2000, mais exatamente de 2002 a 2006, já havia se conseguido igualar aquele número. Em 2007, um sétimo livro foi lançado, o mesmo de onde foram retirados os dados para este parágrafo, e com isso se renova a esperança de que a FC possa entrar cada vez mais na agenda do público, da crítica e da academia. Volta ao mundo da ficção científica presta uma contribuição e tanto neste sentido ao abrir espaço para discutir, sob vários ângulos, este gênero da literatura fantástica, irmão mais novo da fantasia e do terror.
De início, o interesse da dupla de organizadores, Edgar Nolasco e Rodolfo Londero, era se restringir a estudos sobre a produção brasileira. Com o tempo de elaboração, o escopo do livro lançado pela editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) se ampliou: dos nove artigos, dois terços realmente tratam de temas locais; o restante traz visões de brasileiros a respeito de obras e de autores de outros países. Uma outra contribuição, muito bem-vinda, foi a inclusão de um conto inédito na coletânea. Vamos ver neste texto um apanhado do que Volta ao mundo da ficção científica oferece a seus leitores ao longo de 168 páginas.
O livro abre com textos de seus organizadores. Em “Clarice e a ficção científica”, Edgar Nolasco analisa as ligações de uma de nossas mais consagradas escritoras com o gênero. Doutor em literatura comparada e professor da UFMS, Nolasco é um pesquisador com mais de um trabalho em elaboração a respeito da obra de Clarice Lispector. Neste paper, ele foca tanto em algumas das traduções que a escritora fez para textos de Edgar Allan Poe e Jules Verne, quanto em um conto de FC criado por ela para o livro A via crúcis do corpo, de 1984, “Miss Algrave”, que conta com a participação importante de um alienígena na trama.
Rodolfo Londero, jornalista e mestre em letras pela UFMS, além de co-organizador da obra, contribui com um estudo sobre tema mais amplo em “Níveis de recepção do cyberpunk no Brasil: um estudo de casos exemplares”. Para tratar do impacto do subgênero (e movimento) criado nos EUA por William Gibson, em meados dos anos 80, o pesquisador dividiu os casos em três níveis. No primeiro, o “direto”, ele enquadra autores brasileiros que dialogam frontalmente com as obras inaugurais do cyberpunk, caso de Fábio Fernandes e de alguns contos de sua coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, do ano 2000. No que chamou de “recepção análoga”, Londero se refere a material nacional que captou o espírito do tempo que marcou a obra de Gibson, mesmo sem seguir o cânone daquele e de outros escritores americanos. Um exemplo citado é o livro Piritas siderais, cujo autor, Guilherme Kujawski afirmou em entrevista ao pesquisador que desconhecia o próprio termo cyberpunk, apesar das semelhanças entre sua obra, de 1994, e as temáticas do movimento criado uma década antes.
O nível a que o artigo dedica mais espaço levou o nome de “indireto” e seria o de obras brasileiras que dialogam com trabalhos precursores da ficção cyber. Neste conjunto de textos que compartilham um repertório semelhante ao dos americanos – por exemplo, a influência do filme Blade Runner, do diretor Ridley Scott – estão as criações do cantor e performer Fausto Fawcett, como o livro Santa Clara Poltergeist, de 1991.
“Ficção científica e o despertar do interesse científico: o fator eureka” é o nome da contribuição mais atípica da coletânea. De autoria do jornalista especializado em divulgação científica e em letras e literatura Alfredo Suppia, o texto é o único que prioriza exemplos vindos do cinema no lugar da literatura, para demonstrar como este gênero é capaz de despertar o interesse do público pela ciência. São vários os filmes que o autor analisa para comprovar sua tese, entre eles duas películas nacionais, Parada 88: limite de alerta, dirigido em 1988 por José de Anchieta, e Abrigo nuclear, feito em 1981 com a direção de Roberto Pires. Ambas as histórias são distopias ecológicas, retratando futuros próximos em que o meio ambiente se encontra irremediavelmente modificado pela ação humana. Seja nas citações locais ou nas internacionais, o artigo busca apresentar exemplos daquilo que o autor denominou de “fator eureka”, ou seja, o elemento sedutor capaz de familiarizar a audiência com temáticas da ciência real.
Talvez o artigo com interesse menos universal do conjunto seja o que vem a seguir. “História e representação: o jogo de memória e realidade em O homem do castelo alto, de Philip K. Dick” tem como objeto de pesquisa um dos romances mais conhecidos do consagrado autor americano. A obra de 1962, recentemente republicada no Brasil pela editora Aleph, imaginou uma história alternativa em que os vencedores da II Guerra Mundial foram os japoneses e os alemães, povos que dividiram entre si os Estados Unidos. O paper foi escrito pelo então doutorando Anderson Gomes e trata dos vários modos com que o “passado real” se relaciona com a “narrativa imaginada” naquela obra. Este é o texto que mais exige um conhecimento prévio do leitor nos temas abordados em suas páginas.
O quinto artigo foi escrito por um autor que teve sua obra na ficção analisada em outro texto do mesmo livro, traduziu o romance que foi tema do capítulo anterior e que também escreveu um dos já citados livros teóricos sobre FC lançados na última década. Fábio Fernandes, doutor formado na área de comunicação e semiótica da PUC-SP, produziu a coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, foi o tradutor da edição mais recente de O homem do castelo alto e lançou em 2006 A construção do imaginário cyber: William Gibson, criador da cibercultura. No texto “Para ver os homens invisíveis: a Intempol e sua influência na literatura de ficção científica brasileira”, ele faz um estudo de caso do universo compartilhado criado pelo escritor Octavio Aragão, baseado em uma polícia internacional do tempo, que mobilizou dezenas de outros escritores nacionais em um projeto comum que abrange várias mídias. O autor do texto aponta o projeto Intempol como um exemplo possível para vencer aquilo que o jornalista e editor catarinense Dorva Rezende definira como sendo a invisibilidade cultural que atinge a FC nacional.
Um artigo que bem poderia render livro à parte é “A ficção científica no cordel”. Seu autor é outro escritor cuja obra serviu de tema para alguns dos outros colegas da coletânea e que também já havia contribuído com duas obras teóricas sobre a FC, uma lançada em 1985, O que é ficção científica?, e outra publicada 20 anos depois, O rasgão no real: metalinguagem e simulacros na narrativa de ficção científica. Braulio Tavares faz a inusitada comparação entre a literatura de cordel e os formatos em que foram publicadas várias das histórias de FC no exterior, como as dime novels ou as pulp magazines. Para isso examina duas obras representativas, uma escrita em Portugal e outra no nordeste brasileiro.
A contribuição lusitana é O balão aos habitantes da lua, um livreto em verso escrito em 1819 por José Daniel Rodrigues da Costa. Nele, se narra a aventura do personagem Robertson, um aventureiro que conseguiu chegar à lua e contatar seus habitantes viajando a bordo de um balão. Um exemplo equivalente encontrado no Brasil foi o folheto História do homem que subiu em aeroplano até a lua, de João Martins de Athayde, publicado no Recife em 1923. O protagonista desta segunda história, tembém narrada em versos, levou o nome de Baratão e foi outro que travou contato com selenitas. O artigo é uma rica e bem documentada análise que termina com esta conclusão: “cordel e FC são hoje primos em terceiro grau, mas sua acestralidade em comum não pode ser ignorada”.
Outro escritor de ficção e pesquisador da área assina o sexto artigo do livro. Roberto Causo escreveu Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950 em 2003 e o romance A corrida do rinoceronte, três anos depois, além de manter atualmente uma coluna sobre FC no site Terra Magazine. Com o artigo “O poeta que viu o disco voador”, o bacharel em letras português/inglês pela USP faz a análise da noveleta O 31º peregrino, publicada em forma de livro em 1993, pelo premiado escritor Rubens Teixeira Scavone. Aquele texto foi uma espécie de continuação informal de uma das obras mais significativas da história literária inglesa, os Contos da Cantuária, escrita pelo poeta inglês do século XIV Geoffrey Chaucer. A obra original contava como 30 peregrinos a caminho de Canterbury, para visitar o jazigo do arcebispo Thomas Beckett, faziam uma parada em uma hospedagem para compartilhar suas histórias. O brasileiro Scavone inseriu um novo personagem àquela narrativa, 650 anos depois, e com ele acrescentou uma carga de ficção científica e horror fantásticos ao cenário medieval, feitos esses analisados por Causo em seu paper.
O penúltimo artigo da coletânea guarda a particularidade de ter sido escrito com uma visão estrangeira sobre a produção de FC do Brasil. Sua autora é a americana M. Elizabeth Ginway, que já havia publicado um livro sobre o assunto em 2005, Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidades no país do futuro, e é professora adjunta de literatura portuguesa e brasileira na Universidade da Flórida. Em “A cidade pós-moderna na ficção científica brasileira”, a brasilianista enfatiza a importância dos aglomerados urbanos em várias histórias de FC produzidas no país. Como não poderia deixar de ser, as metrópoles do Rio de Janeiro e de São Paulo assumem um papel de destaque nos exemplos dados. Seja em contos, como “Jogo rápido”, do já citado Braulio Tavares, texto incluído na coletânea A espinha dorsal da memória, de 1989, ou “Feliz Natal, vinte bilhões”, de Henrique Flory, publicado no livro A pedra que canta e outras histórias, de 1991, que mostram respectivamente a capital fluminense e a paulista como ambientes superpopulosos e ultraviolentos. A pesquisadora também analisa romances do cyberpunk nacional, alguns já citados anteriormente. Curiosamente, como ela chama a atenção, todos protagonizados por personagens negros: os dois ambientados no Rio, Silicone XXI, de Alfredo Sirkis, escrito em 1985, e o já mencionado Santa Clara Poltergeist; além do paulistano Piritas siderais, também já comentado.
Quem fecha a parte ensaistíca do livro é Ramiro Giroldo, por sinal o tradutor para o português do artigo da professora Ginway. A segunda contribuição de Giroldo na coletânea é o texto “Outra utopia”, um adiantamento do tema de sua dissertação de mestrado em estudos da linguagem na UFMS: a análise do romance Amorquia, publicado em 1991 e de autoria de um dos mais prestigiados escritores de ficção científica do Brasil, André Carneiro. O estudo do mestrando propõe uma interpretação daquele livro, sobre um mundo futurista em que a entrega de seus cidadãos aos prazeres sexuais são amplamente incentivados pela sociedade. A discussão segue sobre os limites e as diferenças entre utopias e distopias.
Quanto ao já anunciado conto que encerra Volta ao mundo da ficção científica, o autor é justamente André Carneiro. Precursor nos estudos sobre o gênero no Brasil, é dele o livro que os organizadores desta coletânea apontam como sendo o pioneiro no país, Introdução ao estudo da “science fiction”, de 1967. Carneiro teve seu trabalho publicado em mais de uma dezena de países e escreveu a noveleta “A escuridão”, que lidera a maioria das listas sobre qual é o melhor texto de FC nacional de todos os tempos. O conto que aparece no livro se chama “Pensamento”, e conta a história de um casal de pesquisadores envolvidos em uma experiência considerada proibida pelas autoridades: a clonagem de um cérebro.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Ficção científica semestral
No início da década de 90, durante pouco mais de dois anos, leitores brasileiros de ficção científica viram nascer, prosperar e morrer a mais importante iniciativa para difundir por aqui o que de melhor se produz neste gênero. Enquanto durou, a edição nacional da Isaac Asimov Magazine trouxe todos os meses a preço acessível e com distribuição ampla alguns dos mais importantes escritores de FC de todos os tempos: além do senhor que emprestava o nome à publicação, invadiram as bancas gente do nível de Orson Scott Card, Frederik Pohl, Geoffrey Landis, David Brin, Octavia Butler entre muitos outros. Mais que isso, a revista também abriu espaço para talentos locais que não fizeram feio ao dividir páginas com estrangeiros já consagrados, como Gérson Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho, Jorge Luiz Calife, André Carneiro e Maria Helena Bandeira. Apesar de não chegar a dar prejuízo, os resultados comerciais não foram o esperado pela editora responsável, a Record, uma das grandes do mercado brazuca. Com o seu fim, toda uma geração de órfãos da IAM passou a se lamentar pela falta de projetos semelhantes.
Em 15 anos o quadro mudou muito pouco, apenas com alguns fanzines impressos e sites tentando manter atualizada a produção de escritores que ainda não haviam realizado o sonho do livro próprio. Porém, 2008 parece querer se firmar como um ano em que ao menos parte do vácuo deixado pelo fim daquele importante marco editorial pode ser preenchido. Neste segundo semestre, começam a se consolidar iniciativas neste sentido, com projetos coerentes que podem dar novo fôlego à ficção especulativa nacional. Talvez a proposta mais ambiciosa desta nova fase seja uma revista de título mutante que pretende apresentar, a cada seis meses, uma nova leva de autores, mesclando nomes conhecidos neste meio com outros mais identificados com a chamada literatura mainstream. Quem está capitaneando o empreendimento é o escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, conhecido por organizar coletâneas de qualidade dentro do gênero fantástico – e que está preparando uma nova para ser lançada ano que vem pela mesma Record da falecida IAM, cujo título será Futuro presente: dezoito ficções sobre o futuro.
Na edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem. Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica; pela ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado: o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita em uma fase posterior. Neste primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil. Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.
“Cada portal é um organismo cibernético multidimensional, sem forma ou conteúdo definidos, acionado pela fantasia e pelos desejos de quem o utiliza”, escreveu Oliveira no texto de apresentação do número de estréia do projeto. “Juntos, os seis portais funcionam como o aleph do célebre conto de Borges. Juntos, os seis portais formam o ponto de onde é possível enxergar todos os pontos do uiverso. Ou ser por eles enxergado”. A forma com que este primeiro Portal se manifestou é a de uma revista em preto e branco, com 106 páginas e dimensão de 16 por 23 centímetros. O requinte gráfico se manifesta no belo projeto gráfico, de sobriedade elogiável, e na excelente capa, um estudo caligráfico do título da publicação, assinado Teo Adorno. Até a revisão, feita por Mirtes Leal, está muito acima da média dos lançamentos nacionais, aí incluídos livros e revistas.
Quanto ao conteúdo, Oliveira reuniu 14 contos de dez autores de nada menos que sete estados do país, dando uma ótima amostra contemporânea, e em escala verdadeiramente nacional, do que se produz em termos de ficção fantástica. A escolha dos convidados contemplou alguns nomes conhecidos de quem acompanha a FC nacional e outros que se mostram uma boa novidade na área. O mais veterano, sem dúvida, é Roberto de Sousa Causo, um dos escritores nacionais premiados e publicados pela já citada IAM (a noveleta “Patrulha para o desconhecido” foi impressa no número 14). Em sua contribuição para o Portal Solaris, o paulista, autor de A corrida do rinoceronte e responsável por uma coluna semanal sobre FC para uma página da internet, apresentou o conto “Rosas brancas” – dedicado ao americano Philip K. Dick – cuja temática bélica futurista faz parte de suas marcas registradas.
Ataíde Tartari, morador de Santos, já participou da coletânea de contos de um subgênero da FC, a história alternativa, chamada Phantástica brasiliana e publicou livros originalmente escritos em inglês, como Tropical shade. Para a revista, ele escreveu um texto que presta homenagem ao clássico Um estranho numa terra estranha, do também americano Robert Heinlein, a começar pelo título, que cita quase literalmente o protagonista daquele romance, “Valentim”. O outro paulista do time, Ivan Hegenberg, divide a coordenação do projeto com seu conterrâneo Nelson de Oliveira. Ele estreou na área da FC com seu segundo livro, a distopia futurista Será, já resenhado aqui no Overmundo, de onde extraiu os dois contos publicados em Portal Solaris. “Dia qualquer” e “Mastch” deixam claro, respectivamente, a influência que Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche exerceram sobre o jovem escritor.
Os demais colaboradores vieram de todas as regiões do Brasil e de além mar. Carlos Emílio C. Lima, autor de O romance que explodiu, é do Ceará; Carlos Ribeiro (Lunaris), da Bahia; Geraldo Lima (A noite dos vagalumes), de Brasília; Homero Gomes (Sísifo desatento), do Paraná; Luiz Bras (A última guerra), mora em Portugal; Mayrant Gallo (O inédito de Kafka), da Bahia e Rogers Silva (Manicômio, livro ainda inédito), de Minas Gerais. Porém, como deixou claro naquele editorial, Nelson de Oliveira pretende mudar não só o título a cada edição, mas também variar forma e conteúdo de sua série de portais. Interessados em participar de alguma maneira desta iniciativa, podem contatar o coordenador editorial pelo e-mail oliveira.e.cia@uol.com.br
Em 15 anos o quadro mudou muito pouco, apenas com alguns fanzines impressos e sites tentando manter atualizada a produção de escritores que ainda não haviam realizado o sonho do livro próprio. Porém, 2008 parece querer se firmar como um ano em que ao menos parte do vácuo deixado pelo fim daquele importante marco editorial pode ser preenchido. Neste segundo semestre, começam a se consolidar iniciativas neste sentido, com projetos coerentes que podem dar novo fôlego à ficção especulativa nacional. Talvez a proposta mais ambiciosa desta nova fase seja uma revista de título mutante que pretende apresentar, a cada seis meses, uma nova leva de autores, mesclando nomes conhecidos neste meio com outros mais identificados com a chamada literatura mainstream. Quem está capitaneando o empreendimento é o escritor e ensaísta Nelson de Oliveira, conhecido por organizar coletâneas de qualidade dentro do gênero fantástico – e que está preparando uma nova para ser lançada ano que vem pela mesma Record da falecida IAM, cujo título será Futuro presente: dezoito ficções sobre o futuro.
Na edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem. Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica; pela ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado: o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita em uma fase posterior. Neste primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil. Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.
“Cada portal é um organismo cibernético multidimensional, sem forma ou conteúdo definidos, acionado pela fantasia e pelos desejos de quem o utiliza”, escreveu Oliveira no texto de apresentação do número de estréia do projeto. “Juntos, os seis portais funcionam como o aleph do célebre conto de Borges. Juntos, os seis portais formam o ponto de onde é possível enxergar todos os pontos do uiverso. Ou ser por eles enxergado”. A forma com que este primeiro Portal se manifestou é a de uma revista em preto e branco, com 106 páginas e dimensão de 16 por 23 centímetros. O requinte gráfico se manifesta no belo projeto gráfico, de sobriedade elogiável, e na excelente capa, um estudo caligráfico do título da publicação, assinado Teo Adorno. Até a revisão, feita por Mirtes Leal, está muito acima da média dos lançamentos nacionais, aí incluídos livros e revistas.
Quanto ao conteúdo, Oliveira reuniu 14 contos de dez autores de nada menos que sete estados do país, dando uma ótima amostra contemporânea, e em escala verdadeiramente nacional, do que se produz em termos de ficção fantástica. A escolha dos convidados contemplou alguns nomes conhecidos de quem acompanha a FC nacional e outros que se mostram uma boa novidade na área. O mais veterano, sem dúvida, é Roberto de Sousa Causo, um dos escritores nacionais premiados e publicados pela já citada IAM (a noveleta “Patrulha para o desconhecido” foi impressa no número 14). Em sua contribuição para o Portal Solaris, o paulista, autor de A corrida do rinoceronte e responsável por uma coluna semanal sobre FC para uma página da internet, apresentou o conto “Rosas brancas” – dedicado ao americano Philip K. Dick – cuja temática bélica futurista faz parte de suas marcas registradas.
Ataíde Tartari, morador de Santos, já participou da coletânea de contos de um subgênero da FC, a história alternativa, chamada Phantástica brasiliana e publicou livros originalmente escritos em inglês, como Tropical shade. Para a revista, ele escreveu um texto que presta homenagem ao clássico Um estranho numa terra estranha, do também americano Robert Heinlein, a começar pelo título, que cita quase literalmente o protagonista daquele romance, “Valentim”. O outro paulista do time, Ivan Hegenberg, divide a coordenação do projeto com seu conterrâneo Nelson de Oliveira. Ele estreou na área da FC com seu segundo livro, a distopia futurista Será, já resenhado aqui no Overmundo, de onde extraiu os dois contos publicados em Portal Solaris. “Dia qualquer” e “Mastch” deixam claro, respectivamente, a influência que Clarice Lispector e Friedrich Nietzsche exerceram sobre o jovem escritor.
Os demais colaboradores vieram de todas as regiões do Brasil e de além mar. Carlos Emílio C. Lima, autor de O romance que explodiu, é do Ceará; Carlos Ribeiro (Lunaris), da Bahia; Geraldo Lima (A noite dos vagalumes), de Brasília; Homero Gomes (Sísifo desatento), do Paraná; Luiz Bras (A última guerra), mora em Portugal; Mayrant Gallo (O inédito de Kafka), da Bahia e Rogers Silva (Manicômio, livro ainda inédito), de Minas Gerais. Porém, como deixou claro naquele editorial, Nelson de Oliveira pretende mudar não só o título a cada edição, mas também variar forma e conteúdo de sua série de portais. Interessados em participar de alguma maneira desta iniciativa, podem contatar o coordenador editorial pelo e-mail oliveira.e.cia@uol.com.br
sábado, 3 de maio de 2008
Complexo de Chronos
Milênios antes de o engenho humano tê-lo tornado possível, nosso velho sonho de voar como os pássaros ganhou a forma de uma lenda, na Grécia antiga. Histórias como a de Ícaro anteciparam e mobilizaram a vontade de um número incontável de pessoas ao longo das eras, servindo ora como fonte de inspiração ora como alerta. De certa maneira, a ficção científica pode ser considerada sucessora dessa linhagem de narrativas mitológicas, com o diferencial de ter substituido a intervenção dos deuses por uma dose – em alguns casos, ligeira pitada – de empreendedorismo humano e de conhecimento aplicado. Um exemplo prático desse moderno cânone mitológico foi o primeiro livro de um dos desbravadores do gênero literário: A máquina do tempo, de H. G. Wells. O escritor inglês fundou um novo mito quando fez seu Ícaro anônimo desafiar não os céus mas aquilo que chamou de quarta dimensão, em uma viagem ao futuro. A idéia por trás da obra de 1895 permanece como referência a gerações de escritores do mundo inteiro e, no Brasil, curiosamente, tem servido como porta de entrada para debutantes da FC. O Universo Intempol é um caso exemplar, pois surgiu no conto de estréia de seu criador, Octavio Aragão, e logo se tornou a oportunidade para lançar vários iniciantes, como Jorge Nunes. Fora daquele ambiente, time travel também vem sendo o mote dos romances de outros viajantes. Assim foi com Osíris Reis e o capítulo inicial de sua saga, Treze milênios, e é assim com o objeto de atenção deste texto, o primeiro romance do paulistano filho de húngaros Tibor Moricz.
O título do livro, lançado na primeira metade de 2007, já remete àquela idéia da ancestralidade das antigas mitologias na árvore genealógica da ficção científica: Síndrome de Cérbero. Esse é o nome do cão monstruoso que vigia a saída de Hades, a terra dos mortos, nas lendas gregas, um ser que enfrentou o herói Orfeu e o semideus Héracles – ou, Hércules, para os latinos. Na capa da obra, em uma pintura de William Blake – curiosamente não creditada em parte alguma da publicação – a criatura aparece na forma mais conhecida, com as três cabeças prontas para destroçar quem tentasse fugir do destino pós-vida. A explicação para se evocar a besta-fera só vai chegar ao leitor na página 280, quando faltam pouco mais de 50 para o fim do texto. O protagonista da obra, narrador da trama, queixa-se de seus azares: “Por que eu? Estou mergulhado nessa sopa de impressões até o pescoço. Vivo às portas do inferno, enlouquecido pela inconstância e pela dúvida. Nem dentro nem fora. Sinto-me como Cérbero. Não serei eu a viver deslocado da realidade? Uma pessoa à margem da história? Afastado da verdade, uma sombra?”. Só que não é ao reino de Hades que esse Cérbero involuntário está subordinado. Pode-se dizer que o destino dele se perdeu nos domínios de Chronos, aquele que, na mitologia grega, personifica o tempo, um ente que já existia antes mesmo de surgirem os primeiros titãs, deuses ou humanos.
Vamos ao enredo para tentar entender o porquê daquele desabafo shakespeareano feito pelo protagonista quase ao fim da jornada. Antes de mais nada, o nome do personagem em questão é Leonard Cameron e não, ele não é brasileiro. A história contada em Síndrome de Cérbero, apesar de começar em uma data de forte simbologia para o Brasil – em “algum dia de abril de 1964”, coincidindo, portanto, com o primeiro sinal da última ditadura que vivemos neste país – se passa inteiramente nos Estados Unidos. O início ocorre, mais precisamente, no dia 18 de abril de 1964, em uma pequena cidade do estado de Massachussets, chamada Greenville. Durante um piquenique em família, quando ele contava com dez anos de idade, um acontecimento marca o fim da infância de Leonard. O rapaz presencia o assassinato do pai, Robert Cameron, um político progressista com boas chances de se tornar senador, morto com um tiro na testa desferido por um criminoso nunca descoberto. Além de político em ascensão, Robert era o ídolo máximo do filho. Testemunhar o crime marca de tal forma o garoto que o mundo dele começa a perder o sentido na mesma hora. Ao longo de toda a narrativa, de modo obsessivo, a mente dele sempre divaga e retorna ao mesmo ponto, àquela primeira década de vida feliz ao lado da figura paterna.
Leonard Cameron tem uma chance de realmente voltar fisicamente àquele período do tempo, muitos anos depois do atentado. Em fevereiro de 2004, já com 50 anos, leva uma existência banal, sem amigos, sem amantes, sem parentes. Depois de se formar de modo não muito brilhante em física pela Universidade de Yale, conseguiu emprego em uma instalação particular de pesquisa no estado de Connecticut. Como superintendente de Operações da Fundação Leicester, surge a oportunidade de acompanhar e de favorecer com relatórios positivos – algo que representa verbas mais generosas e maior liberdade de ação – certo experimento de um dos cientistas da instituição, Barnard Caldwell. Trata-se de um equipamento que, aparentemente, permite deslocamentos no tempo com o vetor oposto ao da máquina imaginada por Wells no século XIX, sempre para o passado. Uma rápida explicação para o funcionamento do maquinário é dada na página 29. “Para facilitar, a descoberta final foi a seguinte: o tempo não é linear. Ele se comporta como uma corda com suaves ondulações. Barnard chamou cada ondulação de arco”, simplifica Leonard e complementa a seguir: “Imagine uma reta imaginária cortando essa corda no meio. Teremos vários arcos, cada qual com uma extensão de tempo definida. Cada extensão de tempo exatamente igual a 28h17m06s. Ou seja, qualquer coisa que volte ao passado, ocupará um dos arcos na corda de tempo de milhões de anos de nosso planeta”.
Com isso, foram abertas as portas para o atormentado Cérbero desafiar a lógica paradoxal de Chronos em sucessivas viagens com o objetivo de salvar Robert Cameron e mudar o próprio destino. Os efeitos colaterais não demoram a surgir. Alguns são puramente fisiológicos e, relativamente, fáceis de se contornar: após cada deslocamento, a cobaia humana perde grande quantidade de líquidos corporais, sofre de sensibilidade à luz e fica bastante desorientada. Outras implicações são mais complicadas de se descrever e bem mais graves. Além de emprestar certo ar sobrenatural a várias passagens do livro – mesmo que existam explicações racionais, ligadas à física de partículas – elas conseguem tornar a existência de Leonard cada vez mais miserável. Porém, por mais bem conduzidas que sejam as jornadas físicas ao passado, as mesmas que fazem a alegria dos fãs de FC, o grande curinga do livro está nas reminiscências do protagonista. A todo momento, mesmo em meio à mais fantástica experiência científica já realizada, a consciência do homem sempre volta a divagar por aquele período de seus primeiros 10 anos de vida, juntando peças e dando pistas falsas sobre acontecimentos dos quais os leitores acompanham desdobramentos cada vez mais complicados.
O autor se revela muito competente neste jogo de idas e vindas na narrativa e no tempo. Talvez o melhor exemplo esteja na abertura, no prólogo que antecede os curtos capítulos da obra. Naquelas 30 primeiras páginas, os momentos em que o narrador descreve pequenos detalhes de sua infância são carregados de impressões táteis, olfativas, gustativas, visuais e auditivas: a travessura com uma bicicleta, a última pescaria com o pai, os primeiros momentos do piquenique trágico, a posição do vento, a altura da grama. O contraste fica evidente com o desdém insensível, inodoro, insípido, translúcido e taciturno com que são comentados os eventos após a morte de Robert: a adolescência solitária, a primeira transa, a vida universitária, o emprego aborrecido e mesmo a dinâmica por trás da viagem no tempo. Ao longo das páginas, há outros bons exemplos desse controle narrativo seguro e eficiente que ajudou a dar forma a um dos mais bem construídos personagens da ficção científica nacional, dono de uma série de camadas de vida interior e de mudanças de humor que o tornam excepcionalmente crível.
Contudo, se o destaque fica para o lado psicológico de Leonard, a parte mais dinâmica também é uma atração e tanto. Por força das circunstâncias, no vaivém cronológico, ele é forçado a entrar em ação a todo instante, a se meter em lutas corporais, perseguições, fugas e afins, apesar de ser uma pessoa reconhecidamente fora de forma depois de meio século de ócio improdutivo. A sequência em que ele invade uma propriedade murada é especialmente digna de atenção e, provavelmente, carrega algo de auto-ironia, uma vez que a criatura é apenas cinco anos mais velha que seu criador, nascido em 1959. Tibor Moricz se mostra um ótimo escritor nessas pequenas partes que formam o seu romance de estréia. Não é de se estranhar que ele, um publicitário na metade profissional de sua vida, tem recebido prêmios por narrativas mais curtas. Dois de seus contos de temática FC já levaram honrarias que prestam homenagem a autores consagrados do gênero. No XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, “Ordem Crepuscular” – história de ambientação espacial à Jornada nas estrelas – foi uma das vencedoras. Da mesma forma, um exercício de estilo também sobre questões temporais, “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, ganhou o I Prêmio Braulio Tavares, promovido pela maior comunidade em língua portuguesa dedicada à ficção científica do Orkut.
No conjunto de capítulos que formam o romance de 332 páginas, o autor também se sai bem, já que mantém um domínio da trama que, em mãos menos habilidosas, poderia fazer daqueles arcos e cordas temporais um verdadeiro nó cego. Pelo menos na maior parte do tempo. Quase ao final da obra, quando chega o momento de aparar as pontas dos paradoxos cronais e da parte policial, algo acaba sobrando. Apesar de um personagem prometer que “nada ficará sem justificação”, pelo menos uma pergunta se mantém sem resposta e dá a impressão de que este mesmo personagem, pelas regras do jogo, sabe mais do que deveria. É como um gol de mão em nosso time aos 44 do segundo tempo. A rigor, poderia ser uma deixa e tanto para um próximo livro e o enredo de Síndrome de Cérbero se prestaria perfeitamente a uma obra derivada, contada sob um outro ponto de vista, resultando em algo ao mesmo tempo complementar e com vida própria. Material assim já foi feito na literatura de FC pelo americano Orson Scott Card, em sua saga de Ender; ou ainda, para ficar no subgênero da viagem no tempo, em certos momentos da trilogia cinematográfica De volta para o futuro. Resta saber se esta é mesmo a intenção do autor e, claro, se o mercado nacional estaria maduro o suficiente para esse tipo de franquia.
Fora isso, escaparam alguns deslizes no texto que não resistiriam a uma revisão mais rigorosa. A maioria dos casos é de redundâncias, como aquele “imagine uma reta imaginária” do trecho citado páragrafos atrás. Mas há mais, há olhos que olham, pilhas de coisas empilhadas, elos que fazem ligação, pessoas certas de suas certezas, quem encara algo de frente e sobe em cima de algum objeto. Nada que comprometa o prazer de se ler uma boa trama bem contada, todavia são detalhes que poderiam ser resolvidos facilmente na edição. Mas a editora responsável pelo lançamento – JR, mais conhecida por trabalhar com publicações espíritas – também tem seus méritos por publicar uma obra muito bem acabada, com diagramação e tipologia agradáveis. Ficam registradas a ausência do crédito da pintura de capa e uma sugestão para aumentar a gramatura das páginas: em um livro repleto de paradoxos e de pistas espalhadas pelo texto, virar e revirar as folhas é uma necessidade constante. Quando elas são muito finas, como neste caso, acidentes tendem a acontecer...
Tibor Moricz, apesar de ter se lançado tardiamente ao mercado – nos textos de apoio do livro, informa-se que ele escreve desde a adolescência, mas vinha resistindo a publicar seu material –, mostrou-se uma ótima contribuição à FC nacional e ainda promete outras obras para breve. A mistura de viagem no tempo, aventura policial e romance psicológico tornam Síndrome de Cérbero um dos livros de literatura fantástica mais interessantes lançados nesta última, e produtiva, década no país. Quanto aos apaixonados por aquela neomitologia fundada por H. G. Wells, há pouco mais de 110 anos, esses ganharam uma nova obra para influenciar mais sonhos que envolvam desafios aos limites impostos por Chronos. Sonhos que vão continuar enquanto ciência e tecnologia não os tornarem realidade, como elas fizeram com nosso desejo de voar. A vantagem é que isso até pode demorar outros tantos milênios, a exemplo dos que separaram a lenda de Ícaro da invenção do avião; afinal, no caso das viagens no tempo, alguns milênios a mais ou a menos não representam nada no fim.
Serviço: O livro pode ser comprado virtualmente na Saraiva, Cultura, Fnac e Cia dos Livros. O preço normal é R$ 38 reais, mas ele está em promoção por R$ 24,50 no www.submarino.com.br
O título do livro, lançado na primeira metade de 2007, já remete àquela idéia da ancestralidade das antigas mitologias na árvore genealógica da ficção científica: Síndrome de Cérbero. Esse é o nome do cão monstruoso que vigia a saída de Hades, a terra dos mortos, nas lendas gregas, um ser que enfrentou o herói Orfeu e o semideus Héracles – ou, Hércules, para os latinos. Na capa da obra, em uma pintura de William Blake – curiosamente não creditada em parte alguma da publicação – a criatura aparece na forma mais conhecida, com as três cabeças prontas para destroçar quem tentasse fugir do destino pós-vida. A explicação para se evocar a besta-fera só vai chegar ao leitor na página 280, quando faltam pouco mais de 50 para o fim do texto. O protagonista da obra, narrador da trama, queixa-se de seus azares: “Por que eu? Estou mergulhado nessa sopa de impressões até o pescoço. Vivo às portas do inferno, enlouquecido pela inconstância e pela dúvida. Nem dentro nem fora. Sinto-me como Cérbero. Não serei eu a viver deslocado da realidade? Uma pessoa à margem da história? Afastado da verdade, uma sombra?”. Só que não é ao reino de Hades que esse Cérbero involuntário está subordinado. Pode-se dizer que o destino dele se perdeu nos domínios de Chronos, aquele que, na mitologia grega, personifica o tempo, um ente que já existia antes mesmo de surgirem os primeiros titãs, deuses ou humanos.
Vamos ao enredo para tentar entender o porquê daquele desabafo shakespeareano feito pelo protagonista quase ao fim da jornada. Antes de mais nada, o nome do personagem em questão é Leonard Cameron e não, ele não é brasileiro. A história contada em Síndrome de Cérbero, apesar de começar em uma data de forte simbologia para o Brasil – em “algum dia de abril de 1964”, coincidindo, portanto, com o primeiro sinal da última ditadura que vivemos neste país – se passa inteiramente nos Estados Unidos. O início ocorre, mais precisamente, no dia 18 de abril de 1964, em uma pequena cidade do estado de Massachussets, chamada Greenville. Durante um piquenique em família, quando ele contava com dez anos de idade, um acontecimento marca o fim da infância de Leonard. O rapaz presencia o assassinato do pai, Robert Cameron, um político progressista com boas chances de se tornar senador, morto com um tiro na testa desferido por um criminoso nunca descoberto. Além de político em ascensão, Robert era o ídolo máximo do filho. Testemunhar o crime marca de tal forma o garoto que o mundo dele começa a perder o sentido na mesma hora. Ao longo de toda a narrativa, de modo obsessivo, a mente dele sempre divaga e retorna ao mesmo ponto, àquela primeira década de vida feliz ao lado da figura paterna.
Leonard Cameron tem uma chance de realmente voltar fisicamente àquele período do tempo, muitos anos depois do atentado. Em fevereiro de 2004, já com 50 anos, leva uma existência banal, sem amigos, sem amantes, sem parentes. Depois de se formar de modo não muito brilhante em física pela Universidade de Yale, conseguiu emprego em uma instalação particular de pesquisa no estado de Connecticut. Como superintendente de Operações da Fundação Leicester, surge a oportunidade de acompanhar e de favorecer com relatórios positivos – algo que representa verbas mais generosas e maior liberdade de ação – certo experimento de um dos cientistas da instituição, Barnard Caldwell. Trata-se de um equipamento que, aparentemente, permite deslocamentos no tempo com o vetor oposto ao da máquina imaginada por Wells no século XIX, sempre para o passado. Uma rápida explicação para o funcionamento do maquinário é dada na página 29. “Para facilitar, a descoberta final foi a seguinte: o tempo não é linear. Ele se comporta como uma corda com suaves ondulações. Barnard chamou cada ondulação de arco”, simplifica Leonard e complementa a seguir: “Imagine uma reta imaginária cortando essa corda no meio. Teremos vários arcos, cada qual com uma extensão de tempo definida. Cada extensão de tempo exatamente igual a 28h17m06s. Ou seja, qualquer coisa que volte ao passado, ocupará um dos arcos na corda de tempo de milhões de anos de nosso planeta”.
Com isso, foram abertas as portas para o atormentado Cérbero desafiar a lógica paradoxal de Chronos em sucessivas viagens com o objetivo de salvar Robert Cameron e mudar o próprio destino. Os efeitos colaterais não demoram a surgir. Alguns são puramente fisiológicos e, relativamente, fáceis de se contornar: após cada deslocamento, a cobaia humana perde grande quantidade de líquidos corporais, sofre de sensibilidade à luz e fica bastante desorientada. Outras implicações são mais complicadas de se descrever e bem mais graves. Além de emprestar certo ar sobrenatural a várias passagens do livro – mesmo que existam explicações racionais, ligadas à física de partículas – elas conseguem tornar a existência de Leonard cada vez mais miserável. Porém, por mais bem conduzidas que sejam as jornadas físicas ao passado, as mesmas que fazem a alegria dos fãs de FC, o grande curinga do livro está nas reminiscências do protagonista. A todo momento, mesmo em meio à mais fantástica experiência científica já realizada, a consciência do homem sempre volta a divagar por aquele período de seus primeiros 10 anos de vida, juntando peças e dando pistas falsas sobre acontecimentos dos quais os leitores acompanham desdobramentos cada vez mais complicados.
O autor se revela muito competente neste jogo de idas e vindas na narrativa e no tempo. Talvez o melhor exemplo esteja na abertura, no prólogo que antecede os curtos capítulos da obra. Naquelas 30 primeiras páginas, os momentos em que o narrador descreve pequenos detalhes de sua infância são carregados de impressões táteis, olfativas, gustativas, visuais e auditivas: a travessura com uma bicicleta, a última pescaria com o pai, os primeiros momentos do piquenique trágico, a posição do vento, a altura da grama. O contraste fica evidente com o desdém insensível, inodoro, insípido, translúcido e taciturno com que são comentados os eventos após a morte de Robert: a adolescência solitária, a primeira transa, a vida universitária, o emprego aborrecido e mesmo a dinâmica por trás da viagem no tempo. Ao longo das páginas, há outros bons exemplos desse controle narrativo seguro e eficiente que ajudou a dar forma a um dos mais bem construídos personagens da ficção científica nacional, dono de uma série de camadas de vida interior e de mudanças de humor que o tornam excepcionalmente crível.
Contudo, se o destaque fica para o lado psicológico de Leonard, a parte mais dinâmica também é uma atração e tanto. Por força das circunstâncias, no vaivém cronológico, ele é forçado a entrar em ação a todo instante, a se meter em lutas corporais, perseguições, fugas e afins, apesar de ser uma pessoa reconhecidamente fora de forma depois de meio século de ócio improdutivo. A sequência em que ele invade uma propriedade murada é especialmente digna de atenção e, provavelmente, carrega algo de auto-ironia, uma vez que a criatura é apenas cinco anos mais velha que seu criador, nascido em 1959. Tibor Moricz se mostra um ótimo escritor nessas pequenas partes que formam o seu romance de estréia. Não é de se estranhar que ele, um publicitário na metade profissional de sua vida, tem recebido prêmios por narrativas mais curtas. Dois de seus contos de temática FC já levaram honrarias que prestam homenagem a autores consagrados do gênero. No XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, “Ordem Crepuscular” – história de ambientação espacial à Jornada nas estrelas – foi uma das vencedoras. Da mesma forma, um exercício de estilo também sobre questões temporais, “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, ganhou o I Prêmio Braulio Tavares, promovido pela maior comunidade em língua portuguesa dedicada à ficção científica do Orkut.
No conjunto de capítulos que formam o romance de 332 páginas, o autor também se sai bem, já que mantém um domínio da trama que, em mãos menos habilidosas, poderia fazer daqueles arcos e cordas temporais um verdadeiro nó cego. Pelo menos na maior parte do tempo. Quase ao final da obra, quando chega o momento de aparar as pontas dos paradoxos cronais e da parte policial, algo acaba sobrando. Apesar de um personagem prometer que “nada ficará sem justificação”, pelo menos uma pergunta se mantém sem resposta e dá a impressão de que este mesmo personagem, pelas regras do jogo, sabe mais do que deveria. É como um gol de mão em nosso time aos 44 do segundo tempo. A rigor, poderia ser uma deixa e tanto para um próximo livro e o enredo de Síndrome de Cérbero se prestaria perfeitamente a uma obra derivada, contada sob um outro ponto de vista, resultando em algo ao mesmo tempo complementar e com vida própria. Material assim já foi feito na literatura de FC pelo americano Orson Scott Card, em sua saga de Ender; ou ainda, para ficar no subgênero da viagem no tempo, em certos momentos da trilogia cinematográfica De volta para o futuro. Resta saber se esta é mesmo a intenção do autor e, claro, se o mercado nacional estaria maduro o suficiente para esse tipo de franquia.
Fora isso, escaparam alguns deslizes no texto que não resistiriam a uma revisão mais rigorosa. A maioria dos casos é de redundâncias, como aquele “imagine uma reta imaginária” do trecho citado páragrafos atrás. Mas há mais, há olhos que olham, pilhas de coisas empilhadas, elos que fazem ligação, pessoas certas de suas certezas, quem encara algo de frente e sobe em cima de algum objeto. Nada que comprometa o prazer de se ler uma boa trama bem contada, todavia são detalhes que poderiam ser resolvidos facilmente na edição. Mas a editora responsável pelo lançamento – JR, mais conhecida por trabalhar com publicações espíritas – também tem seus méritos por publicar uma obra muito bem acabada, com diagramação e tipologia agradáveis. Ficam registradas a ausência do crédito da pintura de capa e uma sugestão para aumentar a gramatura das páginas: em um livro repleto de paradoxos e de pistas espalhadas pelo texto, virar e revirar as folhas é uma necessidade constante. Quando elas são muito finas, como neste caso, acidentes tendem a acontecer...
Tibor Moricz, apesar de ter se lançado tardiamente ao mercado – nos textos de apoio do livro, informa-se que ele escreve desde a adolescência, mas vinha resistindo a publicar seu material –, mostrou-se uma ótima contribuição à FC nacional e ainda promete outras obras para breve. A mistura de viagem no tempo, aventura policial e romance psicológico tornam Síndrome de Cérbero um dos livros de literatura fantástica mais interessantes lançados nesta última, e produtiva, década no país. Quanto aos apaixonados por aquela neomitologia fundada por H. G. Wells, há pouco mais de 110 anos, esses ganharam uma nova obra para influenciar mais sonhos que envolvam desafios aos limites impostos por Chronos. Sonhos que vão continuar enquanto ciência e tecnologia não os tornarem realidade, como elas fizeram com nosso desejo de voar. A vantagem é que isso até pode demorar outros tantos milênios, a exemplo dos que separaram a lenda de Ícaro da invenção do avião; afinal, no caso das viagens no tempo, alguns milênios a mais ou a menos não representam nada no fim.
Serviço: O livro pode ser comprado virtualmente na Saraiva, Cultura, Fnac e Cia dos Livros. O preço normal é R$ 38 reais, mas ele está em promoção por R$ 24,50 no www.submarino.com.br
Acidental feito pedra no caminho
Romancista estreante e contista premiado, como leitor ele se define atípico e como escritor de ficção científica diz que o gênero surgiu em sua vida feito uma topada numa pedra. O primeiro romance dele, Síndrome de Cérbero - no qual um homem de meia idade viaja 40 anos ao passado para tentar salvar o idolatrado pai de ser assassinado - é uma amostra de seus objetivos literários: um autor que pretende utilizar ferramentas do gênero para tratar das angústias humanas, dos dilemas do indivíduo. Na entrevista a seguir, o paulistano comenta os motivos para ter situado o livro em um cenário estrangeiro, descreve um pouco do método quase mediúnico de escrita e aproveita a experiência como publicitário para analisar as estratégias possíveis para se popularizar a FC no Brasil. Com vocês, o sobrinho-neto do escritor e dramaturgo húngaro Zsigmond Moricz (1879-1942), Tibor Moricz.
Você lançou seu primeiro livro com praticamente a mesma idade do protagonista da obra, às vésperas de completar 50 anos. Mas, nos textos de apresentação de Síndrome de Cérbero, é dito que você escreve desde a adolescência. Há muitos outros textos seus, quer sejam ou não de ficção científica ou de literatura fantástica em geral, já elaborados e aguardando publicação?
Devo ter escrito ao longo da minha vida centenas de contos. Todos eles perdidos nas mudanças que realizei ou devorados pelas baratas. Tenho dois romances prontos. Mas a editora cometeu um exagero quando disse que eles estavam no prelo. Na verdade não tenho nenhuma intenção de publicá-los. Um deles é uma fantasia medieval que cheguei a reescrever quatro vezes procurando aprimorá-lo; o outro, um livro de aventura e sobrenatural que, embora seja relativamente bom, está longe de me agradar inteiramente. E quando não me sinto seguro com algum escrito, não o torno público. Jamais. Há um terceiro, mas este foi escrito recentemente, tem o título de Fome e se encontra nas mãos de alguns editores conhecidos. Acredito muito na sua publicação. O conto que abre o livro está disponível na internet e já foi lido por muitos. Chama-se “O caçador”.
Depois de tanto tempo escrevendo antes de se lançar às livrarias, por que você escolheu a FC como tema do romance de estréia? De onde veio seu interesse pelo gênero e que autores você costuma ler e lhe servem de referência?
Uma vez eu disse que a FC aconteceu na minha vida da mesma maneira que uma pedra acontece na vida de algum passante distraído. Foi uma topada acidental. Ocorreu de elaborar uma história cuja temática central era de viagem no tempo. Resisti muito a aceitá-lo como ficção científica porque meu objetivo era – e sempre será – o homem. O indivíduo. Suas incertezas, seus medos, suas imperfeições. Utilizei a poderosa máquina de Barnard Caldwell apenas para dar uma base segura ao argumento principal que era o amor de um filho pelo pai. Com o passar do tempo fui me ajeitando dentro desse novo contexto e comecei a aceitar o fato de ter escrito uma obra de ficção científica. Justamente por ter sido um evento acidental não posso dizer que fui influenciado por esse ou aquele autor do gênero. Sou um leitor diferente. Em muitos aspectos, atípico. Desde a pré-adolescência venho lendo quase tudo o que me cai nas mãos. Muito mais literatura mainstream que de gênero, embora tenha lido Isaac Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, Robert Silverberg e outros. Considero-me atípico porque não lembro os livros que li, a não ser uma meia dúzia que por essa ou aquela razão me marcaram. Nesses, incluo Sexus, Nexus e Plexus de Arthur Miller, A insustentável leveza do ser de Milan Kundera, Complexo de Portnoy de Philip Roth, Fome de Knut Hamsun, Os sete minutos de Irving Wallace e outros mais recentes que ainda não foram removidos para o arquivo morto da minha memória (rsrs). Minha maior influência veio mesmo da TV e do cinema. Fui um entusiasta de Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Viagem ao fundo do mar, Star wars e quaisquer outros filmes ou séries nessa temática. Assim, posso dizer que minhas referências literárias vêm de uma imensa sopa de impressões obtidas com a leitura de livros dos mais diversos gêneros, a esmagadora maioria completamente esquecida por mim atualmente.
Foi feita muita pesquisa para compor a trama de Síndrome de Cérbero, tanto nos aspectos técnicos da viagem no tempo, envolvendo algumas teorias de física; quanto na construção psicológica do personagem principal, Leonard Cameron; ou ainda no cenário do livro, que se passa inteiramente em cidades de porte médio dos EUA?
Média. A construção psicológica do personagem não exigiu pesquisa nenhuma. Saiu tudo da minha cabeça. Os detalhes técnicos sobre a viagem no tempo mereceram uma pesquisa básica já que não mergulhei de cabeça no aspecto hard da ciência. Quanto ao cenário, tive que pesquisar o cotidiano e a geografia dos EUA, mas nada muito exaustivo.
Por falar na ambientação do livro, por que você optou por criar uma história que não tenha nenhum elemento, ou mesmo citação, ao Brasil ou à terra natal de seus pais, a Hungria? Em relação ao primeiro caso, foi para fugir do mito do Capitão Barbosa, como é apelidado o temor de que soe ridículo o uso de personagens e de temáticas brasileiras em um enredo de ficção científica?
Na ocasião eu não conhecia o mito do Capitão Barbosa, embora tivesse sido exatamente por isso que resolvi ambientar a história do livro num país estrangeiro. Não conseguia (nem consigo agora) imaginar um cientista chamado Benedito ou um “da Silva”. O cenário brasileiro contemporâneo me remete a outros argumentos ficcionais, todos eles realistas e mais condizentes com a literatura mainstream. Pobreza, crime e corrupção (vividas tão de perto e intensamente) são referências desestimulantes para quem quer escrever uma boa história de FC. Pelo menos pra mim.
Sua escolha por utilizar personagens e cenários americanos provocou alguma reação perceptível entre os leitores? Houve alguma crítica positiva ou negativa por ter feito tal opção?
Poucas reações. O Fábio Fernandes comentou que perdi uma excelente oportunidade em ambientá-lo no Brasil do golpe militar. Li alguns comentários sobre o fato em algumas comunidades do Orkut. Alguns puristas reclamando da “imbecilidade” de um brasileiro ambientar sua história noutro lugar, num país estrangeiro, como se isso fosse um crime de lesa-pátria. Tudo bobagem. Mas as reações negativas foram realmente pequenas. Graças a Deus os elogios suplantam em muito as críticas.
Síndrome de Cérbero pretende ter alguma forma de continuação, seja na forma de uma seqüência da história, seja com uma adaptação para outra mídia, ou você já explorou tudo o que tinha a dizer sobre aqueles personagens?
Na minha cabeça não há a menor chance de escrever uma continuação para Síndrome de Cérbero. Quanto a adaptações para outras mídias, acho-as pertinentes. Mas nem sei como poderia fazer isso. Gosto de pensar que o livro renderia um bom filme, mas sei que isso é fantasia e estamos falando de ficção científica (rsrs).
Seu livro foi publicado por uma empresa que é conhecida pelo lançamento de títulos ligados ao espiritismo – JR Editora – que nunca mostrou interesse anterior pela ficção especulativa. Como foram os bastidores dessa negociação e há possibilidade de a editora voltar a lançar outras obras do gênero, de suas ou de outros autores?
As coisas com a JR Editora aconteceram de forma completamente inusual. Estava batalhando uma editora há dois anos sem nenhum resultado positivo. Um amigo, escritor do gênero de auto-ajuda, me convidou para uma noite de autógrafos numa livraria Siciliano próxima de casa. Fui. Lá conheci o editor, para quem enderecei todas as minhas reclamações quanto à capa abominável do livro que se homenageava naquela noite. Propuseram-me então que apresentasse uma capa melhor, que desenvolvesse um projeto. Aceitei com a condição de que o editor me auxiliasse na procura de uma outra editora para Síndrome, já que ele estava fora da linha editorial da JR. Condição aceita, iniciei o trabalho a que me propus. Duas semanas depois, numa reunião onde apresentei as opções de capa, entreguei ao editor o original de Síndrome de Cérbero. Ele leu a sinopse e declarou interesse em publicá-lo. Coisa que acabou acontecendo um ano e meio depois. Tive muita sorte, na verdade. Quanto a possibilidade da JR Editora vir a publicar outras obras do gênero, desconheço. Mas acho que nada impede um bom argumento de ser aceito.
Apesar de se lançar como escritor já com um romance, você tem sido premiado por textos mais curtos que também tratam de temas de FC. Foi assim com “Ordem Crepuscular” e com “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, respectivamente vencedores dos prêmios Ignácio de Loyola Brandão, no XI Concurso de Contos de Araraquara, e Braulio Tavares, em uma competição promovida no Orkut que em breve deverá dar origem a uma coletânea. Qual a importância desse tipo de incentivo para um autor iniciante?
Acho que para chegar ao ponto de um autor iniciante ser premiado num concurso de contos qualquer que se pretenda sério, é necessário que ele já tenha queimado uma série de etapas anteriores. Ter escrito bastante para evoluir tecnicamente, poder dizer que desenvolveu um estilo próprio. Ter sublimado aquilo a que chamamos de talento (desde que ele exista nessa pessoa) e tê-lo transformado em ferramenta constante e não apenas efêmera e ocasional. Depois de tudo isso, um prêmio num concurso de contos é apenas a ratificação de um trabalho árduo. O verdadeiro incentivo não está nos prêmios nem nos concursos. Ele está à nossa volta. Em nós mesmos. Naquilo em que acreditamos. Naquilo que queremos para nós e para as pessoas que amamos.
Há alguma diferença marcante entre seu processo de elaboração de um romance e o de um conto? Poderia descrever como é sua preparação no momento em que resolve criar alguma história?
Meu processo criativo é, de certa forma, entrópico. Não há, na maioria das vezes, uma elaboração antecipada. Quanto muito uma idéia básica. Eu me sento para escrever e deixo o texto fluir. É quase mediúnico. Síndrome de Cérbero recebeu de mim uma atenção rasteira quanto à linha geral de raciocínio que nortearia o trabalho. Resolvi o nome dos personagens, decidi que o filho tentaria salvar o pai sucessivas vezes de um assassinato e o resto foi acontecendo na medida em que escrevia. Eu era um escritor/leitor privilegiado. Conto ou romance, ambos sofrem o mesmo processo. Posso sentar, respirar fundo diante do editor de texto e começar a batucar o teclado. Colocar palavras a esmo, deixar que elas se sucedam e formem linhas, orações, páginas inteiras. Em 90% das vezes fico satisfeito com o trabalho. Ultimamente tenho permitido que a inspiração me atinja, em vez de simplesmente sentar e escrever. Deixo a mente aberta até que uma idéia surja e brilhe. Devo ter um anjo da guarda literato que me sopra as idéias, talvez até um anjo familiar já que meu tio-avô Zsigmond Moricz foi um dos escritores mais importantes da Hungria no século passado (rsrs).
Aproveitando da sua experiência profissional como publicitário, você poderia sugerir alguma estratégia para popularizar a ficção científica entre o público brasileiro? O que está faltando para atingir maiores mercados consumidores para o gênero?
Essa questão me lembra um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou a cobra Ouroboros. Não há jornalismo literário especializado no país, o que dizer então em relação à literatura de gênero. Por outro lado, não temos um gênero especializado no país, que dirá um jornalismo que o respeite. O que quero dizer é que faltam obras verdadeiramente respeitáveis, que chamem a atenção pela inequívoca qualidade. Trabalhos que, pela virtude técnica, poderiam lutar ombro a ombro com a literatura mainstream. Trabalhos que valorizem não apenas uma boa idéia, mas também o poder narrativo.
Indo direto ao ponto, precisamos primeiro produzir obras de inegável qualidade para depois reclamar a falta de atenção da mídia. Claro que campanhas publicitárias ajudariam, mas qual editora investiria num autor brasileiro de futuro ignorado? Já é uma luta conseguir uma que aceite nos publicar, convencê-las a nos bancar publicitariamente é quase uma alucinação. Não resta alternativa senão usar e abusar dos recursos que a internet nos fornece. Divulgar nossos trabalhos e nomes em blogs, comunidades, sites diversos, explorar ferramentas como o Youtube. E contar com a sorte. Ela às vezes dá as caras. Temos que estar atentos para agarrá-la nessa hora.
Você lançou seu primeiro livro com praticamente a mesma idade do protagonista da obra, às vésperas de completar 50 anos. Mas, nos textos de apresentação de Síndrome de Cérbero, é dito que você escreve desde a adolescência. Há muitos outros textos seus, quer sejam ou não de ficção científica ou de literatura fantástica em geral, já elaborados e aguardando publicação?
Devo ter escrito ao longo da minha vida centenas de contos. Todos eles perdidos nas mudanças que realizei ou devorados pelas baratas. Tenho dois romances prontos. Mas a editora cometeu um exagero quando disse que eles estavam no prelo. Na verdade não tenho nenhuma intenção de publicá-los. Um deles é uma fantasia medieval que cheguei a reescrever quatro vezes procurando aprimorá-lo; o outro, um livro de aventura e sobrenatural que, embora seja relativamente bom, está longe de me agradar inteiramente. E quando não me sinto seguro com algum escrito, não o torno público. Jamais. Há um terceiro, mas este foi escrito recentemente, tem o título de Fome e se encontra nas mãos de alguns editores conhecidos. Acredito muito na sua publicação. O conto que abre o livro está disponível na internet e já foi lido por muitos. Chama-se “O caçador”.
Depois de tanto tempo escrevendo antes de se lançar às livrarias, por que você escolheu a FC como tema do romance de estréia? De onde veio seu interesse pelo gênero e que autores você costuma ler e lhe servem de referência?
Uma vez eu disse que a FC aconteceu na minha vida da mesma maneira que uma pedra acontece na vida de algum passante distraído. Foi uma topada acidental. Ocorreu de elaborar uma história cuja temática central era de viagem no tempo. Resisti muito a aceitá-lo como ficção científica porque meu objetivo era – e sempre será – o homem. O indivíduo. Suas incertezas, seus medos, suas imperfeições. Utilizei a poderosa máquina de Barnard Caldwell apenas para dar uma base segura ao argumento principal que era o amor de um filho pelo pai. Com o passar do tempo fui me ajeitando dentro desse novo contexto e comecei a aceitar o fato de ter escrito uma obra de ficção científica. Justamente por ter sido um evento acidental não posso dizer que fui influenciado por esse ou aquele autor do gênero. Sou um leitor diferente. Em muitos aspectos, atípico. Desde a pré-adolescência venho lendo quase tudo o que me cai nas mãos. Muito mais literatura mainstream que de gênero, embora tenha lido Isaac Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury, Robert Silverberg e outros. Considero-me atípico porque não lembro os livros que li, a não ser uma meia dúzia que por essa ou aquela razão me marcaram. Nesses, incluo Sexus, Nexus e Plexus de Arthur Miller, A insustentável leveza do ser de Milan Kundera, Complexo de Portnoy de Philip Roth, Fome de Knut Hamsun, Os sete minutos de Irving Wallace e outros mais recentes que ainda não foram removidos para o arquivo morto da minha memória (rsrs). Minha maior influência veio mesmo da TV e do cinema. Fui um entusiasta de Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Viagem ao fundo do mar, Star wars e quaisquer outros filmes ou séries nessa temática. Assim, posso dizer que minhas referências literárias vêm de uma imensa sopa de impressões obtidas com a leitura de livros dos mais diversos gêneros, a esmagadora maioria completamente esquecida por mim atualmente.
Foi feita muita pesquisa para compor a trama de Síndrome de Cérbero, tanto nos aspectos técnicos da viagem no tempo, envolvendo algumas teorias de física; quanto na construção psicológica do personagem principal, Leonard Cameron; ou ainda no cenário do livro, que se passa inteiramente em cidades de porte médio dos EUA?
Média. A construção psicológica do personagem não exigiu pesquisa nenhuma. Saiu tudo da minha cabeça. Os detalhes técnicos sobre a viagem no tempo mereceram uma pesquisa básica já que não mergulhei de cabeça no aspecto hard da ciência. Quanto ao cenário, tive que pesquisar o cotidiano e a geografia dos EUA, mas nada muito exaustivo.
Por falar na ambientação do livro, por que você optou por criar uma história que não tenha nenhum elemento, ou mesmo citação, ao Brasil ou à terra natal de seus pais, a Hungria? Em relação ao primeiro caso, foi para fugir do mito do Capitão Barbosa, como é apelidado o temor de que soe ridículo o uso de personagens e de temáticas brasileiras em um enredo de ficção científica?
Na ocasião eu não conhecia o mito do Capitão Barbosa, embora tivesse sido exatamente por isso que resolvi ambientar a história do livro num país estrangeiro. Não conseguia (nem consigo agora) imaginar um cientista chamado Benedito ou um “da Silva”. O cenário brasileiro contemporâneo me remete a outros argumentos ficcionais, todos eles realistas e mais condizentes com a literatura mainstream. Pobreza, crime e corrupção (vividas tão de perto e intensamente) são referências desestimulantes para quem quer escrever uma boa história de FC. Pelo menos pra mim.
Sua escolha por utilizar personagens e cenários americanos provocou alguma reação perceptível entre os leitores? Houve alguma crítica positiva ou negativa por ter feito tal opção?
Poucas reações. O Fábio Fernandes comentou que perdi uma excelente oportunidade em ambientá-lo no Brasil do golpe militar. Li alguns comentários sobre o fato em algumas comunidades do Orkut. Alguns puristas reclamando da “imbecilidade” de um brasileiro ambientar sua história noutro lugar, num país estrangeiro, como se isso fosse um crime de lesa-pátria. Tudo bobagem. Mas as reações negativas foram realmente pequenas. Graças a Deus os elogios suplantam em muito as críticas.
Síndrome de Cérbero pretende ter alguma forma de continuação, seja na forma de uma seqüência da história, seja com uma adaptação para outra mídia, ou você já explorou tudo o que tinha a dizer sobre aqueles personagens?
Na minha cabeça não há a menor chance de escrever uma continuação para Síndrome de Cérbero. Quanto a adaptações para outras mídias, acho-as pertinentes. Mas nem sei como poderia fazer isso. Gosto de pensar que o livro renderia um bom filme, mas sei que isso é fantasia e estamos falando de ficção científica (rsrs).
Seu livro foi publicado por uma empresa que é conhecida pelo lançamento de títulos ligados ao espiritismo – JR Editora – que nunca mostrou interesse anterior pela ficção especulativa. Como foram os bastidores dessa negociação e há possibilidade de a editora voltar a lançar outras obras do gênero, de suas ou de outros autores?
As coisas com a JR Editora aconteceram de forma completamente inusual. Estava batalhando uma editora há dois anos sem nenhum resultado positivo. Um amigo, escritor do gênero de auto-ajuda, me convidou para uma noite de autógrafos numa livraria Siciliano próxima de casa. Fui. Lá conheci o editor, para quem enderecei todas as minhas reclamações quanto à capa abominável do livro que se homenageava naquela noite. Propuseram-me então que apresentasse uma capa melhor, que desenvolvesse um projeto. Aceitei com a condição de que o editor me auxiliasse na procura de uma outra editora para Síndrome, já que ele estava fora da linha editorial da JR. Condição aceita, iniciei o trabalho a que me propus. Duas semanas depois, numa reunião onde apresentei as opções de capa, entreguei ao editor o original de Síndrome de Cérbero. Ele leu a sinopse e declarou interesse em publicá-lo. Coisa que acabou acontecendo um ano e meio depois. Tive muita sorte, na verdade. Quanto a possibilidade da JR Editora vir a publicar outras obras do gênero, desconheço. Mas acho que nada impede um bom argumento de ser aceito.
Apesar de se lançar como escritor já com um romance, você tem sido premiado por textos mais curtos que também tratam de temas de FC. Foi assim com “Ordem Crepuscular” e com “Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”, respectivamente vencedores dos prêmios Ignácio de Loyola Brandão, no XI Concurso de Contos de Araraquara, e Braulio Tavares, em uma competição promovida no Orkut que em breve deverá dar origem a uma coletânea. Qual a importância desse tipo de incentivo para um autor iniciante?
Acho que para chegar ao ponto de um autor iniciante ser premiado num concurso de contos qualquer que se pretenda sério, é necessário que ele já tenha queimado uma série de etapas anteriores. Ter escrito bastante para evoluir tecnicamente, poder dizer que desenvolveu um estilo próprio. Ter sublimado aquilo a que chamamos de talento (desde que ele exista nessa pessoa) e tê-lo transformado em ferramenta constante e não apenas efêmera e ocasional. Depois de tudo isso, um prêmio num concurso de contos é apenas a ratificação de um trabalho árduo. O verdadeiro incentivo não está nos prêmios nem nos concursos. Ele está à nossa volta. Em nós mesmos. Naquilo em que acreditamos. Naquilo que queremos para nós e para as pessoas que amamos.
Há alguma diferença marcante entre seu processo de elaboração de um romance e o de um conto? Poderia descrever como é sua preparação no momento em que resolve criar alguma história?
Meu processo criativo é, de certa forma, entrópico. Não há, na maioria das vezes, uma elaboração antecipada. Quanto muito uma idéia básica. Eu me sento para escrever e deixo o texto fluir. É quase mediúnico. Síndrome de Cérbero recebeu de mim uma atenção rasteira quanto à linha geral de raciocínio que nortearia o trabalho. Resolvi o nome dos personagens, decidi que o filho tentaria salvar o pai sucessivas vezes de um assassinato e o resto foi acontecendo na medida em que escrevia. Eu era um escritor/leitor privilegiado. Conto ou romance, ambos sofrem o mesmo processo. Posso sentar, respirar fundo diante do editor de texto e começar a batucar o teclado. Colocar palavras a esmo, deixar que elas se sucedam e formem linhas, orações, páginas inteiras. Em 90% das vezes fico satisfeito com o trabalho. Ultimamente tenho permitido que a inspiração me atinja, em vez de simplesmente sentar e escrever. Deixo a mente aberta até que uma idéia surja e brilhe. Devo ter um anjo da guarda literato que me sopra as idéias, talvez até um anjo familiar já que meu tio-avô Zsigmond Moricz foi um dos escritores mais importantes da Hungria no século passado (rsrs).
Aproveitando da sua experiência profissional como publicitário, você poderia sugerir alguma estratégia para popularizar a ficção científica entre o público brasileiro? O que está faltando para atingir maiores mercados consumidores para o gênero?
Essa questão me lembra um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou a cobra Ouroboros. Não há jornalismo literário especializado no país, o que dizer então em relação à literatura de gênero. Por outro lado, não temos um gênero especializado no país, que dirá um jornalismo que o respeite. O que quero dizer é que faltam obras verdadeiramente respeitáveis, que chamem a atenção pela inequívoca qualidade. Trabalhos que, pela virtude técnica, poderiam lutar ombro a ombro com a literatura mainstream. Trabalhos que valorizem não apenas uma boa idéia, mas também o poder narrativo.
Indo direto ao ponto, precisamos primeiro produzir obras de inegável qualidade para depois reclamar a falta de atenção da mídia. Claro que campanhas publicitárias ajudariam, mas qual editora investiria num autor brasileiro de futuro ignorado? Já é uma luta conseguir uma que aceite nos publicar, convencê-las a nos bancar publicitariamente é quase uma alucinação. Não resta alternativa senão usar e abusar dos recursos que a internet nos fornece. Divulgar nossos trabalhos e nomes em blogs, comunidades, sites diversos, explorar ferramentas como o Youtube. E contar com a sorte. Ela às vezes dá as caras. Temos que estar atentos para agarrá-la nessa hora.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
O retorno do príncipe
Pode parecer bizarro para a maioria das pessoas dizer que uma das séries cinematográficas mais identificadas com a ficção científica não é classificada como tal pelos críticos mais puristas. Para boa parte dos especialistas, faltaria às duas trilogias de Guerra nas estrelas especifidades para inclui-las naquela classificação. Faltaria, basicamente, ciência, a busca pelo conhecimento para sustentar as proezas tecnológicas imaginadas nos anos 70. O argumento é que todo o cenário espacial pode ser substituído por equivalentes low tech sem causar prejuízo à epopéia dos Skywalker. Algo que a série de livros iniciada com Eragon – que até já foi adaptado para o cinema – de autoria do jovem Christopher Paolini, parece tentar provar, ao trocar os sabres de luz por espadas comuns, naves por dragões e ainda assim manter quase intocado o núcleo da saga jedi. Segundo esse ponto de vista, mesmo sendo sinônimo de FC para milhões de fãs, a obra mais famosa de George Lucas deveria ser etiquetada como fantasia tecnológica, e seria mais aparentada dos escritos de J.R.R Tolkien que dos textos de H.G. Wells. Sempre que a questão é levantada na presença, física ou virtual, de cultuadores de FC, mobiliza opiniões entusiasmadas. Desde o final de 2007, esse tão controverso gênero fronteiriço ganhou um novo representante literário para alimentar mais discussões: Hegemonia – O herdeiro de Basten, livro escrito por Clinton Davisson e lançado pela editora Arte e Cultura.
Apesar de o nome do autor não dar pistas – ele foi batizado em homenagem a um físico americano vencendor do prêmio Nobel –, trata-se, sim, de uma obra nacional. Davisson nasceu em Volta Redonda, formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, de Minas Gerais, e voltou ao estado do Rio de Janeiro, mais exatamente à cidade de Macaé, onde trabalha como jornalista e cartunista. Ele já havia se aventurado na FC em 1999, ao lançar um livro que misturava futebol e futurismo, Fáfia – A copa do mundo de 2022, mesma proposta da coletânea Outras copas, outros mundos publicada um ano antes. Mas Hegemonia é uma aposta mais ambiciosa. A idéia básica acompanha o autor há mais de 30 anos, desde que tinha apenas cinco anos de idade, e, segundo informaçõe nos textos de apresentação da obra, a produção do texto consumiu sete anos: no ano 2000, uma versão prévia da trama ficou em terceiro lugar no concurso promovido por uma revista especializada no gênero, a Sci Fi News. Todo esse trabalho foi feito para estruturar o livro que se pretende o primeiro não de uma, mas de duas trilogias – e essa é apenas mais uma semelhança com aquela história ocorrida há muito tempo, em uma galáxia muito distante.
Já que estamos voltando no tempo, vamos dar uma recuada de meio milênio para entender o título da obra. A história começou com o filósfo italiano Nicolau Maquiavel, em 1513. Após ter servido como secretário de estado em uma experiência republicana em sua cidade natal, Florença, o pensador foi expulso da região quando os Médici retomaram o governo. No exílio, ele escreveu sua obra mais famosa, O príncipe, um texto marcado pelo pragmatismo que dá conselhos a um soberano hipotético sobre as reais condições por trás da conquista e da manutenção do poder. Mesmo país, quatro séculos depois, alguns dos conceitos maquiavélicos foram atualizados por outro filósofo, Antonio Gramsci, nascido na Sardenha. Fundador do Partido Comunista Italiano em 1921, apenas cinco anos mais tarde ele acabou sendo encarcerado pelo governo fascista que tomou conta da Itália. Na cadeia, foram produzidas suas teses mais conhecidas, postumamente reunidas nos Cadernos do cárcere, entre elas as que davam a receita para um novo ente alcançar o poder: o “moderno príncipe”. A diferença básica entre as idéias de um pensador e outro é que o florentino falava a uma pessoa física; já o sardo imaginava um organismo coletivo que deveria garantir as condições ideais de controle social, ou seja, da conquista da hegemonia. “A hegemonia é a capacidade de um grupo social de assumir a direção intelectual e moral sobre a sociedade, sua capacidade de construir em torno de seu projeto um novo sistema de alianças sociais, um novo bloco hitórico”, esse é um conceito gramsciano citado logo no início do livro nacional.
O escritor fluminense criou sua obra entre esses dois pólos, o dos soberanos de fato e o de uma estrutura coletiva, ambos buscando manter a direção intelectual e moral de suas sociedades. O ente coletivo, o “novo príncipe”, é representado por nada menos que um planeta inteiro, Dison, um mundo cercado por uma concha que o torna inexpugnável. Seus habitantes se denominam simplesmente de a Hegemonia e, de fato, assumem o controle de toda uma galáxia. O poderio bélico e cultural dos disonianos é fortíssimo, porém é possível perceber que se trata de um império atravessando o período de decadência, com vários de seus cidadãos se alienando da vida real em busca fugas na realidade virtual, por exemplo. Apesar de toda a influência que possui, a Hegemonia atual parece ser apenas uma sombra do que foi a geração que fundou tal império em tempos antigos; uma casta de seres que, literalmente, tinha o poder de criar mundos. Não apenas Dison como os outros quatro planetas do sistema solar em que se passa a história foram construídos por esses misteriosos fundadores. Isso inclui Elôh, o mundo do protagonista do livro, Ron Ger Schowlen, um príncipe na tradição maquiavélica do termo.
Ron, o herdeiro do subtítulo do livro, passou dez anos naquela capital do império se preparando para se tornar um verdadeiro cidadão de Dison. Uma grande frustação o afasta desses planos e o faz voltar àquele planeta periférico, mais especificamente ao reino de Basten, governado por seu irmão bem mais velho, Shodan. A história do livro é narrada pelos pensamentos do príncipe, gravados em um equipamento acoplado a uma poderosa armadura de combate que é o equipamento padrão entre os disonianos, a derma. Desde o início percebemos que isso não é sinônimo de uma versão isenta dos fatos, já que o rapaz tem a possibilidade de editar a gravação de tais memórias, cortando trechos indesejados, por exemplo. Mesmo assim, o registro pessoal, e um tanto improvisado, se torna a base para historiadores de um futuro distante analisarem os fatos que estariam por provocar uma verdadeira revolução no sistema da Hegemonia.
De início, os registros dão conta do tédio do herdeiro na volta ao lar – uma cidade gelada habitada por humanóides, assim como ele próprio, totalmente albinos – e de uma confusa e mal resolvida relação com o seu casal de irmãos. A situação muda quando surge em Basten um grupo de gelfos, pequenos seres marsupiais, pedindo auxílio para defender sua distante vila do cerco de dragões. Sim, dragões, do tipo que voam, cospem fogo e ainda por cima falam – existe até mesmo um dicionário do dialeto das criaturas nos apêndices do livro. A partir daí, Hegemonia torna-se uma história clássica de jornada e de como ela vai modificar o protagonista, jogando por terra vários de suas idéias pré-concebidas. Como a tecnologia dos planetas periféricos é muito inferior à de Dison, as enormes distâncias do planeto Elôh são vencidas lentamente, com o auxílio de enormes, mas comparativamente rudimentares, barcos e carros de combate. Ron tem assim a oportunidade de analisar com ceticismo científico a bizarra geografia de seu mundo natal e os costumes dos vários seres que o habitam, desde guerreiros anfíbios até burocráticos insetóides. Essa lenta construção de cenário e de personagens é o melhor do livro. A narrativa de Davisson deixa o leitor tão envolvido nos diferentes aspectos sociais, religiosos e culturais daqueles povos a ponto de mal se perceber que é apenas na metade da obra, mais precisamente na página 129, em que ocorre a primeira cena de ação da história. É quando Ron Ger faz uso das lâminas de prótons, armamento embutido nos antebraços de sua armadura, um cruzamento entre os sabres de luz dos cavaleiros jedis e as garras de adamantium do mutante Wolverine.
Deste ponto em diante, acaba a fase picaresca e o modo aventureiro passa a ser dominante. O embate entre os gelfos, auxiliados pelos guerreiros comandados por Ron e Shodan, contra a raça dos beligerantes dragões é sangrenta e acarreta várias baixas de ambos os lados do front. Na maior parte das vezes, esta segunda metade do livro consegue manter qualidade semelhante à primeira, pois as descrições dos armamentos e as estratégias adotadas são vívidas o suficiente para manter o interesse. É só na última missão, algo anunciado como sendo uma tarefa muito mais difícil que todas as desventuras anteriores, em que o ritmo cai. Em pouco mais de 20 páginas, está tudo solucionado, com um desfecho um tanto deus ex machina que pode deixar um sabor anticlimático. Ainda mais se o trecho comprimido entre as páginas 247 e 259 for comparado com o cuidado com que o escritor vinha conduzindo a trama até aquele momento.
Como não poderia deixar de ocorrer numa publicação de forte inspiração maquiavélico-gramsciana, antes de chegar ao fim dos combates, vamos perceber que há muito de manipulação e dissimulação no conflito. O melhor é que o autor não força a mão em didatismo ou pedantismo ao se utilizar de tais conceitos. Clinton Davisson consegue em Hegemonia o raro feito de produzir uma obra que, ao mesmo, tempo diverte o leitor, com uma história honesta e eficiente, e ainda explora temas profundos, que, infelizmente, não costumam ser matéria-prima para o entretenimento de massa. E ele prova que só não o é por falta de vontade de outros criadores, o casamento pode ser feito, sim, de maneira muito mais simples que sonha nossa vã filosofia. Não é preciso, e talvez nem mesmo seja desejável, que o leitor seja um especialista em ciências políticas ou um físico teórico para se divertir com a linguagem simples e com todas as subtramas do livro. É bem verdade que de um cartunista seria de se esperar uma dose maior de humor no texto, o que aproximaria o livro nacional de obras como as séries Discworld e O guia do mochileiro da galáxia, respectivamente de Terry Pratchett e de Douglas Adams. Talvez, passado o peso da estréia da saga com Hegemonia – O herdeiro de Bastem, o autor se solte mais nos próximos cinco volumes previstos.
Mas há outros detalhes ainda mais urgentes para se resolver nos próximos capítulos. A edição do primeiro livro certamente merece elogios, a capa, por exemplo, de autoria do ilustrador, quadrinista e escritor Osmarco Valladão, deve ser a mais bonita já produzida para uma obra nacional de FC. Vai ser muito bom ver outros trabalhos dele estampando as demais edições da série. Porém, na parte de revisão de texto, a Editora Arte e Cultura precisa melhorar bastante. Ao longo do texto há vários lapsos que poderiam ser evitados, como hífens ausentes, como em “bem vindo” na página 38, ou sobrando, “anti-matéria”, página 248; e expressões truncadas e redundantes, a exemplo de “teorias variadas variando”, da página 205, ou “a resposta para a pergunta (...) não foi respondida”, na página 249. Substituir a fonte do texto também poderia ser uma boa idéia, a utilizada neste livro é bastante carregada, parece que todas as páginas foram escritas em negrito, o que, às vezes, torna a leitura um tanto desagradável.
Nos apêndices do livro, além daquele já comentado dicionário da língua dos dragões existe um interessante glossário para ajudar o leitor a entender vários dos termos exóticos empregados ao longo do texto. A questão é que se pode notar algumas ausências nos verbetes. Um deles é referente à raça de uma das personagens mais interessantes do livro, a falastrona capitã Marla Trillina: não aparece naqueles textos detalhes sobre os merfolks, seres anfíbios de grande importância para os eventos narrados neste primeiro volume. Por outro lado, há entradas que dizem respeito a acontecimentos que só serão vistos com o desenrolar da dupla trilogia. Curiosamente, isso torna parte do texto perigosa para quem não gosta de ter contato com spoilers. Caso você se enquadre neste grupo, faria bem em evitar os termos “Brubraker”, “Brian Brubraker” e “Drallak”. Considere-se avisado.
E é só com o desenrolar da saga que poderemos avaliar se o autor vai dar conta de desenvolver todas as pontas deixadas soltas no capítulo inicial. Ainda há muito o que se responder, como a origem de alguns nomes de personagens, de deuses, de regiões, de conceitos teóricos e até de objetos que são muito próximos a nós para surgirem, sem explicação, em um universo aparentemente tão distante e futurista. Será nesses livros também que veremos se o escritor fluminense vencerá o desafio de cruzar a fronteira dos gêneros da FC e da fantasia, da ciência e da magia, e assim fazer justiça às palavras do veterano escritor Jorge Luiz Calife, que assina o prefácio da obra: “Clinton Davisson consegue uma união perfeita entre a ficção científica hard e a espada e magia. Se fosse a obra de um autor norte-americano ou europeu, Hegemonia – O herdeiro de Bastem já seria uma realização notável. Aqui entre nós, enfrentando as dificuldades que todo autor brasileiro enfrenta, esta obra é quase um milagre a ser celebrado”. A se conferir.
Serviço: O livro custa R$ 42,90 nas livrarias Cultura e Saraiva, tanto nas respectivas lojas de todo o Brasil, quanto on-line. Mas a livraria Antígona on-line ( www.antigonalivraria.com.br )está com preço promocional a R$ 30.
Um trailer do livro pode ser visto em
http://www.youtube.com/watch?v=cZUKEkn9avg
Apesar de o nome do autor não dar pistas – ele foi batizado em homenagem a um físico americano vencendor do prêmio Nobel –, trata-se, sim, de uma obra nacional. Davisson nasceu em Volta Redonda, formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, de Minas Gerais, e voltou ao estado do Rio de Janeiro, mais exatamente à cidade de Macaé, onde trabalha como jornalista e cartunista. Ele já havia se aventurado na FC em 1999, ao lançar um livro que misturava futebol e futurismo, Fáfia – A copa do mundo de 2022, mesma proposta da coletânea Outras copas, outros mundos publicada um ano antes. Mas Hegemonia é uma aposta mais ambiciosa. A idéia básica acompanha o autor há mais de 30 anos, desde que tinha apenas cinco anos de idade, e, segundo informaçõe nos textos de apresentação da obra, a produção do texto consumiu sete anos: no ano 2000, uma versão prévia da trama ficou em terceiro lugar no concurso promovido por uma revista especializada no gênero, a Sci Fi News. Todo esse trabalho foi feito para estruturar o livro que se pretende o primeiro não de uma, mas de duas trilogias – e essa é apenas mais uma semelhança com aquela história ocorrida há muito tempo, em uma galáxia muito distante.
Já que estamos voltando no tempo, vamos dar uma recuada de meio milênio para entender o título da obra. A história começou com o filósfo italiano Nicolau Maquiavel, em 1513. Após ter servido como secretário de estado em uma experiência republicana em sua cidade natal, Florença, o pensador foi expulso da região quando os Médici retomaram o governo. No exílio, ele escreveu sua obra mais famosa, O príncipe, um texto marcado pelo pragmatismo que dá conselhos a um soberano hipotético sobre as reais condições por trás da conquista e da manutenção do poder. Mesmo país, quatro séculos depois, alguns dos conceitos maquiavélicos foram atualizados por outro filósofo, Antonio Gramsci, nascido na Sardenha. Fundador do Partido Comunista Italiano em 1921, apenas cinco anos mais tarde ele acabou sendo encarcerado pelo governo fascista que tomou conta da Itália. Na cadeia, foram produzidas suas teses mais conhecidas, postumamente reunidas nos Cadernos do cárcere, entre elas as que davam a receita para um novo ente alcançar o poder: o “moderno príncipe”. A diferença básica entre as idéias de um pensador e outro é que o florentino falava a uma pessoa física; já o sardo imaginava um organismo coletivo que deveria garantir as condições ideais de controle social, ou seja, da conquista da hegemonia. “A hegemonia é a capacidade de um grupo social de assumir a direção intelectual e moral sobre a sociedade, sua capacidade de construir em torno de seu projeto um novo sistema de alianças sociais, um novo bloco hitórico”, esse é um conceito gramsciano citado logo no início do livro nacional.
O escritor fluminense criou sua obra entre esses dois pólos, o dos soberanos de fato e o de uma estrutura coletiva, ambos buscando manter a direção intelectual e moral de suas sociedades. O ente coletivo, o “novo príncipe”, é representado por nada menos que um planeta inteiro, Dison, um mundo cercado por uma concha que o torna inexpugnável. Seus habitantes se denominam simplesmente de a Hegemonia e, de fato, assumem o controle de toda uma galáxia. O poderio bélico e cultural dos disonianos é fortíssimo, porém é possível perceber que se trata de um império atravessando o período de decadência, com vários de seus cidadãos se alienando da vida real em busca fugas na realidade virtual, por exemplo. Apesar de toda a influência que possui, a Hegemonia atual parece ser apenas uma sombra do que foi a geração que fundou tal império em tempos antigos; uma casta de seres que, literalmente, tinha o poder de criar mundos. Não apenas Dison como os outros quatro planetas do sistema solar em que se passa a história foram construídos por esses misteriosos fundadores. Isso inclui Elôh, o mundo do protagonista do livro, Ron Ger Schowlen, um príncipe na tradição maquiavélica do termo.
Ron, o herdeiro do subtítulo do livro, passou dez anos naquela capital do império se preparando para se tornar um verdadeiro cidadão de Dison. Uma grande frustação o afasta desses planos e o faz voltar àquele planeta periférico, mais especificamente ao reino de Basten, governado por seu irmão bem mais velho, Shodan. A história do livro é narrada pelos pensamentos do príncipe, gravados em um equipamento acoplado a uma poderosa armadura de combate que é o equipamento padrão entre os disonianos, a derma. Desde o início percebemos que isso não é sinônimo de uma versão isenta dos fatos, já que o rapaz tem a possibilidade de editar a gravação de tais memórias, cortando trechos indesejados, por exemplo. Mesmo assim, o registro pessoal, e um tanto improvisado, se torna a base para historiadores de um futuro distante analisarem os fatos que estariam por provocar uma verdadeira revolução no sistema da Hegemonia.
De início, os registros dão conta do tédio do herdeiro na volta ao lar – uma cidade gelada habitada por humanóides, assim como ele próprio, totalmente albinos – e de uma confusa e mal resolvida relação com o seu casal de irmãos. A situação muda quando surge em Basten um grupo de gelfos, pequenos seres marsupiais, pedindo auxílio para defender sua distante vila do cerco de dragões. Sim, dragões, do tipo que voam, cospem fogo e ainda por cima falam – existe até mesmo um dicionário do dialeto das criaturas nos apêndices do livro. A partir daí, Hegemonia torna-se uma história clássica de jornada e de como ela vai modificar o protagonista, jogando por terra vários de suas idéias pré-concebidas. Como a tecnologia dos planetas periféricos é muito inferior à de Dison, as enormes distâncias do planeto Elôh são vencidas lentamente, com o auxílio de enormes, mas comparativamente rudimentares, barcos e carros de combate. Ron tem assim a oportunidade de analisar com ceticismo científico a bizarra geografia de seu mundo natal e os costumes dos vários seres que o habitam, desde guerreiros anfíbios até burocráticos insetóides. Essa lenta construção de cenário e de personagens é o melhor do livro. A narrativa de Davisson deixa o leitor tão envolvido nos diferentes aspectos sociais, religiosos e culturais daqueles povos a ponto de mal se perceber que é apenas na metade da obra, mais precisamente na página 129, em que ocorre a primeira cena de ação da história. É quando Ron Ger faz uso das lâminas de prótons, armamento embutido nos antebraços de sua armadura, um cruzamento entre os sabres de luz dos cavaleiros jedis e as garras de adamantium do mutante Wolverine.
Deste ponto em diante, acaba a fase picaresca e o modo aventureiro passa a ser dominante. O embate entre os gelfos, auxiliados pelos guerreiros comandados por Ron e Shodan, contra a raça dos beligerantes dragões é sangrenta e acarreta várias baixas de ambos os lados do front. Na maior parte das vezes, esta segunda metade do livro consegue manter qualidade semelhante à primeira, pois as descrições dos armamentos e as estratégias adotadas são vívidas o suficiente para manter o interesse. É só na última missão, algo anunciado como sendo uma tarefa muito mais difícil que todas as desventuras anteriores, em que o ritmo cai. Em pouco mais de 20 páginas, está tudo solucionado, com um desfecho um tanto deus ex machina que pode deixar um sabor anticlimático. Ainda mais se o trecho comprimido entre as páginas 247 e 259 for comparado com o cuidado com que o escritor vinha conduzindo a trama até aquele momento.
Como não poderia deixar de ocorrer numa publicação de forte inspiração maquiavélico-gramsciana, antes de chegar ao fim dos combates, vamos perceber que há muito de manipulação e dissimulação no conflito. O melhor é que o autor não força a mão em didatismo ou pedantismo ao se utilizar de tais conceitos. Clinton Davisson consegue em Hegemonia o raro feito de produzir uma obra que, ao mesmo, tempo diverte o leitor, com uma história honesta e eficiente, e ainda explora temas profundos, que, infelizmente, não costumam ser matéria-prima para o entretenimento de massa. E ele prova que só não o é por falta de vontade de outros criadores, o casamento pode ser feito, sim, de maneira muito mais simples que sonha nossa vã filosofia. Não é preciso, e talvez nem mesmo seja desejável, que o leitor seja um especialista em ciências políticas ou um físico teórico para se divertir com a linguagem simples e com todas as subtramas do livro. É bem verdade que de um cartunista seria de se esperar uma dose maior de humor no texto, o que aproximaria o livro nacional de obras como as séries Discworld e O guia do mochileiro da galáxia, respectivamente de Terry Pratchett e de Douglas Adams. Talvez, passado o peso da estréia da saga com Hegemonia – O herdeiro de Bastem, o autor se solte mais nos próximos cinco volumes previstos.
Mas há outros detalhes ainda mais urgentes para se resolver nos próximos capítulos. A edição do primeiro livro certamente merece elogios, a capa, por exemplo, de autoria do ilustrador, quadrinista e escritor Osmarco Valladão, deve ser a mais bonita já produzida para uma obra nacional de FC. Vai ser muito bom ver outros trabalhos dele estampando as demais edições da série. Porém, na parte de revisão de texto, a Editora Arte e Cultura precisa melhorar bastante. Ao longo do texto há vários lapsos que poderiam ser evitados, como hífens ausentes, como em “bem vindo” na página 38, ou sobrando, “anti-matéria”, página 248; e expressões truncadas e redundantes, a exemplo de “teorias variadas variando”, da página 205, ou “a resposta para a pergunta (...) não foi respondida”, na página 249. Substituir a fonte do texto também poderia ser uma boa idéia, a utilizada neste livro é bastante carregada, parece que todas as páginas foram escritas em negrito, o que, às vezes, torna a leitura um tanto desagradável.
Nos apêndices do livro, além daquele já comentado dicionário da língua dos dragões existe um interessante glossário para ajudar o leitor a entender vários dos termos exóticos empregados ao longo do texto. A questão é que se pode notar algumas ausências nos verbetes. Um deles é referente à raça de uma das personagens mais interessantes do livro, a falastrona capitã Marla Trillina: não aparece naqueles textos detalhes sobre os merfolks, seres anfíbios de grande importância para os eventos narrados neste primeiro volume. Por outro lado, há entradas que dizem respeito a acontecimentos que só serão vistos com o desenrolar da dupla trilogia. Curiosamente, isso torna parte do texto perigosa para quem não gosta de ter contato com spoilers. Caso você se enquadre neste grupo, faria bem em evitar os termos “Brubraker”, “Brian Brubraker” e “Drallak”. Considere-se avisado.
E é só com o desenrolar da saga que poderemos avaliar se o autor vai dar conta de desenvolver todas as pontas deixadas soltas no capítulo inicial. Ainda há muito o que se responder, como a origem de alguns nomes de personagens, de deuses, de regiões, de conceitos teóricos e até de objetos que são muito próximos a nós para surgirem, sem explicação, em um universo aparentemente tão distante e futurista. Será nesses livros também que veremos se o escritor fluminense vencerá o desafio de cruzar a fronteira dos gêneros da FC e da fantasia, da ciência e da magia, e assim fazer justiça às palavras do veterano escritor Jorge Luiz Calife, que assina o prefácio da obra: “Clinton Davisson consegue uma união perfeita entre a ficção científica hard e a espada e magia. Se fosse a obra de um autor norte-americano ou europeu, Hegemonia – O herdeiro de Bastem já seria uma realização notável. Aqui entre nós, enfrentando as dificuldades que todo autor brasileiro enfrenta, esta obra é quase um milagre a ser celebrado”. A se conferir.
Serviço: O livro custa R$ 42,90 nas livrarias Cultura e Saraiva, tanto nas respectivas lojas de todo o Brasil, quanto on-line. Mas a livraria Antígona on-line ( www.antigonalivraria.com.br )está com preço promocional a R$ 30.
Um trailer do livro pode ser visto em
http://www.youtube.com/watch?v=cZUKEkn9avg
O efeito orégano
Uma brincadeira com bonecos da linha Playmobil acabou inspirando, 30 anos depois, a criação de uma das mais promissoras séries recentes da ficção científica nacional. Em seu DNA, Hegemonia – O herdeiro de Basten, primeiro capítulo de uma série de seis livros, carrega ainda as experiências que seu autor teve ao testemunhar à repressão a movimentos grevistas em sua cidade natal, Volta Redonda, as contradições religiosas que envolviam a família e vizinhos, além de uma enorme variedade de filmes, livros e seriados de TV consumidos ao longo destas décadas. Na entrevista a seguir, concedida a partir do cyberpunk município fluminense de Macaé, onde ele trabalha como jornalista, o escritor compara a ótima recepção de sua última publicação com a do livro anterior, também de FC, Fáfia; dá informações exclusivas sobre o futuro da saga; e ainda explica sua interessante teoria denominada de “efeito orégano”. Com vocês, o xará do físico que comprovou o comportamento de onda dos elétrons, Clinton Davisson.
Apesar de trabalhar cotidianamente com a não-ficção, você já lançou dois livros de ficção científica. Além do Fáfia e do recente Hegemonia, já foram produzidos muitos outros textos literários, como contos ou roteiros?
Sim, na área de literatura, eu já havia escrito um romance aos 14 anos, em 1985, chamado Armadilha espacial. Tenho muitos contos, crônicas que publico no jornal e fiz muito jornalismo literário em Macaé. Já escrevi peças de teatro em Volta Redonda nos anos 80. Eu fazia parte de um grupo da prefeitura da cidade e a gente encenava as peças no meio da rua, na inauguração de praças, etc. Também sou músico, fui vocalista de algumas bandas em Juiz de Fora e compus várias músicas. Ultimamente tenho investido em roteiros e estou trabalhando com um projeto de uma produtora de São Paulo sobre um curta-metragem sobre viagem no tempo. Ao mesmo tempo, por mera coincidência, estou levantando fundos para outro curta, em Macaé, também sobre viagem no tempo.
Em um dos textos de apresentação de seu último livro, informa-se que a idéia por trás da saga já estava embrionariamente na sua imaginação desde os cinco anos de idade. Poderia fazer um resumo desses mais de 30 anos de planejamento, de como foi a evolução da trama até ela começar a incluir conceitos de teoria política, ciências exatas e sociais?
Pois é, começou antes mesmo de aprender a ler, com uma brincadeira de Playmobil com meu irmão. A gente brincava de super-herói, de Guerra nas estrelas, essas coisas. Só que, como ele era o irmão mais novo, eu, como todo bom tirano, não deixava que ele fosse o Han Solo, o Luke, nem o Darth Vader. Como ele também não queria ser a Princesa Leia (risos), eu inventava personagens para ele. Com o tempo, a gente acabou abandonando o Han Solo, o Luke e o Darth Vader, para ficar com os novos personagens. Um deles era o Ron, o protagonista deste primeiro livro. Com certeza Ron nasceu em 1979, como um velho durão, mas também paizão. Muito inspirado no personagem Jock Ewing na telessérie Dallas, também com uma pitada daqueles mestres de filmes de kung fu. Daí os cabelos brancos e o sobrenome Schowlen, que é um anagrama para Shaolin. Como vê, até por causa da minha idade na época, a evolução se deu através de uma linha do imaginário puramente infantil. Por exemplo, quando eu assisti à série Cosmos do Carl Sagan em 1980, eu tinha nove anos e escutei, pela primeira vez, falar da esfera Dyson. Então pensei: “Nossa, isso é muito maior do que a estrela da morte!”. A partir daí, a esfera Dyson entrou na brincadeira. Com o tempo, tudo que eu via, estudava, assistia, lia, escutava, era assimilado pelo universo disoniano. (A razão de ser esfera Dison, e não Dyson no livro, tem uma razão que eu não vou contar). Com o passar dos anos, a história foi amadurecendo e ganhando contornos mais complexos à medida que eu ia absorvendo coisas mais diversificadas. O lado infantil foi dando espaço a algo mais profundo. Mas a idéia de usar ciências sociais, como política, sociologia, teologia e antropologia, na história também veio bem cedo. Meu vizinho, por exemplo, era evangélico e veio uma vez me explicar que meus pais iriam para o inferno porque eram kardecistas e crioulos. Eu tinha sete anos e fui perguntar no centro kardecista sobre o assunto e aí me explicaram que quem ia para o inferno eram os macumbeiros (era como eles se referiam às religiões africanas). Chegou a um ponto em que fui falar com os tais macumbeiros e eles disseram que eram os católicos que iriam para o inferno. Essa discussão está presente neste primeiro livro. Até a questão da política também surgiu na infância, porque cresci em Volta Redonda de frente para a Companhia Siderúrgica Nacional - CSN. Lembro que, com menos de 10 anos de idade, eu assistia a verdadeiras guerras em frente à minha casa, por causa das greves. Em tempos de ditadura, greve na CSN tinha tiroteio, quebradeira, tudo. Meu contato com política começou assim, na prática antes dos livros. Talvez por isso, nunca me deixei iludir com ideologias. Jamais vou escrever um livro fazendo apologia ao capitalismo, anarquismo ou ao comunismo, o que é uma pena, porque dá dinheiro (risos). Desde muito cedo, eu aprendi que o ser humano chegou a um alto nível tecnológico no que se refere às ciências exatas, mas ainda está engatinhando em ciências sociais. E não entendo porque existem tão poucas obras explorando isso. E algumas o fazem de maneira assustadoramente ingênua, criando vilões capitalistas ou comunistas. Ora, pensar em política e nos problemas sociais é a grande pauta do século XXI. Eu hoje vivo em Macaé onde se tem tecnologia para se tirar petróleo de 3 mil metros de profundidade, mas falta água na cidade, temos problemas de saneamento básico, moradia e está na lista das mais violentas do Brasil e, consequentemente, do mundo. Macaé é cyberpunk! (risos)
Em 2000, logo após a publicação de seu livro de estréia, uma versão preliminar de Hegemonia venceu um concurso promovido por uma revista especializada em FC. Qual foi a importância de tal incentivo para a concretização do projeto?
Bom, eu contava as histórias também desde que tinha uns 10 anos para alguns amigos da escola. Mas foi só depois do prêmio que eu percebi que este universo tinha um potencial forte. O conto foi escrito às pressas, cheio de escorregões e, ainda assim, conseguiu se destacar em um concurso em nível nacional. Não me iludi pensando que era um escritor maravilhoso, acho que tenho um longo caminho pela frente, mas eu tive a confirmação de que esse universo tinha potencial para mexer com as outras pessoas e não era apenas uma loucura particular minha e do meu irmão. A partir daí, passei a mostrar trechos e histórias para outras pessoas com mais confiança.
É possível comparar a aceitação de seus dois livros? Como foi o impacto inicial de Fáfia, em 1999, e o de Hegemonia agora? O que mudou entre um ponto e outro em relação à sua experiência como escritor?
A aceitação do Fáfia tem dois lados extremos. De um lado, eu estava numa faculdade federal, e, lá dentro, o Fáfia foi recebido com entusiasmo por alunos e professores. Por quê? Porque é um livro extremamente pessoal que tem um lado metalingüístico forte e perceberam isso lá dentro. Do outro extremo, a casca dele, mistura futebol, ficção científica e muito humor. Era muito leve, muito Sessão da Tarde. Então o aspecto comercial não funcionou. Algumas pessoas vieram me falar que ficção científica brasileira tinha que ser séria, não podia brincar porque carecia de credibilidade. Mas, talvez por isso, tenha tão pouco humor em Hegemonia. Só depois que o Jorge Calife fez uma resenha elogiando o Fáfia há uns três anos, que perdi um pouco o rótulo de “maluco que escreveu um livro doido”. Agora, a reação com o Hegemonia está sendo ótima. É um livro pessoal também? Sim, mas tive o cuidado de embalar em uma casca mais palatável e o tema é muito mais denso. O livro vem ganhando uns fãs entusiasmados, gente querendo logo a continuação, perguntando se não tem camisa para vender, até pessoas dizendo que tem que virar filme. Mas teve também o que eu chamo de “efeito orégano”. Eu explico: uma vez eu trabalhei como cozinheiro em uma cantina de colégio que não tinha fama muito boa. Logo no primeiro dia, fiz pizza e coloquei o orégano dentro da pizza, como via fazer nas melhores pizzarias. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, não é que vieram vários alunos reclamar, dizendo que a pizza estava sem orégano? Eu então abria a pizza do cara e pegava com a mão o orégano e mostrava. Com o Hegemonia percebi essa desconfiança. Eu coloquei muitos detalhes sutis e deixei muitas pontas soltas para responder durante a trilogia, porque não tem graça entregar o ouro logo de cara. Mas então teve vários amigos, bem intencionados até, me chamando no canto e dizendo: “Cuidado, você esqueceu de colocar essa explicação no livro!”. Eu pergunto: Por que o J.J. Abrams pode deixar toda a primeira temporada de Lost sem responder “O que a Katie fez?” e eu não posso? Mas existe isso no Brasil, às vezes você tem que abrir o livro e mostrar o orégano para mostrar que sabe cozinhar.
Você tem o rumo de todos os próximos cinco livros traçados em sua mente, ou mesmo esboçados no papel – ou na tela do computador? Sabe em detalhes como vai ser a conclusão de sua dupla trilogia ou ainda há trechos em aberto?
Eu costumo dizer que Hegemonia não é uma história e sim uma doença crônica que eu carrego. Eu sei como tudo termina, tenho até biografia de todos os personagens, o desafio para mim não é a história em si, mas como contá-la. Mas claro que há vários trechos em aberto, caso contrário, tiraria a graça de escrever. A personagem Marla Trillina, por exemplo, nasceu só em 2004 e não estava presente no conto original. E sim, tenho uma pilha de cadernos com rabiscos, alguns com mais de 20 anos, a maioria sobreviventes das minhas tentativas frustradas de começar a escrever a história. No computador eu tenho a cronologia de tudo o que vai acontecer. O meu problema sempre foi não saber por onde iniciar a saga, então eu tive essa idéia: ao invés de começar pelo começo, por uma questão de princípios, eu fiz uma prequel (risos). A primeira trilogia está sendo um prelúdio da história original.
Por falar em duas trilogias, é inevitável a comparação entre sua epopéia e a dos filmes de Guerra nas estrelas. Até o lançamento do primeiro livro leva a isso, já que ele foi apresentado ao público durante um evento dedicado aos fãs da série, a Jedicon, que ocorreu em São Paulo no final de 2007. Os filmes de George Lucas são mesmo sua principal referência no gênero? Que outras obras, cinematográficas, televisivas ou literárias, servem de inspiração para seu trabalho?
Eu falo que George Lucas é meu Flamengo. Aquela paixão de criança que não vai morrer. Eu sou daquela categoria de fãs de Guerras nas estrelas que ama a saga mesmo sabendo de todos os defeitos e também dos muitos acertos de George Lucas. Fui um dos “fundadores” do Jedicon e tive a honra de ser o apresentador do primeiro evento em 1999 em São Paulo. Mas acho que há muito tempo deixei Star wars para escanteio como referência principal. De modo algum menosprezando a série, porque, mesmo a nova trilogia, que tanto gostamos de criticar, tem coisas que acho geniais, que poucos perceberam, como a ascensão de Palpatine ao poder, escancarando as falhas na democracia ou a grande sacada de mostrar Anakin tendo que escolher entre dois lados que mentem e tentam manipulá-lo. Como se ele fosse um eleitor tentando descobrir qual dos partidos é o menos pior. Mas acho que minhas maiores referências hoje são literárias. Comecei a ler bem garoto, todos os dias eu ia pegar livros na biblioteca da cidade. Pegava um do Julio Verne, lia em um dia e entregava no outro para pegar o H.G. Wells, depois do Tolkien, do Alexandre Dumas e assim por diante. Me identifico com o Tolkien pelas biografias que li; temos maluquices semelhantes, manias parecidas como criar mundos, línguas, costumes de seres que você nem sabe se vai usar para alguma coisa. Mas acho que o Frank Herbert é uma influência maior, porque ele provou que se podia fazer ficção científica inteligente e eficiente usando elementos de sociologia e política. Fora dessa esfera de ficção científica, tenho como referência o Dostoievski, adoro a maneira como ele cria personagens maravilhosos. O Herman Melville, o Borges, o Guimarães Rosa, a Clarice Lispector, o Machado de Assis, o Douglas Adams. Dos vivos, sou fã da britânica Sue Townsend, pouco conhecida no Brasil, o Stephen King que é uma espécie de Spielberg da literatura, só vão aceitá-lo como genial depois que morrer porque faz um sucesso exagerado. E, principalmente, o Carlos Heitor Cony, que conheci pessoalmente numa aventura entre Rio e Juiz de Fora e que, para mim, é o maior escritor brasileiro vivo. Seu livro de estréia, O ventre, sobre a bizarra história sobre o relacionamento entre dois irmãos e a paixão de ambos pela mesma mulher, narrado em primeira pessoa, é para mim, a maior influência direta a este primeiro Hegemonia.
Como foi o contato inicial com a editora que publicou Hegemonia – O herdeiro de Basten? A vendagem deste primeiro capítulo de sua saga já lhe garantiu o contrato para os próximos lançamentos?
Fiquei sabendo através de uma lista da discussão que a Arte & Cultura estava pretendendo lançar um livro de ficção científica e estava aceitando originais. Mandei três capítulos e fui aprovado uma semana depois. A partir daí, foi uma suadeira para terminar em oito meses o que eu não conseguia concluir há sete anos. Sobre a continuação, sim, as vendas estão boas e eu tenho a sorte de ter, no meu editor, um verdadeiro fã que acredita no sucesso do livro já faz planos para lançar no exterior, fazer HQ e até videogame. Só acho que, por isso mesmo, eu tenho que suar muito, a exemplo do que o André Vianco, por exemplo, fez: correr mesmo atrás do leitor, ir a eventos, livrarias, para que a continuação seja publicada como bom negócio para a editora e não como um risco. Mas, ao que tudo indica, devo publicar a continuação em 2009. A propósito, deixa eu dar um furo de reportagem para você, o segundo livro já tem nome: Hegemonia – Os anéis de fogo. Quem leu o primeiro, já sabe que anéis são esses...
Além de jornalista, você é cartunista. O universo que você criou é muito visual, com naves gigantescas, planetas exóticos e aliens multiformes. Já pensou em adaptar a história para os quadrinhos?
Na verdade, nos quadrinhos que eu faço, Os invasores, há uma participação dos frânios, a raça de insetos da Hegemonia em uma versão bem humorada. Assim como no livro, eles são divididos em duas sub-raças, as mabéias, as baratinhas marrons e os slystacs, verdes. A inspiração veio do tempo em que eu trabalhei na Petrobras onde há essa diferença de classes, os concursados, de crachá verde e os terceirizados, de crachá marrom. Mas, como eu disse, já existe esse projeto da editora de levar o primeiro livro para os quadrinhos. Tive várias conversas sobre o assunto com o Osmarco Valladão, criador da capa do livro, mas queríamos fazer algo com a qualidade comparável a da capa. Para isso, precisaria de, pelo menos, um ano trabalhando intensamente e exclusivamente. Não sei se isso é viável no Brasil.
Seu nome é o mesmo do de um físico americano ganhador do prêmio Nobel nos anos 30. Partindo do pressuposto que isso não é uma coincidência, qual foi a importância desta ciência na sua formação intelectual e qual a sua intimidade com o assunto, já que neste seu livro surgem vários conceitos teóricos próprios da física, como as propriedades de estruturas giga e nanométricas ou ainda a conversão de matéria em energia?
Meu pai é formado em física e dá aulas até hoje em Juiz de Fora. Daí veio esse nome esquisito que eu rejeitei desde pequeno, tanto que “criei” um apelido para mim. Todo mundo da família e os amigos próximos me chamam de “Tato”. Quando eu jogava futebol, estava escrito “Tato” nas minhas costas e não Clinton Davisson que, para mim, é quase um nome artístico. Mas eu herdei do meu pai a paixão pela física e astronomia. Ele tem, até hoje, uma pilha de enciclopédias de ciências; antes de aprender a ler, eu folheava aquelas fotos de foguetes, planetas e achava o máximo. Meu pai também adora ficção científica, só que muito mais para o lado de Star trek. Da minha mãe herdei o amor pela literatura, ela me fez ler o meu primeiro autor nacional, o Luiz Fernando Veríssimo, que é fera. Aliás, sempre me incomodou essa separação entre literatura e ficção científica. Vejo certos autores que se esmeram em conceitos científicos e esquecem de criar personagens que vão além de um cientista que está ali para vomitar conceitos. Se meu pai e minha mãe puderam se casar, a ficção científica também pode casar com a literatura, não é? (risos)
Fora a conclusão da saga da Hegemonia, você tem planos para trabalhar com a FC em outros projetos?
Em ficção científica tenho apenas estes curtas que devem ficar prontos até o fim do ano e o meu projeto de mestrado que envolve ficção científica no cinema dos anos 80. Depois da terceira parte do Hegemonia, vou dar um tempo na FC e engatar um romance que venho rascunhando há um tempo que se chama O moinho de vento sobre a juventude dos anos 80, um projeto bem pessoal e que não vai ter nada de ciência, ou sobrenatural. Os primeiros rascunhos ficaram parecendo uma versão abrasileirada do The body do Stephen King, que deu origem ao filme Conta comigo, por isso achei que precisava amadurecer um pouco antes de retomar. A longo prazo, tenho um projeto de romance histórico sobre a Guerra do Paraguai, também com nada de ficção científica.
Apesar de trabalhar cotidianamente com a não-ficção, você já lançou dois livros de ficção científica. Além do Fáfia e do recente Hegemonia, já foram produzidos muitos outros textos literários, como contos ou roteiros?
Sim, na área de literatura, eu já havia escrito um romance aos 14 anos, em 1985, chamado Armadilha espacial. Tenho muitos contos, crônicas que publico no jornal e fiz muito jornalismo literário em Macaé. Já escrevi peças de teatro em Volta Redonda nos anos 80. Eu fazia parte de um grupo da prefeitura da cidade e a gente encenava as peças no meio da rua, na inauguração de praças, etc. Também sou músico, fui vocalista de algumas bandas em Juiz de Fora e compus várias músicas. Ultimamente tenho investido em roteiros e estou trabalhando com um projeto de uma produtora de São Paulo sobre um curta-metragem sobre viagem no tempo. Ao mesmo tempo, por mera coincidência, estou levantando fundos para outro curta, em Macaé, também sobre viagem no tempo.
Em um dos textos de apresentação de seu último livro, informa-se que a idéia por trás da saga já estava embrionariamente na sua imaginação desde os cinco anos de idade. Poderia fazer um resumo desses mais de 30 anos de planejamento, de como foi a evolução da trama até ela começar a incluir conceitos de teoria política, ciências exatas e sociais?
Pois é, começou antes mesmo de aprender a ler, com uma brincadeira de Playmobil com meu irmão. A gente brincava de super-herói, de Guerra nas estrelas, essas coisas. Só que, como ele era o irmão mais novo, eu, como todo bom tirano, não deixava que ele fosse o Han Solo, o Luke, nem o Darth Vader. Como ele também não queria ser a Princesa Leia (risos), eu inventava personagens para ele. Com o tempo, a gente acabou abandonando o Han Solo, o Luke e o Darth Vader, para ficar com os novos personagens. Um deles era o Ron, o protagonista deste primeiro livro. Com certeza Ron nasceu em 1979, como um velho durão, mas também paizão. Muito inspirado no personagem Jock Ewing na telessérie Dallas, também com uma pitada daqueles mestres de filmes de kung fu. Daí os cabelos brancos e o sobrenome Schowlen, que é um anagrama para Shaolin. Como vê, até por causa da minha idade na época, a evolução se deu através de uma linha do imaginário puramente infantil. Por exemplo, quando eu assisti à série Cosmos do Carl Sagan em 1980, eu tinha nove anos e escutei, pela primeira vez, falar da esfera Dyson. Então pensei: “Nossa, isso é muito maior do que a estrela da morte!”. A partir daí, a esfera Dyson entrou na brincadeira. Com o tempo, tudo que eu via, estudava, assistia, lia, escutava, era assimilado pelo universo disoniano. (A razão de ser esfera Dison, e não Dyson no livro, tem uma razão que eu não vou contar). Com o passar dos anos, a história foi amadurecendo e ganhando contornos mais complexos à medida que eu ia absorvendo coisas mais diversificadas. O lado infantil foi dando espaço a algo mais profundo. Mas a idéia de usar ciências sociais, como política, sociologia, teologia e antropologia, na história também veio bem cedo. Meu vizinho, por exemplo, era evangélico e veio uma vez me explicar que meus pais iriam para o inferno porque eram kardecistas e crioulos. Eu tinha sete anos e fui perguntar no centro kardecista sobre o assunto e aí me explicaram que quem ia para o inferno eram os macumbeiros (era como eles se referiam às religiões africanas). Chegou a um ponto em que fui falar com os tais macumbeiros e eles disseram que eram os católicos que iriam para o inferno. Essa discussão está presente neste primeiro livro. Até a questão da política também surgiu na infância, porque cresci em Volta Redonda de frente para a Companhia Siderúrgica Nacional - CSN. Lembro que, com menos de 10 anos de idade, eu assistia a verdadeiras guerras em frente à minha casa, por causa das greves. Em tempos de ditadura, greve na CSN tinha tiroteio, quebradeira, tudo. Meu contato com política começou assim, na prática antes dos livros. Talvez por isso, nunca me deixei iludir com ideologias. Jamais vou escrever um livro fazendo apologia ao capitalismo, anarquismo ou ao comunismo, o que é uma pena, porque dá dinheiro (risos). Desde muito cedo, eu aprendi que o ser humano chegou a um alto nível tecnológico no que se refere às ciências exatas, mas ainda está engatinhando em ciências sociais. E não entendo porque existem tão poucas obras explorando isso. E algumas o fazem de maneira assustadoramente ingênua, criando vilões capitalistas ou comunistas. Ora, pensar em política e nos problemas sociais é a grande pauta do século XXI. Eu hoje vivo em Macaé onde se tem tecnologia para se tirar petróleo de 3 mil metros de profundidade, mas falta água na cidade, temos problemas de saneamento básico, moradia e está na lista das mais violentas do Brasil e, consequentemente, do mundo. Macaé é cyberpunk! (risos)
Em 2000, logo após a publicação de seu livro de estréia, uma versão preliminar de Hegemonia venceu um concurso promovido por uma revista especializada em FC. Qual foi a importância de tal incentivo para a concretização do projeto?
Bom, eu contava as histórias também desde que tinha uns 10 anos para alguns amigos da escola. Mas foi só depois do prêmio que eu percebi que este universo tinha um potencial forte. O conto foi escrito às pressas, cheio de escorregões e, ainda assim, conseguiu se destacar em um concurso em nível nacional. Não me iludi pensando que era um escritor maravilhoso, acho que tenho um longo caminho pela frente, mas eu tive a confirmação de que esse universo tinha potencial para mexer com as outras pessoas e não era apenas uma loucura particular minha e do meu irmão. A partir daí, passei a mostrar trechos e histórias para outras pessoas com mais confiança.
É possível comparar a aceitação de seus dois livros? Como foi o impacto inicial de Fáfia, em 1999, e o de Hegemonia agora? O que mudou entre um ponto e outro em relação à sua experiência como escritor?
A aceitação do Fáfia tem dois lados extremos. De um lado, eu estava numa faculdade federal, e, lá dentro, o Fáfia foi recebido com entusiasmo por alunos e professores. Por quê? Porque é um livro extremamente pessoal que tem um lado metalingüístico forte e perceberam isso lá dentro. Do outro extremo, a casca dele, mistura futebol, ficção científica e muito humor. Era muito leve, muito Sessão da Tarde. Então o aspecto comercial não funcionou. Algumas pessoas vieram me falar que ficção científica brasileira tinha que ser séria, não podia brincar porque carecia de credibilidade. Mas, talvez por isso, tenha tão pouco humor em Hegemonia. Só depois que o Jorge Calife fez uma resenha elogiando o Fáfia há uns três anos, que perdi um pouco o rótulo de “maluco que escreveu um livro doido”. Agora, a reação com o Hegemonia está sendo ótima. É um livro pessoal também? Sim, mas tive o cuidado de embalar em uma casca mais palatável e o tema é muito mais denso. O livro vem ganhando uns fãs entusiasmados, gente querendo logo a continuação, perguntando se não tem camisa para vender, até pessoas dizendo que tem que virar filme. Mas teve também o que eu chamo de “efeito orégano”. Eu explico: uma vez eu trabalhei como cozinheiro em uma cantina de colégio que não tinha fama muito boa. Logo no primeiro dia, fiz pizza e coloquei o orégano dentro da pizza, como via fazer nas melhores pizzarias. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, não é que vieram vários alunos reclamar, dizendo que a pizza estava sem orégano? Eu então abria a pizza do cara e pegava com a mão o orégano e mostrava. Com o Hegemonia percebi essa desconfiança. Eu coloquei muitos detalhes sutis e deixei muitas pontas soltas para responder durante a trilogia, porque não tem graça entregar o ouro logo de cara. Mas então teve vários amigos, bem intencionados até, me chamando no canto e dizendo: “Cuidado, você esqueceu de colocar essa explicação no livro!”. Eu pergunto: Por que o J.J. Abrams pode deixar toda a primeira temporada de Lost sem responder “O que a Katie fez?” e eu não posso? Mas existe isso no Brasil, às vezes você tem que abrir o livro e mostrar o orégano para mostrar que sabe cozinhar.
Você tem o rumo de todos os próximos cinco livros traçados em sua mente, ou mesmo esboçados no papel – ou na tela do computador? Sabe em detalhes como vai ser a conclusão de sua dupla trilogia ou ainda há trechos em aberto?
Eu costumo dizer que Hegemonia não é uma história e sim uma doença crônica que eu carrego. Eu sei como tudo termina, tenho até biografia de todos os personagens, o desafio para mim não é a história em si, mas como contá-la. Mas claro que há vários trechos em aberto, caso contrário, tiraria a graça de escrever. A personagem Marla Trillina, por exemplo, nasceu só em 2004 e não estava presente no conto original. E sim, tenho uma pilha de cadernos com rabiscos, alguns com mais de 20 anos, a maioria sobreviventes das minhas tentativas frustradas de começar a escrever a história. No computador eu tenho a cronologia de tudo o que vai acontecer. O meu problema sempre foi não saber por onde iniciar a saga, então eu tive essa idéia: ao invés de começar pelo começo, por uma questão de princípios, eu fiz uma prequel (risos). A primeira trilogia está sendo um prelúdio da história original.
Por falar em duas trilogias, é inevitável a comparação entre sua epopéia e a dos filmes de Guerra nas estrelas. Até o lançamento do primeiro livro leva a isso, já que ele foi apresentado ao público durante um evento dedicado aos fãs da série, a Jedicon, que ocorreu em São Paulo no final de 2007. Os filmes de George Lucas são mesmo sua principal referência no gênero? Que outras obras, cinematográficas, televisivas ou literárias, servem de inspiração para seu trabalho?
Eu falo que George Lucas é meu Flamengo. Aquela paixão de criança que não vai morrer. Eu sou daquela categoria de fãs de Guerras nas estrelas que ama a saga mesmo sabendo de todos os defeitos e também dos muitos acertos de George Lucas. Fui um dos “fundadores” do Jedicon e tive a honra de ser o apresentador do primeiro evento em 1999 em São Paulo. Mas acho que há muito tempo deixei Star wars para escanteio como referência principal. De modo algum menosprezando a série, porque, mesmo a nova trilogia, que tanto gostamos de criticar, tem coisas que acho geniais, que poucos perceberam, como a ascensão de Palpatine ao poder, escancarando as falhas na democracia ou a grande sacada de mostrar Anakin tendo que escolher entre dois lados que mentem e tentam manipulá-lo. Como se ele fosse um eleitor tentando descobrir qual dos partidos é o menos pior. Mas acho que minhas maiores referências hoje são literárias. Comecei a ler bem garoto, todos os dias eu ia pegar livros na biblioteca da cidade. Pegava um do Julio Verne, lia em um dia e entregava no outro para pegar o H.G. Wells, depois do Tolkien, do Alexandre Dumas e assim por diante. Me identifico com o Tolkien pelas biografias que li; temos maluquices semelhantes, manias parecidas como criar mundos, línguas, costumes de seres que você nem sabe se vai usar para alguma coisa. Mas acho que o Frank Herbert é uma influência maior, porque ele provou que se podia fazer ficção científica inteligente e eficiente usando elementos de sociologia e política. Fora dessa esfera de ficção científica, tenho como referência o Dostoievski, adoro a maneira como ele cria personagens maravilhosos. O Herman Melville, o Borges, o Guimarães Rosa, a Clarice Lispector, o Machado de Assis, o Douglas Adams. Dos vivos, sou fã da britânica Sue Townsend, pouco conhecida no Brasil, o Stephen King que é uma espécie de Spielberg da literatura, só vão aceitá-lo como genial depois que morrer porque faz um sucesso exagerado. E, principalmente, o Carlos Heitor Cony, que conheci pessoalmente numa aventura entre Rio e Juiz de Fora e que, para mim, é o maior escritor brasileiro vivo. Seu livro de estréia, O ventre, sobre a bizarra história sobre o relacionamento entre dois irmãos e a paixão de ambos pela mesma mulher, narrado em primeira pessoa, é para mim, a maior influência direta a este primeiro Hegemonia.
Como foi o contato inicial com a editora que publicou Hegemonia – O herdeiro de Basten? A vendagem deste primeiro capítulo de sua saga já lhe garantiu o contrato para os próximos lançamentos?
Fiquei sabendo através de uma lista da discussão que a Arte & Cultura estava pretendendo lançar um livro de ficção científica e estava aceitando originais. Mandei três capítulos e fui aprovado uma semana depois. A partir daí, foi uma suadeira para terminar em oito meses o que eu não conseguia concluir há sete anos. Sobre a continuação, sim, as vendas estão boas e eu tenho a sorte de ter, no meu editor, um verdadeiro fã que acredita no sucesso do livro já faz planos para lançar no exterior, fazer HQ e até videogame. Só acho que, por isso mesmo, eu tenho que suar muito, a exemplo do que o André Vianco, por exemplo, fez: correr mesmo atrás do leitor, ir a eventos, livrarias, para que a continuação seja publicada como bom negócio para a editora e não como um risco. Mas, ao que tudo indica, devo publicar a continuação em 2009. A propósito, deixa eu dar um furo de reportagem para você, o segundo livro já tem nome: Hegemonia – Os anéis de fogo. Quem leu o primeiro, já sabe que anéis são esses...
Além de jornalista, você é cartunista. O universo que você criou é muito visual, com naves gigantescas, planetas exóticos e aliens multiformes. Já pensou em adaptar a história para os quadrinhos?
Na verdade, nos quadrinhos que eu faço, Os invasores, há uma participação dos frânios, a raça de insetos da Hegemonia em uma versão bem humorada. Assim como no livro, eles são divididos em duas sub-raças, as mabéias, as baratinhas marrons e os slystacs, verdes. A inspiração veio do tempo em que eu trabalhei na Petrobras onde há essa diferença de classes, os concursados, de crachá verde e os terceirizados, de crachá marrom. Mas, como eu disse, já existe esse projeto da editora de levar o primeiro livro para os quadrinhos. Tive várias conversas sobre o assunto com o Osmarco Valladão, criador da capa do livro, mas queríamos fazer algo com a qualidade comparável a da capa. Para isso, precisaria de, pelo menos, um ano trabalhando intensamente e exclusivamente. Não sei se isso é viável no Brasil.
Seu nome é o mesmo do de um físico americano ganhador do prêmio Nobel nos anos 30. Partindo do pressuposto que isso não é uma coincidência, qual foi a importância desta ciência na sua formação intelectual e qual a sua intimidade com o assunto, já que neste seu livro surgem vários conceitos teóricos próprios da física, como as propriedades de estruturas giga e nanométricas ou ainda a conversão de matéria em energia?
Meu pai é formado em física e dá aulas até hoje em Juiz de Fora. Daí veio esse nome esquisito que eu rejeitei desde pequeno, tanto que “criei” um apelido para mim. Todo mundo da família e os amigos próximos me chamam de “Tato”. Quando eu jogava futebol, estava escrito “Tato” nas minhas costas e não Clinton Davisson que, para mim, é quase um nome artístico. Mas eu herdei do meu pai a paixão pela física e astronomia. Ele tem, até hoje, uma pilha de enciclopédias de ciências; antes de aprender a ler, eu folheava aquelas fotos de foguetes, planetas e achava o máximo. Meu pai também adora ficção científica, só que muito mais para o lado de Star trek. Da minha mãe herdei o amor pela literatura, ela me fez ler o meu primeiro autor nacional, o Luiz Fernando Veríssimo, que é fera. Aliás, sempre me incomodou essa separação entre literatura e ficção científica. Vejo certos autores que se esmeram em conceitos científicos e esquecem de criar personagens que vão além de um cientista que está ali para vomitar conceitos. Se meu pai e minha mãe puderam se casar, a ficção científica também pode casar com a literatura, não é? (risos)
Fora a conclusão da saga da Hegemonia, você tem planos para trabalhar com a FC em outros projetos?
Em ficção científica tenho apenas estes curtas que devem ficar prontos até o fim do ano e o meu projeto de mestrado que envolve ficção científica no cinema dos anos 80. Depois da terceira parte do Hegemonia, vou dar um tempo na FC e engatar um romance que venho rascunhando há um tempo que se chama O moinho de vento sobre a juventude dos anos 80, um projeto bem pessoal e que não vai ter nada de ciência, ou sobrenatural. Os primeiros rascunhos ficaram parecendo uma versão abrasileirada do The body do Stephen King, que deu origem ao filme Conta comigo, por isso achei que precisava amadurecer um pouco antes de retomar. A longo prazo, tenho um projeto de romance histórico sobre a Guerra do Paraguai, também com nada de ficção científica.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Não verás mundo nenhum
A pintura é simples e direta, feito um quadro primitivista. Pinceladas fortes, rápidas e irregulares registraram, sempre em marrom, a silhueta de estruturas cilíndricas que podem ser conjuntos habitacionais padronizados, chaminés industriais ou torres de comunicação. A impressão geral é de tédio e de imutabilidade. O espectro da cor única é, no conjunto, desagradável. Começa com tons claros, semelhantes aos da terra seca e sem vida; passa por uma tonalidade pouco mais escura, que lembra a cor de excrementos; com algo de vermelho, parece ser o marrom de uma casca de ferida em processo de cicatrização; tendendo ao preto, aparenta ser a crosta de matéria em putrefação. O quadro, pintado por Ivan Hegenberg, artista plástico formado pela USP, acabou servindo de capa para o romance de estréia dele próprio, lançado no final de 2007: Será, uma estranha e niilista ficção científica nacional.
Distopias são um dos temas mais recorrentes na tradição da FC mundial e renderam algumas das melhores obras do gênero em diversas mídias. Historicamente, a palavra parece ter sido empregada pela primeira vez, com seu sentido literal de lugar mau - e em oposição à utopia, o lugar nenhum-, pelo filósofo e economista inglês John Stuart Mill, em um discurso no Parlamento Britânico, no ano de 1868. Estamos às vésperas do aniversário de 140 anos de sua criação, portanto. Quando o mundo das artes se apropriou do termo, em reação aos sonhos de futuros idealizados, tecnologicamente avançados e socialmente justos, começaram a ser produzidos livros como 1984, de George Orwell; quadrinhos do nível de V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd; e um sem-número de filmes que se passam em tempos pós-apocalípticos como a trilogia Matrix dos irmãos Wachowski. Todas obras marcadas pelo autoritarismo dos governantes, humanos ou não, ou por grandes catástrofes globais, sejam causadas pelo homem, sejam naturais. O paulistano, com seu segundo livro - o primeiro foi uma coletânea de contos, A grande incógnita, publicada em 2005 pela editora Annablume -, pode ser incluído nesta lista de autores desesperançados com os dias que virão.
No início de Será - para ser exato, em seus dois primeiros capítulos, “História do mundo” e “Água” - o cenário geral é traçado. Apesar do longo histórico internacional deste subgênero, tais trechos da obra do iniciante lembram mesmo a mais famosa e bem sucedida distopia já produzida no Brasil, escrita por um veterano conterrâneo dele, em 1981. Não verás país nenhum, livro mais conhecido de Ignácio de Loyola Brandão, antecipou há mais de 25 anos muitas das preocupações ambientais que vivemos nesta primeira década do século XXI. Será também mostra a tentativa de sobrevivência de personagens que vivem as consequências do abuso dos recursos naturais do planeta.
A maior diferença é que, na obra da década de 80, a narrativa ficava circunscrita ao Brasil, mais que isso, a São Paulo, e tinha um protagonista claro, Souza; no livro lançado em 2007, a abrangência é mundial e há uma profusão de personagens sem uma hierarquia clara entre eles na ordem das coisas. Datas não são definidas com muita precisão ao longo do texto, mas uma brincadeira quase oculta nas últimas páginas faz supor que estejamos por volta do ano de 2348. A população mundial praticamente triplicou em relação à de nossos dias, são 15 bilhões de pessoas disputando o mesmo espaço. Se número já assusta, ele poderia ser ainda maior, se não houvesse ocorrido cerca de 6 bilhões de mortes por doenças virais, um século antes dos eventos narrados no livro.
Para respirar, a solução foi retirar oxigênio diretamente dos oceanos, o que faz um dos personagens se perguntar se é o consumo desse “ar para peixes” que os faz se sentirem tão “desadaptados”. É uma boa questão, pois o clima de apatia é dominante neste futuro amarronzado, em que as necessidades mínimas de todas as pessoas, de moradia à alimentação, são atendidas em pé de igualdade. Se no livro de Brandão havia um poder por trás de tudo, o Esquema, aqui há o Sistema, uma forma de democracia direta mediada por softwares. Tudo é motivo para consultas plebiscitárias à população adulta para que os sistemas de inteligência artificial - que são sempre citados, mas não exercem uma presença física nas páginas do livro - tomem as providências executivas.
Novamente a exemplo de Não verás país nenhum, a água potável se tornou um artigo raro. Se no primeiro livro, eram os civiltares que exerciam um controle coercitivo da população, em Será existe uma milícia chamada Comando Água para fazer o serviço sujo. Aparentemente, os programas governantes imaginados pelo brasileiro seguem a famosa legislação proposta por Isaac Asimov que os proíbe de matar pessoas. Isso não os impede de tentar fazer passar uma lei para promover a esterilização em massa da humanidade e ainda permitir que os agentes do tal comando executem todos aqueles considerados inaptos para continuar a viver.
Sim, essa é a impressão gerada pelas primeiras 40 das 240 páginas totais de Será, com o dilema de Ganton e William, dois velhos amigos separados pelas escolhas que fizeram. Um a de servir indiretamente ao Sistema, matando sem culpa os indivíduos mais fracos, os que de certa forma desistiram de resistir, para garantir a existência da coletividade. O outro, um integrante da Sobrevivência Unida, tem como norte moral a certeza de que a humanidade deveria sucumbir junta, de que “morrer com suprema beleza é bem mais digno do que matar com avidez”. Mas a aparência é falsa, pois no restante do livro - a cada capítulo primeiro; a cada página em certos momentos; a cada páragrafo em certos casos -, as sensações, os climas, os estilos, os ritmos vão se alterando, se confundindo, se mesclando, apesar de seguirem aquele esboço inicial. É como se o leitor fosse convidado a acompanhar a feitura de um quadro momento a momento: a confusão de pinceladas e raspagens aparentemente caóticas que acabam dando origem a uma pintura figurativa, ainda que expressionista.
Para exemplificar tal alternância estilística, podemos seguir o sumário dos capítulos. “Dia qualquer”, o terceiro, tem um quê de absurdo à Kafka; já a personagem principal de “Passagem”, o seguinte, a garota Seda, lembra as crianças superdotadas de Orson Scott Card, autor de livros de FC como o Jogo do Esterminador. É no quinto, “Zeitgeist”, que a coisa se complica ainda mais. Hegenberg se utiliza de outra modificação que introduziu em seu mundo ficcional - através de métodos não explicados, a humanidade desenvolveu e difundiu um certo nível de telepatia - para de fato passar aos leitores o espírito da época daquele cenário. Helmut, um homem centenário, se utiliza de seus dons para bancar o voyeur telepático. O resultado é uma colagem de curtas sequências de pessoas vivendo suas vidas, praticando sexo casual, casamentos sendo desfeitos, resumos de sonhos, trechos de aulas, conversa de mãe pra filho... Uma autêntica cacofonia em meia centena de páginas.
Possivelmente, uma pista das intenções do autor pode ser encontrada no sexto capítulo, “O Supremo Esteta”. Logo de início, aquelas páginas se destacam por apresentar uma editoração diferenciada, com as letras em negrito. O motivo por trás de tal recurso só fica claro ao final do curto capítulo, que se revela uma montagem intertextual pós-moderna do escritor. Além da forma, o que “O Suprem Esteta” tem a oferecer em termos de conteúdo é uma especulação sobre a principal visão religiosa do futuro de Será, o Esteticismo-maior. Dois terços da população do planeta parecem ter substituído do panteão universal os deuses com uma visão moralista de mundo, com a divisão entre certo e errado, bom e mau, por uma noção baseada na estética acima de tudo, tanto nas relações naturais, quanto nas ações humanas.
Não parece tanto que o objetivo do novo romancista seja o de propriamente lançar as bases de uma nova religião. Mas aparenta ser uma declaração de princípios de uma autor em relação à sua forma de expressão e, quem sabe?, com a vida. O fato é que, apesar de tantas outras leituras possíveis, é difícil ler aquelas páginas, ou mesmo evocar em termos literários a expressão supremo esteta, e não pensar em um dos maiores defensores da arte pela arte. Em um dos prefácios mais conhecidos de todos os tempos, aquele que Oscar Wilde redigiu para O retrato de Dorian Gray, ficou resgistrado:
“A vida moral do homem forma parte do argumento e do material do artista. Mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um instrumento imperfeito. Nenhum artista pretende provar o que quer que seja. A própria verdade não pode ser provada.
Artista algum tem preferências éticas. Uma preferência moral, em um artista, é imperdoável maneirismo de estilo
Não há artista doentio. O artista pode exprimir tudo”.
Essas palavras escritas no século XIX poderiam bem resumir o manifesto do Esteticismo-maior se for feita uma leitura puramente estética da obra, levando-se em conta que o artista é o deus de seu mundo criativo. Escolhas estéticas em detrimentos dos julgamentos morais parecem ser um dos pontos fortes de Será. Nas páginas seguintes, na segunda metade do livro, o efeito permanece e até se amplia. A sucessão interminável de personagens e de situações parece seguir tais critérios, segundo a vontade do criador, sem se submeter a um roteiro linear, um destino traçado e coerente. Em “Explorações”, um dos melhores capítulos do livro, por exemplo, a narrativa se divide em três momentos para contar simultaneamente a visita de um filósofo ao show de um comediante, os bastidores de um filme pornográfico e, em uma rara concessão a temas mais típicos da FC, um empreendimento científico ousado: um grupo de pesquisadores é encolhido a nível microscópico para desbravar o interior de uma célula.
O livro lançado pela editora Ragnarok, da qual Ivan Hegenberg é um dos sócios, é em boa parte a fusão dos autores que mais reconhecidamente o influenciaram, uma criatura com o esqueleto de Friedrich Nietzsche e as carnes de Clarice Lispector. A obra acaba servindo para coletar uma série de relexões filosóficas do escritor a respeito de diversos aspectos da vida. Em alguns casos, as falas e pensamentos dos personagens chegam a soar algo ingênuo, como nas críticas constantes feitas ao capitalismo - que fariam o já citado John Stuart Mill dar boas risadas liberais. Porém, em certos pontos, o livro consegue um efeito bastante interessante, ainda mais levando-se em conta que ele foi escrito por um autor tão jovem - o paulistano nasceu em 1980. Quase sempre o resultado é bastante incômodo, o que faz voltar a lembrar daquele prefácio de Wilde: "Não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”. E Será, com sua narrativa sobre tédio e imutabilidade, sobre a terra seca e sem vida, sobre feridas que podem cicatrizar e outras que já apodreceram, é um livro bem escrito.
Serviço: O livro custa R$ 30 e se encontra à venda pelos sites da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com), Devir (www.devir.net.com) e em outros endereços listados no blog do autor: www.ivanhegenberg.blogspost.com
Distopias são um dos temas mais recorrentes na tradição da FC mundial e renderam algumas das melhores obras do gênero em diversas mídias. Historicamente, a palavra parece ter sido empregada pela primeira vez, com seu sentido literal de lugar mau - e em oposição à utopia, o lugar nenhum-, pelo filósofo e economista inglês John Stuart Mill, em um discurso no Parlamento Britânico, no ano de 1868. Estamos às vésperas do aniversário de 140 anos de sua criação, portanto. Quando o mundo das artes se apropriou do termo, em reação aos sonhos de futuros idealizados, tecnologicamente avançados e socialmente justos, começaram a ser produzidos livros como 1984, de George Orwell; quadrinhos do nível de V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd; e um sem-número de filmes que se passam em tempos pós-apocalípticos como a trilogia Matrix dos irmãos Wachowski. Todas obras marcadas pelo autoritarismo dos governantes, humanos ou não, ou por grandes catástrofes globais, sejam causadas pelo homem, sejam naturais. O paulistano, com seu segundo livro - o primeiro foi uma coletânea de contos, A grande incógnita, publicada em 2005 pela editora Annablume -, pode ser incluído nesta lista de autores desesperançados com os dias que virão.
No início de Será - para ser exato, em seus dois primeiros capítulos, “História do mundo” e “Água” - o cenário geral é traçado. Apesar do longo histórico internacional deste subgênero, tais trechos da obra do iniciante lembram mesmo a mais famosa e bem sucedida distopia já produzida no Brasil, escrita por um veterano conterrâneo dele, em 1981. Não verás país nenhum, livro mais conhecido de Ignácio de Loyola Brandão, antecipou há mais de 25 anos muitas das preocupações ambientais que vivemos nesta primeira década do século XXI. Será também mostra a tentativa de sobrevivência de personagens que vivem as consequências do abuso dos recursos naturais do planeta.
A maior diferença é que, na obra da década de 80, a narrativa ficava circunscrita ao Brasil, mais que isso, a São Paulo, e tinha um protagonista claro, Souza; no livro lançado em 2007, a abrangência é mundial e há uma profusão de personagens sem uma hierarquia clara entre eles na ordem das coisas. Datas não são definidas com muita precisão ao longo do texto, mas uma brincadeira quase oculta nas últimas páginas faz supor que estejamos por volta do ano de 2348. A população mundial praticamente triplicou em relação à de nossos dias, são 15 bilhões de pessoas disputando o mesmo espaço. Se número já assusta, ele poderia ser ainda maior, se não houvesse ocorrido cerca de 6 bilhões de mortes por doenças virais, um século antes dos eventos narrados no livro.
Para respirar, a solução foi retirar oxigênio diretamente dos oceanos, o que faz um dos personagens se perguntar se é o consumo desse “ar para peixes” que os faz se sentirem tão “desadaptados”. É uma boa questão, pois o clima de apatia é dominante neste futuro amarronzado, em que as necessidades mínimas de todas as pessoas, de moradia à alimentação, são atendidas em pé de igualdade. Se no livro de Brandão havia um poder por trás de tudo, o Esquema, aqui há o Sistema, uma forma de democracia direta mediada por softwares. Tudo é motivo para consultas plebiscitárias à população adulta para que os sistemas de inteligência artificial - que são sempre citados, mas não exercem uma presença física nas páginas do livro - tomem as providências executivas.
Novamente a exemplo de Não verás país nenhum, a água potável se tornou um artigo raro. Se no primeiro livro, eram os civiltares que exerciam um controle coercitivo da população, em Será existe uma milícia chamada Comando Água para fazer o serviço sujo. Aparentemente, os programas governantes imaginados pelo brasileiro seguem a famosa legislação proposta por Isaac Asimov que os proíbe de matar pessoas. Isso não os impede de tentar fazer passar uma lei para promover a esterilização em massa da humanidade e ainda permitir que os agentes do tal comando executem todos aqueles considerados inaptos para continuar a viver.
Sim, essa é a impressão gerada pelas primeiras 40 das 240 páginas totais de Será, com o dilema de Ganton e William, dois velhos amigos separados pelas escolhas que fizeram. Um a de servir indiretamente ao Sistema, matando sem culpa os indivíduos mais fracos, os que de certa forma desistiram de resistir, para garantir a existência da coletividade. O outro, um integrante da Sobrevivência Unida, tem como norte moral a certeza de que a humanidade deveria sucumbir junta, de que “morrer com suprema beleza é bem mais digno do que matar com avidez”. Mas a aparência é falsa, pois no restante do livro - a cada capítulo primeiro; a cada página em certos momentos; a cada páragrafo em certos casos -, as sensações, os climas, os estilos, os ritmos vão se alterando, se confundindo, se mesclando, apesar de seguirem aquele esboço inicial. É como se o leitor fosse convidado a acompanhar a feitura de um quadro momento a momento: a confusão de pinceladas e raspagens aparentemente caóticas que acabam dando origem a uma pintura figurativa, ainda que expressionista.
Para exemplificar tal alternância estilística, podemos seguir o sumário dos capítulos. “Dia qualquer”, o terceiro, tem um quê de absurdo à Kafka; já a personagem principal de “Passagem”, o seguinte, a garota Seda, lembra as crianças superdotadas de Orson Scott Card, autor de livros de FC como o Jogo do Esterminador. É no quinto, “Zeitgeist”, que a coisa se complica ainda mais. Hegenberg se utiliza de outra modificação que introduziu em seu mundo ficcional - através de métodos não explicados, a humanidade desenvolveu e difundiu um certo nível de telepatia - para de fato passar aos leitores o espírito da época daquele cenário. Helmut, um homem centenário, se utiliza de seus dons para bancar o voyeur telepático. O resultado é uma colagem de curtas sequências de pessoas vivendo suas vidas, praticando sexo casual, casamentos sendo desfeitos, resumos de sonhos, trechos de aulas, conversa de mãe pra filho... Uma autêntica cacofonia em meia centena de páginas.
Possivelmente, uma pista das intenções do autor pode ser encontrada no sexto capítulo, “O Supremo Esteta”. Logo de início, aquelas páginas se destacam por apresentar uma editoração diferenciada, com as letras em negrito. O motivo por trás de tal recurso só fica claro ao final do curto capítulo, que se revela uma montagem intertextual pós-moderna do escritor. Além da forma, o que “O Suprem Esteta” tem a oferecer em termos de conteúdo é uma especulação sobre a principal visão religiosa do futuro de Será, o Esteticismo-maior. Dois terços da população do planeta parecem ter substituído do panteão universal os deuses com uma visão moralista de mundo, com a divisão entre certo e errado, bom e mau, por uma noção baseada na estética acima de tudo, tanto nas relações naturais, quanto nas ações humanas.
Não parece tanto que o objetivo do novo romancista seja o de propriamente lançar as bases de uma nova religião. Mas aparenta ser uma declaração de princípios de uma autor em relação à sua forma de expressão e, quem sabe?, com a vida. O fato é que, apesar de tantas outras leituras possíveis, é difícil ler aquelas páginas, ou mesmo evocar em termos literários a expressão supremo esteta, e não pensar em um dos maiores defensores da arte pela arte. Em um dos prefácios mais conhecidos de todos os tempos, aquele que Oscar Wilde redigiu para O retrato de Dorian Gray, ficou resgistrado:
“A vida moral do homem forma parte do argumento e do material do artista. Mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um instrumento imperfeito. Nenhum artista pretende provar o que quer que seja. A própria verdade não pode ser provada.
Artista algum tem preferências éticas. Uma preferência moral, em um artista, é imperdoável maneirismo de estilo
Não há artista doentio. O artista pode exprimir tudo”.
Essas palavras escritas no século XIX poderiam bem resumir o manifesto do Esteticismo-maior se for feita uma leitura puramente estética da obra, levando-se em conta que o artista é o deus de seu mundo criativo. Escolhas estéticas em detrimentos dos julgamentos morais parecem ser um dos pontos fortes de Será. Nas páginas seguintes, na segunda metade do livro, o efeito permanece e até se amplia. A sucessão interminável de personagens e de situações parece seguir tais critérios, segundo a vontade do criador, sem se submeter a um roteiro linear, um destino traçado e coerente. Em “Explorações”, um dos melhores capítulos do livro, por exemplo, a narrativa se divide em três momentos para contar simultaneamente a visita de um filósofo ao show de um comediante, os bastidores de um filme pornográfico e, em uma rara concessão a temas mais típicos da FC, um empreendimento científico ousado: um grupo de pesquisadores é encolhido a nível microscópico para desbravar o interior de uma célula.
O livro lançado pela editora Ragnarok, da qual Ivan Hegenberg é um dos sócios, é em boa parte a fusão dos autores que mais reconhecidamente o influenciaram, uma criatura com o esqueleto de Friedrich Nietzsche e as carnes de Clarice Lispector. A obra acaba servindo para coletar uma série de relexões filosóficas do escritor a respeito de diversos aspectos da vida. Em alguns casos, as falas e pensamentos dos personagens chegam a soar algo ingênuo, como nas críticas constantes feitas ao capitalismo - que fariam o já citado John Stuart Mill dar boas risadas liberais. Porém, em certos pontos, o livro consegue um efeito bastante interessante, ainda mais levando-se em conta que ele foi escrito por um autor tão jovem - o paulistano nasceu em 1980. Quase sempre o resultado é bastante incômodo, o que faz voltar a lembrar daquele prefácio de Wilde: "Não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”. E Será, com sua narrativa sobre tédio e imutabilidade, sobre a terra seca e sem vida, sobre feridas que podem cicatrizar e outras que já apodreceram, é um livro bem escrito.
Serviço: O livro custa R$ 30 e se encontra à venda pelos sites da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com), Devir (www.devir.net.com) e em outros endereços listados no blog do autor: www.ivanhegenberg.blogspost.com
A supremacia da estética
Ele apresenta duas motivações estranhas para ter iniciado o curso de Artes Plásticas na Universidade de São Paulo: uma curta carreira de pintor de rodapés na Inglaterra e a proximidade que teve com os maiores museus da Europa enquanto esteve naquele continente. De volta ao Brasil, passou a se dedicar mesmo a outra forma de expressão, a literatura, tendo recentemente lançado seu segundo livro, Será um romance distópico de ficção científica, e ainda abriu uma editora que pretende se especializar neste nicho literário. Falando diretamente da capital paulista, o escritor e pintor comenta as diferenças entre esses dois mundos artísticos; descreve as vantagens da FC para se contar histórias que tenham a sociedade como protagonista; e filosofa sobre a função da estética. Com vocês, o filho espiritual de Friedrich Nietzsche e de Clarice Lispector, Ivan Hegenberg.
Você é um artista plástico por formação, mas tem se dedicado à literatura como forma de expressão. Poderia fazer um breve retrospecto de sua produção literária e nas artes plásticas?
Antes de entrar em Artes Plásticas, na USP, eu cursei um ano de Letras, já pensando em me tornar escritor. Logo vi que Letras prepara bons professores, mas não me ajudaria muito a escrever, e tranquei a faculdade para ficar nove meses vagando pela Europa. Não sei se foi minha experiência como pintor de rodapés em Londres ou a proximidade com os principais museus do mundo, mas quando voltei estava decidido a enveredar pelas artes plásticas. Eu sempre gostei de desenhar, e acho que há situações que se expressam melhor com cores do que com palavras. Mas não parei de escrever, a essa altura eu estava terminando os contos do primeiro livro. A grande incógnita circulou pouco mas teve uma boa aceitação por outros escritores. Foi fácil perceber que o ambiente literário, por mais que tenha seus problemas, está bem mais arejado do que o das artes plásticas – não é à toa que este ano teremos em São Paulo a primeira Bienal do Vazio. Acho que escapar um pouco do ambiente de artes plásticas e escrever o Será me deu ânimo para agüentar bobagens desse tipo. De uns tempos para cá, tenho escrito alguns artigos sobre arte contemporânea, tentando combater as idéias fixas que eu encontro nas exposições e na crítica.
Em seu primeiro romance, apesar de ele estar inserido em um nicho da ficção científica dos mais tradicionais, a distopia, é notável a influência que outros autores fora da literatura de gênero exerceram sobre você, sem falar da área da filosofia. Friedrich Nietzsche e Clarice Lispector são os mais notáveis, mas não devem ser os únicos. Que outros escritores, de FC ou não, estão entre seus preferidos e lhe servem como referência?
Na verdade, não me apego muito aos gêneros. Acho que o melhor da ficção científica – por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, K. Dick – vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. Do mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe escreve terror para assustar criancinhas. O importante é que o livro seja bom. James Joyce é quase o oposto de Kafka, mas os dois são excelentes. Guimarães não tem nada a ver com Bukowski, mas os dois me interessam. Não dá pra fechar a lista, mas, de todos, considero Nietzsche uma espécie de pai espiritual, sendo Clarice minha mãe. Também tenho lido bastante Deleuze, que a meu ver coloca Nietzsche diante dos problemas de hoje.
Por que você escolheu um cenário típico de ficção científica para contar uma história tão atípica de ficção científica? Qual sua ligação com este gênero específico da literatura fantástica?
Nos meus primeiros contos eu falei muito do indivíduo, e dessa vez eu quis falar sobre a sociedade. Mas em vez de colocar meus personagens no mesmo mundo em que vivemos, preferi criar um outro ambiente, para olhar alguns problemas a uma distância estratégica. Decidi então jogar um monte de coisas em que eu estava pensando para o futuro. Um dos elementos atípicos do Será é o fato de termos um futuro estagnado, uma desaceleração na história do homem, apesar de ainda repleta de conflitos. Minha intenção era fazer com que os problemas fossem percebidos com o máximo de pureza, por isso não podia ser uma história no presente: eu não queria que as conseqüências fossem atribuídas a circunstâncias meramente conjunturais. Eu busquei nesses homens do futuro forças muito semelhantes às que agiam no homem primitivo, e que com o tempo só vão se sofisticando, mas não desaparecem.
Para mim, as questões principais do livro não se remetem nem ao presente nem ao futuro, acredito que sejam eternas, mas uma das coisas que mais me divertiu no processo de escrita foi compor a ambientação. O oxigênio retirado da água, o sangue como moeda de troca, as ações do Comando Água, a telepatia rolando solta, os experimentos científicos radicais, etc. Acho que é esse o grande barato da ficção científica: a imaginação se mostra capaz de recriar o universo inteiro, não só uma situação isolada. E ainda assim, o link com a realidade permanece, tanto que os franceses chamavam a literatura FC de “romances de antecipação”.
Um dos capítulos que mais chamam a atenção em seu livro é “O Supremo Esteta”, no qual você especula sobre uma nova religião que passa a ser predominante naquele cenário, um ideário mítico que sobrepõe conceitos estéticos a questões morais. Desde o lançamento do livro, já houve alguma reação dos leitores às idéias contidas naquele trecho da obra?
Sim. Já chegaram a me perguntar como faz para se converter. É bom deixar claro que é uma ficção, portanto “Será” deve ser entendido como “Poderia ser”. Acho que se eu fosse realmente esperto, fundaria uma religião, em vez de levar tão miseravelmente essa vida de escritor. Quantas seitas esquizofrênicas, uma mais bizarra que a outra, lucram com a ingenuidade alheia? Acho que se eu fosse mais cara-de-pau, o esteticismo-maior poderia mesmo vingar como religião, mas prefiro mantê-lo na ficção.
Além da leitura puramente estética, que outras intenções nortearam aquele capítulo?
Eu mesmo não entendo muito bem o que eu quis dizer com “O Supremo Esteta”. Se eu soubesse com muita precisão tudo o que quero transmitir, eu nem me daria ao trabalho de escrever ficção. Aliás, aí é que está a força da estética: o fato de ela não poder se reduzir a nenhuma lógica identificável, por mais que alguns acadêmicos acreditem que sim. Acho que mais de cem anos depois, Nietzsche ainda não foi compreendido, caso contrário todo intelectual evitaria leituras moralistas de uma obra de arte, e infelizmente não chegamos a esse estágio de esclarecimento. Está mais do que confirmado que a moral só serve para escravizar o povo, pois nem a promessa católica de danação da alma por toda a eternidade impediu que os senhores abusassem dos servos. Sendo assim, como pensar que o moralismo das ideologias seria capaz de conter nossos instintos destrutivos? O homem está em perpétua mutação, mas se tem algum traço constante é a oscilação entre a vontade de criar e a de destruir. A estética é o campo ideal para exercitarmos as duas coisas ao mesmo tempo, mas essa ânsia deveria ser satisfeita livremente, sem o condicionamento de qualquer doutrina. Os autores que me fazem bem, que me aliviam das neuroses, são os que assumem uma visão trágica da existência. Ou seja, os que entendem que não existe bem nem mal, que a vida não faz sentido algum, que só tem felicidade quem suporta também o sofrimento e que nossos sentimentos e convicções costumam ser ambíguos. Vão nessa linha as traduções dos bons observadores da natureza humana. Na minha vida fui obrigado a me confrontar com tudo isso, que pode assustar mas também liberta, porque nos permite criar a vida conforme o paladar, sem dogmas, bela e inexplicável como uma obra de arte.
Os personagens do livro fazem constantes referências a um período histórico em que não viveram, que muitos deles chamam de “no tempo do capitalismo”. Curiosamente, apesar de muito do cenário proposto lembrar conceitos igualitários do socialismo, e mesmo com parte da trama se desenrolando em cidades como Pequim, não existe nenhuma comparação entre aquela realidade e as várias experiências socialistas reais que existem ou existiram em nosso mundo. Há alguma razão para essa ausência de referencial?
Boa pergunta. Eu não senti necessidade de falar diretamente sobre os países que vivem hoje o socialismo real porque seu processo histórico parece estar no fim, e portanto não alterariam muito os eventos que desembocariam na derrocada do capitalismo. Não considero a China um país socialista: está claro que vive uma lógica capitalista ainda mais selvagem que a nossa, com a agravante de estar sob uma ditadura. Por essa reviravolta Marx não esperava, e rasteiras da realidade desse tipo são ótimos motivos para os artistas não facilitarem uma captura muito materialista. Acho que se eu falasse muito do socialismo real, as interpretações tenderiam para a macropolítica, que eu considero ultrapassada e redutora. Eu deliberadamente evitei deixar o sistema social falar mais do que as personagens, exatamente porque creio que nosso campo de batalha está na subjetividade, e não nas grandes ideologias ou nos modelos econômicos. Arte não tem capacidade para mudar o mundo e faria muito melhor se tentasse mudar as pessoas.
Você pensa em retornar algum dia a esse mesmo universo ficcional ou já explorou tudo o que tinha vontade dele?
Sim. Escrevi um conto, “Vladja”, sobre um personagem coadjuvante de Será, que vai sair em uma coletânea da Record. O conto me satisfez tanto que eu já planejo um livro só com histórias curtas retomando o universo do Será.
O seu livro de estréia, A grande incógnita, foi publicado por uma pequena editora, a Annablume. Seu segundo livro já saiu por uma editora da qual você é um dos sócios, a Ragnarok. Pode fazer uma análise desses dois extremos tão distintos como forma de publicação?
A Annablume não é assim tão pequena, ela tem porte equivalente ao de uma Hedra, mas como trabalham mais com não-ficção, ainda estão construindo sua tradição na literatura. Estão no começo, mas acho que é uma das poucas editoras sérias do Brasil, que carece de gente com visão. Para o Será eu já queria uma editora um pouco maior, achei que o livro merecia divulgação, que ele podia desencadear discussões fortes, e despachei originais para todas as grandes. Foi uma decepção enorme, que diz muito sobre nosso mercado editorial: obtive ao menos duas respostas em que consideraram o livro muito bom, e mesmo elogiando não se arriscaram a investir. A lógica é essa mesma, acho que falta visão e falta coragem por conta dos editores. Eu escrevi para o Nelson de Oliveira desabafando, e ele me convidou para montarmos a Ragnarok. Tem sido um prazer trabalhar com o Nelson, que é um bom amigo e uma das figuras que mais respeito da nossa literatura. Outra coisa bacana é que ao montar uma editora independente você aprende muito sobre todas as etapas do processo.
Quais são os planos de sua editora para novos lançamentos? A Ragnarok pretende se especializar na área da literatura fantástica? Ela faz avaliação dos originais de outros escritores do gênero?
A Ragnarok já nasceu especializada em ficção científica e fantasia. Não é exatamente uma empresa, está mais para um clube, já que não bancamos as despesas do processo, mas também não estamos interessados em lucrar com o autor. A idéia é orientar sobre a capa, a gráfica, a diagramação e a divulgação, para que o livro, mesmo saindo em esquema independente, não faça feio diante de um produto das editoras profissionais.
Nos nossos planos está um livro de crônicas do André Carneiro, deliciosas de se ler, e um romance do Nelson, que ainda está sendo escrito. A gente faz avaliação de originais, com o tempo vamos mostrar algumas surpresas. Pode ser um pouco piegas citar Renato Russo, mas de fato o futuro não é mais como era antigamente, estamos em um momento em que a ficção científica tem de tudo para se renovar.
E você como escritor, já tem outros projetos planejados para o futuro próximo? Pretende voltar a trabalhar com temas da FC?
Recentemente, ganhei uma bolsa do governo de São Paulo para concluir meu próximo romance, Puro enquanto, que talvez seja meu livro mais ambicioso. Passei dez anos anotando meus sonhos pela manhã, e os costurei na história de um publicitário que entra em coma. Em certo momento, ele percebe que está sonhando e quer despertar, mas “despertar” ganha outros sentidos. A linguagem é pouco usual, com texto e imagens em constante diálogo. Também quero escrever para teatro e cinema. Quanto à ficção científica, só não quero escrever nada que me pareça inferior ao Será, mas assim que eu tiver um material consistente, lanço uma coletânea de contos.
Você é um artista plástico por formação, mas tem se dedicado à literatura como forma de expressão. Poderia fazer um breve retrospecto de sua produção literária e nas artes plásticas?
Antes de entrar em Artes Plásticas, na USP, eu cursei um ano de Letras, já pensando em me tornar escritor. Logo vi que Letras prepara bons professores, mas não me ajudaria muito a escrever, e tranquei a faculdade para ficar nove meses vagando pela Europa. Não sei se foi minha experiência como pintor de rodapés em Londres ou a proximidade com os principais museus do mundo, mas quando voltei estava decidido a enveredar pelas artes plásticas. Eu sempre gostei de desenhar, e acho que há situações que se expressam melhor com cores do que com palavras. Mas não parei de escrever, a essa altura eu estava terminando os contos do primeiro livro. A grande incógnita circulou pouco mas teve uma boa aceitação por outros escritores. Foi fácil perceber que o ambiente literário, por mais que tenha seus problemas, está bem mais arejado do que o das artes plásticas – não é à toa que este ano teremos em São Paulo a primeira Bienal do Vazio. Acho que escapar um pouco do ambiente de artes plásticas e escrever o Será me deu ânimo para agüentar bobagens desse tipo. De uns tempos para cá, tenho escrito alguns artigos sobre arte contemporânea, tentando combater as idéias fixas que eu encontro nas exposições e na crítica.
Em seu primeiro romance, apesar de ele estar inserido em um nicho da ficção científica dos mais tradicionais, a distopia, é notável a influência que outros autores fora da literatura de gênero exerceram sobre você, sem falar da área da filosofia. Friedrich Nietzsche e Clarice Lispector são os mais notáveis, mas não devem ser os únicos. Que outros escritores, de FC ou não, estão entre seus preferidos e lhe servem como referência?
Na verdade, não me apego muito aos gêneros. Acho que o melhor da ficção científica – por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, K. Dick – vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. Do mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe escreve terror para assustar criancinhas. O importante é que o livro seja bom. James Joyce é quase o oposto de Kafka, mas os dois são excelentes. Guimarães não tem nada a ver com Bukowski, mas os dois me interessam. Não dá pra fechar a lista, mas, de todos, considero Nietzsche uma espécie de pai espiritual, sendo Clarice minha mãe. Também tenho lido bastante Deleuze, que a meu ver coloca Nietzsche diante dos problemas de hoje.
Por que você escolheu um cenário típico de ficção científica para contar uma história tão atípica de ficção científica? Qual sua ligação com este gênero específico da literatura fantástica?
Nos meus primeiros contos eu falei muito do indivíduo, e dessa vez eu quis falar sobre a sociedade. Mas em vez de colocar meus personagens no mesmo mundo em que vivemos, preferi criar um outro ambiente, para olhar alguns problemas a uma distância estratégica. Decidi então jogar um monte de coisas em que eu estava pensando para o futuro. Um dos elementos atípicos do Será é o fato de termos um futuro estagnado, uma desaceleração na história do homem, apesar de ainda repleta de conflitos. Minha intenção era fazer com que os problemas fossem percebidos com o máximo de pureza, por isso não podia ser uma história no presente: eu não queria que as conseqüências fossem atribuídas a circunstâncias meramente conjunturais. Eu busquei nesses homens do futuro forças muito semelhantes às que agiam no homem primitivo, e que com o tempo só vão se sofisticando, mas não desaparecem.
Para mim, as questões principais do livro não se remetem nem ao presente nem ao futuro, acredito que sejam eternas, mas uma das coisas que mais me divertiu no processo de escrita foi compor a ambientação. O oxigênio retirado da água, o sangue como moeda de troca, as ações do Comando Água, a telepatia rolando solta, os experimentos científicos radicais, etc. Acho que é esse o grande barato da ficção científica: a imaginação se mostra capaz de recriar o universo inteiro, não só uma situação isolada. E ainda assim, o link com a realidade permanece, tanto que os franceses chamavam a literatura FC de “romances de antecipação”.
Um dos capítulos que mais chamam a atenção em seu livro é “O Supremo Esteta”, no qual você especula sobre uma nova religião que passa a ser predominante naquele cenário, um ideário mítico que sobrepõe conceitos estéticos a questões morais. Desde o lançamento do livro, já houve alguma reação dos leitores às idéias contidas naquele trecho da obra?
Sim. Já chegaram a me perguntar como faz para se converter. É bom deixar claro que é uma ficção, portanto “Será” deve ser entendido como “Poderia ser”. Acho que se eu fosse realmente esperto, fundaria uma religião, em vez de levar tão miseravelmente essa vida de escritor. Quantas seitas esquizofrênicas, uma mais bizarra que a outra, lucram com a ingenuidade alheia? Acho que se eu fosse mais cara-de-pau, o esteticismo-maior poderia mesmo vingar como religião, mas prefiro mantê-lo na ficção.
Além da leitura puramente estética, que outras intenções nortearam aquele capítulo?
Eu mesmo não entendo muito bem o que eu quis dizer com “O Supremo Esteta”. Se eu soubesse com muita precisão tudo o que quero transmitir, eu nem me daria ao trabalho de escrever ficção. Aliás, aí é que está a força da estética: o fato de ela não poder se reduzir a nenhuma lógica identificável, por mais que alguns acadêmicos acreditem que sim. Acho que mais de cem anos depois, Nietzsche ainda não foi compreendido, caso contrário todo intelectual evitaria leituras moralistas de uma obra de arte, e infelizmente não chegamos a esse estágio de esclarecimento. Está mais do que confirmado que a moral só serve para escravizar o povo, pois nem a promessa católica de danação da alma por toda a eternidade impediu que os senhores abusassem dos servos. Sendo assim, como pensar que o moralismo das ideologias seria capaz de conter nossos instintos destrutivos? O homem está em perpétua mutação, mas se tem algum traço constante é a oscilação entre a vontade de criar e a de destruir. A estética é o campo ideal para exercitarmos as duas coisas ao mesmo tempo, mas essa ânsia deveria ser satisfeita livremente, sem o condicionamento de qualquer doutrina. Os autores que me fazem bem, que me aliviam das neuroses, são os que assumem uma visão trágica da existência. Ou seja, os que entendem que não existe bem nem mal, que a vida não faz sentido algum, que só tem felicidade quem suporta também o sofrimento e que nossos sentimentos e convicções costumam ser ambíguos. Vão nessa linha as traduções dos bons observadores da natureza humana. Na minha vida fui obrigado a me confrontar com tudo isso, que pode assustar mas também liberta, porque nos permite criar a vida conforme o paladar, sem dogmas, bela e inexplicável como uma obra de arte.
Os personagens do livro fazem constantes referências a um período histórico em que não viveram, que muitos deles chamam de “no tempo do capitalismo”. Curiosamente, apesar de muito do cenário proposto lembrar conceitos igualitários do socialismo, e mesmo com parte da trama se desenrolando em cidades como Pequim, não existe nenhuma comparação entre aquela realidade e as várias experiências socialistas reais que existem ou existiram em nosso mundo. Há alguma razão para essa ausência de referencial?
Boa pergunta. Eu não senti necessidade de falar diretamente sobre os países que vivem hoje o socialismo real porque seu processo histórico parece estar no fim, e portanto não alterariam muito os eventos que desembocariam na derrocada do capitalismo. Não considero a China um país socialista: está claro que vive uma lógica capitalista ainda mais selvagem que a nossa, com a agravante de estar sob uma ditadura. Por essa reviravolta Marx não esperava, e rasteiras da realidade desse tipo são ótimos motivos para os artistas não facilitarem uma captura muito materialista. Acho que se eu falasse muito do socialismo real, as interpretações tenderiam para a macropolítica, que eu considero ultrapassada e redutora. Eu deliberadamente evitei deixar o sistema social falar mais do que as personagens, exatamente porque creio que nosso campo de batalha está na subjetividade, e não nas grandes ideologias ou nos modelos econômicos. Arte não tem capacidade para mudar o mundo e faria muito melhor se tentasse mudar as pessoas.
Você pensa em retornar algum dia a esse mesmo universo ficcional ou já explorou tudo o que tinha vontade dele?
Sim. Escrevi um conto, “Vladja”, sobre um personagem coadjuvante de Será, que vai sair em uma coletânea da Record. O conto me satisfez tanto que eu já planejo um livro só com histórias curtas retomando o universo do Será.
O seu livro de estréia, A grande incógnita, foi publicado por uma pequena editora, a Annablume. Seu segundo livro já saiu por uma editora da qual você é um dos sócios, a Ragnarok. Pode fazer uma análise desses dois extremos tão distintos como forma de publicação?
A Annablume não é assim tão pequena, ela tem porte equivalente ao de uma Hedra, mas como trabalham mais com não-ficção, ainda estão construindo sua tradição na literatura. Estão no começo, mas acho que é uma das poucas editoras sérias do Brasil, que carece de gente com visão. Para o Será eu já queria uma editora um pouco maior, achei que o livro merecia divulgação, que ele podia desencadear discussões fortes, e despachei originais para todas as grandes. Foi uma decepção enorme, que diz muito sobre nosso mercado editorial: obtive ao menos duas respostas em que consideraram o livro muito bom, e mesmo elogiando não se arriscaram a investir. A lógica é essa mesma, acho que falta visão e falta coragem por conta dos editores. Eu escrevi para o Nelson de Oliveira desabafando, e ele me convidou para montarmos a Ragnarok. Tem sido um prazer trabalhar com o Nelson, que é um bom amigo e uma das figuras que mais respeito da nossa literatura. Outra coisa bacana é que ao montar uma editora independente você aprende muito sobre todas as etapas do processo.
Quais são os planos de sua editora para novos lançamentos? A Ragnarok pretende se especializar na área da literatura fantástica? Ela faz avaliação dos originais de outros escritores do gênero?
A Ragnarok já nasceu especializada em ficção científica e fantasia. Não é exatamente uma empresa, está mais para um clube, já que não bancamos as despesas do processo, mas também não estamos interessados em lucrar com o autor. A idéia é orientar sobre a capa, a gráfica, a diagramação e a divulgação, para que o livro, mesmo saindo em esquema independente, não faça feio diante de um produto das editoras profissionais.
Nos nossos planos está um livro de crônicas do André Carneiro, deliciosas de se ler, e um romance do Nelson, que ainda está sendo escrito. A gente faz avaliação de originais, com o tempo vamos mostrar algumas surpresas. Pode ser um pouco piegas citar Renato Russo, mas de fato o futuro não é mais como era antigamente, estamos em um momento em que a ficção científica tem de tudo para se renovar.
E você como escritor, já tem outros projetos planejados para o futuro próximo? Pretende voltar a trabalhar com temas da FC?
Recentemente, ganhei uma bolsa do governo de São Paulo para concluir meu próximo romance, Puro enquanto, que talvez seja meu livro mais ambicioso. Passei dez anos anotando meus sonhos pela manhã, e os costurei na história de um publicitário que entra em coma. Em certo momento, ele percebe que está sonhando e quer despertar, mas “despertar” ganha outros sentidos. A linguagem é pouco usual, com texto e imagens em constante diálogo. Também quero escrever para teatro e cinema. Quanto à ficção científica, só não quero escrever nada que me pareça inferior ao Será, mas assim que eu tiver um material consistente, lanço uma coletânea de contos.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Rio de Janeiro de todos os tempos possíveis
O polivalente prefixo “meta” é de fundamental importância para se comentar um dos mais engenhosos textos de ficção científica já lançados no Brasil. Aquela partícula de origem grega ganha múltiplos sentidos a depender do seu uso na formação das palavras. Pode ser o de “posição posterior”, como em metacarpo ou em metatarso; “mudança” ou “alternância”, a exemplo de metafonia e metagênese; “transcendência”, caso clássico de metafísica; ou ainda “reflexão sobre si”, empregado em metalinguagem. Escrito pelo jornalista Jorge Moreira Nunes em 1999 e lançado em 2007 pela editora Differential, Macacos e outros fragmentos ao acaso propõe um complexo jogo a seus leitores, com partes sobrepostas formando um todo maior que sua simples somatória, desdobramentos inusitados e múltiplas camadas de compreensão se alternando ao longo de 126 páginas. Para entrar no terreno das metáforas, cada um pode escolher a de sua preferência: bonecas russas, dobraduras japonesas ou mesmo uma simples cebola da terra para tentar descrever os efeitos presentes neste metalivro.
Para início de conversa, o título já faz uma provocação com o próprio autor. Ele é baseado em um famoso exercício de probabilidade. “Escreveram em algum lugar que se um hipotético e longevo macaco martelasse num teclado de máquina de escrever aleatoriamente por alguns milhões de anos acabaria um dia escrevendo a Ilíada”, comentou Nunes. Com tal idéia na cabeça, antes mesmo de começar o livro, ele criou um projeto colaborativo, no final da década de 90, que antecipou outras iniciativas semelhantes, como a Wikipédia ou, no caso nacional, o Overmundo. No endereço www.macacos.net o escritor deu a arrancada a um experimento literário totalmente virtual, uma lista de palavras escrita em um interminável fluxo de consciência por colaboradores anônimos, um verdadeiro macaco coletivo. Novamente nas palavras do criador: “O que fariam alguns milhões de seres humanos escrevendo uma mesma obra, acrescentando cada um suas impressões aparentemente confusas e caóticas do mundo, mas genuinamente representativas de um subjacente inconsciente comum?”
Uma pequena parte da resposta se encontra enxertada no livro, em quatro capítulos, apresentando uma torrente de palavras em livre associação de idéias, uma extrapolação beatnik elevada à enésima potência. Apesar de nela se incluirem expressões, trocadilhos e frases feitas em inglês, francês, latim, italiano, tupi - sem falar nos neologismos inclassificáveis - o conjunto da obra é, ao mesmo tempo, intraduzível para outras culturas e coerente a um brasileiro. Curioso notar o fato de que, em determinados momentos, expressões se repetem como se a lista fosse se fagocitar em uma espiral, mas, de forma aparentemente expontânea, ela acaba encontrando outros caminhos, outras associações, e segue em frente. Transcendendo os limites do livro, a obra aberta continua sendo escrita pelo coletivo de macacos colaboradores; segundo a contagem apresentada em um texto na contracapa do livro, a corrente contava com 62 mil palavras, escritas por centenas de usuários cadastrados naquele site, quando o livro de estréia de Nunes foi lançado, em maio de 2007.
Mas os capítulos do projeto Macacos não são a única atração da obra. Há ainda os anunciados outros fragmentos ao acaso. Eles são formados por contos curtos escritos em diversos estilos pelo autor e em diferentes oportunidades. São cinco capítulos dedicados a eles. “Terraço”, um texto que estava inédito, narra de modo naturalista uma desventura na cidade do Rio de Janeiro, mistura sarcástica de sexo e violência na metrópole contemporânea. “Maelström”, publicado anteriormente no fanzine dedicado à literatura fantástica Megalon, é seu exato oposto, um conto de caráter metafísico bastante complexo e simbolista. “Presente de mãe”, outro que estava inédito, apesar de ter participado de um concurso de FC, trata de tema bastante caro ao gênero em suas feições pulp: o do viajante ocidental que parte para terras misteriosas, no caso a Índia, e traz de volta a seu lar conhecimentos secretos; o diferencial aqui está no uso que o narrador faz de tais conhecimentos em um estádio de futebol carioca.
“Saviana” é o único dos textos que já havia sido publicado em livro antes, pois foi uma das duas colaborações de Nunes na coletânea Intempol, lançada no ano 2000 pela editora Ano-Luz. Aquela obra, que reuniu o trabalho de oito escritores, representou, cronológica e profissionalmente falando, a estréia do jornalista em terreno literário. O conto faz parte do universo compartilhado de uma polícia internacional do tempo criado por Octavio Aragão. O leitor eventual pode entender a trama, mesmo sem conhecer todos os detalhes da Intempol - versão abrasileirada da Patrulha do Tempo, do veterano Poul Anderson, cujas diferenças principais estão nos métodos dos seus agentes, bem menos sutis que os de Manse Everard, protagonista da série americana. “Saviana” dá uma boa amostra disso, com sua história se desenrolando no Tahiti no ano de 1893. Por último, fechando o arco de contos reunidos em Macacos, um outro que também saiu originalmente em Megalon, “Ouroboros”, com sua visão transcendental de um Rio de Janeiro mil anos no futuro.
Descrevendo de tal forma, ao falar dos quatro capítulos formados pelo fluxo de pensamento livre do projeto Macacos e da apresentação de meia dezena de contos diversos, o livro em questão aparentemente estaria mais bem classificado se fosse chamado de coletânea. Acontece que, já na capa - de autoria do artista gráfico e também autor de textos de FC Osmarco Valladão -, Macacos e outros fragmentos ao acaso se autodenomina romance. E, de fato, são os outros seis capítulos do livro que, ao unificarem e darem um contexto aos demais fragmentos aparentemente aleatórios, permitem tal classificação, o de um romance que contém uma antologia de textos curtos. O exercício de metalinguagem proposto por Jorge Moreira Nunes se completa nesta meia dúzia de intervenções que surge com o título em comum de “La Granada”.
“O La Granada ficava estrategicamente localizado na esquina de uma rua transversal de Copacabana, bem no caminho da praia”. É assim que o autor descreve o espaço no qual se passa formalmente o roteiro de seu romance, um boteco tipicamente carioca. O tempo, seria as semanas finais do ano de 1999, a época que ficou simbolicamente marcada como sendo a virada do milênio, a despeito de, matematicamente falando, isso só ter ocorrido no ano seguinte. Aquele foi o tempo e o espaço em que a obra foi de fato produzida e no qual chegou a ser premiada antes do lançamento: durante a Bienal do Livro de 1999, o original do texto, que então ainda levava o nome de O jogo dos bichos, recebeu a Bolsa para novos escritores, incentivo concedido pela Fundação Biblioteca Nacional para material literário em fase de conclusão.
Ocorre que o autor, dez dias depois de recebida a honraria, se mudou do Rio de Janeiro para Coconut Creek, no estado americano da Flórida, o que adiou a tal conclusão por nada menos que oito anos e meio. Originalmente o escritor foi aos EUA trabalhar em um jornal local para brasileiros – hoje em dia, ele se tornou proprietário de outra publicação, concorrente daquela primeira, o AcheiUSA. Mas se o projeto tardou, acabou saindo assim que o autor conseguiu uma brecha na agenda, mesmo tendo que coordenar tudo à distãncia, sem participar de nenhum lançamento do primeiro livro solo aqui na terra natal. A edição acabou sendo feita às pressas, com um resultado que não chega a ser um primor em termos de revisão, de diagramação ou de escolha da tipologia, muito antes pelo contrário. A maior ironia neste quesito é que o livro, que fora premiado pela BN em sua fase inicial, como foi dito, acabou sendo impresso sem o devido registro formal. O motivo? Os funcionários da Biblioteca Nacional estavam em greve durante a preparação dos exemplares...
De qualquer forma, o continuum básico do enredo, da metanarrativa, por assim dizer, do romance é aquele: um bar na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no último mês e meio do ano da graça de 1999. Naquele lugar, todas as semanas, uma espécie de alter ego do autor se encontra com um colega chamado Vlad para beber, ler trechos do livro O Rio de Janeiro do meu tempo, do historiador e memorialista Luis Edmundo (nascido no século XIX), jogar xadrez às cegas - sem tabuleiro, nem súmulas, apenas ditando as jogadas um para o outro - e se submeter a uma impiedosa sessão de crítica literária. Os textos que o narrador apresenta a seu algoz são, adivinhe, aqueles mesmos que fazem parte do restante da estrutura do livro, incluindo aí os trechos do projeto Macacos. Cada conto é dissecado e analisado de forma impiedosa por Vlad, em uma experiência curiosa de autocrítica ou autoflagelação por parte do escritor. Ego e superego se confrontam em uma partida de xadrez metafórica.
O curioso embate é uma das brincadeiras metalinguísticas preparadas pelo escritor estreante. Afinal, as críticas podem ser acompanhadas pelos leitores entre uma página e outra, logo após a apresentação do texto a ser bombardeado. Da mesma forma que esses leitores em potencial são convidados a imaginar o desenrolar das peças do xadrez mental que protagonista e antagonista movimentam - para isso, extraí mais prazer do livro quem entende a linguagem cifrada do jogo, aqueles que sabem que P3CD se traduz como o peão avançando para a terceira casa do cavalo da dama, por exemplo.
Vlad demonstra ser um analista minucioso da obra do personagem Jorge Moreira Nunes, apontando inconsistências, expondo citações. Claro que nem tudo é dito, ainda sobra bastente material para despertar o interesse dos outros críticos. Para exemplificar, peguemos “Maelström”, um dos contos mais detalhadamente radiografados pelo metacrítico: ele comenta as semelhanças do texto com a obra de Umberto Eco, de Jorge Luís Borges, de Marguerite Yourcenar. Mas deixa de lado o fato de que, já no título, ele faz referência a um conto de Edgar Allan Poe, autor que aparenta ser uma influência forte de Nunes, sem falar em um romance famoso de Jules Verne. Há espaço para outros críticos e outros leitores exercitarem seu lado “Vlad”, como se vê.
Mesmo o mais desatento dos leitores pode adivinhar que a conclusão de todas as pontas daquele mecanismo literário vai se dar durante o reveillon anunciado. Como em uma autêntica partida de xadrez, muitos dos lances são previsíveis, algumas peças são entregues para serem capturadas pelo oponente, como isca. Mesmo assim, o autor conservou lances para os momentos finais, algo como o roque, quando a torre muda de lugar com o rei, o que serve tanto para a defesa quanto para uma estratégia de ataque do jogador. Os desdobramentos do romance também guardam esse tipo de surpresa, um detalhe mencionado dezenas de páginas antes pode voltar a ter um novo significado na hora certa. E, apesar das severas críticas que tanto o alter ego quanto o superego do autor fazem ao gênero em determinado momento - uma das raras concordâncias daquelas personalidades antagônicas - o livro, ao final, se revela uma obra de ficção científica de fato e de direito.
Uma questão que pode ficar em aberto é se a distância entre a produção e o lançamento do livro, de quase dez anos, não envelheceu o texto, fazendo-o perder boa parte do impacto que teria caso saísse mesmo na virada de 1999 para 2000. É algo difícil de se avaliar, mas felizmente as várias camadas de significados ainda estão lá, mesmo com o passar do tempo. Além disso, ao longo de todo o livro, versões de diferentes épocas da capital do Rio de Janeiro se alternam. Desde o prólogo, em que o autor exercita uma de suas maiores qualidades, a habilidade descritiva dos ambientes: ele narra, em uma página e meia, o panorama da cidade que começa em tempos pré-humanidade e avança até uma menção um tanto sutil a um evento ocorrido em 1555. Passa ainda pelas breves citações ao Rio de Janeiro novecentista de Luis Edmundo, chega à realidade contemporânea de “Terraço” e de “Presente de mãe” e ainda especula o futuro distante de “Ouroboros”. Neste Rio de Janeiro de todos os tempos possíveis, Macacos e outros fragmentos ao acaso segue sua trajetória metalinguística, metafísica, metacrítica entre outras aplicações daquele polivalente prefixo.
Serviço: uma última surpresa do livro é o fato de ele ser distribuído gratuitamente a todos os interessados. Cariocas só precisam passar na sede da editora e requisitar um exemplar, leitores de outros estados podem fazer o pedido por carta, telefone e e-mail e só pagam as despesas de postagem.
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Para início de conversa, o título já faz uma provocação com o próprio autor. Ele é baseado em um famoso exercício de probabilidade. “Escreveram em algum lugar que se um hipotético e longevo macaco martelasse num teclado de máquina de escrever aleatoriamente por alguns milhões de anos acabaria um dia escrevendo a Ilíada”, comentou Nunes. Com tal idéia na cabeça, antes mesmo de começar o livro, ele criou um projeto colaborativo, no final da década de 90, que antecipou outras iniciativas semelhantes, como a Wikipédia ou, no caso nacional, o Overmundo. No endereço www.macacos.net o escritor deu a arrancada a um experimento literário totalmente virtual, uma lista de palavras escrita em um interminável fluxo de consciência por colaboradores anônimos, um verdadeiro macaco coletivo. Novamente nas palavras do criador: “O que fariam alguns milhões de seres humanos escrevendo uma mesma obra, acrescentando cada um suas impressões aparentemente confusas e caóticas do mundo, mas genuinamente representativas de um subjacente inconsciente comum?”
Uma pequena parte da resposta se encontra enxertada no livro, em quatro capítulos, apresentando uma torrente de palavras em livre associação de idéias, uma extrapolação beatnik elevada à enésima potência. Apesar de nela se incluirem expressões, trocadilhos e frases feitas em inglês, francês, latim, italiano, tupi - sem falar nos neologismos inclassificáveis - o conjunto da obra é, ao mesmo tempo, intraduzível para outras culturas e coerente a um brasileiro. Curioso notar o fato de que, em determinados momentos, expressões se repetem como se a lista fosse se fagocitar em uma espiral, mas, de forma aparentemente expontânea, ela acaba encontrando outros caminhos, outras associações, e segue em frente. Transcendendo os limites do livro, a obra aberta continua sendo escrita pelo coletivo de macacos colaboradores; segundo a contagem apresentada em um texto na contracapa do livro, a corrente contava com 62 mil palavras, escritas por centenas de usuários cadastrados naquele site, quando o livro de estréia de Nunes foi lançado, em maio de 2007.
Mas os capítulos do projeto Macacos não são a única atração da obra. Há ainda os anunciados outros fragmentos ao acaso. Eles são formados por contos curtos escritos em diversos estilos pelo autor e em diferentes oportunidades. São cinco capítulos dedicados a eles. “Terraço”, um texto que estava inédito, narra de modo naturalista uma desventura na cidade do Rio de Janeiro, mistura sarcástica de sexo e violência na metrópole contemporânea. “Maelström”, publicado anteriormente no fanzine dedicado à literatura fantástica Megalon, é seu exato oposto, um conto de caráter metafísico bastante complexo e simbolista. “Presente de mãe”, outro que estava inédito, apesar de ter participado de um concurso de FC, trata de tema bastante caro ao gênero em suas feições pulp: o do viajante ocidental que parte para terras misteriosas, no caso a Índia, e traz de volta a seu lar conhecimentos secretos; o diferencial aqui está no uso que o narrador faz de tais conhecimentos em um estádio de futebol carioca.
“Saviana” é o único dos textos que já havia sido publicado em livro antes, pois foi uma das duas colaborações de Nunes na coletânea Intempol, lançada no ano 2000 pela editora Ano-Luz. Aquela obra, que reuniu o trabalho de oito escritores, representou, cronológica e profissionalmente falando, a estréia do jornalista em terreno literário. O conto faz parte do universo compartilhado de uma polícia internacional do tempo criado por Octavio Aragão. O leitor eventual pode entender a trama, mesmo sem conhecer todos os detalhes da Intempol - versão abrasileirada da Patrulha do Tempo, do veterano Poul Anderson, cujas diferenças principais estão nos métodos dos seus agentes, bem menos sutis que os de Manse Everard, protagonista da série americana. “Saviana” dá uma boa amostra disso, com sua história se desenrolando no Tahiti no ano de 1893. Por último, fechando o arco de contos reunidos em Macacos, um outro que também saiu originalmente em Megalon, “Ouroboros”, com sua visão transcendental de um Rio de Janeiro mil anos no futuro.
Descrevendo de tal forma, ao falar dos quatro capítulos formados pelo fluxo de pensamento livre do projeto Macacos e da apresentação de meia dezena de contos diversos, o livro em questão aparentemente estaria mais bem classificado se fosse chamado de coletânea. Acontece que, já na capa - de autoria do artista gráfico e também autor de textos de FC Osmarco Valladão -, Macacos e outros fragmentos ao acaso se autodenomina romance. E, de fato, são os outros seis capítulos do livro que, ao unificarem e darem um contexto aos demais fragmentos aparentemente aleatórios, permitem tal classificação, o de um romance que contém uma antologia de textos curtos. O exercício de metalinguagem proposto por Jorge Moreira Nunes se completa nesta meia dúzia de intervenções que surge com o título em comum de “La Granada”.
“O La Granada ficava estrategicamente localizado na esquina de uma rua transversal de Copacabana, bem no caminho da praia”. É assim que o autor descreve o espaço no qual se passa formalmente o roteiro de seu romance, um boteco tipicamente carioca. O tempo, seria as semanas finais do ano de 1999, a época que ficou simbolicamente marcada como sendo a virada do milênio, a despeito de, matematicamente falando, isso só ter ocorrido no ano seguinte. Aquele foi o tempo e o espaço em que a obra foi de fato produzida e no qual chegou a ser premiada antes do lançamento: durante a Bienal do Livro de 1999, o original do texto, que então ainda levava o nome de O jogo dos bichos, recebeu a Bolsa para novos escritores, incentivo concedido pela Fundação Biblioteca Nacional para material literário em fase de conclusão.
Ocorre que o autor, dez dias depois de recebida a honraria, se mudou do Rio de Janeiro para Coconut Creek, no estado americano da Flórida, o que adiou a tal conclusão por nada menos que oito anos e meio. Originalmente o escritor foi aos EUA trabalhar em um jornal local para brasileiros – hoje em dia, ele se tornou proprietário de outra publicação, concorrente daquela primeira, o AcheiUSA. Mas se o projeto tardou, acabou saindo assim que o autor conseguiu uma brecha na agenda, mesmo tendo que coordenar tudo à distãncia, sem participar de nenhum lançamento do primeiro livro solo aqui na terra natal. A edição acabou sendo feita às pressas, com um resultado que não chega a ser um primor em termos de revisão, de diagramação ou de escolha da tipologia, muito antes pelo contrário. A maior ironia neste quesito é que o livro, que fora premiado pela BN em sua fase inicial, como foi dito, acabou sendo impresso sem o devido registro formal. O motivo? Os funcionários da Biblioteca Nacional estavam em greve durante a preparação dos exemplares...
De qualquer forma, o continuum básico do enredo, da metanarrativa, por assim dizer, do romance é aquele: um bar na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no último mês e meio do ano da graça de 1999. Naquele lugar, todas as semanas, uma espécie de alter ego do autor se encontra com um colega chamado Vlad para beber, ler trechos do livro O Rio de Janeiro do meu tempo, do historiador e memorialista Luis Edmundo (nascido no século XIX), jogar xadrez às cegas - sem tabuleiro, nem súmulas, apenas ditando as jogadas um para o outro - e se submeter a uma impiedosa sessão de crítica literária. Os textos que o narrador apresenta a seu algoz são, adivinhe, aqueles mesmos que fazem parte do restante da estrutura do livro, incluindo aí os trechos do projeto Macacos. Cada conto é dissecado e analisado de forma impiedosa por Vlad, em uma experiência curiosa de autocrítica ou autoflagelação por parte do escritor. Ego e superego se confrontam em uma partida de xadrez metafórica.
O curioso embate é uma das brincadeiras metalinguísticas preparadas pelo escritor estreante. Afinal, as críticas podem ser acompanhadas pelos leitores entre uma página e outra, logo após a apresentação do texto a ser bombardeado. Da mesma forma que esses leitores em potencial são convidados a imaginar o desenrolar das peças do xadrez mental que protagonista e antagonista movimentam - para isso, extraí mais prazer do livro quem entende a linguagem cifrada do jogo, aqueles que sabem que P3CD se traduz como o peão avançando para a terceira casa do cavalo da dama, por exemplo.
Vlad demonstra ser um analista minucioso da obra do personagem Jorge Moreira Nunes, apontando inconsistências, expondo citações. Claro que nem tudo é dito, ainda sobra bastente material para despertar o interesse dos outros críticos. Para exemplificar, peguemos “Maelström”, um dos contos mais detalhadamente radiografados pelo metacrítico: ele comenta as semelhanças do texto com a obra de Umberto Eco, de Jorge Luís Borges, de Marguerite Yourcenar. Mas deixa de lado o fato de que, já no título, ele faz referência a um conto de Edgar Allan Poe, autor que aparenta ser uma influência forte de Nunes, sem falar em um romance famoso de Jules Verne. Há espaço para outros críticos e outros leitores exercitarem seu lado “Vlad”, como se vê.
Mesmo o mais desatento dos leitores pode adivinhar que a conclusão de todas as pontas daquele mecanismo literário vai se dar durante o reveillon anunciado. Como em uma autêntica partida de xadrez, muitos dos lances são previsíveis, algumas peças são entregues para serem capturadas pelo oponente, como isca. Mesmo assim, o autor conservou lances para os momentos finais, algo como o roque, quando a torre muda de lugar com o rei, o que serve tanto para a defesa quanto para uma estratégia de ataque do jogador. Os desdobramentos do romance também guardam esse tipo de surpresa, um detalhe mencionado dezenas de páginas antes pode voltar a ter um novo significado na hora certa. E, apesar das severas críticas que tanto o alter ego quanto o superego do autor fazem ao gênero em determinado momento - uma das raras concordâncias daquelas personalidades antagônicas - o livro, ao final, se revela uma obra de ficção científica de fato e de direito.
Uma questão que pode ficar em aberto é se a distância entre a produção e o lançamento do livro, de quase dez anos, não envelheceu o texto, fazendo-o perder boa parte do impacto que teria caso saísse mesmo na virada de 1999 para 2000. É algo difícil de se avaliar, mas felizmente as várias camadas de significados ainda estão lá, mesmo com o passar do tempo. Além disso, ao longo de todo o livro, versões de diferentes épocas da capital do Rio de Janeiro se alternam. Desde o prólogo, em que o autor exercita uma de suas maiores qualidades, a habilidade descritiva dos ambientes: ele narra, em uma página e meia, o panorama da cidade que começa em tempos pré-humanidade e avança até uma menção um tanto sutil a um evento ocorrido em 1555. Passa ainda pelas breves citações ao Rio de Janeiro novecentista de Luis Edmundo, chega à realidade contemporânea de “Terraço” e de “Presente de mãe” e ainda especula o futuro distante de “Ouroboros”. Neste Rio de Janeiro de todos os tempos possíveis, Macacos e outros fragmentos ao acaso segue sua trajetória metalinguística, metafísica, metacrítica entre outras aplicações daquele polivalente prefixo.
Serviço: uma última surpresa do livro é o fato de ele ser distribuído gratuitamente a todos os interessados. Cariocas só precisam passar na sede da editora e requisitar um exemplar, leitores de outros estados podem fazer o pedido por carta, telefone e e-mail e só pagam as despesas de postagem.
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Crítica e metacrítica
Um escritor de ficção científica recém-publicado que é ao mesmo tempo bastante crítico quanto ao futuro da ficção científica. O autor em questão lançou seu livro, Macacos e outros fragmentos ao acaso, em meados do ano passado, após tê-lo deixado quase uma década à espera da sua conclusão, tempo em que ele, jornalista de profissão, se estruturou em um novo país. Falando diretamente da Flórida, após uma brevíssima passagem por seu Rio de Janeiro natal, o autor fala de como o livro mudou sua vida uma vez enquanto o escrevia e de como pode voltar a mudá-la, agora que o publicou, descreve o modo pouco usual como encara este gênero literário em que se aventurou e sobre o desenvolvimento de um projeto colaborativo de sua criação. Com vocês, o metacrítico da FC, Jorge Moreira Nunes.
Macacos e outros fragmentos ao acaso acabou sendo sua estréia como autor de um livro de ficção científica, mas ele contém material que foi escrito há quase dez anos. Dá para fazer uma checagem no seu arquivo e conferir se há mais textos, entre inéditos e publicados, de sua autoria? Ainda há outros textos fictícios escritos antes da produção do livro e no intervalo de mais de oito anos até o lançamento do romance?
Tenho alguns textos inéditos, mas que não vejo porque publicar em lugar algum, por várias razões. A maioria não tem a qualidade mínima que mereça o esforço, outros são apenas esboços de projetos, num total de meia-dúzia de textos. Depois que me mudei para os EUA, minha produção literária congelou-se completamente. Não escrevo nada que mereça ser chamado de literatura há oito anos.
Qual é a sensação de lançar um livro, e logo a obra de estréia, de modo tão isolado? Ela acabou saindo distante do tempo em que foi escrita, em 1998, e você mesmo está bem afastado da cidade em que a história se passa, o Rio de Janeiro. E tanto o tempo quanto o espaço são personagens importantes para o romance.
Acho que não houve um “;lançamento”; de verdade, mas apenas uma “;impressão”;, que aliás foi bancada por mim. Nunca tive a ousadia de submeter os originais a uma editora para avaliar suas possibilidades, mesmo porque não acho que o livro teria boa receptividade entre os editores mainstream, apesar de ter ganhado a bolsa para obras em fase de conclusão, da Biblioteca Nacional, em 98. Queria apenas me livrar dos originais e colocá-los no mundo para que seguissem o seu caminho, e para isso não seria necessária minha presença física no Rio. Já que a minha intenção seria distribuí-lo de graça, não houve também uma necessidade de seguir um plano de marketing para divulgá-lo e promover vendas. É claro que a intenção será sempre a de que as pessoas leiam o livro, mas gosto de observar como ele se comporta sem uma interferência mercadológica. Pessoalmente, para mim foi muito importante me livrar do trapézio machadiano na cabeça que ele representava desde que ficou pronto.
Os distanciamentos, tanto no tempo quanto no espaço, não trouxeram maiores conseqüências. Estive no Rio, agora em dezembro, e o cenário do livro não mudou nem um pouco. Talvez o fato de situar a história na virada do milênio tenha tirado um pouco da sua atualidade mas, como você bem salientou na sua resenha, Macacos trata de um Rio de Janeiro de todos os tempos.
Como foi o processo de montagem da estrutura do livro? Há quanto tempo você cultivava a idéia montar uma história que contextualizasse vários de seus contos em um romance de metalinguagem?
Jamais tive essa idéia, isto é, de caso pensado, e nem parei um dia e decidi: “;Vou escrever um livro”;. Macacos surgiu de repente, quando percebi que era possível construir uma espinha dorsal que reunisse em torno alguns contos meus, usando uma espécie de corrente de palavras que eu andava a escrever e que depois viria a ser Macacos. A corrente era uma brincadeira pessoal, uma verborragia cheia de associações psicanalíticas reunidas com alguma preocupação literária, por assim dizer, mas sem qualquer aplicação prática nem maiores intenções. A metalinguagem foi usada para facilitar a conexão entre os diversos contos: nada melhor para colocá-los no mesmo saco que as críticas de Vlad... E assim o livro foi sendo escrito pelo caminho, à medida que as associações entre os contos e a corrente surgiam e sugeriam enredos, quase de forma espontânea.
E a seleção dos textos que fizeram parte dessa experiência? Você aproveitou “;Saviana”;, por exemplo, mas deixou de lado outro conto escrito originalmente para coletânea Intempol, “;O furacão Marilyn”;, quais foram os seus critérios de escolha?
A Intempol foi um grande estímulo para a elaboração do livro. O surgimento daquele universo compartilhado e suas possibilidades me fizeram ter vontade de escrever. Assim que Octavio Aragão criou a sua lista de discussão, escrevi ”;O furacão Marilyn”; e “;O ovo e a galinha”;, minhas primeiras tentativas de contribuir para o universo. Esses contos foram escritos sem qualquer pretensão, meio que de brincadeira e de uma penada só.
Já “;Saviana”; mereceu uma maior atenção, porque a Intempol já ganhava uma dimensão mais consistente. O critério de escolha foi muito simples, porque a minha produção é bem limitada: de todas as minhas tentativas, os contos que estão no livro são os únicos que considero sofríveis para publicação.
Entre os dois personagens principais de seu livro há um único consenso, ainda que com alguma diferença de intensidade: a crítica à FC como gênero literário. O antagonista Vlad a classifica como masturbação e diz que “;essas histórias não têm absolutamente nenhum motivo que não seja tentar inflar o ego de quem as escreve”;. Já o personagem narrador diz acreditar que “;a ficção científica já morreu e não sabe”;. E você mesmo, como autor, não personagem, qual sua opinião a respeito do assunto?
Eu e Vlad somos bastante preconceituosos, é verdade…; O fato é que posso estar falando sem conhecimento de causa, porque minhas leituras de FC são bastante limitadas e restritas a alguns clássicos do gênero, e àqueles continhos do tipo da Asimov Magazine, mas intuitivamente penso realmente que a FC anda nos seus estertores. E, como todo preconceituoso, tenho o mau hábito de não gostar de várias coisas mesmo antes de conhecê-las, e uma dessas coisas é a FC pós-moderna e os seus subgêneros, tais que cyberpunks, pulps e afins. Talvez o meu encanto com a FC tenha se desfeito ao mesmo tempo que se desfizeram os sonhos de futuro que minha geração possuía.
Durante a virada de 60/70, era quase certo que o futuro próximo nos reservaria viagens interplanetárias, hotéis na lua e outras maravilhas tecnológicas. A FC era baseada nesses sonhos, ao mesmo tempo que os alimentava. Depois que o futuro desmoronou, perdi o interesse e não mais acompanhei o mainstream.
Quanto à FCB, há coisas boas e outras nem tanto. Desconfio que há uma certa tendência para o pastiche, para simular fórmulas alheias retiradas dos ídolos dos escritores. Faltam, é verdade, aquela obra emblemática, aquele autor consagrado, apesar de haver gente com bastante talento escrevendo. Talvez seja uma questão de estatística, como diria um macaco: se a gente produzir bastante, um dia, por força estatística, pode ser que alguém traga a redenção para a FCB.
E por que, dentre tantas possibilidades existentes, você, um jornalista, escolheu a ficção científica para expressar seu lado literário?
Não sei se foi uma “;escolha”;, porque não decidi delibradamente escrever FC. Apenas escrevi o que imaginei, e se o resultado pode ser chamado de FC, não há problemas. Mas prefiro deixar a catalogação do livro em aberto.
O projeto colaborativo Macacos é uma das bases do seu primeiro livro. Quando e de onde veio a idéia para elaborar tal iniciativa e o que você tem achado da evolução da experiência ao longo dos anos?
A idéia de abrir a corrente veio como conseqüência natural do livro, e foi muito interessante trazer para a realidade o conceito contido no livro.
Quer dizer, até agora a corrente tem cumprido no mundo real exatamente a função que lhe foi atribuída inicialmente no livro. Se ela vai seguir o destino que o livro lhe preparou, isso é outra história, mas por enquanto a realidade está acompanhando a ficção. A evolução de Macacos foi realmente impressionante durante esses anos. Por algum tempo, o website ficou estacionado num canto distante da internet, e tinha muito poucas colaborações, ainda que chegassem duas ou três contribuições à corrente por mês. Depois que ela encontrou seu domínio próprio ( www.macacos.net ) a coisa decolou. Hoje, mais de 90% da corrente foram acrescentados pelos visitantes do site, que escrevem de tudo ali. Isso com pouca ou nenhuma divulgação. Não posso deixar de reconhecer, no entanto, que ela recebeu um impulso fantástico de um entusiasta de primeira hora: Carlos Alberto Teixeira (CAT), d’;O Globo, que dedicou uma sua coluna inteira para a corrente, muito antes do livro ser lançado.
Ao longo do texto, são citados vários autores de diversos estilos, Nietzsche, Borges, Eco, Poe, Clarke, Miller... Quais são os escritores que mais o influenciam na hora de elaborar seus trabalhos de ficção? E o que você anda lendo atualmente?
É difícil listar os autores que me influenciaram, porque acho que essa influência está num nível inconsciente, mas com certeza esses que você citou estão presentes, e mais pelo menos uma centena de outros, ainda que eu não consiga identificar nada desses autores no meu texto (quem me dera!).
Não procurei reproduzir nenhum estilo específico no livro, e também acho que ainda não desenvolvi um estilo próprio, para que possa ser analisado sob uma ótica de influências. Quanto às leituras, tenho lido muito pouco, mas no momento leio um livro bem interessante sobre o xadrez - O jogo imortal, de David Shenk -, sobre como a dinâmica do jogo parece ser um simulacro em menor escala de todos os dramas vividos pela humanidade.
Aparentemente, ao final do livro você fez uma pesada sessão de autopsicanálise e até de autoexorcismo. Como foi passar por tal experiência e, quanto à sua relação com a crítica e com a autocrítica, algo mudou depois de escrever e, finalmente, publicar a obra?
De novo, tudo me parece um processo inconsciente. Não estruturei o livro deliberadamente com essa intenção pessoal, mas ela acabou surgindo com o seu desenvolvimento. E, coincidência ou não, o livro transformou mesmo a minha vida, começando pelo fato de os originais terem ganhado o prêmio da BN.
Isso me valorizou como profissional e me abriu portas aqui nos EUA, onde acabei por me fixar, abrindo um jornal. Embarquei para cá exatamente dez dias depois de receber a premiação por Macacos durante a Bienal do Livro de 99, e o deixei de molho desde então. Agora, oito anos depois, parece que ele está a fim de transformar a minha vida novamente…;
Neste intervalo de mais de oito anos entre o começo e o fim de Macacos você pensou em voltar a desenvolver algum novo projeto? No futuro próximo há a possibilidade de sair mais algum livro seu ou alguma nova experiência interativa?
Durante este período estive muito ocupado com a estruturação da minha vida profissional aqui nos EUA, empenhado na construção e consolidação do meu jornal como empresa. Hoje, já posso relaxar um pouco e voltar a pensar em coisas como literatura e música, duas paixões (e frustrações). Tenho algumas idéias gravitando, mas preciso antes resgatar o hábito de escrever regularmente e desenvolver uma certa disciplina.
Não acredito que um possível novo livro venha nos moldes de Macacos, acho que ele já foi para o mundo. Possivelmente será alguma coisa mais convencional, uma história simples.
Macacos e outros fragmentos ao acaso acabou sendo sua estréia como autor de um livro de ficção científica, mas ele contém material que foi escrito há quase dez anos. Dá para fazer uma checagem no seu arquivo e conferir se há mais textos, entre inéditos e publicados, de sua autoria? Ainda há outros textos fictícios escritos antes da produção do livro e no intervalo de mais de oito anos até o lançamento do romance?
Tenho alguns textos inéditos, mas que não vejo porque publicar em lugar algum, por várias razões. A maioria não tem a qualidade mínima que mereça o esforço, outros são apenas esboços de projetos, num total de meia-dúzia de textos. Depois que me mudei para os EUA, minha produção literária congelou-se completamente. Não escrevo nada que mereça ser chamado de literatura há oito anos.
Qual é a sensação de lançar um livro, e logo a obra de estréia, de modo tão isolado? Ela acabou saindo distante do tempo em que foi escrita, em 1998, e você mesmo está bem afastado da cidade em que a história se passa, o Rio de Janeiro. E tanto o tempo quanto o espaço são personagens importantes para o romance.
Acho que não houve um “;lançamento”; de verdade, mas apenas uma “;impressão”;, que aliás foi bancada por mim. Nunca tive a ousadia de submeter os originais a uma editora para avaliar suas possibilidades, mesmo porque não acho que o livro teria boa receptividade entre os editores mainstream, apesar de ter ganhado a bolsa para obras em fase de conclusão, da Biblioteca Nacional, em 98. Queria apenas me livrar dos originais e colocá-los no mundo para que seguissem o seu caminho, e para isso não seria necessária minha presença física no Rio. Já que a minha intenção seria distribuí-lo de graça, não houve também uma necessidade de seguir um plano de marketing para divulgá-lo e promover vendas. É claro que a intenção será sempre a de que as pessoas leiam o livro, mas gosto de observar como ele se comporta sem uma interferência mercadológica. Pessoalmente, para mim foi muito importante me livrar do trapézio machadiano na cabeça que ele representava desde que ficou pronto.
Os distanciamentos, tanto no tempo quanto no espaço, não trouxeram maiores conseqüências. Estive no Rio, agora em dezembro, e o cenário do livro não mudou nem um pouco. Talvez o fato de situar a história na virada do milênio tenha tirado um pouco da sua atualidade mas, como você bem salientou na sua resenha, Macacos trata de um Rio de Janeiro de todos os tempos.
Como foi o processo de montagem da estrutura do livro? Há quanto tempo você cultivava a idéia montar uma história que contextualizasse vários de seus contos em um romance de metalinguagem?
Jamais tive essa idéia, isto é, de caso pensado, e nem parei um dia e decidi: “;Vou escrever um livro”;. Macacos surgiu de repente, quando percebi que era possível construir uma espinha dorsal que reunisse em torno alguns contos meus, usando uma espécie de corrente de palavras que eu andava a escrever e que depois viria a ser Macacos. A corrente era uma brincadeira pessoal, uma verborragia cheia de associações psicanalíticas reunidas com alguma preocupação literária, por assim dizer, mas sem qualquer aplicação prática nem maiores intenções. A metalinguagem foi usada para facilitar a conexão entre os diversos contos: nada melhor para colocá-los no mesmo saco que as críticas de Vlad... E assim o livro foi sendo escrito pelo caminho, à medida que as associações entre os contos e a corrente surgiam e sugeriam enredos, quase de forma espontânea.
E a seleção dos textos que fizeram parte dessa experiência? Você aproveitou “;Saviana”;, por exemplo, mas deixou de lado outro conto escrito originalmente para coletânea Intempol, “;O furacão Marilyn”;, quais foram os seus critérios de escolha?
A Intempol foi um grande estímulo para a elaboração do livro. O surgimento daquele universo compartilhado e suas possibilidades me fizeram ter vontade de escrever. Assim que Octavio Aragão criou a sua lista de discussão, escrevi ”;O furacão Marilyn”; e “;O ovo e a galinha”;, minhas primeiras tentativas de contribuir para o universo. Esses contos foram escritos sem qualquer pretensão, meio que de brincadeira e de uma penada só.
Já “;Saviana”; mereceu uma maior atenção, porque a Intempol já ganhava uma dimensão mais consistente. O critério de escolha foi muito simples, porque a minha produção é bem limitada: de todas as minhas tentativas, os contos que estão no livro são os únicos que considero sofríveis para publicação.
Entre os dois personagens principais de seu livro há um único consenso, ainda que com alguma diferença de intensidade: a crítica à FC como gênero literário. O antagonista Vlad a classifica como masturbação e diz que “;essas histórias não têm absolutamente nenhum motivo que não seja tentar inflar o ego de quem as escreve”;. Já o personagem narrador diz acreditar que “;a ficção científica já morreu e não sabe”;. E você mesmo, como autor, não personagem, qual sua opinião a respeito do assunto?
Eu e Vlad somos bastante preconceituosos, é verdade…; O fato é que posso estar falando sem conhecimento de causa, porque minhas leituras de FC são bastante limitadas e restritas a alguns clássicos do gênero, e àqueles continhos do tipo da Asimov Magazine, mas intuitivamente penso realmente que a FC anda nos seus estertores. E, como todo preconceituoso, tenho o mau hábito de não gostar de várias coisas mesmo antes de conhecê-las, e uma dessas coisas é a FC pós-moderna e os seus subgêneros, tais que cyberpunks, pulps e afins. Talvez o meu encanto com a FC tenha se desfeito ao mesmo tempo que se desfizeram os sonhos de futuro que minha geração possuía.
Durante a virada de 60/70, era quase certo que o futuro próximo nos reservaria viagens interplanetárias, hotéis na lua e outras maravilhas tecnológicas. A FC era baseada nesses sonhos, ao mesmo tempo que os alimentava. Depois que o futuro desmoronou, perdi o interesse e não mais acompanhei o mainstream.
Quanto à FCB, há coisas boas e outras nem tanto. Desconfio que há uma certa tendência para o pastiche, para simular fórmulas alheias retiradas dos ídolos dos escritores. Faltam, é verdade, aquela obra emblemática, aquele autor consagrado, apesar de haver gente com bastante talento escrevendo. Talvez seja uma questão de estatística, como diria um macaco: se a gente produzir bastante, um dia, por força estatística, pode ser que alguém traga a redenção para a FCB.
E por que, dentre tantas possibilidades existentes, você, um jornalista, escolheu a ficção científica para expressar seu lado literário?
Não sei se foi uma “;escolha”;, porque não decidi delibradamente escrever FC. Apenas escrevi o que imaginei, e se o resultado pode ser chamado de FC, não há problemas. Mas prefiro deixar a catalogação do livro em aberto.
O projeto colaborativo Macacos é uma das bases do seu primeiro livro. Quando e de onde veio a idéia para elaborar tal iniciativa e o que você tem achado da evolução da experiência ao longo dos anos?
A idéia de abrir a corrente veio como conseqüência natural do livro, e foi muito interessante trazer para a realidade o conceito contido no livro.
Quer dizer, até agora a corrente tem cumprido no mundo real exatamente a função que lhe foi atribuída inicialmente no livro. Se ela vai seguir o destino que o livro lhe preparou, isso é outra história, mas por enquanto a realidade está acompanhando a ficção. A evolução de Macacos foi realmente impressionante durante esses anos. Por algum tempo, o website ficou estacionado num canto distante da internet, e tinha muito poucas colaborações, ainda que chegassem duas ou três contribuições à corrente por mês. Depois que ela encontrou seu domínio próprio ( www.macacos.net ) a coisa decolou. Hoje, mais de 90% da corrente foram acrescentados pelos visitantes do site, que escrevem de tudo ali. Isso com pouca ou nenhuma divulgação. Não posso deixar de reconhecer, no entanto, que ela recebeu um impulso fantástico de um entusiasta de primeira hora: Carlos Alberto Teixeira (CAT), d’;O Globo, que dedicou uma sua coluna inteira para a corrente, muito antes do livro ser lançado.
Ao longo do texto, são citados vários autores de diversos estilos, Nietzsche, Borges, Eco, Poe, Clarke, Miller... Quais são os escritores que mais o influenciam na hora de elaborar seus trabalhos de ficção? E o que você anda lendo atualmente?
É difícil listar os autores que me influenciaram, porque acho que essa influência está num nível inconsciente, mas com certeza esses que você citou estão presentes, e mais pelo menos uma centena de outros, ainda que eu não consiga identificar nada desses autores no meu texto (quem me dera!).
Não procurei reproduzir nenhum estilo específico no livro, e também acho que ainda não desenvolvi um estilo próprio, para que possa ser analisado sob uma ótica de influências. Quanto às leituras, tenho lido muito pouco, mas no momento leio um livro bem interessante sobre o xadrez - O jogo imortal, de David Shenk -, sobre como a dinâmica do jogo parece ser um simulacro em menor escala de todos os dramas vividos pela humanidade.
Aparentemente, ao final do livro você fez uma pesada sessão de autopsicanálise e até de autoexorcismo. Como foi passar por tal experiência e, quanto à sua relação com a crítica e com a autocrítica, algo mudou depois de escrever e, finalmente, publicar a obra?
De novo, tudo me parece um processo inconsciente. Não estruturei o livro deliberadamente com essa intenção pessoal, mas ela acabou surgindo com o seu desenvolvimento. E, coincidência ou não, o livro transformou mesmo a minha vida, começando pelo fato de os originais terem ganhado o prêmio da BN.
Isso me valorizou como profissional e me abriu portas aqui nos EUA, onde acabei por me fixar, abrindo um jornal. Embarquei para cá exatamente dez dias depois de receber a premiação por Macacos durante a Bienal do Livro de 99, e o deixei de molho desde então. Agora, oito anos depois, parece que ele está a fim de transformar a minha vida novamente…;
Neste intervalo de mais de oito anos entre o começo e o fim de Macacos você pensou em voltar a desenvolver algum novo projeto? No futuro próximo há a possibilidade de sair mais algum livro seu ou alguma nova experiência interativa?
Durante este período estive muito ocupado com a estruturação da minha vida profissional aqui nos EUA, empenhado na construção e consolidação do meu jornal como empresa. Hoje, já posso relaxar um pouco e voltar a pensar em coisas como literatura e música, duas paixões (e frustrações). Tenho algumas idéias gravitando, mas preciso antes resgatar o hábito de escrever regularmente e desenvolver uma certa disciplina.
Não acredito que um possível novo livro venha nos moldes de Macacos, acho que ele já foi para o mundo. Possivelmente será alguma coisa mais convencional, uma história simples.
Moços do corpo dourado
O texto literário mais antigo do qual se tem conhecimento foi escrito por um autor anônimo em tábuas de argila utilizando caracteres que lembram o formato de cunhas. Trata-se de um poema épico dividido em 12 partes que narra os feitos heróicos de Gilgamesh, o rei semilendário de Uruk, na antiga Mesopotâmia, na época em que aquela região da Ásia era ocupada pelo povo sumério. Basicamente, conforme foi traduzida no século XIX, após passar milénios no esquecimento, a epopéia descreve como o soberano se embrenhou na aventura em busca de um dom que ele, apesar de ser filho de uma deusa e de um semideus, não herdou no nascimento: a vida eterna. Passados quase 5 mil anos do surgimento daquele marco da literatura, para ser mais exato foi em 2003, um livro nacional de ficção científica fez a transposição de tal mito para os tempos de hoje, com a vantagem extra de trocar os incômodos retângulos de argila pelo papel e de ter substituído quase todos os símbolos cuneiformes pelo nosso velho conhecido alfabeto latino.
O título da obra em questão faz referência a outra inovação típica dos sumérios - neste caso, arquitetônica - os zigurates, as primeiras construções a desafiar os limites terrenos se lançando aos céus e que, não por acaso, deram origem ao mito da Torre de Babel. Zigurate - Uma fábula babélica é o quarto e mais recente livro do gaúcho de Porto Alegre Max Mallmann, atualmente um residente da capital fluminense onde trabalha como roteirista da Rede Globo. Em termos literários, ele, que é formado em direito, estreou em 1989, aos 20 anos, com Confissões do minotauro; em seguida veio Mundo Bizarro; Síndrome de quimera, publicado no ano 2000 pela mesma editora Rocco de Zigurate, foi traduzido para o francês e chegou a ser finalista para o renomado prêmio Jabuti. Já no plano do audiovisual, escreveu sua própria telenovela, Coração de estudante, colaborou com a soap opera Malhação e, hoje em dia, faz parte da equipe de criação do seriado A grande família.
Ou seja, há quase 20 anos, ele vem se dedicando a vários temas, dos dramas adolescentes a comédias familiares, passando por trabalhos em literatura fantástica, com ênfase na fantasia. Vamos pegar o exemplo de Mundo Bizarro, publicado em 1996 com recursos da prefeitura da capital do Rio Grande do Sul, quando o escritor assinava com o nome Max Mallmann Souto-Pereira. O livro conta a história de um porto-alegrense que misteriosamente foi parar em outro planeta - ou seria outra dimensão? Ou ainda um universo paralelo? - habitado por um povo atrasado tecnologicamente que cultuava três mil deuses diferentes. Foi em Zigurate que ele se aventurou de modo mais explícito, e com maturidade autoral, no terreno da FC, mesmo sem abandonar outras vertentes literárias. Com isso, não só escreveu um dos melhores romances do gênero lançados nesta década, como ainda criou dois dos mais carismáticos e bem construídos personagens de nossa ficção científica em todos os tempos.
No livro do século XXI, quem repete a epopéia do rei sumério em uma longa viagem em busca da Vida é uma pesquisadora francesa chamada Sophie Brasier. Aos 30 anos, convivendo com o vírus HIV desde os 20, ela descobre que a mistura do coquetel anti-Aids com os genes ruins herdados do pai a condenou a uma morte certa por ataque cardíaco em uma questão de meses. Sem nenhum relacionamento amoroso há anos, sem amigos próximos, tendo como família apenas a mãe ausente e uma samambaia, a parisiense se agarra a única coisa que lhe restou na tentativa de evitar a insanidade: concluir sua tese de doutorado em antropologia denominada Interpolações dos mitos mesopotâmicos no texto bíblico. Para ajudar a explicar o título, vale lembrar um exemplo no caso já citado. Um dos pontos narrados no Poema de Gilgamesh diz respeito a uma grande inundação bastante semelhante àquela presente no trecho da Bíblia sobre a Arca de Noé. A diferença principal é que o protagonista da lenda suméria, Ziusudra, ao contrário do patriarca bíblico, recebeu de seu deus, Ea, a dádiva tão cobiçada pelo rei Gilgamesh, a imortalidade.
"Sophie não tinha teorias bombásticas, não queria provocar polêmica e nem revolucionar o mundo acadêmico", apontou Mallmann. "Queria apenas escrever uma tese clara, lógica, fria e legível. Como uma lápide, seu último trabalho intelectual antes de morrer". Com tamanha motivação, a antropóloga fez algumas descobertas que, caso pudessem mesmo ser comprovadas, iriam sim causar polêmicas e revoluções. E não apenas na academia. Aqui talvez seja prudente esclarecer um ponto: um leitor de hoje, que não conheça o livro do gaúcho, pode encontrar semelhanças entre a descrição da trama de Zigurate com o megasucesso O código da Vinci, mas a comparação não é de todo procedente. Por uma questão cronológica, a obra de Dan Brown nunca poderia ter sevido de inspiração, afinal, coincidentemente, ela também foi lançada em 2003, nos EUA, e só viria a estourar como sucesso a partir no ano seguinte, culminando com a adaptação cinematográfica de 2006. Além disso, não é patriotada dizer que o material nacional é estilisticamente bem superior ao daquele livro mais famoso - e, em outra coincidência, que também é o quarto lançado pelo escritor americano. Se for para arriscar alguma influência do gaúcho, é mais certo apostar em uma dupla de escritores e quadrinistas britânicos. Pela temática, Alan Moore, com a série de HQ Promethea, lançada em 1999, e, pela construção de personagens, Neil Gaiman, principalmente por Morte, irmã mais velha de Sandman, criaturas cult dos anos 80.
Voltando a Zigurate. O ponto de partida para a investigação científica foi a carta que Sophie descobriu em uma biblioteca francesa, contendo a reprodução do texto de uma Bíblia escrita no século XII. Era uma versão apócrifa e aparentemente herética do primeiro livro que compõe as escrituras sagradas. Nesse Gênesis alternativo, escrito em latim clássico ao longo de 14 versículos, estava contada a origem de um casal anterior a Adão e Eva, os misteriosos Lugal e Nin que vieram ao mundo no sexto dia da criação. Eles sim teriam sido feitos à imagem e semelhança de Deus, tanto que foram agraciados com a vida eterna. Parte disso se explica pelo material utilizado na confecção dos seres primogênitos, pois eles foram esculpidos em ouro, único metal capaz de refletir "com seu brilho imperecível" a glória e a imagem divinas. Porém, eles acabaram por afrontar o Criador e, como vaticina o capítulo 2, versículo 5 do texto, acabaram punidos:
"O Senhor Deus, arrependido de sua criação, depôs Lugal e Nin do trono do mundo recém-feito. E Deus lhes disse: 'Imortais vos fizemos. Imortais vós sereis. Mas vossa semente será estéril. Não deixareis filhos nem herdeiros. Vagareis sem destino pela terra até o final dos tempos, e nenhuma memória restará de vossa existência, pois este mundo já não mais vos pertence'".
Arrependido da experiência pioneira, Deus resolveu tentar novamente, agora com algumas salvaguardas. Trocou a nobreza perene do ouro pela simplicidade fugaz do barro na hora de moldar Adão. Foi assim que o novo homem e, por consequência, a mulher que recebeu sua costela se tornaram um par "debilis et imbecillus, fragilis et mortalis", ou seja, "débil e quebradiço, frágil e mortal". Apesar do ceticismo do orientador da pós-graduação, dos protestos da mãe e da gravidade de sua doença, Sophie Brasier mergulhou de tal forma na pesquisa que, ao longo dos meses, acabou econtrando referências em uma infinidade de fontes históricas. Os nomes Lugal e Nin, de origem suméria, surgiam, por exemplo, compondo a nomenclatura de deuses e de reis em textos acádios, babilônicos e assírios, além dos citados pais de Gilgamesh: a deusa Ninsun e o rei divino Lugalbanda.
Mas não parou por aí. Aparecem pistas nos relatos dos homens do exército de Napoleão que invadiram o Egito e nas listas de condenados à guilhotina durante o período de terror da Revolução Francesa, assim como entre as mulheres julgadas como bruxas pela Inquisição espanhola. Ainda na Espanha, surgem relatos de um Lugal entre os combatentes da Guerra Civil, do mesmo modo que entre os soldados soviéticos que tomaram Berlim no colapso da II Guerra Mundial. Há uma Nin na redação do Pravda durante a Revolução Russa e surge uma foto dela em uma reportagem da Vogue tirada na Inglaterra há 40 anos. Voltando a comparar com o O código da Vinci, até mesmo uma pintura antiga fornece pistas da existência real daqueles misteriosos seres que, a depender da inspiração poética de quem os descreve, têm a pele de um "amarelo solar", "amarelo mostarda", "cor de uísque", "matiz ambarino", "anêmica", "cor de mijo" ou de "gema de ovo frito".
Depois de praticamente um ano, contrariando os diagnósticos em relação à sua expectativa de vida, a doutoranda resolve deixar a especulação teórica de lado e parte para a pesquisa de campo. Sua empreitada a leva até à Escócia para tentar ao menos provar a veracidade de parte dos seus achados. Enquanto isso, alheia ao interesse acadêmico que lhe envolve, a outra metade da trama se desenrola em um cenário bem mais conhecido dos brasileiros: a cidade do Rio de Janeiro. Por lá, o ritmo da história é outro, substituindo neurônios europeus por adrenalina das Américas. Chovem bala e sangue numa mistura de corrupção política com violência dos morros cariocas. Mas o tratamento dispensado à narrativa também é diferente, Mallmann substituiu o realismo com que tratou o ambiente acadêmico francês por um tom mais de fábula mesmo, como sugere o subtítulo. Por isso, não é o caso de se esperar uma descrição cruenta da realidade urbana nos moldes de um "Feliz ano novo" de Rubem Fonseca; seria mais adequado comparar o lado brasileiro da história com algum roteiro de Quentin Tarantino, algo como um Amor à queima roupa carnavalizado. Isso ajudou a deixar o texto ameno e bem-humorado, mas também acabou abrindo portas para alguns personagens mais rasos, quase caricatos. Talvez Zigurate tivesse a ganhar com a ausência de alguns deles.
Analisando o livro como um todo, em poucas páginas, com um ritmo alucinante e a urgência de um moribundo que se agarra à sua última chance de salvação, Mallmann produz um apaixonante tour pela História, da mais remota antiguidade aos dias atuais. Serve como prova de que a ficção científica pode usar como tema de extrapolação todas as formas de conhecimento organizado, como a antropologia e a filologia, e não apenas ciências exatas - apesar de, quase ao final das 223 páginas da obra, surgir uma muito interessante possibilidade envolvendo física teórica avançada. O grau de detalhismo e a veracidade com que o autor constrói o cenário e seus protagonistas tornam quase irresistível ao leitor algumas pesquisas pelas inúmeras referências textuais. A cada resposta do Google, este novo oráculo onisciente e onipresente, mais impressionante se demonstra a costura do texto e a erudição pop do escritor. Aguça a curiosidade e deixa no ar a pergunta: o que mais poderia ser feito se algumas lacunas fossem preenchidas? Ao fim, Zigurate - Uma fábula babélica não é apenas uma recriação em vários níveis da saga de Gilgamesh pela busca da existência eterna. O livro também é uma apaixonada e muito bem engendrada homenagem à palavra escrita, com as diferentes tecnologias que, ao longo dos tempos, lhe garantiram a existência e, de quebra, também fizeram com que a história e a cultura se tornassem possíveis. Não importando se tais tecnologias sejam laptops, endereços eletrônicos, o lápis ou tábuas de argila gravadas com caracteres cuneiformes.
O título da obra em questão faz referência a outra inovação típica dos sumérios - neste caso, arquitetônica - os zigurates, as primeiras construções a desafiar os limites terrenos se lançando aos céus e que, não por acaso, deram origem ao mito da Torre de Babel. Zigurate - Uma fábula babélica é o quarto e mais recente livro do gaúcho de Porto Alegre Max Mallmann, atualmente um residente da capital fluminense onde trabalha como roteirista da Rede Globo. Em termos literários, ele, que é formado em direito, estreou em 1989, aos 20 anos, com Confissões do minotauro; em seguida veio Mundo Bizarro; Síndrome de quimera, publicado no ano 2000 pela mesma editora Rocco de Zigurate, foi traduzido para o francês e chegou a ser finalista para o renomado prêmio Jabuti. Já no plano do audiovisual, escreveu sua própria telenovela, Coração de estudante, colaborou com a soap opera Malhação e, hoje em dia, faz parte da equipe de criação do seriado A grande família.
Ou seja, há quase 20 anos, ele vem se dedicando a vários temas, dos dramas adolescentes a comédias familiares, passando por trabalhos em literatura fantástica, com ênfase na fantasia. Vamos pegar o exemplo de Mundo Bizarro, publicado em 1996 com recursos da prefeitura da capital do Rio Grande do Sul, quando o escritor assinava com o nome Max Mallmann Souto-Pereira. O livro conta a história de um porto-alegrense que misteriosamente foi parar em outro planeta - ou seria outra dimensão? Ou ainda um universo paralelo? - habitado por um povo atrasado tecnologicamente que cultuava três mil deuses diferentes. Foi em Zigurate que ele se aventurou de modo mais explícito, e com maturidade autoral, no terreno da FC, mesmo sem abandonar outras vertentes literárias. Com isso, não só escreveu um dos melhores romances do gênero lançados nesta década, como ainda criou dois dos mais carismáticos e bem construídos personagens de nossa ficção científica em todos os tempos.
No livro do século XXI, quem repete a epopéia do rei sumério em uma longa viagem em busca da Vida é uma pesquisadora francesa chamada Sophie Brasier. Aos 30 anos, convivendo com o vírus HIV desde os 20, ela descobre que a mistura do coquetel anti-Aids com os genes ruins herdados do pai a condenou a uma morte certa por ataque cardíaco em uma questão de meses. Sem nenhum relacionamento amoroso há anos, sem amigos próximos, tendo como família apenas a mãe ausente e uma samambaia, a parisiense se agarra a única coisa que lhe restou na tentativa de evitar a insanidade: concluir sua tese de doutorado em antropologia denominada Interpolações dos mitos mesopotâmicos no texto bíblico. Para ajudar a explicar o título, vale lembrar um exemplo no caso já citado. Um dos pontos narrados no Poema de Gilgamesh diz respeito a uma grande inundação bastante semelhante àquela presente no trecho da Bíblia sobre a Arca de Noé. A diferença principal é que o protagonista da lenda suméria, Ziusudra, ao contrário do patriarca bíblico, recebeu de seu deus, Ea, a dádiva tão cobiçada pelo rei Gilgamesh, a imortalidade.
"Sophie não tinha teorias bombásticas, não queria provocar polêmica e nem revolucionar o mundo acadêmico", apontou Mallmann. "Queria apenas escrever uma tese clara, lógica, fria e legível. Como uma lápide, seu último trabalho intelectual antes de morrer". Com tamanha motivação, a antropóloga fez algumas descobertas que, caso pudessem mesmo ser comprovadas, iriam sim causar polêmicas e revoluções. E não apenas na academia. Aqui talvez seja prudente esclarecer um ponto: um leitor de hoje, que não conheça o livro do gaúcho, pode encontrar semelhanças entre a descrição da trama de Zigurate com o megasucesso O código da Vinci, mas a comparação não é de todo procedente. Por uma questão cronológica, a obra de Dan Brown nunca poderia ter sevido de inspiração, afinal, coincidentemente, ela também foi lançada em 2003, nos EUA, e só viria a estourar como sucesso a partir no ano seguinte, culminando com a adaptação cinematográfica de 2006. Além disso, não é patriotada dizer que o material nacional é estilisticamente bem superior ao daquele livro mais famoso - e, em outra coincidência, que também é o quarto lançado pelo escritor americano. Se for para arriscar alguma influência do gaúcho, é mais certo apostar em uma dupla de escritores e quadrinistas britânicos. Pela temática, Alan Moore, com a série de HQ Promethea, lançada em 1999, e, pela construção de personagens, Neil Gaiman, principalmente por Morte, irmã mais velha de Sandman, criaturas cult dos anos 80.
Voltando a Zigurate. O ponto de partida para a investigação científica foi a carta que Sophie descobriu em uma biblioteca francesa, contendo a reprodução do texto de uma Bíblia escrita no século XII. Era uma versão apócrifa e aparentemente herética do primeiro livro que compõe as escrituras sagradas. Nesse Gênesis alternativo, escrito em latim clássico ao longo de 14 versículos, estava contada a origem de um casal anterior a Adão e Eva, os misteriosos Lugal e Nin que vieram ao mundo no sexto dia da criação. Eles sim teriam sido feitos à imagem e semelhança de Deus, tanto que foram agraciados com a vida eterna. Parte disso se explica pelo material utilizado na confecção dos seres primogênitos, pois eles foram esculpidos em ouro, único metal capaz de refletir "com seu brilho imperecível" a glória e a imagem divinas. Porém, eles acabaram por afrontar o Criador e, como vaticina o capítulo 2, versículo 5 do texto, acabaram punidos:
"O Senhor Deus, arrependido de sua criação, depôs Lugal e Nin do trono do mundo recém-feito. E Deus lhes disse: 'Imortais vos fizemos. Imortais vós sereis. Mas vossa semente será estéril. Não deixareis filhos nem herdeiros. Vagareis sem destino pela terra até o final dos tempos, e nenhuma memória restará de vossa existência, pois este mundo já não mais vos pertence'".
Arrependido da experiência pioneira, Deus resolveu tentar novamente, agora com algumas salvaguardas. Trocou a nobreza perene do ouro pela simplicidade fugaz do barro na hora de moldar Adão. Foi assim que o novo homem e, por consequência, a mulher que recebeu sua costela se tornaram um par "debilis et imbecillus, fragilis et mortalis", ou seja, "débil e quebradiço, frágil e mortal". Apesar do ceticismo do orientador da pós-graduação, dos protestos da mãe e da gravidade de sua doença, Sophie Brasier mergulhou de tal forma na pesquisa que, ao longo dos meses, acabou econtrando referências em uma infinidade de fontes históricas. Os nomes Lugal e Nin, de origem suméria, surgiam, por exemplo, compondo a nomenclatura de deuses e de reis em textos acádios, babilônicos e assírios, além dos citados pais de Gilgamesh: a deusa Ninsun e o rei divino Lugalbanda.
Mas não parou por aí. Aparecem pistas nos relatos dos homens do exército de Napoleão que invadiram o Egito e nas listas de condenados à guilhotina durante o período de terror da Revolução Francesa, assim como entre as mulheres julgadas como bruxas pela Inquisição espanhola. Ainda na Espanha, surgem relatos de um Lugal entre os combatentes da Guerra Civil, do mesmo modo que entre os soldados soviéticos que tomaram Berlim no colapso da II Guerra Mundial. Há uma Nin na redação do Pravda durante a Revolução Russa e surge uma foto dela em uma reportagem da Vogue tirada na Inglaterra há 40 anos. Voltando a comparar com o O código da Vinci, até mesmo uma pintura antiga fornece pistas da existência real daqueles misteriosos seres que, a depender da inspiração poética de quem os descreve, têm a pele de um "amarelo solar", "amarelo mostarda", "cor de uísque", "matiz ambarino", "anêmica", "cor de mijo" ou de "gema de ovo frito".
Depois de praticamente um ano, contrariando os diagnósticos em relação à sua expectativa de vida, a doutoranda resolve deixar a especulação teórica de lado e parte para a pesquisa de campo. Sua empreitada a leva até à Escócia para tentar ao menos provar a veracidade de parte dos seus achados. Enquanto isso, alheia ao interesse acadêmico que lhe envolve, a outra metade da trama se desenrola em um cenário bem mais conhecido dos brasileiros: a cidade do Rio de Janeiro. Por lá, o ritmo da história é outro, substituindo neurônios europeus por adrenalina das Américas. Chovem bala e sangue numa mistura de corrupção política com violência dos morros cariocas. Mas o tratamento dispensado à narrativa também é diferente, Mallmann substituiu o realismo com que tratou o ambiente acadêmico francês por um tom mais de fábula mesmo, como sugere o subtítulo. Por isso, não é o caso de se esperar uma descrição cruenta da realidade urbana nos moldes de um "Feliz ano novo" de Rubem Fonseca; seria mais adequado comparar o lado brasileiro da história com algum roteiro de Quentin Tarantino, algo como um Amor à queima roupa carnavalizado. Isso ajudou a deixar o texto ameno e bem-humorado, mas também acabou abrindo portas para alguns personagens mais rasos, quase caricatos. Talvez Zigurate tivesse a ganhar com a ausência de alguns deles.
Analisando o livro como um todo, em poucas páginas, com um ritmo alucinante e a urgência de um moribundo que se agarra à sua última chance de salvação, Mallmann produz um apaixonante tour pela História, da mais remota antiguidade aos dias atuais. Serve como prova de que a ficção científica pode usar como tema de extrapolação todas as formas de conhecimento organizado, como a antropologia e a filologia, e não apenas ciências exatas - apesar de, quase ao final das 223 páginas da obra, surgir uma muito interessante possibilidade envolvendo física teórica avançada. O grau de detalhismo e a veracidade com que o autor constrói o cenário e seus protagonistas tornam quase irresistível ao leitor algumas pesquisas pelas inúmeras referências textuais. A cada resposta do Google, este novo oráculo onisciente e onipresente, mais impressionante se demonstra a costura do texto e a erudição pop do escritor. Aguça a curiosidade e deixa no ar a pergunta: o que mais poderia ser feito se algumas lacunas fossem preenchidas? Ao fim, Zigurate - Uma fábula babélica não é apenas uma recriação em vários níveis da saga de Gilgamesh pela busca da existência eterna. O livro também é uma apaixonada e muito bem engendrada homenagem à palavra escrita, com as diferentes tecnologias que, ao longo dos tempos, lhe garantiram a existência e, de quebra, também fizeram com que a história e a cultura se tornassem possíveis. Não importando se tais tecnologias sejam laptops, endereços eletrônicos, o lápis ou tábuas de argila gravadas com caracteres cuneiformes.
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